sábado, 8 de abril de 2017

SOB A PELE

Não há pressa na pele papel macio
do homem mais velho;
Não há demora na pele seda porcelana
fria do rapaz de frete.
.
Vivem sós, marcaram esse desencontro.

A pressa do rapaz é olho de águia na grana,
não aprendeu amar.
A demora no olhar do outro é gana,
esqueceu-se como se ama.

Seria bonito de ver se o caso fosse outro,
de amor entre dois homens
encontro de gerações como oração coordenada
pelo desejo nato desinibido
ou a simples sobreposição da pele
à sede de hidratação
ou troca de afeto,
solidão mordida ou apenas fome.

Mas não é o caso,
embora comum é famigerado esse encontro.
Os dois foram tatuados no escuro
marcados pela vida, um será o outro amanhã.

Sendo a pele o maior órgão do corpo
se compreendida tornar-se-ia
e a tudo, o mais humano de nós.
Mas não é o caso o caso desse encontro.
Aqui a pele é moeda de troca
papel de grife
embrulho
do perfume o frasco
perfumaria
mal tocada quebra
tanto mais trocada mais sangra.

A pele nunca está pronta.

Por negros pêlos de um lado
e loiros finos fios do outro,
perfurada feito granito,
a pele eriçada é a mais bela flora
na epiderme em choque.
Flor repisada, duro espinho
brutal arma na bainha.

Por fim, o acerto é feito
: amor abjeto, a obra
o coito.

Vivos beijos mortos de línguas tensas,
o silêncio é o oco do desejo que sobra.
Na pele dos dois um texto há muito redigido
é um pedido de socorro mal grafado,
o grito de um menino que foi abusado ,
gemido abafado, nada é esquecido.
O medo no ápice do orgasmo
pede colo e paz de abrigo.

Agora só há pressa,
grana gasta e marcas na grama.
Aplacada a gana, os dois buscam
no tempo o que não foram.
No escuro, a quixotesca figura se desfaz
depois de aplacado o furor.
Os homens seguem sem rumo seu rumo,
o que foi amplificado fica não dito.
Junto deles vai a sombra do medo,
cravado na memória do corpo
sob a pele.

poema de Baltazar

quinta-feira, 6 de abril de 2017

ANDARILHAS - PARTE I

Ela acordou 
no meio do caminho
escuro 
a meio caminho
de uma vida inteira já percorrida.
Estava cega
no escuro parecia feliz
sem fazer conta da alegria de sentir
o sol queimar a pele no fim do inverno.
Sobreviveu esquecida no interior de si mesma
como se dormisse numa caverna
alimentando-se com sobras e migalhas atiradas por homens
que lhe sorriam sarcásticos do lado de fora.
Seu corpo era flâmula esquálida,
tremulava sombra projetada na contraluz
de um mundo exterior que não conhecia.
Como você, ela nasceu escrava de olhar e não saber ver...
Mas um dia,
um dia tão escuro como este em que lhes narro,
ela estremeceu profundamente, saiu fora de si
e ergueu-se outra dando as costas ao mundo que tateava.
Afastou-se dali abrindo com as mãos uma clareira
na luz quente do dia - êxtase que quase a matava.
Hoje ela sabe estar no caminho sozinha nunca mais
e com outras andarilhas caminha.
Assim ela acordou um dia
acordou no meio do caminho
no caminho escuro apenas por palavras iluminado.

Baltazar

ANDARILHAS - PARTE II


Ela me conta sem certeza como está sua vida.
Diz com alegria que trabalha demais,
lê poucos livros,
cuida dos filhos que são três
e escreve para manter a sanidade. 
Dialoga com os mestres e segura afirma,
que o verso 'acordei no meio do caminho"
foi criado por Dante e tantos copiaram
que Drummond se incomodou a ponto
de acrescentar mais pedra na jornada
a que devemos acostumar seguir sozinhos.

Ela nunca pára, diz que prefere
não fazer nada a fazer qualquer coisa.
Atada à poesia até a morte,
segue sabendo que não há descanso e nem fim.
Ela diz que o sono da vida cega fora breve,
tão curto como o curso que a levou quase à morte.
Lembra que seu corpo era agonia, que via do precipício
o cá embaixo onde sentia-se grávida de chão
e vazia como uma Virgem Maria.

Mas agora tornou-se íngreme paredão intocável,
ergueu com as pedras poesia onde caminha.
Finalmente ela habita uma cidade invisível,
com as próprias mãos enterrou seus sonhos
- me explica: os sonhos eram doce ilusão.
Diz que foi por sorte,
que foi por graça ou gana
sair dá febre que a acometeu
e entre abas da palavra
hoje derrete o metal intratável
que a vida lhe impõe
para tão somente escrever
sobre as linhas tortas desenhadas na sua mão.

Ela me convence, ventura é cair,
pé atolado é não andar.
Eu compreendo, se da poeira fora erguida
não será em vão que anda a acreditar.
Eu a ouvi calado, "andei, amigo'.
Sei que não há força que a impeça,
é andarilha como a luz.
Nada a estanca, tem força
de água vazante, é mulher forte.
Para luzir, finca raiz no metal e clareia caminhos.
É amiga, querida. É andarilha.
Flor de rara beleza, desabrocha feliz da própria dor.


Baltazar

segunda-feira, 3 de abril de 2017

QUANDO UMA MULHER AMA

DESOLADA
ELA PERGUNTA: por que demora e não esqueço 
meu primeiro amor que foi levado pelo vento?

CANSADA
ELA CHORA: chego ao trono da insensatez desfeito
sozinha com a dor de ser nesta vida passageira.

SOLITÁRIA
ELA PENSA: um de nós espelha a humanidade inteira
somos fagulha, rastro na órbita do solidão
cada um é centelha que brilha um instante.
O tempo habita os corações, é como a traça.
O tempo constrói sua casa perfurando tecidos
deixa marcas, abre passagens.
Para a traça a ruína é morada,
para o coração cansado o tempo não passa.

(Os pensamentos dela sangram,
têm ritmo, têm pulso
e duram no tempo mesmo se dorme;
Os pensamentos dela
são estrias abertas na epiderme dum oceano,
fagulha centelha na órbita do engano)

INQUIETA
ELA CONCLUI: se o amor é dor profunda na carne,
a marca não some;
se o amor é evento distante, a dor não se mostra;
mas se aquele amor habita companheiro
o pensamento
é para a vida inteira ferida viva que dói,
mata e não sangra

Baltazar

COMO ALFINETE EM PALHEIRO

Dizem que um cara falou demais desafiando a ordem que funcionava muito bem assegurada pelo medo e pela força da violência. Foi num tempo r...