sábado, 13 de outubro de 2018

VAPOROSA FILOSOFIA

Nunca pensei que veria seca a fonte,
falta água na bica, na quinta,
no paço era abundante e já não sacia
porque nasce mirrada no alto do monte
para desaguar tímida na larga bacia.
Ancestral caminho líquido
entre vapores e rochas encandecidas
agora reza estria vagarosa
rastro ausente na areia umedecida.

Falta água, seca a fonte,
notícia triste: na troca da pele
a morte da serpente.
A falta d’água corre 
no boca-a-boca
no sermão Vieira afirma que
a secura é batismo com fogo
assim como para o espírito
a água é origem do corpo.
das lavadeiras;
A pouca água no copo é a mesma
que falta no monte
mineral na bica é sede constante.
*
*
Baltazar Gonçalves

DO LADO DE FORA


do lado de fora está o sol

fica no céu meio dia

depois a lua vigia

meio distraída

de óculos escuros

a saída

*

do lado de cá 'eu fica'

esperando a chuva

que é outro sol pra vida



A CAIXA PROIBIDA

Abri a caixa proibida, tinha memória nela que não cabia mais. O tempo das coisas é diferente do tempo que ronda os corações. Dentro da caixa havia cartas, fotografias e muitos mortos estampados em santinhos funerais. Quantos já morreram! Para os mortos, dei-lhes o meu descanso rasgando as desbotadas elegias breves escritas em papel revestido de película de plástico. As fotos arquivei porque quando olhei a primeira vez o que via era para sempre. As cartas testemunham o poder que as palavras têm de encurtar distâncias e por isso selecionei segundo o espaço que tenho no coração os remetentes: as de amor foram rasgadas como já deveriam ter sido há muito, as das minhas filhas serão digitadas numa nuvem de onde continuarão umedecer meus dias secos. Os mortos já tiveram seu destino.
O bom do tempo livre é estar pronto para a liberdade, eu crio nuvens para apascentar emoções. Agora a caixa proibida não está mais contida, a gente faz esforço desmedido para reter o passado. A caixa não é mais proibida, quase mais nada que fere ela contém. Ali dentro tem memória afetiva suficiente para eu seguir limpo. O mais era escombro e foi para o lixo.
Outro dia um menino leitor aluno tutorado meu me perguntou se não canso de ser 'guardador de livros', eu alcancei a graça dessa verdade e percebi a quantidade de caixas que nos guardam. E como também sou arremedo de cronista, escrevo esse episódio para ninguém no muro das desavenças certo de que a pouca tinta do realismo fantasia o encoberto.
*
*
Baltazar Gonçalves 

SÃO FRANCISCO MUDANÇA

Merda, como passo à limpo essa história se falta um pedaço no canto superior esquerdo da folha? O rascunho contava a história de uma mudança e a narrativa tinha foco numa imagem de São Francisco que ficaria para trás. Começar com ‘merda’ não foi bom negócio, eu devia ter escrito ‘graças a Deus’ para não espantar o leitor logo de cara. Ou dizer que trata-se de uma história de amor mas aí o contrato de verossimilhança faria do engodo desrespeito ao leitor. 

Mas ali está, São Francisco, graças a Deus! Não o santo, que por mais vidas que tenha a santidade ainda não é no meu quintal que se manifesta tamanha serenidade. Trata-se de uma mudança de casa, de cidade, e não podia ser mais caótico o movimento. 

Eu já tinha embalado os livros que restaram, já tinha doado o que não servia, já tinha perdido muito. A imagem de São Francisco em terracota estava no jardim das especiarias, na lateral da parede mais comprida da casa que ficaria apenas o suficiente na memória para compreender minha necessidade de ter vindo morar tão longe de mim. Parece história curta de alguém que não foi e voltou, ou a eternidade estampada na cara de barro do santo no jardim. Recorto o momento, mudanças numa história sem fim. 

É crueldade dizer para as crianças que as coisas não tem fim, elas sabem da morte desde pequeninhas. Eu descobri que estava vivo aos 6 anos e o assombro de saber me acordou do primeiro sonho. Se não acorda, a pessoa sonha a vida toda. Eu sinto inveja de quem nunca acorda. E porque sou uma pessoa má, sempre que posso desperto quem sonha. 

De volta ao movimento caótico do relato, a mudança se resumia agora a um breve inventário. Isso é meu, isto não me pertence. Aquilo fica, aquele vai comigo. São Francisco não podia ficar para trás. Se a imagem de barro do homem santo que sustenta na alma a verdade e o caminho ficar eu não prossigo. A quirela do desapego é sempre batalha épica. Não tivemos filhos, a separação é mais fácil. Mentira. Merda. Eu estava prestes a sair sem o santo. 

É triste precisar o imponderável. Mais nada ali me acolhia. A cidade progressista com suas ruas de tabuleiro me encarcerara. Algemas invisíveis pendiam derretidas de meus punhos. Era hora de mudar as condições para ver mudar o sujeito, segundo Marx não há outro modo menos doloroso e mais exato. Haja coragem para mudar o destino. 

Aos poucos a casa ficava vazia. Não a casa que ficava mas a casa que ia comigo. Cada coisa objeto-utensílio imóveis parecem brinquedos desmontáveis. No baú coberto da carroceria uma casa ambulante me levaria dali com São Francisco no colo. Talvez na caixa enorme, porque não pensei nisso antes, quanta coisa cabe nas caixas de papelão. Eu deixaria as portas, as janelas e o jardim. Deixaria a esperança que me trouxera tão longe. Só o medo nos leva adiante. 



Entrei pela última vez no jardim, eis o clímax discreto dessa história. Olhei com olhos de saudade. Vou deixar São Francisco como testemunha da minha passagem. Rogai por nós santa Mãe de Deus. Não devo nada que não possa pagar. Pensei ter ouvido alguém dizer não vá. Pode ter sido outro devaneio mas pareceu-me que o barro consentiu. Paciência, o Santo fica. Eu vou. 
E fui. Fui para onde não estou. Esse lugar sagrado onde não é necessário oxigênio para respirar. Sinto tê-lo feito esperar algo extraordinário na leitura. Você já devia saber que a beleza astronômica habita o singelo. 
*
*
Baltazar Gonçalves 

MAGRA LÁGRIMA

beira
mar
sem
cais
uma
magra lágrima
seca
no ar
*
*
Baltazar​

DIA DOS NAMORADOS, PRA FALAR DE AMOR

Pode parecer estranho evocar a imagem de uma casa em ruína para falar de amor no dia dos namorados. Para falar de amor toda metáfora alça v...