sábado, 18 de agosto de 2018

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena
minha cama vazia parece um barco
tudo embaixo é o silencioso
tão escuro quanto improvável
terreno movediço, um charco
mas não sinto medo
os fantasma que me espreitam
respeitosamente junto as sombras
fazem-me a melhor companhia

acendo a luz para ouvir melhor
espanto as trevas acolhedoras
e penso que não foi boa ideia,
é quando ouço no fundo da madrugada
a voz de Aretha Franklin gravada nos idos de 70

o canto é um lamento
uma pergunta sem resposta
uma faca apontada no meu peito
e a essa hora soa familiar
como arco íris em dia de chuva,
como a saudade dos dias em que caminhávamos juntos

talvez a canção tenha sido tema de um filme
mas não me lembro qual
eu já não me lembrava de nós
não lembrava da alegria
nem dos acordes que doeram em dobro

é que eu não tenho sido mais que a impressão sem cor
de uma voz gravada nos anos setenta,
vozes aveludadas veladas no fundo de uma gaveta vazia.
Aretha é presença de amplitude modulada variável
enquanto se propaga sobre o charco na proa desse barco

O som dos metais ri de mim,
o trompete, o sax
o choro rouco metido fundo na madrugada
a velar o vazio sobre a cama
eleva o mar absoluto que chega à praia
agora mal ordenada.

mas o que parece tristeza revela um conforto
nunca mais ouvi 'one more kiss, dear'
e me habituei ao tamanho contido da solidão,
acontece que eu não tenho sido de fato
e para outros fantasmas minto minha aparição

espiai fantasmas, esta é minha condição:
não tenho voz que alcance meus mortos,
onde ficou grafado aquele sonho de dançar
embriagado de quase nada a noite toda?

o sonho sucumbiu no adeus,
sucumbiu na palavra 'yesterday'
sussurrada entre os dentes
na voz negra de Aretha Franklin
o sonho ficou no mesmo sitio
em que desapareceu tua risada
debochada desconcertante
elegantemente transvestida de desdém,
a mesma risada de quando zombavas da morte
de quando zombavas da sorte
nas noites intermináveis ao som da voz de Aretha Franklin

hoje desentupo minhas veias com poesia
e sopro ao nada o que ontem foi inspiração,
o silencio improvável volta para a gaveta
e eu volto a remar o barco ancorado no charco
desse quarto imenso da minha casa vazia

se no escuro velo as impressões da sua boca na minha
são as mucosas do abismo o meu segredo,
e porque sinto muito sinto tanto, eu sinto muito
*
*
Baltazar Gonçalves

EU NÃO CANSO DE ME REPETIR

Eu não canso de me repetir, 
pareço bobo porque sou fraco. 
Parece que os homens são mesmo 
essa eterna repetição uns dos outros. 

Sei que um dia serei outro de verdade,
mas por enquanto sou esse que não resiste
ao peso do mundo
e foge na primeira nesga de luz da manhã
que pincela as delicadas pétalas da Amarílis.
Quando eu for o outro que virá,
serei forte e não serei bobo.
Eu nunca mais me repetirei porque serei inédito
como a nesga de luz da manhã que pincela
as delicadas pétalas da amarílis.
Mas então não serei este,
não serei mais nada porque serei tudo.
E tudo estará completo: tão vazio quanto o sonho,
tão limpo quanto o canto, tão leve quanto o verso.

Porque nas asas da poesia entre Amarílis
o meu corpo desfeito terá alcançado
na praia distante a eterna calmaria.
*
*
Baltazar Gonçalves 

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...