quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O AMOR ACONTECE

A morte está em promoção, 
morre-se de graça.
Tememos o que é natural 
e nos apegamos ao descartável. 

O amor acontece, 
dura a eternidade de um suspiro.

Antônio B.

DEPOIS EU CONTA


Não falo por ele. Leia, ele diria
"saio ao sol e desço a rua à espera
do vizinho". Não, por ele eu não falo.
Ele come, ele bebe e fuma.
Ele é quando eu não estou.
É ele quem chora sem medo
presente no abandono que é seu tanto. Não falo por ele, embora
Não pergunto e não responto. Ele diz que viver é arte, a habilidade de olhar o assombro de lado e nunca de frente.
Ele vive, eu não sou.
Eu respiro entre pautas de limbo,
o narrado. Não falo por ele.
Ele bebe, ele come.
Ele escreve e depois eu conta.
Depois eu narra ele depois.
Agora não, agora sim.
Talvez agora.
Agora talvez depois eu conta.
Ele depois, depois e depois.

Antônio B.

TUDO ERA UMA VEZ


No início era o caos,
o caos e um poeta. 
Uma vez, tudo era perfeito.

Mas o poeta, embriagado
de não fazer contas do que sentia,
pôs-se a sonhar com ninfas a banharem-se nas ondas azuis do mar; um azul que ainda não existia.

Sonhou ninfas, sonhou estrelas marinhas. Sonhou água viva, amaria tanto... Tudo se faria.

Perguntava ao mar, perguntava à lua:
- onde anda meu amado, estará perdido em poesia?

Foi então que o poeta
embrutecido de não saber amar, ordenou versos e ergueu estruturas onde antes tudo era uma vez...

Onde não havia par criou rima, inventou métrica sem margens
para a alegria. Onde antes tudo era perfeito, agora nada mais cabia.

Com o tempo,
perdeu-se na poesia
o poeta esquecido nas ondas do mar.
Esquecido do azul, esqueceu tambem das ninfas nos seus sonhos.
Esqueceu-se do início
e foi viver de criar um mundo
que não queria.

Antônio B.

SOBRE EMOÇÃO E ARTE

Tenho por mim que a expressão do sentimento, ou a impossibilidade e impotência de lidar com as emoções... A expressão em toda forma de arte (poesia) é, entre outros modos de olhar, o desenvolvimento das habilidades de enfrentamento diante das perdas, do medo e da consciência de que somos mesmo nada diante da vastidão e isolamento no mundo.

Antônio B.

METALINGUAGENS

,
Um poema pronto não tem fome,
para o poeta eh poema morto.
Para o leitor atento, o poema 
será sempre organismo vivo
que na leitura pede complemento.
Sedenta e faminta será sempre
a poesia.

Antonio B.

CEM METÁFORAS PARA O ZIKA



Assistindo os telejornais, me sinto preso num zoológico. A televisão "me deixou burro demais". Vejo-me coadjuvante numa reprise de A REVOLTA DA VACINA feita pela Record.

Cazuza traduziria assim, isso tudo eh um "museu de grandes novidades".
Poucos estão atentos, todos estão envolvidos...

ZIKA era apenas gíria na esquina da favela, agora é grito de guerra da OMS. A palavra reconhece seus domínios.

Temos um sistema de controle para as eleições que é o mais seguro do mundo mas não serve para os americanos que deram largada à corrida presidencial esta semana no coração da América do norte.

Aqui, no sul entre os trópicos, a História se repete sem fim ou belo horizonte.

Frente a esse filme colorizado, essa farsa do original clássico dos anos 30, resta ao espectador cronista que fecha "cem anos de solidão" a certeza de que o furacão tem força para destroçar qualquer capital.
( continua...)

Antônio B.

DO MELHOR JEITO



A ciranda começa no clichê, o tempo passa sem darmos por isso. Fico ausente quinze dias e quando retorno Eduarda se casou, Cristina teve um filho e a mãe do Marco separou-se do marido porque se encantou com Manuel Augusto recém chegado de Lisboa. 

Marcelo trabalha na c.o.c.a.p.e.c. e foi lá que conheceu Eduarda, moça inteligente que faz Direito e pretende advogar para resolver os problemas do mundo. O pai do Marco resolveu viajar e agora manda postais da França; nas fotos está sempre ao lado do mesmo rapaz e dizem que ele nunca esteve tão bem. O pai do filho da Cristina, o Henrique, é homem de juízo que já abriu poupança para garantir a educação e o futuro a quem chegou ao mundo sem pedir licença. Se casaram, é verdade mas, soube isso por ele, esperariam mais que os seis anos de namoro se o método preservativo tivesse funcionado. Sabe como é (ele diz e dá uma piscadinha) amanhã acordo bem cedo e volto pro trabalho.

Hoje é feriado. A padaria fica nesse quarteirão, tomo meu café olhando nos olhos do português. Bebo com mais gosto as palavras que saem da boca e da língua portuguesa dele.

Medindo a velocidade com que tudo passa, acredito na força do clichê. A mãe do Marco me atende num longo abraço, sei que vai quase chorar. Sei que vou repetir pra ela, antes mesmo de deixar seu colo, mais uma verdade canonizada.

A vida se resolve sempre do melhor jeito, amiga.



Antonio B.

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...