sexta-feira, 8 de novembro de 2019

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA


 

É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser.
O nome que damos as coisas também tem nome,
é o tal substantivo. Substantivo não é verbo,
verbo é a ação do sujeito que é outra categoria de coisa
e tanto pode ter nome próprio com letra maiúscula
ou ficar na invisibilidade oculto por não se sabe quanto tempo.
Um poeta disse que o nome das coisas não são as coisas,
sei desde menino que as palavras têm o poder de fixar na memória as sensações que experimentávamos no momento que as ouvíamos pela primeira vez e aceitávamos como realidade o que elas representavam.
Que fique bem claro pra quem não é especialista:
linguagem é representação e cada um de nós é acúmulo de linguagens porque somos coisa nomeada, que se representa e é representada.
Gente é coisa tornada insignificante
embora os significados ocultos façam diferença.
Difícil mesmo é extrair quem somos de tudo que inventamos.
Quando digo 'sou ele' se me perguntam quem sou, basta dizer neblina e a sensação de reviver o que está no passado volta refazendo sentidos, mudando o que penso de mim e descobrindo na densidade branca opaca de NEBLINA outro eu que dormia.
Franca amanheceu nublada, sinto que sou por um momento habitante de um wigwam cantado por Dylan.
Na boca do Rosa, Riobaldo lamenta feliz que "Diadorim deixou de ser nome.” - parafraseando o mestre, a palavra neblina virou sentimento meu: hoje meu canto é lamento úmido.
Até que o sol aqueça meu quintal, a dor no meu peito tem nome e sobrenome, SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA fará de mim eu compacto e descontínuo, sujeito tão opaco e triste quanto a canção de Bob Dylan na tessitura do tempo entrecortado substantivo.
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Baltazar Gonçalves

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

3 poemas do livro TECIDO NA PAPELARIA


Texto originalmente destinado a Maria Isabel Geraldo - ALGUNS COMENTÁRIOS SPOILERS DESEJANDO BOA LEITURA
Minha querida leitora amiga, seu exemplar do TECIDO NA PAPELARIA está a caminho de Floreal... Eu conheço bem a estrada que o livro percorrerá: depois de Barretos as serras que guardam Franca ficam para trás e o percurso se abre em larga planície pontuada de nomes que ainda moram em mim - Rio Preto, Sebastianópolis, Roseiral, Parisi, Cardoso, Valentim Gentil, Fernandópolis, Mira Estrela, Santa Fé – Morei em Votuporanga 8 anos e guardo as brisas suaves como poema-relicário que revisito como se fosse leitura saborosa da última página de 100 anos de solidão.
No meu livro você encontrará 3 poemas que versam sobre minha cidade natal, são eles:
TOMARA FRANCA MACONDO SEJA pg. 58 – trata-se de um poema de inspiração árcade que repudia as coisas inúteis valorizando o contato com a natureza; embora o tema almeje retratar-se como símbolo de felicidade o eu-lírico só encontra harmonia num possível apocalipse anunciado.
CASTELO SITIADO pg. 110 – são muitos os cercos, nenhuma saída à vista. No poema estão sitiados a pátria mais armada que amada, a cidade do poeta e o poeta das cidades – só a língua nos pontuando traz livramento. É o poema “dos nomes próprios”, as referências a autores, obras, personagens e suas cidades sitiadas reforçam o isolamento e a invisibilidade de onde só a Língua pode nos resgatar.
MONUMENTO pg 74 – nesse poema a voz de um noviço celibata dialoga com um Bilac onipresente, isolado por vontade própria e em busca da solidão hesicasta, o moço “brinda sua fé com água benta quando a ÚLTIMA FLOR DÁ mais um LAÇO de corpo translúcido desdobrando-se no inesperado”. É um poema de amor, sim! E, ao contrário dos 2 primeiros (a ordem no livro segue o número das páginas), o jogo das palavras aproxima os milênios que separam Homero da minha aldeia. Aqui Franca não está sitiada apesar de encravada entre colinas - minha amada desliza para minha cama, líquida como os 3 córregos que a desenharam desde muito antes.
Isabel, espero que você teça belos vestidos com os poemas do livro e que sua alma esteja sempre pronta bailar lindamente dentro e fora da 'papelaria'.

Um grande abraço do seu amigo Baltazar Gonçalves

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Meu livro continua À venda no site da Editora Penalux - com Tonho França e Wilson Gorj. Tenho alguns exemplares comigo, quem se interessar pode chamar in box ou no whatsapp (16) 99378-1849


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

CANETA AZUL, AZUL CANETA X TECIDO NA PAPELARIA


"CANETA AZUL, AZUL CANETA" - a pergunta que sempre fiz é: será que tudo deve ser projetado para os mais preguiçosos e com menos bom gosto?

