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OXYDRAGA



OXYDRAGA
Mãe adúltera, amante de todos os pecadores









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Uma novela de Otávio Boaventura





“Uma verdade esquecida é um mundo inventado; sabem os antigos da propriedade que tem o espírito de viajar na luz – e nisso se dá o acontecimento. Porém os sentidos nasceram só agora, e já estão mortos.”

Do livro dos tormentos






PARTE UM


A obra criada se perdeu mas, indeciso e determinado, o criador que amara e tal forma o que se fez, deu à si a missão de resgatá-la e partiu de seu reino encantado rumo a terra onde supunha ter estado à deriva sua criação.  Ali o temos, Otávio, a pedir mais uma dose antes de tomar a decisão de regressar para casa e tomar seu texto por escrever. Discreto passa despercebido na multidão alheia e tragada pela massa de afazeres, pelos compromissos inadiáveis e fúteis. Adia o retorno porque tem compromisso consigo de retomar a escrita do romance que não sai do primeiro capítulo. A editora já insinuou quebrar o contrato assinado ainda ano passado quando o conto Oxydraga fora lançado e vendeu mais que a expectativa.  O que o espera, bem sabe, é um amontoado de rascunhos, papeis avulsos e desordenados e alguns personagens que exigem sua presença, pedem constância do ato de escrever para que possam respirar outra vez.
(Otávio sabe que o que vir a ser escrito virá sem que ele tome tento, tem vida a palavra. E quando escrita, alinhada em orações e pontos, revela quantas partes do corpo foram mutiladas e transferidas para o texto.)
Essa imagem, como de resto toda representação visual da realidade imposta aos nossos sentidos, demanda sobreposição imediata dado que não daremos conta, e nunca, do que se perdeu no caminho de Otávio até aqui.
Uma dose, Otávio pede sem ter que explicar quantas beberia. A rua ainda está molhada e das árvores plantadas na calçada outra chuva amarra seus passos. Não demora e começa a correr, um quarteirão e já decide parar de fumar. Podemos vê-lo parado diante do portão porque chegamos aqui antes dele, fizemos como o Lobo que engabelou Chapeuzinho quando disse tome aquele caminho sabendo que esse era mais curto.  Vem decidido, ansioso. Se não der voz aos personagens que criara chegará à loucura de falar por eles. Otávio desiste, Uma dose. Uma dose, uma palavra.
Seguimo-lo até o portão, à porta, ao quarto, cômoda e gaveta.  (Que merda é essa?) Otávio decide dormir e não escreve nada.  O ângulo reto desenhado pela porta em relação às linhas do guarda roupas está distorcido, o ponto de fuga se perde levemente embriagado. Nos papéis espalhados vislumbra ainda antes de se perder no sono olhos que o miram, questionam e imploram com ares de vingança: escreva-me ou te devoro! hálito esferográfico, tentativas inúteis e férteis. Emudecido sob o peso que sua consciência insiste em baixar cai entorpecido na cama em desalinho. Escreva Otávio a elegia dos dissabores e terá o romance que pretende justificar o tempo perdido.


No ventre da mais casta virgem o repulsivo espectro, repelido pela força da luz no ato mesmo da criação dos mundos, fez sua casa. Demarcou território onde teceria com fios negros trama ardilosa. Como seus olhos o espectro tem negros pelos e dentes, negros como a noite insone. E isso se deu quando virgem ainda era por estar no ventre de sua mãe, mulher que nunca amara um homem sequer. No parto revelou-se assassina e sua mãe a primeira vítima. Adotada por uma instituição do Estado partilhou dor e medo todos os dias em que ali esteve até ser adotada por uma família do interior. Pré-adolescente fez de seu pai adotivo um brinquedo, embriagou e seduziu o homem que, desprezado por todos se matou na cadeia. Ainda naquela noite subiu até o quarto chorando para dormir com sua mãe, obedeceu quando ela pediu que trouxesse água, mas ofereceu suco de laranja com uma dose de veneno. De volta ao orfanato permaneceu uma semana e simulou a própria morte, e ninguém mais teve notícias suas. Até que numa noite tranquila de sono inquieto e nuvens sombrias espalhadas sobre as casas acontece de uma criança caminhar entre os jardins que se tornam cada vez mais distantes. A criança caminha em direção a uma caverna incrustada na pedreira, é um fosso seu interior e dizem que não tem fim o abismo. O menino, que é isso o que é, segue uma voz que o chama. É Oxydraga que o aguarda logo na entrada. Sem que déssemos pela ausência a maldade fez a casa em nosso quintal. Um grito abafado não pode ser ouvido, e segue a manhã. Mais uma vítima, não há motivos para duvidar da inocência de uma criança, Ela é uma aranha.


