quinta-feira, 3 de maio de 2018

OSTRA NO CORAL

Eu só queria ficar assim, 
grudadinho feito ostra no coral 
e ter você só pra mim
forte, molhado, ancestral;
e eu casca dura compenetrado 
polindo o brilho
dessa pérola que lhe trago.

*
Baltazar Gonçalves 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

LUAR SEM PAR

ne me quitte pas
ne me quitte pas
ne me quitte pas
'cê vai, ocê fique
você nunca volte'
ne me quitte pas
ne me quitte pas
vai se imprecisa
segue cego cedo
mas neste sertão,
se me deixa só
tão seco, como florir?
ne me quitte pas
ne me quitte pas
meu Jacarandá
mimo mimoso
negra jabuticaba
meu ipê amarelo
meu nobre jequitibá
o 'passar de gata'
meu pássaro rosa
jasmim vermelho
doce vereda
meu pobre ensaio
sobre Guimarães
minha perdição
ne me quitte pas
ne me quitte pas
quitute de queijo
do chão de Minas
o melhor grão
ne me quitte pas
haste de Bandeira
ne me quitte pas
cover de Brel
ne me quitte pas
ne me quitte pas
meu amigo do rei
em Vila Rica
reis passam e vão
ne me quitte pas
ne me quitte pas
não vou embora
'eu fica' desolado
sem concordância
sem par e sem luar
fico sujeito sujeito
meio fora de lugar
então toma tento
ne me quitte pas

*
*
Baltazar Gonçalves 

domingo, 29 de abril de 2018

ÁGUA DOCE SOB A PONTE

para Maria Sara ~~~~~~~~
*
Você me diz que envelheceu
que ontem mesmo não tinha esse rosto
e nele o semblante cansado 
você me diz que entristeceu
que as marcas do tempo na sua pele 
em vão pedem bom restauro
diz que se a vida fosse um bom livro 
você já tinha escrito 
mais do que desejava ter lido

quando você me diz essas coisas
me faz rir,
debocha da vida e me faz rir
escracha o verbo numa falha idiomática 
e saltamos os paradoxos juntos

em meio ao riso desconcertante 
(aquele tipo de humor que assusta 
quem espia porque ampara sem lógica)
concordamos ser eu Atlas 
com pesado monumento aos ombros
e você água doce sob o arco da ponte

de ouvir, eu que só ressentia 
de novo sinto 
e a amargura dissipa-se
como a sombra de uma nuvem 
que sobre o rio encobria a ponte
e então eu rio, eu rio, rio

quando me faz rir assim 
de mim e de toda gente
vejo as marcas no meu corpo 
se confundirem com as do meu caráter
e relembramos um ao outro
que águas passadas 
não movem os moinhos tristes
e voltamos a rir 
pois que a Capela Sistina anda igualmente 
necessitada de reparos 
e nem por isso deixa de ser visitada
por tantos e ávidos e puídos de serem 
sob a pele e longe das pontes
obras de arte perdidas para o tempo.
*
*
Baltazar Gonçalves


AMABILÍSSIMO

onde está o próximo, o distante onde fica? a cabeça oca e o coração no cio de toda gente estão vazios. finjo fugir da forma ana...