sábado, 27 de janeiro de 2018

BELO HORIZONTE

O magma que escorria para o mar deu de ficar em Minas.
Sem mácula, onipresente: Sua Majestade, a pedra nua!
Ensimesmada a montanha embainhou-se
em dobras de saias sobrepostas
e cobriu-se de verde.
Ela guarda os mistérios dos minérios derretidos
e aguarda o viajante.
A Grande Pedra é topo do mundo,
se estende desfazendo-se na praia inexistente
: espreita quem passa, escuta quem pára.
Ela sabe em minhas mãos sonhos de metal,
eu carrego meu barco.
Sabemos do mar distante,
sobre o pico da pronuncia lanço redes.
Do alto dessa paisagem avisto Belo Horizonte.

*
Baltazar Gonçalves
foto: Serra da Moeda, Belo Horizonte - MG


domingo, 21 de janeiro de 2018

QUANDO PERMITIR A MARÉ

A passarela de madeira tem proteção de ambos os lados e segue ora sobre rochas arredondadas de formação basáltica ora sobre o que do mar chegou arrebentando em ondas e espuma. A maré vai subir. Mas essa informação tem o guia os demais não sabemos e agora a turma segue, turistas em maior parte e alguns da cor local, caiçaras de Itanhaém para melhor saber-se de quem se trata, segue como dizíamos, sobre o que mais se parece com um pear que nos conduzirá até aquelas rochas mais altas de onde um jovem mira o horizonte e faz um movimento com os braços que nos parece, a essa distância, que vai abraçar alguém. Bonito de ver a paisagem, esse recorte, pontuada por pedras que suportam ondas ameaçadoras que dão ao moço um verniz de coragem  romântica já que parece ter o Atlântico entre os braços e, o guia poderia dizer oportunamente, que é possível refazer um abraço o caminho de volta que um dia fizera Anchieta. Bem, é melhor seguirmos até nosso destino, a saber a rocha conhecida como Cama de Anchieta que não vai a lugar algum e nos espera desde a fundação dos tempos.

 Lá está, parece mais um túmulo de pedra se deitarmos nela. Se a formação geológica leva nome pomposo deveríamos nos fotografar de forma apropriada, e todos vão fazer o ritual por que são na maioria, como foi dito, turistas. Deita um e mil fleches são disparados, deita-se outro e mais mil, e outro, e outra, e mais máquinas disparam e objetivas se abrem para que a luz ilustre a realidade possível dessas paragens e teremos mais tarde à nossa semelhança a imagem da figura histórica borrada pelo tempo. A tarde perde-se em procurar o mito Anchieta no vão entre a rocha que parece uma cama e a parte superior que nos asfixia como haverá de fazê-lo a tampa de um caixão. 

O sol nos dá as costas agora encoberto de nuvens e as gaivotas congestionam o céu numa algazarra frenética enquanto os barcos pesqueiros procuram o caminho de casa. Alguma coisa vai acontecer que nos escapa, o cenário muda rapidamente, não é o melhor lugar para ficarmos deitados eternamente como se tratasse de um berço esplêndido. O que se vê do que antes era uma ampla faixa de mar é apenas ameaça e estrondo. O guia alerta que já não poderíamos estar aqui e o mais seguro é a sacada do restaurante de onde o grupo saímos.

Todos em segurança porque foram destituídos da glória com a qual se reveste o Amor. Mas aquele moço que esquecemos no alto da pedra ficara inadvertido. Ainda de braços abertos nos dá um último sinal de êxtase e, talvez, antes das línguas da imensa Hidra lamber a rocha e arrastá-lo para o abismo azul, tenha mesmo pronunciado um nome como dissera um amigo de um amigo, o mesmo que reunindo coragem e curiosidade será o primeiro, quando permitir a maré, à voltar onde estivera nosso Quixote caiçara. A maré continuará a subir nos outros dias sem que dela deem conta, e nenhum túmulo se fará para o corpo.
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Baltazar Gonçalves

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...