quinta-feira, 16 de novembro de 2017

DISCURSO DO MACABEU

Ouçam-me,
eu sou um macabeu errante
de uma terra que era minha
fizeram-me retirante porque
dizem ser prometida à elite
*
ouço
o maldito político reclama
diz que o povo quando fala
tem Deus no gogó - mentira!
pobre não tem voz nem rosto
é peixe de pesque-e-solte
fisgado volta ao raso do lago
para ser pesca velha de novo
pobre
é isca
cardume grande de peixe pequeno
é isca no anzol para peixe grande
por isso meu povo tem tão pouco
morremos
de susto um dia de cada vez
mas
temos
entre os dentes uma lâmina
de corte cego bastante velha
ao sol
brilha
é ponta
aguda
de metal
frio na
boca

*

para quem o céu é o limite?
para a isca basta a fome
e nenhum senso do perigo
ou que seja tola, tapada
burra, tonta, uma porta
mas que saiba sorrateira
esgueirar-se mole feito
enguia em água morna
e nadar e nadar e nadar
até que sua voz se cale

*

poder macabeu até pode
mas de quando em quando
quando come tanto
que se empanturra
farta-se na lama escura onde caga
e nunca se afoga  porque pula fora
quando a água morna esquenta

*

ser feliz macabeu até alcança
só quando toma um copo
ou quando joga porque
tem fé no amado time do coração
então faz torcida
e grita ‘feijão, feijão’
mas que azar...
acertou os números
perdeu o bilhete
salta alegre da sala à lama
suja a cama, suja a mesa
reclama, reclama, reclama
mas da suja calha bebe
esganado água podre salobra

*

de quando em quando
macabeu goza, faz filhos
mas não surta, reza reza
reza, macabeu sou eu
não posso me dar ao luxo
economizo no vômito
guardo para mais tarde
baba da riqueza festiva
bobo da corte posa
do lado da loira gelada
e se engana: cerveja-religião
é genuína droga barata
ópio, um bar e duas igrejas
novas em cada quarteirão

*

oh povo triste o povo macabeu
geme e rema, e nada, e nada
prostrada tímida estrela opaca
sem brilho o metal tine
entre os dentes tine a lâmina
o anzol rasgando a boca tine

*

segregados uns e outros
ouvimos, repete quem disse
‘meu povo, acalma,
esperança não morre”
- mentira!

*

somos macabeus, retirantes
distantes do prometido céu
o cardume segue para a rede
esquecido da velha lâmina
afiada que tem cada peixe
entre os dentes podres
esquecido da força bruta
que separa
do eleito cada um dos meus
*
*
poema de Baltazar Gonçalves
imagem: Candido Portinari Enterro na Rede (Série Retirantes)

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...