sábado, 10 de março de 2018

POR QUÊ "DEPOIS EU CONTA"?


DEPOIS EU CONTA é uma provocação e também convite à leitura mais atenta. De forma concisa, ali estão eu e você, quem escreve e quem lê.
À primeira leitura parece erro de concordância (eu conto/ele conta); mas é preciso ler o que falta pois trata-se de POESIA. 

A expressão ‘Depois eu contA' é uma silepse de pessoa, uma figura de linguagem que deve causar primeiro a estranheza de se observar a 1ª e a 3ª pessoa na mesma oração. Com o propósito de deslocar quem lê para ambas as situações, a de leitor e a de quem escreve. Da leitura do que por aqui se lê espera-se alguma epifania; da estranheza, que o verbo entranhe. 

A expressão ‘Depois eu ContA’ também sintetiza a fragmentação do sujeito que, nesse tempo de absoluta banalização, padece da esquizofrenia dilacerante provocada principalmente pelas mídias. 

A expressão ‘Depois eu ContA’ reserva na escrita um futuro para a leitura - para o depois, a ressonância da palavra lida - e na criação do agora, a participação no lido. 
Colocando a ação em ambas as mãos, a do eu-lírico e a do leitor num coro de vozes, de polifonia, o poeta que vos fala pretende provocar reflexão, compartilhar estética, criar alguma beleza e congregar pessoas sob as asas da palavra – as asas da Poesia!

***

palavra “silepse” é originária do grego sýllepsis, que significa “ação de reunir”, “ação de tomar em conjunto”, também pode ser entendida como a ação de compreender.
Ou seja, a silepse é a figura de sintaxe que consiste em uma concordância não fundamentada nas regras gramaticais da língua, e sim com uma concordância ideológica dos sentidos que as palavras expressam, ou ainda com o sentido que as relações entre elas revelam.
Conforme a concepção do termo, silepse referia-se somente à concordância de numero. Contudo, como a língua configura-se como um organismo vivo, as variações linguísticas a colocam em processos de transformação, e agregaram outras formas de construção sintática com as concordâncias de gênero e pessoa. Em resumo, a silepse abarca praticamente todo o campo da concordância, tomando como princípio o aspecto ideológico da língua, e não a perspectiva gramatical.
Em estudos da narrativa, também conhecido por narratologia, o termo “silepse” é usado para conceituar o processo de sintetizar o discurso, apresentando de um modo reduzido vários eventos associáveis através de um recurso qualquer de aproximação temporal, espacial, temático.

CENA DE CINEMA TRANSCENDENTAL


Ele estava a ponto de acreditar-se feliz da vida iludido de ser completo sozinho quando já não queria outra paixão; e do amor temia nada mais saber. Reconheceria sem temor algum sinal do Amor depois do ocorrido antes? Acaso ainda soubesse amar, (amar ou mesmo amar) que proveito a dois há de ter se um não dispor a dar de si a ferida guardada a quem se abrisse cobertor? Embriagados de contar seus dias os homens louvavam seu apego inútil às coisas fúteis esquecidos da magia que opera a transubstanciação do verbo amar em substantivo amor; mas ele soube ouvir que o salvador desses corações mudos e de outros mundos igualmente perdidos quisera que todo homem tivesse por companhia acolhedor adjutor; * * Quis a eterna Sabedoria que a alegria terrena fosse a sombra da ternura cobrindo a cicatriz do amor sofrido com obra nova só igualável à realeza de um botão em flor. * Quis mais uma vez o Eterno sonhar no sono tranquilo da paz e fez da dor guardada na guerra a sobra das coisas magnificas reunidas na vastidão do Amor.
*
*
Baltazar Gonçalves
imagem: colagem René Magritte

SURTO DE POESIA

Há um surto de poesia rondando os lares,
rondando os bares, 
de tocaia na porta das igrejas, 
de role na rua há um surto heresia.

Esse espectro da poesia rouba
da sagro santa escritura o juízo.
O corporis mortuus est andante
tem forma concisa anti-verborrágica,
é delirante, é perniciosa,
é febril e contagiante.

A Pasta da Repressão
do Ministério da Cultura Inútil
adverte os guardiões dos bons costumes:
se o cidadão de bem ingerir
qualquer verso dessa natureza
deve desistir do prazer estético
da estrofe completa
e parar de ler imediatamente
esse tipo de heresia.
*
*
Baltazar Gonçalves 

