sábado, 25 de março de 2017

TODOS TEMOS SEDE

todos temos sede
todos procuramos
dia e noite
muitos estão convencidos
que podem comprar tudo de que precisam
outros matam sua sede nas poucas gotas
do orvalho sobre o vidro da existência
alguns dançam sob a chuva que lhes sobrevêm
somos iguais em vontade
poço de solidão e sede
boca que se abre
caminho estendido
sede sem fim
gota e orvalho
dança na chuva

LOUVOR À AMIZADE

O jardim da amizade sofre constantes mudanças, tudo que é cuidado nele deixa uma rastro de beleza, algo que em nós mesmo queremos de melhor ou melhorar... 
Seja um trevo de flor delicada que 'aparece espontaneamente' ou uma orquídea de rara beleza que finalmente foi possível plantar, tudo no jardim ensina a impermanência, a mutabilidade e a necessidade de termos na vida um lugar de amor permanente...
Talvez uma das lições que se aprende com a mutabilidade da forma desse lugar-jardim-amizade seja que ao cuidar-amar todas as flores independente da durabilidade, do perfume ou das cores, nos tornamos, além de jardineiros mais pacientes, também guardadores de boas mudas e sementes... Desse jardim haverá sempre alguém que nos peça uma rosa ou muda ou semente!
E onde estivermos, porque a vida é uma feliz surpresa, ali estará o jardim: dentro de nós florido cuidando do que em nós pede abrigo!

quinta-feira, 23 de março de 2017

POEMA ABRAÇO AMIGO

Porque ando sem saber se fico ou se deixo, se abraço o mundo
ou se descanso do muito do que a vida quer de mim, hoje pensei
rosas murchando no chão molhado do meu sono.
Em transe dei por mim colhendo das flores néctar para oferecer-te
e embriaguei-me no doce perfume das flores que levam a lembrança do seu nome.
No mesmo buque, arranjei as flores da laranjeira e as flores da lima da Pérsia;
No mesmo buque, as sílabas verde clorofila de a.n.a.c.l.á.u.d.i.a
cafezal, jacintos multicolores, crisântemos, flor baltazares perfumados.
Inebriei-me com o cheiro da cidreira macerada mesclado ao cheiro fresco do limão cravo.
Nos ares, o perfume do limão siciliano em flor e o olor das flores da bergamota
Nos ares madressilva do perfeito jasmim noturno, mesclado ao cheiro das rosas
que murchavam impensadas no chão molhado do meu sono, as rosas
a rosa... Das rosas a minha preferida é a aberta e pronta!
Banhei-me nesta essência de olíbano dos narcisos à beira dos riachos
a ponto de não mais distinguir em mim quem somos: pessoa ou flor?
A ponto de não mais saber se sou a mistura insensata de amizade,
sândalo e amor por todas as coisas criadas.
O tempo que é duro como o cerne da madeira de lei é implacável!
Certo de seu lugar, o tempo é como o cedro esguio de copa larga.
Por pensar no tanto que já andei sem saber se fico
ou se me deixo, se abraço o mundo ou se descanso
esqueci de colher nos aromas do desejo o tempero sonhado
pois que para preparar esse caldo de poesia feito abraço amigo
foi preciso aceitar o tempo da rosa que murcha no chão,
me sentir musgo do carvalho e ser do âmbar naco de vida almiscarado.
Acordei do breve sono mais leve porem faminta de abraço
do meu lado, escrita em poesia feito caldo de galinha misturada
ao mel das flores
um pouco de chocolate com pimenta numa caneca de chá.
Acordei sabendo-me serena, sabendo o lugar da calma no mundo.
Meu coração explodiu polens de felicidade nesse abraçopoema
de profunda amizade no chão do sonho vívido.
E tudo ficara perfeito: a sala decorada, a cama arrumada e o silêncio nas ruas.
Hoje pensei rosas murchando mas acordei como flor que desabrochava
compreendi que há no mundo momentos em que ‘não existir’
cria universos e faz toda diferença.

Baltazar

DRUMMONDA - a história do frentista, da transex e a filha do fazendeiro.

