sábado, 13 de janeiro de 2018

um jardim ostensivo reservado

Podemos parecer o que quisermos mostrar,
cada jardineiro escolhe o que deve revelar
do seu melhor.
Para que mostrar ervas daninha
se elas aparecem sem que a gente plante
e todo mundo as têm nos seus jardins?!


Onde sou meu e nunca me vê ninguém
invento um jardim ostensivo reservado.
Sou onde só eu tiro da beleza
a força quando preciso.

Sou jardineiro, falo para quem planta.
Tenho me procurado num lugar assim
a vida toda e tem valido a pena
porque quanto mais procuro
tanto mais encontro campo.
*
*
Baltazar Gonçalves

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

2 SEGUNDOS NA FRENTE DO ESPELHO

Uma amiga falava de algo pudesse lhe escapar' na leitura de um poema, como se desculpando também pedisse uma orientação.  Deu em mim vontade de encaminhar esta direção para a leitura do poema ‘2 SEGUNDOS DIANTE DO ESPELHO. Depois de responder àquela amiga, resolvi compartilhar aqui...
*
Por 2 nano segundos dilatados na medida do tempo da leitura, na frente do espelho o leitor se encontra, o espelho é o poema. Refletido barbado, a imagem é a do eu-lírico que fala enquanto percebe a indecisão do leitor-personagem em se dispor da 'máscara' que reveste seu rosto já por 2 anos. O tempo é relativo, quanto tempo é necessário para que a gente se acostume com a aparência ensaiada com a qual nos apresentamos? Desfeito o 'disfarce', barba feita, o narrador preso no espelho se vale das vozes de F. Pessoa e Cecilia Meireles num abuso escancarado de licença poética quando chega a citar, alternando efeitos nos versos conhecidos deles, e de um e outro, para encontrar na companhia deles a coragem de seguir feito sombra, e se depreende na companha o leitor...
************************************
2 SEGUNDOS NA FRENTE DO ESPELHO
***
Depois de 2 anos tirou a barba,
como pode fazer isso comigo?
Eu que pensava de fato ser ele
revestido de sua aparência real
confortavelmente não sentindo
nada que doesse ou alegrasse.
E piscando com atraso de nano
segundos ao que de nós dois é
já conhecido,
o sorriso coberto por aquela capa
de pelos espessa permaneceu.

Tirou a barba, 
depois de 2 anos.

O gesto, anterior às palavras,
na mão a lâmina era um aviso.
Mas eu percebi o medo no olhar
encarando-me pela última vez.
Tentei argumentar em vão,
consolou-me saber que pêlos
crescem mesmo após a morte.
Eu podia ouvir seu pensamento:
serei eu descoberto mais velho
mais calmo, triste e magro
de olhos tão vazios
e lábio amargo?

Outro nano segundo se passara
nós dois sabíamos que
eram palavras temidas
de um outro retrato.

2 segundos,
fez a barba.

O terno que vestia certamente pesava, 
conheceram-no por quem não era: 
não desmentiu e não se perdeu. 

Em 2 segundos tirou a máscara,
colada à cara ela não era eu.

Uma mudança simples,  certa e fácil.
Quando ele saiu do banheiro,
hesitei seguir mas resoluto fomos juntos,
Cecilia, Pessoa e eu. 
*
*
Baltazar Gonçalves

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

11 de janeiro, hoje meu pai faria aniversário

Hoje meu pai faria aniversário: capricorniano de 11 de janeiro, seu desencarne às portas dos meus 50 anos inaugurou para mim uma nova forma de encarar as coisas na vida. Curiosamente, sinto o pagão que sou (pagão mas não apóstata), elevar meu pai à categoria de deus - o deus que faltava, um deus último. Onipresente sem estar, poderoso e indulgente comigo. Meu pai não está no túmulo, tampouco necessita ressuscitar. Ele está sentado à direita e à sombra, seu silêncio cobre a Terra por onde meu pensamento vagueia e por isso sua voz troveja quando a minha trovoa. A heresia sai da minha boca sem culpa, curiosamente sem mistérios. Ao meu pai sou grato, exemplo vivo de religião - religione ad vitam! 
*
*
Baltazar Gonçalves

fotografando na pinacoteca de São Paulo, janeiro de 2018
















MIL OLHOS TATUADOS NA MÃO

Tem gente para tudo,
todo mundo já ouviu falar.
Uns dizem que sendo erudito,
o poeta não é santo.
Outros difamam: sendo inteligente,
o poeta deve ser feio.
Os vis afirmam seguros de sua maldade
que o poeta está nu
porque não veste nada
que vale a pena
erguer-se de sua vergonha.
Cada qual diz sua verdade
negando para se proteger
da palavra que corrói,
reconstrói e traça.
Na realidade, o perfil do poeta
é o mesmo do asceta.
Figura cubista
do homem viril
sobreposta
a do profeta
que no silêncio
também chora.
O poeta chora.
O poeta ri.
O poeta ora.
Ora, o poeta come,
defeca e ama.
Tem gana,
reza na cama
e evita igrejas
mas levita
no meio fio
de qualquer sarjeta.
O poeta anda descalço
quando pode.
Quando pode, não anda.
É quando escolhe
ficar parado, de tocaia,
para pegar o tempo no pulo.
Quem mais respeita convenções
depois dos advogados
e dá mais valor a um artigo?
O poeta, quando não pode,
se sacode.
Se pudesse, o poeta andaria
mesmo nu
mas
a maior parte das outras vezes
se despe
vestindo o rigor da forma porque
ama amar de verdade
a faculdade
de saber quem não é.
Mas há quem diga o contrário
(todo mundo já ouviu falar)
que poetas
não andam descalço,
que não defecam, nem comem.
Que são feitos de plástico
e então seriam flores sem cheiro,
guardanapo limpo
caído da mesa.
Mas eu que não sou isso
nem sou aquilo não creio.
De fato,
para todo lado que olho,
me vejo.
Contudo, a derradeira
conclusão
é que todo poeta mente.
Quando diz uma verdade,
o profeta finge e o asceta foge.
A tríade é, sendo sincera
enganando toda gente,
tão triste quanto verruga
num gerúndio.
Uma esfinge plantada na grama
ou o vazio
para mil olhos tatuados na mão
que vai fundo no alforje.
*
*
Baltazar Gonçalves
foto: "interior da Catedral de Amiens"
pintura de Jules Victor Genisson, 1842

DI CAVALCANTI

ficar ao lado é como estar dentro
do lado de onde a vida acontece
não a vida desmentida sem cor
do recalque nos discursos ocos
dos homens brancos sem valor
contemplar o movimento da mão
de Di Cavalcanti é encontrar
do povo do Brasil a estampa
a figurativa, a desdobrada
a vida amassada em todo
o seu singular esplendor
*
*
Baltazar Gonçalves

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

HÁ EM MIM UM DUELO

um halo de poesia surpreende 
vasta, mínima, também oculta
no escuro ventre seco 
e surdo da semente
também na língua ávida e muda.

um elo de poesia difusa
rodeia a fonte luminosa do pensamento
impiedoso comprime, rigoroso liberta.

Mas há em mim um duelo,
sorte mesmo é ver o mar na chuva.

Anelo derramar poesia no mundo
para que seja sempre e para tantos
que nunca falte
ao fundo vazio do vaso boa lama.
*
*
Baltazar Gonçalves 

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...