domingo, 26 de novembro de 2017

A UM POETA

poema pronto não tem fome
para o poeta é poema morto 
para o leitor atento 
o poema pronto
é um tipo vivo
leitura
pede complemento
faminta é a poesia
que
nos consome
*
incômoda
neblina
cobre um olho
enquanto
a trave entre os cílios
do outro
pisca um cisco
retira, pinça, limpa e olha
se veja, se olhe e repare
devolva
límpido
cristalino
olhar em volta
e agora
tome nota
do que falta na sobra
do que ninguém mais
fala
*
porque
menos triste
é rima infeliz
como se
mais feliz
já fosse
desencanto
fala
e escreve
e faz vibrar
por dentro
nervosa
ou mesmo aflita
a corda
vocálica
de uma
determinada fibra
metálica
da poesia
*
*
Baltazar Gonçalves, foto e versos

VÍNCULOS

VÍNCULOS
***
algo me diz
do sangue nas minhas veias
sobre o parentesco
do humos com a seiva
do sol com a solidão
das gavinhas da hera com as mudas de musgo
da casca, da crosta, da pele dura
do dióxido de carbono com a água
da glicose, da energia, do diabetes
das hemácias, das hemoglobinas com a fotossíntese
algo me diz sem dizer
que tudo que existe se esforça para vencer
que uma coisa combina com outra
quando o verbo se alonga
na combinação de penhasco e paredão
ou se arrasta e sobrepõe
na coexistência das sete ondas
no arranjo de setenta e sete vezes sete leis
para caber sete vidas em uma
algo me diz sem dizer palavra
do parentesco do ferro com o cobre
do estanho, do enxofre e do magnésio
que circulam nos organismos vivos
acentuando o degredo no desaterro
da consciência dos homens
e dos fungos minúsculos
que digerem pacientemente
folhas secas em decomposição
quando assim escuto estou surdo
vejo sem ver, é assim que escuto
o micróbio microscópico, a gigantesca estrela anã
a beleza singela astronômica esquecida
o signo relegado ao silêncio apodrecido
a insignificante presença que oprime
a beleza inquietante do furúnculo tornando-se carne
a carne devorando a carne do verbo
no desespero harmonioso da vida servindo-se da morte
instaurando o vínculo entre todas as criaturas
*
*
poema e fotos de Baltazar Gonçalves









SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...