quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

IMPACTO

No meu peito coube a queda 
de um planeta inteiro. Era um monólito 
em trajetória sideral e certa.

Do alto vazio e oco, penso o impacto:
um lado esquerdo do meu corpo fica destruído 
e nenhum direito preservado.


Antônio B.

RESSACA

O sujeito não se adapta, 
patético emociona.
Sofre o lado sombrio do desejo,
anseia a ilusão prometida.
O sujeito padece diante do muro
onde as sombras projetam horas infinitamente iguais.
Sujeito à distração,
o sujeito anestesia a alma encontrada perdida.
O sujeito pensa dinheiro e segue para o trabalho que o re-signifique.

Antônio B.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

CRÔNICA DE VIAGEM: O MENINO E O LEITEIRO

Quando criança
brincava sozinho, brincava
sem saber que todas as crianças
brincam sozinhas.

Esta criança desenhava,
desenhando brincava de desdenhar tudo
porque tudo lhe parecia ser a última vez.

No chão imaginado
esticava a linha de um território gigante
tão grande que ia do muro à rua
e dali até as casas para depois delas inventar a cidade.

O circulo depois, depois do circulo
o circulo engolia a estrada, o campo e as vilas.
A linha estendida cobria a estrada imaginada,
pontilhava a terra saída do chão e os mourões agora caiados de branco.

Tudo era desapropriado.

Nada machucava a criança que era um menino
um menino que tinha estrelas mágicas na ponta dos dedos.

O circulo é mágico porque tem poderes sobrenaturais,
mas isso é segredo que não se conta nem para as formigas.
As rosas sabem porque ouviram dos enormes pés de couve que têm vida curta.
Não se pode confiar em quem vive tão pouco.

As estrelas que brilham na ponta dos dedos
Iluminam o circulo por dentro, iluminam o desenho, iluminam o menino que vive no escuro, iluminam tudo.
As estrelas migram da ponta dos dedos
e toda noite bordam no céu uma lindeza.

As matas fechadas sobre o caminhão do leiteiro
acordaram cedo, as matas nunca dormem.
O caminhão dorme motor desligado, toda gente dorme.
Fora do circulo, só o leiteiro surpreenderia.

De fora do circulo inventado de mentirinha
o menino brinca de inventar sozinho.

O leiteiro diz bom dia, será que ele nos via?

Entre os enormes galões de leite fresco,
na boleia do espaço nave, dentro do circulo gigante
tudo ficava tranquilo do lado de fora.

Mas o leiteiro disse bom dia,
ele desfaz o circulo e as linhas quando diz bom dia.
O leiteiro se mostra sorrindo antes de tomar a direção
e olha dentro dos olhos do menino.

O leiteiro parece mesmo ter dito bom dia.

O leiteiro faz tudo sem esforço mas não tem pernas.
Vai conduzir o caminhão e toda gente segura lá no alto.
Ele levanta do chão seu corpo mutilado para dentro da cabine.

É verdade,
o leiteiro motorista sem pernas sorri para o menino
e dirige e o leva para fora do circulo.


Antônio B.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

DEPOIS DE MORTO

Outro dia, eu morri. É verdade. Ou, pelo menos quase.
Esse quase é verdadeiro porque eu não minto.
É da altura desmedida dos anos já vividos que afirmo
certo de que outro dia eu morri: a coisa toda é destino, acidente.
Sua vida pode ser apenas um caso contado, um conto onde não se encontra culpa
mas enredos e versões, impressões e desvãos, visões narrativas
para o como ou o quando do ocorrido.
Ou,
polindo os dados,
porque morri, vou inventar maneira de delongar certo estado de espírito.
O que mais faria, é um fato ter morrido. E depois, desencarnei tantas vezes nessa vida
que ainda sigo espantado, assim emendado pedaço em pedaço.
Vou contar mas antes advirto, componho versos para me distrair somente.
Narro mentindo, descobrindo o desnecessário afirmo um qualquer de verdade.
O destino é mesmo um acidente inevitável.
O destino são rasuras no passado, são como as linhas de um rosto que já foi conhecido.
O destino está nos traços de qualquer rosto desfigurado e desconhecido.
***
Já na curva distraído eu pensava:
metade de um homem é o conjunto das palavras que aprendeu,
a outra metade dele, a sóbria, é silêncio. A mão cega do destino parou o tempo e eu cai.
Depois da queda, o sangue. E depois do sangue
o oco branco do osso, escarnio vivo de lenho aberto, me sorriu.
Caído no chão sem retórica e auxílio, acordei assustado.
O silêncio tinha engolido o vocabulário, comido quase tudo.
***
No chão, acordei para a eternidade vazia e faminta.
Desamparado no meio, no entre. Acordei no frio com medo no ventre visto por dentro.
Nascendo ao contrário, do outro lado a engrenagem rolava sobre o horizonte.
A eternidade rolava sobre o inteiro de tudo que se partia.
Na dor a consciência percebe o fim.
Ao invés de recomeço, a vida sem bandagens, sem liames ou vínculos.
Nenhum véu a cobrir o mistério sobre os véus a cobrirem os mistérios.
Depois da morte não há luz ou fantasia de qualquer duração.
Não há nada depois da ultima dor,
apenas o desejo de ser outro eu mais uma vez.
Morrer é um interminável grito sem gesto, a vida é uma boca faminta.
Uma boca faminta que devora a sorte de sermos animados,
boca que devora até morte. Imensa boca d’água engole tudo.
***
Dito aquilo, escrevo isto e canto distraído um saber antigo.
Uma verdade qualquer embrulhada no instante.
É o motor nas trevas do mundo.
Tudo que em mim parece é fome, insaciável pereço.
Apressa o medo meu fim.
***
Minha distração nesse perigoso mar de ruídos
cortantes e ondas contínuas tem sido distinguir
no som das palavras unidas ao reboliço dos ares
a lira soando harmoniosa e constante.
É o fogo fátuo das ideias e dos planos,
das cadeias fugidias e imagens desencadeadas pelo atrito das impressões.
Assim deslizo míope louvando a inobservância na vigília
e a distração saborosa no excesso de zelo.

Isso é um resumo instável, um esqueleto metálico.
É um poema maltratado,  uma distração obsessiva.
É a rigidez do plano desde a rua até os acentos mais nobres.

Verbos amputados alimentam pausas desnutridas,
polir superfícies repisadas tem sido minha distração.

Imaterial inverso.
No limite, a vida suportável nos ciclos de viés notada.
Sem cor. Osso, por exemplo: palavra gasta, fraturada e engessada, cravada noutra palavra tala ou cova
e logo se torna palavra mortalha para num átimo,
renascida em trapo, dar-se elegante e renovada
drapeada leitura.

Minha distração, depois de morto, tem sido o hábito de polir.
Fazer tinir no metal o ruído constante, reboliço dos ares .
***
Subcutânea razão, vazio sem olhos, a boca engrenagem faminta
outra carne se ergue da estilhaçada pela dor.
***
Também eu tenho sido distração para sombras.
Julgo ocultar o cansaço vestindo o meio dia.
Para esconder o desejo mais simples, revisto o desnudo
porque o medo se move nas trevas deste mundo
e a completa solidão é o fim do fôlego dentro de um grito
na agonia que mais ninguém vê.

Antônio B.

AMABILÍSSIMO

onde está o próximo, o distante onde fica? a cabeça oca e o coração no cio de toda gente estão vazios. finjo fugir da forma ana...