sábado, 12 de março de 2016

13 DE MARÇO - LIQUIDAÇÃO DE MERCADO

13 DE MARÇO - LIQUIDAÇÃO DE MERCADO
Desçam a proteção das vitrines, não venderemos mais nada.
Não importa saber se nos olhos de quem passa, encontra-se qualquer sinal de vontade. Faremos do amanhã um feriado prolongado. Não venderemos mais nada, nenhuma ideia, nenhum sonho, nenhuma poesia.
A juventude está sempre sedenta por novidade, agora nos dá as costas do outro lado da rua. Protestam arrogantes, ignoram que
vestem o que foi comprado no mercado, comem o que foi comprado no mercado. No oco de suas cabeças ventam ideias forjadas pelo mercado.
Os sonhos dessa juventude foram barganhados no mercado.
Seus pais dormem tranquilos abastados de toda sorte, aventura e conforto. Sonham luz elétrica, água quente encanada e outras ideologias fornecida pelo mercado.
Não apresse o passo, essa gente vive no fosso e caminha sem dizer bom dia.
É largo o caminho das delícias, sabe o mais experiente viajante.
Desçam a proteção das vitrines que mesmo sendo única
a vida se repete em ciclos dentro de ciclos. A farsa trágica da eterna repetição.
Hoje não venderemos. Guardem o que foi revirado
nas prateleiras, vamos para a feira na praça.
O mercado decreta, amanhã é feriado.
Antônio B.
(FOTO: Manifestante de 64 protestam contra a ditadura militar a favor da liberdade de imprensa e outras)

quarta-feira, 9 de março de 2016

CORPO DE VIDRO


ELO

Há um elo de poesia no mundo, está por toda parte
no surdo ventre seco da semente, na língua muda
cavada de sulcos, na palma da mão direita nua
no beijo ardente, em tudo há poesia.

Esse elo, ente indizível "poesia-mundo"
faz da criança travessa anjo de luz
faz do pintor exausto gênio ativo
faz do escritor esquecido amante bêbado de linguagem alheia
da água faz água viva, água ardente.

Eu não sou poeta, eu duelo com a poesia no mundo
porque ter sorte na vida é ver o mar na chuva
as calotas polares escorrerem nas calçadas
é ver o sangue de Cristo no vinho e no vinho as águas do Jordão
ser poeta é não ter sorte, é ver o Jordão no riacho
o mesmo rio na calçada molhada depois da chuva
e o Cristo ser batizado na esquina
ter sorte e ser poeta é ver-te volver sem lágrimas
e jurar fidelidade domingo de manhã.

Anelo ouvir-te acenando “não te esquecerei jamais”.

Derramo para que seja sempre e para tantos o que desejo
não basta cobrir o fundo vazio de lama
nem erguer andaimes na construção
o ornamento deve ser vaso novo
ir além do que foi dito
mais que isso é distração, é vaidade sem lastro
nego-me a dizer “te amo” para chegar ao verso egoísta
pois que sem estar presente fico
tudo é verdade.

Poesia
é a busca constante
por movimento e ritmo suspensos
é a água na órbita do que é vasto.

Anelo elo ergo olhos secos para o sem fim
porque desejo alcançar poeira sob os pés
alcançar a criança travessa vestida de luz na tela do pintor exausto
também as prateleiras e os livros
alcançar o escritor esquecido e amante bêbado da linguagem alheia
num só tempo o destinatário e o endereço
para assim perder-me em poesia onde ela quer que esteja
a linguagem sempre viva com a sede da água ardente.


Antonio B.

segunda-feira, 7 de março de 2016

das palavras, pétalas
do jardim, nossa casa
Fiz do arrependimento minha força
e da sua lembrança a rosa mais linda.

Antônio B.

Saio cedo, navego longe.

A liberdade que já não cabe no mundo  tem morada no meu barco.  Saio cedo, navego longe.  Também pesco palavras fora do lugar.  Se sant...