quinta-feira, 12 de maio de 2016

17:32 PM R.I.P.

17:32 PM DE R.I.P.
se dou um passo vejo diferente
se penso ter dado um passo, sinto diferente
de sentir o peso leve, indiferente a tudo que foi, penso diferente
mas quando penso que penso diferente, ainda sou quem era
sou quem era, mas diferente
talvez por isso, de vez em quando
eu sou parede
de vez em quando, sou porta
de vez em quando corredores
e de vez em quando sou aorta
parede, porta, corredores, aorta...
se diferente vejo, dou um passo
de vez em quando sou fluxo contínuo
de sangue morto em organismo vivo
mênstruo, catamênio, fluxo, regra
ou seiva, é quando soa nova melodia
é quando nego o mal e dele as raízes
de quando em quando sou raro, minto
de quando em quando eu me mato
e aceito a métrica , a rima sussurrada
que se mete surda, um feio embuste
na verdade, afasia! eu sempre renego
se der um passo verá diferente, veja
já fui planta em vaso, e não deu certo...
parecia som de tuba entre os violinos
um experimento científico, um soneto
ornamental apertado, luzidio asmático
deslocado no tempo, um descompasso
depois me arranjei sobre a cova fresca
dum morto apaixonado que se matou
ainda jovem embriagado por amor, e fui
de novo aorta, parede, corredor e porta
para um corpo apodrecido menor a cada dia
se pensa ter dado um passo, sinta
da umidade saltei à lápide concreta
nela, fui o escrito patético das mãos
do amante arrependido
do pai ausente
do irmão promíscuo
da mãe protetora
ébrio alcova vazia
romântico lacônico pedido de mais tempo
ah vida rastejante, o escrito era eu na lápide
túmulo abandonado indiferente a tudo que foi
... por acaso a morte pede mais poesia
alinha-se ao revés de nós
introduz organismo vivo
seiva de si aplica, replica
duplica desfaz de conta
corta os pulsos e coteja
pinga gota, pinga rota mais um "i"
e volta a ser, de vez em quando
parede, porta, corredor e aorta.

Antônio B.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

alguém que escreve em preto e branco

você já teve vontade de colorir um desenho com as cores que todos dizem "não combina, não é dessa cor, não é desse jeito que faz"? isso já aconteceu comigo também, bem cedo desisti da pintura e do desenho e, naquele tempo, pensei: "escrever só precisa de lápis e papel, é mais revolucionário que plantar lavoura" - eu tinha seis anos!
desde então, quando escrevo, quero pintar o que nunca foi dito de forma que caiba no papel mais que o lápis possa suportar mas acabo escrevendo sobre o mesmo tema, a mesma coisa, a mesma coisa vou repetindo.
tentando camuflar descaradamente sob o efeito da combinação das palavras a incompetência da expressão, de vez em quando me conformo. Noutro de vez em quando me revolto e tenho vontade de pegar na enxada e plantar a mesa para a fome do mundo. desisto tão logo lembro que não sei pintar nem desenhar, que escrever é tão inútil .quanto o voto popular em programa de auditório.
está mesmo remediado, o mal feito.
não tendo nada a declarar, abro a janela para esse dia onze de maio sabendo que meus ancestrais já o tinham vivido quando onze de maio não tinha esse nome, quando "dia" era apenas a luz do sol iluminando a Terra. quando isso não tinha nome e pertencer à ninguém era tudo que se tinha ou era.
em toda caso, fica um conselho: use as cores que quiser para colorir seus desenhos, seu dia, sua vida... do contrário, pode se tornar um escritor ou pior... alguém que escreve em preto e branco.

Antônio B.

03:52 AM DE MANHÃ


A madrugada oculta muitos medos
o de não acordar, o de não dormir.
A vista alcança apenas o iluminado 
pelas lâmpadas, o resto encoberto
assustador descansa e pode não ser.
Mas os cães, que são muitos, ladram
gemem solitários dentro dos portões
para os de menos sorte abandonados
e o ganido preenche o cenário vazio
com diálogos caninos compreensíveis.
Nessa hora há toda sorte de abandono.
No sono pesado aquela mulher triste
sonha não ter casado com seu homem.
Indo ao banheiro, a menina tem sede
e não encontra o leite para sua fome.
Só o guarda-rua pode dizer quanto faz frio.
Nos braços do rapaz a namorada passa a noite,
avisou a mãe que estava na casa de uma amiga.
Entre os bêbados encostados na marquise
cai do bolso um retrato da esposa infiel.
Naquela casa a televisão faz companhia,
nesta outra um gato entra pela janela.
Tem sorte quem dormia na hora do assalto,
dois ladrões armados fariam estrago maior.
Na escuridão que se faria ao apagar a luz
haveria descanso se não fosse o silêncio
que pede tradução de língua morta.
É preciso acordar cedo para inventar o mundo.
Na rua o asfalto será o mesmo
brilhará de sol a sol piche preto
substrato, petróleo
antigo como rodas
pensadas na pré-história
desenhadas em cavernas.
Mas agora não, agora só cães
e pessoas mortas de sono
de sono, cansaço ou medo
no escuro medonho da madrugada.

Antônio B.
(11 de maio de 2016)

LEO GIRASSOL AMARELO


Como um girassol amarelo
que se fechasse encolhido
para insetos, para a luz
vergado de crepúsculo
certo de ver menos um dia
abrir-se dourado de manhã
eu me recolho perto de saber
que o mesmo destino vai unir
o disperso e congregar no jardim
dos reinos a bem-aventurança
unir o distante disperso
o distinto semelhante
o menino e o homem
o amor e a amizade
numa orquestra harmônica
regida no antigo alvorecer.

Antônio B.

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...