EVANGELHO COMENTADO



Amai-vos, uns aos outros.

João cap.15, VS.12


Um caso de vírgula bem colocada. Não sou clérigo, sou leitor.  Nessa passagem do evangelho onde ouvimos Jesus dizer “o meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros” o que nos é dado a conhecer como verdade é um conselho.
Um conselho para se viver com mais qualidade de espírito. Ame! mas, sem distinção pois que trata-se de amar apesar da distância, do gênero, da língua e da origem social... uns aos outros. Visto dessa forma, talvez anárquica, a ordem a que se aspira não é conjugada, controversa, nem difusa. Ao contrário unifica e dá forma ao que é perene e que vem recebendo o nome de natureza humana. Amar assim leva quem ama a lugares antes inimagináveis. Os hospitais, favelas, presídios, a amigos a tempo esquecidos, ruas consideradas impróprias, e também à boca de quem se ama.
Assim o que era estreito e apertado se alarga, a vida passa a ser um grande parque habitado pelo semelhante, aquele que parece comigo mas, é diferente de mim.
Nas palavras de Jesus, O mestre, um final bem escrito depois da vírgula: “assim como eu vos amei”.




“E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.”
Mateus 15:27


Começo esse EVANGELHO COMENTADO de forma inesperada. Recortei de uma frase dita pra mim por um amigo “e em cada migalha dormida do seu pão sacio minha fome...” e, continuo. O que bastaria a ele para que não mais sentisse fome? Bem, enquanto existirmos na carne nada mudará isso mas, aqui não se trata de “cachorrinhos, migalhas de pão e mesa” . Aquela mulher se comunicou com Cristo no mesmo nível em que ele se comunicava com a multidão. Sábia, ela. Ouvia escondido as palavras do mestre pois, por razões discriminatórias de raça, classe e gênero (era fêmea entre machos). Numa Galileia só lembrada por Deus sua presença entre os discípulos e ouvintes não era permitida.
As narrativas de Jesus, que alcançavam multidões, eram bem sucedidas por serem compreendidas com facilidade. Parábola com figuras comparadas à realidade local, ele fala de Jerusalém, mas podia ser de Roma, de Antioquia, de Éfeso, da Galícia, de uma cidade perdida no extremo oriente ou mesmo Brasília, enfim!



O BOM COMBATE 

Segunda carta de Paulo a Timóteo
cap. 4 vs 6

Para nós que a carreira foi vislumbrada a pouco e nos damos conta do longo percurso qua a vista alcança, as palavras de Paulo orientam: se vale a pena lutar, que seja o bom combate!
Não se trata de um confronto, uma luta, um combate. O artigo definido “O” esclarece bem a idéia que o seguidor do Cristo tem de “combate”: o esforço diário por uma conduta moral que possa ser julgada, apreciada e copiada pelo semelhante. Por aqueles que, como toda gente incluída na condição de ser humano, sofre e pena na busca cotidiana de praticar o bem. 
Dos olhos de Saulo, que era seu nome antes da conversão, penderam duas lâminas como se fossem duas placas de estanho e a verdade escorreu em lágrimas diante da voz que o repreendia, à caminho de Damasco. De perseguidor dos cristãos passara a ser perseguido e, aqui, o vemos declarar que está pressentindo sua morte.
Mesmo diante da certeza do fim da carne, sem medo e com uma firmeza de caráter que faz sombra para a maioria de nós, acrescenta: guardei a fé! Para que soubéssemos que isso é o que importa quando se chega onde a estrada possa nos levar... ter uma palavra com a qual se possa despedir e indicar o caminho.


 Jesus fala, Pedro ouve
João 21,1-19

Sou cristão e não gosto de fazer disso propaganda mas, resolvi comentar a meu modo passagens do evangelho e postar aqui. A metodologia para a escolha do primeiro tema foi bem simples diante de tão vastas possibilidades. Pedi pra minha mãe dizer qual passagem ela mais gostava. Ouvi um “viche, uma passagem só?” Ela não deu conta e indicou duas. Vou comentar a primeira e guardar a segunda como criança que esconde balas pra depois.“ Em verdade te digo quando era mais moço cingias-te e andavas aonde queria mas, quando fores velho, estenderas as tuas mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres. ”A mão invisível que às vezes parece nos desviar do caminho que nos propomos nem sempre acaricia, muitas vezes nem afaga, é dura até no contato mais carinhoso. E não são poucas as vezes que da nossa boca algumas palavras saem para depois nos causar o trabalho do arrependimento. Assim parece ao jovem impetuoso, adolescente que responde aos apelos de toda publicidade que age como se numa indústria pornográfica, oferecendo as mais amplas possibilidades à realização do desejo. E o tempo, maior que a vida e irmão do verbo desde sempre, verga a linha fina que nos separa da verdade mais crua, da palavra mais simples e da mão estendida. É preciso que a poeira da estrada calcine o calcanhar para que o homem, já maduro, faça ao próximo àquilo que – se um dia vier a necessitá-lo – façam por ele. É isso, também!