Essa também é a pergunta que alguns diretores de cinema estão fazendo para questionar a nova ferramenta da Netflix, ainda em teste, que possibilita diminuir ou acelerar a velocidade de exibição dos filmes.

Eu vivo imerso em Música, sou apaixonado por Cinema e amo a Literatura. Acontece que antes de ser "canção de sucesso" ou "filme daHora" a história contada foi texto: qualquer produto áudio-visual é fruto do trabalho de quem sentou para escrever imagens usando as tecnologias da escrita, o poder da palavra.

O melhor exemplo do que digo é fácil de ser imaginado porque está no inconsciente coletivo da civilização: "No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz." - (Gênesis 1:1-3).

Quanto ao meu trabalho com a palavra sempre repito com segurança: não escrevo para crianças que serão adultos, eu escrevo para o adulto que se esqueceu de ter sido criança.

O meu livro TECIDO NA PAPELARIA é um projeto simples, mas é ambicioso, trata-se de um passeio pelo bosque da ficção - o extenso jardim Literatura.

Na primeira estante da PAPELARIA o leitor encontrará retalhos de TECIDO que são aforismos, textos breves que podem enunciar tanto uma regra, um pensamento, um princípio ou uma advertência. O aforismo é um estilo de sentença que articula Literatura, Filosofia, percepções da vida, da sociedade, ou o que venha a ser objeto de pensamento realçado pela expressão da mensagem concisa em definição breve de sentença. O leitor habituado aos ditados, as máximas, ao adágio e ao provérbio encontrará ali a PASSAGEM PARA O POMAR que é o poema mais extenso do livro e fica nos fundos dessa papelaria idealizada.
Na última estante estão as fazendas que são TECIDOS confeccionados com múltiplas camadas de sentido e enredadas no tempo onde o leitor conhecerá Dona Eulália e com ela seu passeio pelo bosque da ficção chegará às margens da escrita (quase impenetrável) de Joyce no romance Ulisses.

Ambicioso? Minha vaidade eu pago.

Respondendo a pergunta do início, considero que a poesia da PAPELARIA é antídoto aos mecanismos tóxicos das mídias que nos tornam “preguiçosos”, também é ardil que introduz ao outro lado do espelho os menos avisados que por força das circunstâncias se encontrem prostrados diante da imagem distorcida pelo “sistema” como bem descreveu Platão na alegoria da caverna.

Meu livro está disponível no site da Editora Penalux e pode ser adquirido comigo, esse autor que insiste em alargar as margens da percepção porque acredita que fomos projetados para E.V.O.L.U.I.R.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Sobre O Filme Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Phillips

Gostei do filme. Mas,
antes de assustar o leitor com minhas impressões, assinemos esse contrato: a ficção é menor que a vida, ambas só cabem na cabeça pensante da gente se espelhadas de forma invertida vistas de viés.

Não é difícil concordar com José J. Veiga quando diz no romance A CASA DA SERPENTE que narra a segunda vida de Antônio Conselheiro depois do massacre em Canudos que “às vezes a pessoa pra ser boa precisa se fazer ruim” - na boca da personagem, Maquiavel citado no contexto do sertão nordestino onde a indústria da seca ainda funciona, essa fala cai bem como chuva.

Se um tirano, ou governo lacaio como o 'nosso' presidente do Brasil, unido ao capital internacional orquestrado pelo imperialismo americano decide que a ONU deve interferir mesmo que civis morram está tudo certo. Se esse mesmo governo lacaio se pronuncia dizendo que o país só terá progresso fora das vias democráticas, está tudo certo! Se falta medicação para doenças incuráveis, vacina para milhares ou escolas que funcionam para a sua comunidade – está tudo certo!! O que não pode faltar é cocaína, maconha, cachaça, clonazepam e rivotril - e está tudo certo.

Se não falta óleo para máquina opressora das individualidades tudo vai bem, se as manifestações populares insurgem é caos. Mas, se entre no bom funcionamento das engrenagens que dá aparência de coesão para a sociedade surgir um parafuso solto toda a máquina fica comprometida, e nem sempre a situação pode ser contornada sem custo para todos os agentes sociais.

O mundo sempre foi louco, mas está piorando. O estado mental das camadas sociais revelado pelo termômetro da ficção no filme Coringa sugere que basta um estopim acesso para que o edifício da sanidade social desabe.

Quem aqui se julga coerente o tempo todo e mentalmente sadio atire sua gargalhada, mas só depois de tirar a máscara. E são muitas as máscaras que usamos. Pouca gente suporta ser olhado nos olhos. Dentro de cada um de nós a insanidade está latente, cuidar das emoções equilibrando a resposta que damos aos eventos está cada dia mais improvável. Quem ainda não sentiu o “sangue no olho” deve estar hipnotizado ou confortavelmente drogado - se não por substâncias planejadas para esse fim será ao menos pela enxurrada de desinformação das redes sociais.

