sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Sobre O Filme Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Phillips

Gostei do filme. Mas,
antes de assustar o leitor com minhas impressões, assinemos esse contrato: a ficção é menor que a vida, ambas só cabem na cabeça pensante da gente se espelhadas de forma invertida vistas de viés.

Não é difícil concordar com José J. Veiga quando diz no romance A CASA DA SERPENTE que narra a segunda vida de Antônio Conselheiro depois do massacre em Canudos que “às vezes a pessoa pra ser boa precisa se fazer ruim” - na boca da personagem, Maquiavel citado no contexto do sertão nordestino onde a indústria da seca ainda funciona, essa fala cai bem como chuva.

Se um tirano, ou governo lacaio como o 'nosso' presidente do Brasil, unido ao capital internacional orquestrado pelo imperialismo americano decide que a ONU deve interferir mesmo que civis morram está tudo certo. Se esse mesmo governo lacaio se pronuncia dizendo que o país só terá progresso fora das vias democráticas, está tudo certo! Se falta medicação para doenças incuráveis, vacina para milhares ou escolas que funcionam para a sua comunidade – está tudo certo!! O que não pode faltar é cocaína, maconha, cachaça, clonazepam e rivotril - e está tudo certo.

Se não falta óleo para máquina opressora das individualidades tudo vai bem, se as manifestações populares insurgem é caos. Mas, se entre no bom funcionamento das engrenagens que dá aparência de coesão para a sociedade surgir um parafuso solto toda a máquina fica comprometida, e nem sempre a situação pode ser contornada sem custo para todos os agentes sociais.

O mundo sempre foi louco, mas está piorando. O estado mental das camadas sociais revelado pelo termômetro da ficção no filme Coringa sugere que basta um estopim acesso para que o edifício da sanidade social desabe.

Quem aqui se julga coerente o tempo todo e mentalmente sadio atire sua gargalhada, mas só depois de tirar a máscara. E são muitas as máscaras que usamos. Pouca gente suporta ser olhado nos olhos. Dentro de cada um de nós a insanidade está latente, cuidar das emoções equilibrando a resposta que damos aos eventos está cada dia mais improvável. Quem ainda não sentiu o “sangue no olho” deve estar hipnotizado ou confortavelmente drogado - se não por substâncias planejadas para esse fim será ao menos pela enxurrada de desinformação das redes sociais.

Cada um de nós representa bem seu papel de palhaço e está tudo bem...

Se faltar água pro banho ou comida na mesa, isso não é comigo. Se meu vizinho saiu da escola e está vendendo droga na esquina é porque ele sempre foi bandido. Depois, se ele passar de vendedor para usuário e morrer por não pagar dívida a razão se prova – era bandido desde o berço. Mas se esse ex-aluno agora traficante financia campanhas para um certo deputado, tudo bem! se na treta entre o esquema do político e a fome da comunidade morrer uma vereadora negra e gay e ninguém souber contar a história a gente vai pro cinema...

... e no cinema ganhamos de presente a carnificina realista que nos causa a catarse necessária: alguém ultrapassou o limite da sanidade e matou a queima roupa o apresentador do Talk show de variedade engraçadas sem graça.

Nada está bem, nosso esforço é sobre-humano.

A civilização é construída sobre pilares altíssimos e de tempos em tempos rui, vira entulho para reconstrução. Um terremoto, um tsunami, o lento degelo polar, a última declaração do presidente fascista e boçal do Brasil que sonha o delírio de ser currado por Donald Trump - a graça sem graça é nossa desgraça.

Não há beleza nem feiura no caos – o caos simplesmente é. E porque somos impotentes perante o caos esperamos por ele o tempo todo fazendo cara de paisagem.

Quando o desajustado mestre de cerimônia no palco dessa loucura desestabiliza a falsa harmonia mascarada e tira nosso sorriso de plástico da cara, nos atira contra a realidade e a vida revelando o desiquilíbrio das forças que nos sustentam e sugam onde, bêbados, nos equilibramos um dia de cada vez todos os dias – zumbis que perambulam pelos bulevares dos shoppings.

Há muito que dizer, mas depois eu contA. Nosso tempo é de esquizofrenia social, cada um de nós é sujeito discordando da própria ação na mesma frase sem perceber a dicotomia.

*
Baltazar Gonçalves

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...