Ciranda em dia de festa

um conto de
Baltazar Gonçalves


        Quem julga ver do alto aos poucos nota diferença na perspectiva, é que a sombra do paredão que se estende por ali descobre as roças e a estrada recortada de mata-burros. Para perto da mesa o vôo descreve uma escala no ar, fria, vinda da janela. A tia prepara mistura de ervas, soda e anil, diz que assim a roupa fica mais clara para ir à quermesse, o que, de fato, acontece no varal agora. Numa ponta de vara Rosa equilibra o mundo e risca no chão, com força, um círculo perto das moitas de inhame, mas é da serra que os homens retornam para o almoço. Entram pela sala e dão com a notícia de que a chuva, em Belo Horizonte, deixou vítimas. A fartura ignora a fama de osso duro de roer que tem o tio e comem, enquanto buscam sentido, no chão, as palavras que sobram: Chegaram ainda noite, Vieram do Espigão, Levaram os bois pela Serra, Tinham carro esperando, Arrombaram a cerca.  Mais comida é posta. Rosa foi tocar um rebanho de dragões, faz zunir a vara que desenhara seus mundos e esquece o ermo da serra e o vazio no estômago. Nas camisas alvejadas a sombra do monjolo cria figuras disformes.
Da janela outra abelha refaz o percurso, agora no sentido inverso, e vai que, nesse estado perene, os dias passam em turnos de bentivis e os acontecimentos, a que chamamos precipitados fatos, se agrupam e cirandam. Quando mais tarde Rosa abrir os olhos o sol terá acordado toda gente que, para inventar o mundo primeiro foi preciso dormir cedo.
Da cama para o quintal, hoje é dia de festa. Tem visita na sala que acabou de chegar, o aroma do café agrega lembranças à luz que vem das frinchas de entre as telhas e o resultado aparece na fina malha, um texto em braille. Onde está o menino, Rosa pergunta e responde, Na caixa, já na conversa de gente grande é melhor não por sentido. Rosa vai brincar com o boneco que está guardado em cima do guarda-roupa, dera-lhe nome, tem cabeleira desenhada, usa sapatos e calça meias, é desses de pano e cabeça de papelão para os quais a tia preferia costurar desde sempre, pois que tem mais caída no corpo as roupas que faz, foi presente de aniversário do ano retrasado, ou de antes e conserva, se não for exagero a liberdade poética, algo distante no modo de olhar quando é retirado do caixote que lembra mais oratório que embalagem de presente. Nos braços de menina a terra é plana e pequena, o boneco parece rir dessa imagem, mas é ilusão apenas dela que imagina diálogos, falas e gestos que o animam. Rosa não ouve, porque ainda está no quarto, o choro recortado de interjeições suspensas que vem de fora, da varanda. Quando alguém liga o rádio para em seguida desligá-lo é só para sabermos que a música não fará mais que aborrecer a todos, que ninguém irá à quermesse e que os ladrões de gado não foram pegos.
A sala está vazia e o café.
O sol faz a sombra do paredão coincidir com a base, é meio dia. Na estrada a poeira ganha densidade luminosa quando outro carro desce pelo caminho que usamos para chegar até aqui. O silêncio deveria traduzir o que já é esperado, Nosso pai morreu no hospital, de tristeza dirão alguns, de avareza outros. De nós sempre haverá uma história a ser emendada.  Essa noite todos passam em vigília, O telhado parece o céu, alto e sempre escuro, O que conforta o coração, Nada, a tia explica, bonecos não sentem sono. E só então, com medo que a noite nunca acabe, Rosa adormece ouvindo Salve-rainhas.

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...