Aí está o que deixa Otávio preferindo a morte a escrever o que tem nas ideias, quando escreve não consegue dizer o que sente ou o que tinha pensado. O que deve escrever é como a melhor amiga de sua companheira se infiltrou na história de amor que se escrevia ao longo dos anos, de como se aproveitou da ausência dos corpos e da anestesia dos sentidos e declarou, como se soubesse de uma verdade oculta, que tudo entre eles já havia acabado, e definitivamente, à maneira de quem corrige e proclama: Isso é um desfecho! E com um rasgo no rosto que nem é riso avisa que desfecho é o nome daquilo que teve fim. Como se não fosse pouco coloca-se como ajudante auxiliar prometida insinuando que Otavio se envolvera com ela. Então, seria dupla a traição: da amizade entre elas e do que do amor cultivado no jardim de Otávio. Constância e Otávio se conheceram numa noite mágica, à beira mar. Dançavam, bebiam e fumavam no meio de uma multidão embriagada pelo luar. Se Otávio não conta essa história que o motiva é porque busca verossimilhança para as palavras, para que leitor algum distorça como fizera a melhor amiga de constância a história que pretende contar. Então ele mesmo o faz recriando universos e mitos próprios sobre o reino encantado que guarda em relicário, enganando os sentidos para que o tempo da exaustão se pronuncie esgotado e, enfim, não tenha mais alternativa que escrever,  Amo te Constância, e essa é nossa história. Ou versão dela, dado que a lua enfeitiça os homens desde antes de viverem nas cavernas.
Como diria Hamlet à Machado isso é um impasse, e não sabemos muito do mais. Constância acreditou em cada mentira certamente por simpatizar-se com elas, pela conveniência das circunstâncias e da distância que à época os separam. Já a amizade delas começo antes, antes  de Otávio vir a esse mundo de máscaras e carnaval. O que faz Otávio peregrino e sonâmbulo todas as noites é a certeza de que ambas tinham um pacto, guardavam segredos íntimos uma da outra. Segredos de alcova. Se deles nos dispuséssemos detalhar teríamos outra novela, desta vez ardilosamente replicada de Sade, o Marquês. A melhor amiga de Constância é mãe de rebento único, casada para dar nome ao filho que veio ao mundo numa gravidez indesejada, teve certeza que a desgraça de ser mãe mudaria sua rotina perversa de se infiltrar na vida dos homens que desejava. Ser mãe não fora escolha, uma maldição cuja responsabilidade se devia aos modos rústicos de roceiro de um certo Paulo. Fora Constância o amparo nesse momento de angústia, ela sentiu-se comovida pela criança que já estava plantada no terreno mais árido que se pode ter notícia, e tranquilizou a situação. Essa cumplicidade gerou mais afeto e nasceu quem não fora abortado. Inúmeras situações foram divididas no tempo em cresceu o menino e guardaram segredo do que fora dito aqui. A melhor amiga de constância coleciona segredos de mesma natureza de sua prima Odete que, usufruindo das informações sigilosas do Fórum de sua comarca onde trabalha, obteve informações suficientes para se aproximar seduzir e ter um caso com o Juiz, bem casado, pai de família e vizinho de Constância. Então o que temos, Otávio, é um barril de pólvora instalado na marquise do castelo de cartas assim desenhado, se cai uma carta cai coroa e reis, o que apodrecia na Dinamarca vede no interior desse país.