Deixe que os mortos enterrem seus mortos

  LUCAS
cap. IX, vs 59 e 60


Como poderia uma pessoa já morta preparar o funeral de outro? Sabemos que dá trabalho, tem seu custo e sempre somos pegos de surpresa. Ninguém fica esperando que chegue sua vez de assumir a responsabilidade de levar o esquife. Mas o sentido da oração é figurado como de resto as lições de Jesus nas parábolas que contava. A recomendação é feita para uma pessoa que se desculpava de não poder seguir o mestre pois tinha algo “mais” importante para fazer: enterrar seu primo falecido. De certo que caberia como luva em outra situação mas, sabiamente, o Mestre aproveitando a oportunidade teceu o comentário. Mortos? Quem está vivo entre nós de fato? Aqueles que pagam os impostos em dia e fazem compras com seu cartão de crédito? Aquele dedicado aluno que faz a tarefa de casa repetida pelo professor? O motorista eficiente que não se esquece de buzinar antes de passar o sinal amarelo? A mãe que põe a mesa toda noite e alimenta sua prole? O patrão honesto que distribui cesta básica com vinho no natal?
Poderíamos investigar mais fundo nossa alma e a resposta seria insatisfação. O Mestre certamente se referia a uma vida cujo valor não se mede pelo sucesso material que venhamos atingir ou pela quantidade de ações que nosso corpo seria capaz de executar. Exatamente porque agindo assim parecemos vivos repetindo apenas o já vivido. Pessoas que parecem viver, mas já estão mortas, ou ainda, não nasceram. Fazem compras, movimentam economias, leem seu jornal pela manhã.
Então, o que traria esse sentido maior para a experiência de estar vivo?
Desconfio que seja a intensidade com que se penetra na vida, desconfiando da primeira impressão e optando pelo caminho da diversidade. Sendo plural e inteiro em cada momento e em tudo que se faz.



Hoje veio a salvação a esta casa.
Lucas cap.19


Ficus sycomorus é um tipo de figueira. Em hebraico shikmah e em grego sukomorea. Sicômoro se preferir em português cujo significado, de acordo com o dicionário Aurélio, é o mesmo que falso-plátano, isto é, uma árvore grande, ornamental, da família das aceráceas , originária da Europa, dotada de flores com propriedades melíferas, dispostas em cachos compridos, pedunculados, racemosos e vilosos com várias sementes revestidas de arilo e cujo fruto é a sâmara dupla (que é diferente de um figo, este também podendo ser chamado de sicônio e talvez daí surja a confusão entre um sicômoro e o figo). Pois é numa árvore dessas que Zaqueu subiu para ter uma visão do Mestre. Inteligente, esperto e rico como um bom judeu, Zaqueu teve uma visão privilegiada da situação. Antes não via aquele que era notícia por onde passava e agora o via do alto numa perspectiva única impossível para quem estava no chão. Isso se deu em Jericó, aquela cidadela fortificada que teve seus muros derrubados pelo som das trombetas de Josué. Para surpresa de todos Jesus se alegrou com essa atitude e se fez convidado para hospedagem, irritando a todos que se julgavam merecedores  por serem, talvez, pobres. E aqui uma confusão se esclarece: o médico está para o doente assim como o Cristo para quem está perdido, independente de classe, gênero, cor, e mais. Jesus antecipara na atitude de Zaqueu, de o procurar a pesar dos riscos, um coração generoso, piedoso e sedento. Mais uma vez me pego pensando no tamanho dos meus dos seus sonhos e na coragem para realizá-los. Pensando nas perspectivas que se pode ter quando nós ousamos olhar para frente de um outro ponto de vista,  e por um instante ínfimo meu espírito alça um voo tão alto como o de Ícaro e sobe o mas alto possível para ver descortinar no horizonte a visão da primavera que se anuncia.







Alguém me tocou

Marcos 5, 21-43


Cada um de nós vive seus dias na esperança de poder encontrar alguém com quem possa compartilhar sua dor. Não é exagero dizer que todo ser humano sofre, essa é a base do budismo inclusive, aceitar que "tudo é dor e que a dor vem do desejo de não sentirmos dor" - repete o refrão escrito por Renato Russo. Vida longa, vida breve... não importa o quanto se vive, sempre haverá a esperança e o desejo de ser aliviado. Nessa passagem do evangelho uma mulher toca nas vestes de Jesus timidamente mas com a força de quem espera a cura do seu mal, em meio à multidão, e certamente proibida de se aproximar por ser mulher e doente "de sangue" (sofria de hemorragia). Acontece o milagre que só ela percebe. Mas espere um momento: ALGUÉM ME TOCOU! Alerta o Messias, QUEM? Jesus percebe que dele saiu virtude, que alguém havia se beneficiado com o poder de sua candura de espírito e faz desse momento uma lição para todos que o cercavam pois que, todos aqueles que o cercavam já haviam tocado nele mas apenas uma acreditou ser ele capaz de lhe trazer alívio para o corpo e esperança para a alma. 


A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...