domingo, 4 de março de 2018

Alinhando Galileu a Bilac


O CASACO MÁGICO DA MULHER SÓBRIA



Diziam que essa mulher 
tinha sido mãe de família
zelosa dona de casa 
exemplar no ofício da costura
amiga das moças mais desejadas
mais bonita que a filha do prefeito
cobiçada até pelos padres 
e conhecida dos mascates
que pela vizinhança perambulavam
vendendo de um tudo.
Diziam dessa mulher 
nascida não sei onde
que era experimentada 
na magia oculta de ler mãos 
estrelas e cartas,
diziam que sua visão era 
penetrante,
diziam que sua audição
captava o longe,
diziam que se vestia como dama
mas era de fato uma bruxa errante
que viera de um vilarejo antigo
para a alegria dos homens.
As más línguas diziam 
que sua força estava 
nos pontos cruz dados
no bolso do casaco 
sempre posto sobre os ombros.
Diziam que essa mulher
guardava um segredo
costurado ali discreto
no casaco dela inseparável.
Deu-se então a conjuntura 
desfavorável do alinhamento
de Júpiter e Urano 
numa noite abafada 
em que nenhum ser vivo 
atrevera aparecer sem máscara
e todos trancaram em casa
o menor sinal de compaixão.
Naquela noite escura
enquanto na penumbra 
a mulher acrescia 
outro bolso em seu casaco,
o marido a traía
com sua melhor amiga
e os dois filhos a roubaram
para beber com as moças 
ardilosas que tramaram 
em surdina uma emboscada.
Curioso poder tem as mulheres 
sobre os homens bêbedos
e cegos de paixão...
Naquela noite escura
enquanto na penumbra 
a mulher acrescia 
outro bolso em seu casaco,
a filha do prefeito exigia 
do pai esnobe e ausente
que deportasse a invejada,
a bruxa que lia mãos 
estrelas e cartas.
O pai, que tinha poder 
mas não tinha autoridade,
acatou a vontade da filha
por ser mais cômodo
que a ela dar atenção devida.
Naquela noite escura
enquanto na penumbra 
a mulher acrescia 
outro bolso em seu casaco, 
o padre ouvia das alcoviteiras
bajuladoras da sagrada família
impropérios indignos 
destilando seu veneno 
sobre o desejo secreto do cúria 
e tramaram a má sorte da bruxa.
Naquela noite escura
enquanto na penumbra 
a mulher acrescia 
outro bolso em seu casaco, 
entre os mascates que dormiam 
do outro lado da ponte
um se levantou alerta 
espantado como sonâmbulo
que acordasse dentro do sonho 
e se pôs de prontidão 
ao lado de seu cavalo branco.
Naquela noite escura
a mulher que a todos servira
na penumbra mais densa 
onde nada não se via 
nem sequer uma estrela 
nem canto melodioso da cotovia,
vestida com seu casaco 
acrescido de outro bolso 
a mulher que todos temiam
em silêncio atravessou as ruas,
passou pelo prostíbulo
onde seus filhos bebiam,
passou sobre a sobra 
do palacete do prefeito,
passou em frente a porta da igreja
e atravessou a ponte atravessando o rio,
através da penumbra avistou seu caminho 
e nos braços do mascate 
também um judeu errante
apoiou-se para subir no cavalo 
selado com um tipo elegante 
de casaco tramado com fios
em fino bordado brancos.
Naquela áspera noite escura
enquanto a penumbra comia
cada qual o mal em seu ódio 
desfazia-se a terrível conjuntura
e em melhor situação 
a mulher e o mascate 
alinhados como Júpiter e Urano 
partiram sem deixar rastro, 
sem olhar para trás.
*
*
Baltazar Gonçalves

LABORIOSA NOITE SOMBRIA

No bojo da noite sombria
uma mão apalpa o verbo 
do bojo da noite sombria
escorre grudento sangue
entremeada à noite sóbria
vivas vísceras se enlaçam
perdura na noite sombria
mais um doloroso grito
perfura a noite sombria
agonia desse meu grifo
ilumina a noite sombria
uma oração vespertina
a maldita noite sombria
impedida varada acaba
no fim da noite sombria
rasga o véu do imundo
se
ao mundo veio mais um
*
*
Baltazar Gonçalves 

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - LUMINOSA ARQUITETURA

Os primeiros poemas foram só para
que eu chegasse a esse,
eu amo você.
Os primeiros amores foram só para
que eu chegasse a você,
somos um.
Os primeiros sonhos foram só para
que sonhasse esse,
somos eternos.
Os primeiros erros foram só para
que compreendesse,
temperamento é destino.
Os primeiros caminhos foram só para
que chegássemos aqui,
vem comigo.
Em nossas mãos assim combinadas
sonhos são poemas, erros são caminhos
e o intraduzível revela
no carinho de um beijo o sim-não talvez.
De nossas mãos assim reunidas
flui o rio da temperança
de luminosa arquitetura,
convergem lado a lado
razão e sensibilidade
pois que de um lado alado
a magia da espiritualidade
dialoga com esse outro denso
mais pesado sedimentado
na foz da razão impura.
Que seja a memória de nossas vidas
a meio do caminho convergindo
a história dos sonhos e dos poemas
dos acertos para onde confluem o devaneio
de saciamos nossa cede de ciência
no silêncio desse beijo demorado.
*
*
Baltazar Gonçalves



SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...