Porque Constância se prestaria a guardar informações se essas não fossem valiosas e conferissem valor a seu silêncio? É sabido que inocência é um estado que nem as crianças conhecem. Como saber se não se deliciavam as duas barganhando narrativas de aventuras amorosas extraconjugais? Essa possibilidade tem a sua frente o escritor que não escreve mais, trás suas personagens amordaçadas, espalhadas em quaisquer pedaços de papel que encontre. É preciso ajuda de terceiros nesses casos que parecem insolúveis, e por isso vai Otávio buscar a sabedoria das cartas de tarô na quinta feira. Se a cigana confirmar a suspeita de que a cada confidência da melhor amiga Constância segredava uma traição sua Otávio perderá o Juízo de vez e não sabemos o que pode acontecer. Sorte nossa que essa novela pretende alcançar vasto público e para tanto deve ter final feliz. Adiantemos à narrativa ou retomemos a fábula, pois que até quinta faltam três dias e Otávio se meteu a escrever como louco.
(Falta nos originais de Cervantes uma batalha do Cavaleiro da Triste Figura...  Quixote VS Oxydraga)
Os gregos inventaram Baco para justificar festins regados de orgia, os romanos reinventaram o costume e Dionísio atravessou Ásia, África e América. Nossos dias é um tempo de concorrência globalizada e se faz necessário aos homens que detém o poder sobre os domínios acirrar os métodos de conquista. E porque nunca tivemos a perfeita combinação da química com a filosofia em toda a história num pequeno laboratório inventou-se a droga que paralisaria qualquer consciência, de qualquer cultura, em qualquer parte do planeta. Depois de testada na América central, noticiada nos programas de auditório do Congo, desprezada no Kremlin e abominada em retória eclesiástica no jornal do Vaticano moradores de uma favela do Rio de Janeiro batizaram a substância de Oxydraga. A nova droga, o vinho antigo, misturada em pastas de tinta é distribuída em cilindros que imprimem uma figura para ser colecionada em álbum. Imagens em três dimensões hipnóticas cujos pigmentos, se ingeridos, condicionam as pessoas transformando as em zumbis consumidores. O álbum nunca se completa por faltar sempre uma representação a ser buscada até à morte, o consumo eclodiu. Oxydraga é branca e magra, o desenho de seu corpo em “s” lembraria uma serpente, no entanto se trata de uma aranha. Bicho peçonhento e limpo que não levantaria suspeitas nos jardins da infância.  Nesse moinho assolado por ventos fortes o mecanismo da derrota espera Quixote para o regozijo dos analfabetos em mais uma batalha contra a moral e os bons costumes desse tempo sem direção. Batalha de triste figura.
Quinta feira, 16 horas, Praça São João. Aproxima-se nosso anti-herói de um desfecho possível, estão acampados os ciganos na praça e aquela é a cigana que se negara a ler a mão do filho da melhor amiga de Constância. Na ocasião, desdenhando dos poderes sobrenaturais (no entanto de natureza humana) da cigana que se aproximou oferecendo seus serviços a mãe adúltera, amante de todos os pecadores se recusou e zombando ofereceu a mão do filho de oito anos. O gesto de recusa por parte da cigana ofereceu-lhe uma semana de reflexão. A cigana preteriu o dinheiro que ganharia a ter que selar o destino de quem ainda não desabrochara para a vida. Todos souberam desse episódio tempo depois, tempo que fora suficiente para que outra razão e outra moral fossem atribuídas ao fato. Circulou por força dos boatos que a cigana se recusara por ter percebido que o interesse da mãe do rebento estivesse no cigano companheiro seu, e não no futuro incerto. Certeza e futuro, Otávio contrata o serviço mesmo ali na praça, às quatro horas da tarde. Logo será noite e tem compromisso inadiável de ver constância. Diga-me, de onde vem a traição?
Antes de demorar o olhar na mão de Otávio a cigana desamassa o jornal que trazia embrulhando um peixe e, com cuidado de leitora atenta, avisa para uma outra que está mais afastada, Recorta e guarda que é bonito.

