sábado, 27 de outubro de 2018

TÁRCIA

Olhar pra ela é como atravessar poesia
pela janela olhar assim, ensimesmado 
sabendo que o sol da primavera brilha
por traz da névoa a encobrir meio dia 

Viro a página de onde o verso escapa
antes colado ao brilho do sorriso dela;
se alcanço a magnitude dessa pessoa
a voz ativa da mulher altiva me alcança. 

Descanso no papel o verbo corresponder,
descanso do cansaço o trivial esmorecer
e me pergunto: quem é ela? 
Mas se pergunto não sei dizer.

Sei sem saber que dela emana um sol
e a pele da minha alma se reconhece 
diminuta diante do poder de Tárcia 
só comparado a um eterno alvorecer.
*
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Baltazar Gonçalves

CONFIDÊNCIAS REGULARES DE UMA GEÓGRAFA FAMINTA PARA UM MATEMÁTICO RÚSTICO E SISTEMÁTICO

Ouvi de uma amiga: quero esse cara pra irmão, quero ser mais que amiga dele, quero estar junto em toda parte com ele e ser dele a melhor anfitriã. Quero calar minha boca apressada para ouvir solene o doce sermão que ele faz quando fica nervoso e toda vez que ele me olhar de perto vou fechar os olhos só para estremecer no íntimo do meu ser e ouvir sua voz de trovão. Eu quero tremer ao toque daquelas mãos ásperas, quero sentir o terremoto, me afogar no tsunami. Quero rir da cara de bravo dele quando ele diz ser um homem simples nada modesto, erudito e rústico e sistemático. Quero rir gostoso de como ele treme de prazer. Quero pentear com minhas mãos sua juba de leão só para saber despentear depois enquanto ele lava as mãos.

Minha amiga me confessa e eu publico sem autorização. Acontece que ele é tão exato, talvez seja isso o que me excita, basta desfazer um dos laços apertados dos seus círculos que vejo desfeito seu caro matemático mundo desabando no meu colo. Eu quero meter o bedelho no cangote perfumado dele, alongar o dorso sobre a crista eriçada de cavalo indomado e com minhas unhas dedo-de-moça arranhar um mapa nas costas dele. Quero inocular a nicotina dos meus dentes e outros venenos na carne macia do pescoço dele.

Sem pudor porque já viveu o suficiente para dizer o que pensa, minha amiga sussurra pra mim seu desejo. Diz que se soubesse faria do que sente poesia e reafirma: quero ele no cio, sua alma, gemer na lama, cama é para as recatadas, quero e vou ter mais porque pouco não basta.

Eu pergunto atiçando lenha na fogueira alheia que me queima, você sabe o nome dele? Ao que ela responde: que importa com que letra se escreve um nome, se houver erro melhor será o tempo que leva a correção. E desaba nos meus braços quase chorando: eu quero o mel salgado da saliva dele e ter seus quatro cascos cavalgando minha irregular geografia.

Quando ela ler o que eu escrevi vai me chamar num aplicativo de mensagem e fingindo-se zangada vai dizer que me ama. Que era exatamente assim que queria ter dito. Eu sei que ela não me ama, é da boca pra fora que comigo ela se zanga. Ela quer mesmo é se deitar com aquele homem sem nome.
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Baltazar Gonçalves




com jeitinho de quero-quero emplumado


Quem disse "me espera" se foi por um segundo e a ausência da paz fez uma varanda abrir-se no tempo. 'Eu ficou' entre o impronunciável sem memória e o memorável desterrado, esse lugar é uma fenda onde somos eternos.

Pensei "te espero mais cem vidas se preciso for" e escrevo sentado à mesa posta na encosta do tempo nesta varanda aberta para o futuro.

Sei que não se dá um bom dia assim, feito mancha impressionista pendurada na memória, mas nossos dias me parecem ninhos cercados por espinhos. Meu desejo de rever sai cantado,
com jeitinho de quero-quero emplumado nesse ninho.

Chove sobre a calmaria; dessa varanda, fenda aberta no tempo do sonhos onde somos eternos, aceno um bom dia.
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Baltazar Gonçalves

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...