Cada um de nós representa bem seu papel de palhaço e está tudo bem...

Se faltar água pro banho ou comida na mesa, isso não é comigo. Se meu vizinho saiu da escola e está vendendo droga na esquina é porque ele sempre foi bandido. Depois, se ele passar de vendedor para usuário e morrer por não pagar dívida a razão se prova – era bandido desde o berço. Mas se esse ex-aluno agora traficante financia campanhas para um certo deputado, tudo bem! se na treta entre o esquema do político e a fome da comunidade morrer uma vereadora negra e gay e ninguém souber contar a história a gente vai pro cinema...

... e no cinema ganhamos de presente a carnificina realista que nos causa a catarse necessária: alguém ultrapassou o limite da sanidade e matou a queima roupa o apresentador do Talk show de variedade engraçadas sem graça.

Nada está bem, nosso esforço é sobre-humano.

A civilização é construída sobre pilares altíssimos e de tempos em tempos rui, vira entulho para reconstrução. Um terremoto, um tsunami, o lento degelo polar, a última declaração do presidente fascista e boçal do Brasil que sonha o delírio de ser currado por Donald Trump - a graça sem graça é nossa desgraça.

Não há beleza nem feiura no caos – o caos simplesmente é. E porque somos impotentes perante o caos esperamos por ele o tempo todo fazendo cara de paisagem.

Quando o desajustado mestre de cerimônia no palco dessa loucura desestabiliza a falsa harmonia mascarada e tira nosso sorriso de plástico da cara, nos atira contra a realidade e a vida revelando o desiquilíbrio das forças que nos sustentam e sugam onde, bêbados, nos equilibramos um dia de cada vez todos os dias – zumbis que perambulam pelos bulevares dos shoppings.

Há muito que dizer, mas depois eu contA. Nosso tempo é de esquizofrenia social, cada um de nós é sujeito discordando da própria ação na mesma frase sem perceber a dicotomia.

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Baltazar Gonçalves

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

PORQUE DEPOIS EU CONTA?

DEPOIS EU CONTA?

Sempre que me perguntam porque "depois" ou porque "eu conta" respondo a mesma coisa de um jeito diferente.

Depois eu contA é meu mapa e meu guia, Depois eu contA é o meu projeto literário visto do fim para o começo. É uma luneta apontada para o passado e uma agulha fincada na carne do presente desconcertante.

Depois eu contA é meu futuro do pretérito.
Um furo no tempo, é meu Aleph de Borges.

Depois eu contA é provocação e convite à leitura atenta.
Em Depois eu contA estamos eu e você, ele e ela.
Depois eu contA é um elo, enlaça quem lê e quem escreve.

Parece erro de concordância mas é preciso ler o que falta, trata-se de Poesia - a rima perfeita deveria ser o lapso que dá ritmo ao que parecia ausência.

A expressão Depois eu ContA imita a concentração máxima, reúne o disperso, é uma contradição viva.

Depois eu contA sintetiza a fragmentação do sujeito que nesse tempo de absoluta banalização padece de uma esquizofrenia dilacerante provocada principalmente pelo excesso de informação que cega, confunde, dicotomiza ou separa o sujeito da ação.

Depois eu contA congrega pessoas e tempos sob as asas da palavra – asas da Poesia.

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Baltazar Gonçalves 

terça-feira, 1 de outubro de 2019

OUVI DIZER QUE NA CASA DO MEU PAI


Ouvi dizer que na casa do meu pai

há inúmeras moradas construídas.

Estendendo os braços desse tanto

meu pai fez tudo parecer pequeno.



Meu pai nomeou para os incômodos

um mapa simples do peregrino aflito.

Abaixo de mim tudo é leitura,

os homens fazem meu nome.



Nas casas que preparei

vivo dentro e vivo fora;

sou quem é não sendo,

sou sem nunca ter sido.



Meu pai apontou para o orbe (isso que se vê

olhando paro céu, a mais alta esfera inventada,

teto do inculto e do letrado) e disse: é a Literatura!

Ele disse que no corpo dessa invenção

colocou um discreto coração ardiloso

que

os geógrafos chamam de lugar sagrado,

os filósofos chamam de iluminação,

os economistas de perda de tempo

e os mais sensíveis de Poesia.



Os peregrinos que somos todos

usam o mapa simples do aflito

por andam até chegar seu fim,

é quando

os geógrafos defendem o lugar sagrado,

os filósofos retiram véus e ardem na luz,

os economistas acumulam peso e param

e aqueles que escutam no silêncio a voz

ventilam cômodos nas moradas já criadas.

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Baltazar Gonçalves


SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...