segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ORAÇÃO DO POETA

ORAÇÃO DO POETA
***
Santo, santo! doutor da palavra
rogo por nós, poetas
que recorremos à tua voz
dá-nos da vossa consciência
o quanto possamos suportar
e multiplica-nos
entre as esferas do verbo eterno
e fortaleça em nós o lastro que nutre
e doura a armadura luzidia
do selo da voz divina.

Piedoso padroeiro da minha poesia
dá ao poema o consenso da melodia
desfaça nos versos os laços da rigidez
e permita quanta gota exata necessário for
para que do copo-corpo do arranjo escrito
derrame sobre quem leia gole de água viva
e desata na minha a tua língua
concedendo moldura para quem é de quadros
e pintura para quem é de caligrafia.

Peço-te bendito muso
padroeiro, patrono ou estro
que na emenda das contendas
encontre os poetas a conexão
das pontes firmes sobre os hiatos da Literatura
e que assim, contigo suporte inspiração,
na insustentável brevidade do ser,
com fé no que deve ser dito,
também eu possa partilhar do pão que alimenta,
da palavra vestimenta para a alma peregrina
que pisa desassossegada o gerúndio sem fim
que é o desaterro da nossa vida em comum.
*
*
poema e foto de Baltazar Gonçalves​

QUERO SER CHUVA SOBRE A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

quero brotar
num lugar onde a chuva não escorre mas
penetra a terra
e beber do sol onde seja sempre setembro
o ano todo
quero ser
uma folha da grama verde que cobre o vale
no onde
a chuva caia de mansinho desde a colina
sem pressa
quero florir
girassol na ponta fina da folha verde da grama
quando
chover estrelas sobre as nossas impressões
derretidas
quero compor
versos e cantar na chuva o tamborilar das gotas
onde as águas
nos regue por igual até penetrar nossas raízes
e depois
eu quero FUR
e contigo forrar, incrustar, guarnecer a culta e bela
última
flor do lácio que floresce sob a chuva de setembro
esta
chuva
que
não
escorre
mas
penetra
a terra
até
fazer
em nós
soar
uma
sílaba
nova.
*
*
FOTO E VERSOS - Baltazar

PENSANDO O NAVIO EM VERSOS NEGREIROS

Por que quando o branco pobre vai à missa no domingo
se encontra no sermão na hora em que o padre negro explica
que o povo ariano de Deus foi liberto da escravidão do Egito
e não se identifica mesmo sendo negro de tão pobre
com os filhos dos filhos daquele povo livre que foi um dia
nos grilhões da cobiça escravos de homens brancos ricos
vivendo horrores no Brasil português distante do mar Vermelho?
A ciência explica, a ciência explica...
Quem não precisa de um pouco de história
e da geografia mundial disponível no google
de uma dose de sociologia sobreposta à antropologia
e uma pitada de psicologia mesmo que compartilhada
de uma página copiada da cópia aqui no facebook?
Feliz de quem não precisa de ciência
e tem por perto uma benzedeira
preta velha de sorriso nos olhos
que faça do sofrimento uma cicatriz
debaixo do verniz das conveniencias
quando brilha seus olhos de menina.
Se não precisamos de mais ciência,
por que professoras brancas quase negras de tão pobres
estão ensinando religião nas escolas públicas
juntando o Estado à Religião e arando terreno para a corrupção?
Eu preciso, eu preciso...
mas não sei precisar com palavras
o meu discurso torto.
Por isso eu rezo, rezo e canto
se a ciência não explicar
na poesia eu canto.
*
*
Baltazar

AMABILÍSSIMO

onde está o próximo, o distante onde fica? a cabeça oca e o coração no cio de toda gente estão vazios. finjo fugir da forma ana...