sexta-feira, 1 de julho de 2016

COM IT DE CLARICE

COM IT DE CLARICE

Só agora,
depois daquele outro agora,
é que refleti sobre o que você
disse ter pensado. Naquele então,
eu cantava a completude e quase
toquei a sua forma definitiva.
Era uma espécie de gozo seco
sem mucosas o que se deu.
Por não pensar e apenas sentir,
percebi a glória também como
passagem, sabe?!?
Ou antes, o que vai do
dado efêmero ao intangível
inacabado sem moldura
tão certo como dúvida madura
ou o júbilo na percepção do contrário.
Também.
Na direção oposta, entende?
Da glória eterna nunca criada
para a gélida certeza da morte.
Estou para dizer que eu estava it-ficado
naquele momento, naquele estado
lendo seu pensamento...
Quando o golpe certo fez rasgo
no raso da minha cabeça?
Nao sei por quê me tortura desse jeito...
Só sei que nesse agora-mesmo
o seu sangue grudento escorre
na composição de tudo,
tudo descontínua.
Eu nem convivo mais,
você sonha em mim.

Antônio B.

O TEMPO DO MUSGO

#EraQuasePoesiaQuandoOsOutrosObjetosEntraramEmCena Você sabia que nós somos muitas pessoas numa só? Parece até que somos acúmulo de vidas passadas. Mas que bobagem, eu não sou espiritualista. Eu sou um jardineiro que fotografa suas flores quando desabrocham.

Também faço retratados de pessoas, mas dá muito trabalho encontrar quem é a pessoa dentro dela mesma. Pessoa criança é diferente, são como flor na frente das lentes e irradiam o desejo de eternidade estampado em suas faces.

Sou irmanado de tudo que faço, trago terra úmida nas mãos sujas, e gosto. Gosto tambem da chuva quando cai antes de eu terminar o que tinha começado. Nesses dias, quando chove, termino bebendo um pouco do céu como as mudas plantadas nos vasos.

Eu fotografo quem não pede, fotografo coisas vivas esquecidas e formas gastas pelo tempo... Flor murcha, inseto morto e  seco, ervas rasteiras e frutas em decomposição na terra coberta de folhas também esquecidas. Eu tambem fotografo animais guardados vivos para o consumo, vacas cabras ovelhas no pasto. No galinheiro fotografo ovos. 

Gosto muito de fotografar um tipo especial de pessoa, você saberá me entender, sao aquelas que parecem estar vivas andando nas ruas quando são apenas o vazio em movimento.

Toda vida carrega o tempo da sua gestação e se dá aos olhos, pois que revelam marcas sutis ou estrias avermelhadas.

Eu gosto de fotografar o musgo verde, observo o tempo passar ali. Você sabia que o musgo é, entre todas as criaturas fantásticas, a que mais  conta histórias? É que o musgo leva mais tempo para ganhar porte e insiste permanecer quando os outros objetos já saíram de cena...

Vida é movimento, notar o movimento lento do musgo é ver o tempo evocar histórias há muito empoeiradas. Nalgum canto da minha cabeça, histórias fantásticas parecem muito com o que se vai vivendo. Nem sempre ouvimos, nossos ouvidos estão sempre ocupados. Mas o certo é que ouvimos mesmo quando não queremos. Em nossa mente, muitas vozes não são a nossa voz. Tudo o que já nos disseram um dia se confunde e, no oco da cachola, têm a aparência de ser nosso. Ouvir a voz do musgo é exercício de escutar o silêncio, posso deixar a mente mais vazia e fotografar histórias.

Isso é bom.

Você sabe, o musgo ressurge depois de muito tempo ressequido e cresce em lugares onde mais nada sobreviveria. A presença desse objeto alienígena na Terra remonta mais tempo que a de muitos outros. Eu não devia pensar essas coisas mas é assim que acontece com a mente esvaziada. Posso ouvir no silêncio histórias narradas pela boca invisível do musgo. É verdade, a vida alimenta a vida. Sei das pessoas que parecem musgo, amo todas elas... E sei outra coisa, ouvi de um menino musgo. Ele me disse que  o incrível não pode ser destruído, que ao inacreditável pode acontece de ser posto à vista. Aprendi que o imaginado nunca é desfeito. Só não sei nada do amor...
Não ria, mas acho sinceramente que o que acalma a ventania que vai na minha alma é o tempo colorido do verde musgo nas bordas desse vaso  mudo.

Antônio B.

ODE AO MUSGO

O musgo é bom companheiro, calados concordamos que lado a lado vão o mal tempo e a bonança. O musgo é paciente, seco espera a chuva e verd...