Quase, de Sarah Westphal

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.  É esse quase que incomoda, que entristece, que mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perderam por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver na meia estação desse outono.   Isso está estampado na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença do, Bom dia! quase sussurrados. A paixão queima, o amor enlouquece e o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para se decidir, mas não são. A virtude não é o meio termo. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. 
Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos,



chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixarei que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo me impeça de tentar. Desconfiarei do destino e acreditarei em mim. Gastarei mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.





(parte 2 - depois eu conta)



TERCEIRA PARTE


O copo está vazio sobre a mesa, Constância deve morrer. A urgência de apresentar o clímax dessa terceira e última parte desse relato não poderia ser menos imperiosa já que o efeito esperado da droga ingerida é de vinte minutos. Se havemos de colher aquilo que plantamos então Constância terá um fim silencioso, semeou e colheu, ergue-se inútil e escreve, Meu corpo ao menos servirá a vermes... Constância vai morrer como também morrerão prostitutas e bispos de todas as igrejas, universais por moda e ocasião, para ficarmos em dois exemplos extremos do que se considera, no vulgar das consciências, o santo e o profano, que entre uma coisa e outra nos encontramos. Mas o que deve nos incomodar é o fato de Constância ter escolhido o momento e o modo como chegará ao fim da sua história, às seis horas de uma manhã cuja rotina tende a ser a mesma de tantas outras. Ontem, à tarde, saiu para a cidade enfrentando as dificuldades de locomoção que lhe são peculiares, disse à mãe que sofria de dores na cabeça e voltou com o remédio, quase poderíamos dizer veneno, usado para curar males incuráveis, desses que prometem prolongar o estado de espera dos doentes terminais, agora mesmo diluiu o conteúdo das ampolas  no copo cheio até o meio de água que é absorvido pelas mucosas do estômago. Chegamos tarde para impedi-la e lamentar só nos causaria o constrangimento de não ter estado a seu lado antes, pois que, ao que chamamos alma, também se faz necessário justificativas para continuar animando algas, liquens, anfíbios, répteis, criaturas dos mais inusitados meios, conhecidos e ainda por serem, que a mais avançada tecnologia ainda é diminuta se comparada ao poder atribuído ao criador desse e de todos os mundos. Ligou a televisão e espera, assim como quem sonha, o retorno da mãe que deve encontrá-la como o Orácio encontrou Ofélia.
Hoje Constância não tomará café mesmo que na Mercearia o consiga comprar dona Verediana que acabara de sair.
Mersearia é o nome do estabelecimento que abastece os moradores do bairro. Mersearia com s de supermercado, de simples e de duradouro que, mesmo não estando grafado no verbete duradouro o simulacro permite seu reflexo e os contornos da letra na superfície da tinta podem ser percebidos. É assim que as mitologias antigas associavam à imagem da serpente à idéia de infinito e eternidade ainda que, provavelmente já soubessem, matéria alguma no universo tenha a mesma durabilidade, veja o caso de s em distinto, destino e em destituído. O nome Mersearia, é preciso justificar o erro na grafia, parece ter sido fruto de uma disputa entre o português proprietário e seu filho, fruto claro está, do capricho do velho irritado pela convicção impertinente do menino alfabetizado, Mercearia se escreve é com C. Esse é o destino de Dona Verediana que desce a ladeira para comprar o café do dia. Desce todos os dias cantando, como a podem ouvir os vizinhos que madrugam para o trabalho e os viciados que passaram a noite à procura de uma satisfação que