terça-feira, 21 de maio de 2019

Impressões sobre o livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro


Os poemas do livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro são janelas e portas que dão para o interior da memória de uma casa habitada na infância e que agora, demolida, é resgatada com honestidade expondo nervos e feridas.

Um protagonista sincero, soterrado mas vivo, emerge das ruínas restaurando os vínculos afetivos de sua própria história. Em meio aos escombros, o poeta alinha os imensos espaços vazios para a criança com os muito delimitados para o adulto e assim compõe lacunas construídas com o proposito de não revelar o inteiro vivido. O abandono ganha corpo na densidade da leitura.

O íntimo do título tanto pode ser o lugar da casa onde a intimidade se revela quanto a qualidade do sujeito que narra essa mistura de memória e invenção poética para restaurar os destroços. Íntimo plurissignificativo que oscila entre substantivo e adjetivo, o lugar da ação, do fazer poético, e o lugar do sujeito que agiu ou é resgatado.   

O livro parece diário,  autobiografia do eu lírico sem a intenção de partilhar a história completa. Dá-se a impressão que o autor tinha em mente um romance e condensou as passagens de forma que as imagens vistas pelas frestas registrassem os sentimentos que oscilam entre a terna amargura e o ressentimento encoberto num conjunto coeso de peças que convidam o leitor para espiar interiores.

Embora a perspectiva seja a de revelar, pode se dizer que o conjunto de poemas contempla o que deve ficar fora do alcance, e por isso o leitor ganha espaço. Ler O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro também é um exercício de restauração que demanda dias depois da leitura, o leitor é chamado para compor o que fica de fora. Talvez seja justamente "o que falta", os intervalos, elemento fundamental em toda arte, o que agrega valor literário à obra. 

E também o diálogo possível com outras reconstruções , “voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para ‘J.A.Castro’; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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Baltazar Gonçalves



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