sábado, 5 de março de 2016

MÉNAGE À TROIS


Ao mais belo dos homens o abismo.
Sedutor irresistível, o experimentado, abismo.
Também os platôs mais elevados.

Ele vibra entre o puro desejo de viver mais
e a compulsão para a morte.
Nele tudo se completa, isto é círculo de celebração e sexo. Mas ela não tem paz porque sabe que nada permanece. Singular depois do toque? apenas a flor que se fecha.

Entremos no jogo.
Ele caça, ela passa.
Eu resenho o esconde-esconde entre os dois.
Tudo é coisa entre ser e acontecer.

Depois lambuzo com uma palavra seca
o corpo dos dois o resto do dia inteiro.
Por mais nada querer transcrevo "fiquem mais um pouco". Depois que fizer sentido encontraremos nexo
entre aquele abismo e esse platô.

Mas decore o desejo, faça isso para negar-nos descanso.
E voltaremos ao começo no mesmo instante
em que se fizer ouvir a voz do leitor nos pedir mais um beijo.
*
*
Baltazar Gonçalves

UMA COISA É UMA COISA

Coisas desarranjam-se 
nos cantos escolhidos à dedo,
desconhecidas coisas mal arranjadas 
pelo tempo que desgasta tudo.

Embora espalhadas,
as coisas continuam ligadas umas nas outras
como as memórias dos lugares 

por onde passamos.

Em busca de sentido,
as coisas pedem ordem
que lhes restitua a vida. Realojadas,
memórias e coisas alcançam alguma paz.

Quer seja num vaso,
noutro canto do coração
ou apenas por falta de espaço 

para o jardim maior...
Por decoro e ação,
restitui-se algo da inocência dos jardins perdidos.

Antônio B.

quinta-feira, 3 de março de 2016

ELE ME DISSE

Ele disse que vem de perto, que mora perto
quer as mesmas coisas que eu quero, calma.
Disse que conhece muita gente boa, bacana
gente que trabalha duro e a ninguém engana
e também disse que nem tudo na vida é osso
duro, disse e devolveu o sorriso que era meu .
vem perto, vem
mora perto, vem
não quero mais nada, 
nada mais me acalma, 
amor.

Antônio B.

TERCEIRO SALMO - Senhor, à ti espero


Mesmo que sobre a terra arada não chova, sequioso espero. Porei em tuas mãos minha casa. À porta, sem bater há de entrar em silêncio como ladrão que arromba em assalto inesperado. Passará os átrios, os pórticos e os inúmeros corredores da vã glória da razão.
Em saltos de gazela passará sobre esse leito, leito pedregoso onde jaz os barcos e meus sonhos.
Evoco teu amor, que atravesse como lâmina de gelo minha garganta, nome que é presença, nome que é salto e voo. Pois que vi a ti nas asas do condor e plainavas sobre as montanhas, sob o gélido sol do inverno em busca do abismo e, nele, as águas rasas onde me afogo.
Também sobre esta casa, meu corpo seja tua voz. Teus braços esticados, tuas pernas dobradas, tua face corada e dura como a verdade lança olhos d'água, olhos de águia para notar cada penugem eriçada que almeja voo igual.
Gozarei o milagre de ver curada a cicatriz antiga, de me encontrar no mapa da inocência perdida.
E antes que perceba, de um só golpe estenda tuas asas cobrindo-me. Hei de alcançar sentido na escuridão acordando porque terás alcançado meus lábios e minha voz.
Antônio B.

BORBOLETA NO MANGUEIRÃO


Ah! dulcíssima borboleta
abre o fole de tuas asas
negro vermelhas / nelas
cada veio seco etéreo
suspende meus ares.

seriam patas esses longos cílios
ou aéreos pêndulos apenas finos
?

voe sobre o jardim cercado
voe sobre esse mangueirão,
amplo átrio de barro
que se abre largo
para porcos e homens
a dura redenção

teu pouso inesperado
nesse árido casulo torna
irmão toda criatura
 
arme teu fole vivo
de cor / ressurreta
não respiro indeciso
ant'esper'hora morta
no ruflar de tuas asas
o compasso que
nos eleve


Antônio B.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A POESIA DEU UM TIRO NO PÉ

A poesia deu um tiro no pé
bem no meio do pé, no dorso do pé
parece mentira que a poesia tenha dado um tiro no próprio pé
mas deu, bem no meio.

A poesia espatifou todos os ossos do pé e sem equilíbrio caiu
é difícil entender mas é fácil de constatar
porque mesmo esparramada, depois da queda
ainda se pode ouvir as batidas (também espalhadas) de um coraçãozinho que foi ao chão.

Pobre senhora poesia, tão nobre antes viu-se estranha.

De tanto uso
transformada em domínio publico,
em frase de uso contínuo pichada nos muros
sem efeito, poesia colateral remediada sem apoio, sem o pé direito.

Pois pois, quem dera
desmoronou parnasiana em cubos realistas
depois pré-moldada, pré-modernista em blocos concretos em toda construção.
A poesia manca slogan, rimada com a política e lavada nos rapingsoul.

(Quem dera ainda estivesse inteira, a poesia. Mas depois daquele tiro, o tiro que deu no pé, perdeu a voz e no dizer de hoje “pá tu ou pra tudo ou para todo o mundo”  ganhou imensa cicatriz que vai de amanhã ao século dezenove.)

Deixa estar
poesia é poesia, ergue-se fora das escolas / cicatriz lhe cai bem
se fosse um tiro no olho, usaria tampão
se fosse no braço, uma tipoia
se fosse augusto baudelaire, um rimbaud bastaria.

Que venham as faixas, as ataduras, o gesso meia-tala e próteses de metais
e verão a poesia entre alegres metáforas distraída.
Parecida mas refeita, a poesia amarga um sorriso e vem de banda
meio de lado porque dói o tiro que deu no pé.

A poesia deu mesmo um tiro no pé
bem no meio do pé, no dorso do pé
parece mentira que a poesia tenha
dado um tiro no próprio pé, mas deu

bem no meio.


Antônio B.
ilustração: HQ do artista, fotógrafo, historiador e pesquisador Carlos Hollanda.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O RESTO É HISTÓRIA

Para cada dez passos que damos na direção de descobrir o que temos certeza, nove certamente são na direção oposta, para o passado desconhecido. 
Para cada dez passos dados na direção de satisfazer uma necessidade, nove são na direção oposta para destruir alguma coisa que nos mete medo. 
Para cada coisa que nos mete medo, damos um milhão de passos rumo ao passado num caminho feito de poeira antiga, poeira de estrelas. 
Poeira espalhada, poeira dispersa porem orientada em narrativa a ser desdobrada.
O resto é história.

Antônio B.

FRASE NA PARTITURA




do veio de onde vem esta frase,
corre água boa de beber e soa
musical, pinga goteiradamente.
cena de cinema, par sem dança
sonata de Strauss te pede valsa.
coreografia das ideias, sinais
sonoros e sílabas poéticas...
bailam símbolos alegremente.
sob a graça consentida, bem
dita a mentira dessa verdade.

Antônio B.

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...