domingo, 6 de maio de 2018

ODE AO MUSGO


o musgo é meu companheiro
calados concordamos
que lado a lado vai o mal tempo
dançando colado com a bonança

o musgo meu companheiro
é paciente
seco espera pela chuva
para verdejar abundante

meu companheiro musgo
me inspira
me ensina
que devo ir devagar e sempre

se não espero aprovação
de quem passa
e pisa em mim
por descaso
devo ao aspecto rude do musgo
saber que a pressa não leva
o apressado a lugar nenhum

o musgo parece feio
no tempo da escuta
tem aspecto áspero
o musgo pode ser
tanto um tapete para a áspide
como o macio travesseiro
na manjedoura esquecida

pisado e oprimido e afligido
moído por transgressões
o musgo não abre sua boca
mesmo ferido  na cabeça
mantem bonito o rosto desfigurado

o musgo firme no seu propósito
de viver apesar de tudo
aguenta muito  
suporta a pesada pata do elefante
o insustentável pouso da borboleta
e os dentes do asno que o confunde
com a grama verde depois da chuva

o musgo e eu somos companheiros
ele me inspira resiliente
cobre a pedra igualmente muda
cobre a casca dura da árvore
e estende seu domínio a toda parte
o musgo me conforta e me silencia
‘estou na Terra desde priscas eras’
e é quando ele me diz que gosta
da vida como ela é
que minha lágrima inunda
o abismo por onde tudo passa
*
*
Baltazar Gonçalves

H2OMEM


antes de ser potável fui chuva e orvalho
ates no capim,
estive no ipê e no carvalho
escorri por aí antes de ser rio
longe movi monjolos
e pás de moinhos
antes de ser potável fui musgo
fui lamaçal em cachoeira
no fundo das grotas fui redemoinho
a fome do bagre no barranco do rincão

no longo remanso fui leito de ribeirão
sou movimento, minério ancestral
mas antes de ser potável fui salobra,
mansa deslizei lentamente
e comi nos barrancos uns bocados
de terra nas beiras do rincão
sou potável, o sonho de ser oceano
do cântaro para mãos
o suor de quem trabalha
em terra firme naufrago ao contrário
se para o céu deserto aberto evaporo
nesse azul do sem fim sou praia ensolarada
do alto, molécula a retornar para ciclo da vida
sem nunca deixar de ser no éter breve eterna.
*
*
Baltazar Gonçalves

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...