quinta-feira, 20 de junho de 2019

LEVE TOQUE DO VENTO

Penso a verdade ao menos uma vez por dia
e me esforço para esquecê-la a cada minuto,
a vida é leve toque do vento.

Isso não me deixa menos triste,
me preenche com o necessário.

Às vezes a vida me parece viagem concluída.
Exercício de caligrafia à espera de correção,
livro a ser publicado quando revisões foram feitas.

Vivendo se percebe que a obra ficará incompleta
quando lemos o já escrito a vida muda
ao mais leve toque do vento.

Tão breve quanto incerta,
o livro, a vida, o vento.

Tanto quanto posso insisto,
vamos criar de novo o novo.
Que seja pouco,
o mínimo oco necessário
ao verbo solto
no centro de um verso vazio.
*
*
Baltazar Gonçalves

COMO SURGEM AS NARRATIVAS

O escritor costureiro tece com o choro de uma criança, o olhar de um velho, o brilho das estrelas, a ausência da lua, o perfume das flores, o barulho da chuva e a até a sequidão de um sorriso o vestuário sagrado que ele chama de sua solidão.

Essas impressões se colam na retina do escritor antes e depois burilam nos tímpanos de onde escorrem sem pontuação por dentro de não se sabe onde e saem na pele por minúsculos poros depois de salgar um órgão oculto que a ciência ainda não descreveu porque fica perto, logo depois oculto mas do lado longe, onde as impressões sedimentadas formam a superfície de um lago de imagens onde nada existia como antes.

Entretelando reviravoltas, o escritor costura o coração da narrativa encoberto de texturas.

Assim as histórias são feitas, de fios invisíveis que surgem de um quase nada entrelaçado a outro quase nada menor ainda sobreposto ao que parecia demolição.

Do que veio habitar o retorcido espírito surge o que não haveria sem o mistério de minérios liquefeito.
*
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Baltazar Gonçalves

POEMA DE AMOR RIDÍCULO

Tomei emprestado o tom marinho na paleta do teu olhar
para compor um poema de amor ridículo,
teu retrato desbotado na memória.

Num instante o sentimento luzia,
noutro fugias do compromisso e a tinta das palavras escorreu sem direção.
Quase não eras mais que translúcida água parada
na cabeceira do meu poema de amor ridículo.

Agora ando em busca do teu mar,
singro clichês molhando os pés e deságuo escancarado.
Soo igualmente ridículo debaixo do tapete das metáforas puídas.
Sou metáfora distraída, luto silêncio solilóquio solidão.

Novidade é ter ainda os pés no chão.
Saudade é palavra antiga, tinge minhas mãos
enquanto escrevo
alegria não dura para conter da aurora o brilho baço no teu retrato.
*
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Baltazar Gonçalves

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...