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Mostrando postagens de Novembro 27, 2016

NARRATIVA CURTA

Ele saltou do ônibus na rodoviária e, como se tirasse dos olhos o filtro pesado dos paradigmas, deus as costas para a sociologia e esqueceu-se da história daquela gente desbotada. Ficou bem assim e confirmou que é verdade, só intelectual gosta de miséria. Rogou a si o direito ao prazer do alheamento e contemplou. Sem fazer juízo de nada e de ninguém, saiu às ruas e fez o carnaval.  Por uns dias, viu beleza em tudo e quando regressou a quem era não era mais quem tinha sido. Baltazar

hoje sou Chapecó

Hoje eu sou a pátria de chuteiras
sou o torcedor que engole o grito
sou a mãe desesperada e aflita
sou o filho e a esposa que choram
hoje eu sou o campo sem jodo
sou um pedaço daquele sonho
de ser campeão, de regressar
em comboio e ser festejado em casa.

Hoje, infeliz
sou chuteira sem jogador
solidário triste e perplexo
de luto pela tragédia da Chapecoense em Medellin.

Baltazar

a última nesga, e fim

tem
a última nesga
daquele dourado que queima
chama fria oscila entre o verde turquesa
e o azul cobalto, azul perolado, crepúsculo petróleo e fim!
mais um dia.
Baltazar

no entretanto das margens está aquela rosa

adrenalina punk, uma dose de lirismo suicida
porque há poesia no entretanto das margens
uns tantos nos pratos, outros na via expressa
vida dessacralizada, há tanta morte inventada mas uma rosa é só uma rosa, repete o poeta
e esta, sem a pressa do povo que passa, nota
de botinas equilibrada no desvão do constante
o ir e o vir do mesmo sentido em mãos opostas
o despedaçado reunido
o apressado em oposição
o fluxo inexorável do capital
a extinção pavimentada
o piche betume
o muro, o moro
o juiz infalível
o juízo torto
as setas do medo
o cego morto
o asceta caolho
os poetas de plantão
o circuito fechado
o coeso sem coesão
o valor antes do princípio
a desintegração do elemental
o precipício
os signos mudos
o insignificante perpetrado
a entronização dos mortos
a leviandade coordenada
um Montezuma destronado a cada instante
e o inevitável punho do Leviatã sobre tudo erguido eis que
que agora descalça o caule dos pés em pétalas macias
apruma no vértice do olho agrilhoado por espinhos
a seiva que ainda lhe resta para assim, …

A Poesia é a consciência de um deus vivo

A Poesia é a consciência de um deus vivo,
soube isso hoje de manhã
quando bem cedinho
fui acordado. Sentada ao meu lado,
a poesia estampada na cara daquele deus 
era uma máscara colada na face de um menino. Eu saia do sono profundo da morte
a morte que é permitida todo dia
e via minha própria alma erguer-se
entre as camadas do tempo perdido
sem vestes, nua
apenas vestida duma estampa viva
onde por instantes vi refletido
tudo que pensei ter sido noutra vida. E como se a máscara não cobrisse
revelava de deus a face translucida
feita mesmo de água límpida e viva
poesia desprendida, mínima, ampliada
tocava no meu corpo o entrelaço do corrompido
enquanto fios de palavras puras
escorriam para dentro do novo dia. Acordado o que eu tinha sido e o que ainda seria
sonâmbulo de não saber onde e quando
pensei que podia dizer a toda gente o que percebia
e para ninguém pronunciei “bom dia, bom dia”. A poesia tornara renascida minha figura cansada
e o tempo perdido por um instante recomposto
máscara líquida estampa dos sé…