sábado, 24 de junho de 2017

FUXICO DE MANACÁ



O orvalho decompõe o buquê
exausto de ser o mais bonito.
De longe o conjunto é fuxico,
arranjo igual nunca se viu.
O que era poça azul ultra violeta
ali colocada por conta-gota
agora desencarna desbotada
e falece no quase branco-lilás.
Entre as ramas verdes e as folhas orvalhadas
essas minúsculas flores do manacá
transcendem o que sou para o sol iluminadas.
Vicejam perfeitamente caladas,
emudecem qualquer poema.
Perdem a cor mas não o perfume.
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Baltazar

UMA CENA DE CARNAVAL

UMA CENA DE CARNAVAL
***
A rosa continua debruçada na janela,
nua reluz viçosa, parece uma açucena.
Para o cravo meio despedaçado
recomposto mascarado
vestido de Arlequim
ela acena pétalas do bem-me-quis
enquanto a banda ladeira abaixo
no calor dos ânimos
encena o festim.
Com muito barulho tudo passa...
Fazendo o carnaval na rua
o séquito ampara o desamor
quando nos braços do Pierrot
fantasiado de moço-girassol
em busca do manso abraço
o cravo de Arlequim vestido
crava os brancos dentes
na lapela amarela do outro
acreditando mesmo no encanto
de tratar-se apenas
de mais uma outra flor.
Despedaçados
giram
em torno da terra
embriagados
giram
como o sol visto pela janela.
Despedaçados
em busca do amor
giram
pétalas na calçada.
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Baltazar

PINTURA ABSTRATA

Move o meu braço um vago motivo, 
rosa embrulhada em papel de seda.
É um desenho abstrato, 
um corte
um rasgo
um traço tatuado
no raso do meu peito aberto
no raso do meu peito aberto para o mundo.
O certo para o mundo é o deserto
para um inseto o mundo é incerto
para o abraço o motivo não é vago.
Em papel de seda embrulhado
sou o corte, o rasgo
o esboço tatuado.
O vaso quebrado no parapeito
é uma carta cifrada
são girassóis no vasto abstrato.
O certo para o insano
é bom motivo
é o corte,
é o rasgo,
é pauta rasa do papel em branco
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Baltazar

COMO ALFINETE EM PALHEIRO

Dizem que um cara falou demais desafiando a ordem que funcionava muito bem assegurada pelo medo e pela força da violência. Foi num tempo r...