Os elementos picantes dessa história são reais mas os nomes NÃO. Portanto, qualquer semelhança não é mera coincidência. Ouvi por aí e juntei os pontos às vírgulas. Espero que os leitores reflitam se divertindo e não se escandalizem com a linguagem corrente: só conto o que disseram por aí...
******************
Eu tô namorando a filha dum fazendeiro. Ela tem muita grana. Tem a grana do pai dela mas também tem porque trabalha. A garota é bacana, boa de cama. Quer namorar pra casar mas eu não ligo. Não ligo porque o cheiro dela não é dos bons... Não me fascina o cheiro da filha do fazendeiro.
Vivo nesse dilema, por isso pago caro pra foder com quem o cheiro me agrada. Chego a viajar 500 quilômetros só para beijar e beijo quem não me quer. Eu beijo a filha do fazendeiro mas com ela eu não caso.
Eu prefiro mil vezes a transex de Belo Horizonte que faz programa em Franca. Ela tem silicone no peito, na bunda, mudou de nome e de sexo. Toda grana dela é para um dia voltar à Suíça onde fez sucesso na capa de uma revista. Mas a transex não me quer como me deseja a filha do fazendeiro. A filha da puta daquela gostosona me pediu mil reais num programa e ainda insiste na camisinha. Acontece que eu já estou sem grana. Soube por aí que ela dá pra uns cindo caras por semana mas diz que seu sonho é trepar com o frentista do posto Mario Roberto.
Com o tal frentista a transex faria sexo de graça mas ele não quer nada com ela. Ele é evangélico, casado e ama a mulher que tem. Falou para um amigo de um amigo meu que prefere ver o diabo a ver as pernas abertas da transex de Belo Horizonte que junta dinheiro para voltar para a Suíça.
Frentista de merda, homem de sorte. O que será que ele tem que eu não tenho? Ele deve ter um cheiro dos bons... Um cheiro que deixa a transex maluca. Mas será só isso? Que será que frentista tem?

quarta-feira, 22 de março de 2017

PALAVRA REFORMADA - luz que aporta livre nos meus versos

esta luz 
no meu peito registra 
um momento descontraído
e mapeia território livre
delineia fronteiras
de um país recém criado
com o escuro em volta
a luz
no meu peito esboça
a silhueta dum barco
poema vento para vela
a luz
no meu peito ancorada e certa
é luz direta e por isso arde
na pele sem doer quando
lança em dégradé
nuances ao fundo sem forma
da pessoa que goza
este momento descontraído
é uma luz
que demarca meio eito
uma sesmaria ou quadra, quarteirão
luz de arado ou de lápis creon
ara sulcos usando sangue ralo
para fazer tatuagem à lazer
é uma luz
que viaja milhões de anos luz
e lá do distante comunica
no sonho dos idealistas um grande feito
é luz que avança tímida
sem cor ou idade
é palavra reformada
cateter para as veias entupidas
da América portuguesa
que desde o século dezoito
insiste esmagar o tempo presente
luz força da palavra
sobrepondo a ganância da tirania,
a voz do consenso
e a moenda da ignorância
luz que desembarca verso livre
e no meu peito decompõe
sem contudo deixar de ser
o contorno de centenas
de torsos de homens cativos
contra vontade trazidos ao trabalho
homens escravos dos grilhões potentes
da política déspota de obtusa razão
que funciona como dependência fármaco-mercantil
para adolescência eterna angustiante
a luz, aquela luz
acolhida bem apanhada
cria tal retrato do gênero sobre o qual
se diz detentor do falo mas se encontra mutilado
esmagado pelo mito de não ser o dono da fala
do traço
o incômodo desalojamento dos sentimentos
sonho de homens antes libertos
tantos como os que trago embrulhados
no peito desfeitos no facho dessa luz
homens brancos
homens negros
barítonos
gays
contraltos
altos ou feios
bonitos ou baixos
héteros ou gordos ou magros
ou nada que os distinga
pois têm apenas o falo impotente que os una
todos escravos assediados
desconhecedores da própria voz
igualmente eunucos sem palavra
inscritos em cem mil anti-abrigos
homens que em meu peito agora abrigo
sob a batuta harmoniosa dessa luz
que no meu peito registrada
este momento de compromisso
na fronteira de um país recém criado
luz
tão própria, palavra reformada
que insufla os ânimos e canta
para os desapropriados, casa
para os desalojados, morada
para os odiados, paz
para os descalços, sandálias
para os desanimados, caminho
para os inermes, ação
para os sem pátria, língua
para os perplexos, chão
para os desenraizados, vaso
para os aflitos, abraço
para os martírizados, louvor
aos levados em sonho, vela
aos cativos, abolição
aos de má sorte, vento
aos filhos da sede, luz
esta luz que aporta livre nos meus versos


Baltazar

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...