sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

NARRATIVA CURTA


Saltou na rodoviária. Decidido, como se tirasse dos olhos o filtro pesado dos paradigmas, deu as costas para a sociologia esquecendo-se da história alegre daquela gente que seria desbotada sem o sol.
ele ficou bem assim.
Ele repensou a verdade de serem apenas os intelectuais a gostarem da miséria.
Ele ficou bem assim.
Rogou a si o direito ao prazer do alheamento e contemplou as realidades sem fazer juízo delas. Sem fazer juízo de nada e de ninguém saiu às ruas para fazer o carnaval.
Por uns dias viu beleza em tudo e quando regressou a quem era não era mais quem tinha sido.
*
*
Baltazar Gonçalves


hoje sou Chapecó

Hoje eu sou a pátria de chuteiras
sou o torcedor que engole o grito
sou a mãe desesperada e aflita
sou o filho e a esposa que choram
hoje eu sou o campo sem jodo
sou um pedaço daquele sonho
de ser campeão, de regressar
em comboio e ser festejado em casa.

Hoje, infeliz
sou chuteira sem jogador
solidário triste e perplexo
de luto pela tragédia da Chapecoense em Medellin.

Baltazar

a última nesga, e fim

tem
a última nesga
daquele dourado que queima
chama fria oscila entre o verde turquesa
e o azul cobalto, azul perolado, crepúsculo petróleo
e fim!
mais um dia.

Baltazar

no entretanto das margens está aquela rosa

adrenalina punk, uma dose de lirismo suicida
porque há poesia no entretanto das margens
uns tantos nos pratos, outros na via expressa
vida dessacralizada, há tanta morte inventada
mas uma rosa é só uma rosa, repete o poeta
e esta, sem a pressa do povo que passa, nota
de botinas equilibrada no desvão do constante
o ir e o vir do mesmo sentido em mãos opostas
o despedaçado reunido
o apressado em oposição
o fluxo inexorável do capital
a extinção pavimentada
o piche betume
o muro, o moro
o juiz infalível
o juízo torto
as setas do medo
o cego morto
o asceta caolho
os poetas de plantão
o circuito fechado
o coeso sem coesão
o valor antes do princípio
a desintegração do elemental
o precipício
os signos mudos
o insignificante perpetrado
a entronização dos mortos
a leviandade coordenada
um Montezuma destronado a cada instante
e o inevitável punho do Leviatã sobre tudo erguido
eis que
que agora descalça o caule dos pés em pétalas macias
apruma no vértice do olho agrilhoado por espinhos
a seiva que ainda lhe resta para assim, recomposta,
pronta para o gesto derradeiro, erguer-se sobre os edifícios
a majestade no seu último verso e para a morte salta
pálida estrela, desacordada no assombro do instante,
na breve idade do sonho, perscruta na imortalidade um grito

no entretanto das margens está aquela rosa
Baltazar

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...