não veio, ela sem pressa e logo de volta com a garrafa de leite numa das mãos e pães. Se o dia está claro o sol então ilumina o contorno do morro e tudo parece queimar em fogo tingido de ouro. Nesses dias vê as tumbérgias da encosta, os hibiscos nos quintais e a possibilidade de terminar a reforma da casa onde vive com a filha. Aos domingos leva cigarros para o amasiado, moeda local na penitenciária onde cumpre pena por tráfico. Vê o morro como turista, o dia ainda dorme na escuridão. Desce muda hoje mas parece rezar ladainha. Vai até a autovia que leva à cidade o fluxo de automóveis, é ali a mercearia. Hoje vai chover, o dia traz nuvens negras que dão continuidade ao que a noite escondeu de soturno. Pouco ficou redimido.
Pesando as contas, agora mesmo, arrependeu-se de ter pago a conta de luz  que ainda está dentro do prazo dado pela companhia no boleto de cobrança, Já compro do português faz tempo, ela desce e vai sem dinheiro. Sua aposentadoria já não basta e o que Constância ganha fica nas mesas de jogo.
Agora podemos ouvi-la, Meio quilo, meio quilo, fala consigo mesma e, antes de entrar, estaca de pé e fixa os olhos no fluxo de carros que alimenta a cidade. Nesse mercado que é a Mersearia de tudo se vende, é um entreposto entre os últimos bairros e a cidade que pode ser ouvida mesmo distante. Dependendo do horário que o freguês chegue, é possível comprar quase tudo, produtos nos quais impostos incidem lucros para o governo e produtos que dispensam notas fiscais por serem considerados ilegais ainda que movimentem receitas astronômicas, meninos traficam antes mesmo que aprenderem a jogar futebol, talvez chegue o dia em que governo crie estratégias para, da ilegalidade, fazer contas. Rapé, carne enlatada, papel de carta e de ceda colomi, arame farpado, brinquedos de plástico de toda cor, doces, anil, sabão em pedra e em pó, cartão telefônico, água de lavadeira, tijolos de demolição, pregos, refrigerantes e açúcar são, dos itens mais procurados, os que ficam nas prateleiras da frente. Café é um item caro se por meio quilo paga-se o dobro ao português. Antes de entrar dona Verediana da passagem a um homem que pergunta onde fica o edifício Firenze, reclama das novas tecnologias de comunicação, do tempo e diz que seu telefone celular ficou pai-de-santo, Só recebe ligações. Pode chover a qualquer momento, o português não sabe nada sobre Firenze, este prédio é o da Receita Federal que tem o teto rachando por causa das telhas que estão quebradas. Um garoto atravessa a rua ouvindo música num desses aparelhos em miniatura, vem nessa direção e traz na camiseta que usa como uniforme duas palavras unidas que se opõem no sentido e se diferem na cor, em azul a palavra vida em vermelho a palavra droga, novas perguntas: onde fica? por onde se chega? quanto tempo leva? Não sei, chegar é esquecer um pouco, Não sei. Dona Verediana parece irritada, o céu desaba enquanto o português diz um sim tingido de sarcasmo, Temos café. O funcionário da Drogavida estende para dona Verediana uma nota e diz, Constância esteve na farmácia ontem e esqueceu de assinar a nota de venda à prazo, A vida anda cara, Pior ainda é não estar vivo dona, Vivendo como ela vive sei não se é vida, Dona Verediana assina o papel já arrependida do que dissera. 

Num instante a chuva que prometia cair o dia todo para. A ventania aguarda o momento de varrer o morro. E é quando o garoto uniformizado sai do nosso campo de visão que ouvimos melhor seu timbre de voz. Preocupado com o procedimento adequado no uso do medicamento avisa, Mais que vinte gotas o remédio vira veneno, a gente sempre fala o que vem nas letras miúdas das bulas, quase ninguém lê.
Talvez Constância esteja sonhando essa cena que nos leva morro acima, talvez tenha mesmo vivido. Dona Viridiana tem uma certeza, é carne de sua carne. E essa novela chega ao fim quando ela toca a filha que  sorri de olhos fechados.








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