terça-feira, 3 de novembro de 2015

CULTURA BOLHA DE SABÃO


baila tonta dança no vazio
flutua no palco, pisa na lua
cora feliz a menina bailarina 
tão pequena, avança no tempo.
estica os braços, folia na rua
quase zonza aponta o nariz
tão leve baila brinca rodopia
oca no azul das asas do vento.

Antônio B.

LAGAR PISADO


Homens são como vinho
há os de procedência calculável,
os baratos populares e os raros nunca disponíveis. 
O melhor vinho será sempre aquele que ainda não foi tocado,
o homem da mais alta estirpe aquele que a vida experimentou.

Homens e vinhos, dizem os mitos, têm origem no barro.
Erguidos no chão, estendem sobre a terra domínios.
A maturação em comum pede tempo,
o menino no homem também.
Homens e vinhos guardam semelhanças,
nada os distingue melhor que o olfato.
Quando notas do caráter são aspiradas e repousam no palato nota-se a grandeza encorpada seja vinho seja homem.

Do vinho a boca diz: é saboroso, ácido,
denso incomparável, licoroso digestivo.
Para o homem, a mesma boca recua “temperança”.
Que é o mesmo que perceber o tempo
na superfície do que sejam homens e vinhos.

Para um homem nunca se diz é inteiro
onde melhor seria dizer é íntegro.
Vinho de pronúncia acentuada é homem seguro,
certo no próprio silêncio.
Pois que são frutos da mesma espera:
no bago da uva, o ácido tinto vermelho contido
e na criança expectante, o silêncio opaco da pronuncia madura.

Eu não fabrico vinhos, vinhas eu não cultivo.
Eu nunca tive parreira que cobrisse meus dias de teto céu aberto.
Mas quando penso, é como se estocasse o bom vinho em toneis de carvalho no salão escuro de uma adega ancestral guardada do lado de fora por uma fogueira que nunca se apaga. Nunca se apaga, que não mais coubesse homem e vinho, por toda parte pinturas rupestres.

Sei dos homens meus vizinhos,
parreiras estendidas às margens desse caminho.
Comunicamos esta linguagem de gavinhas cegas
que buscam o sol e o que dizemos é sem o dizer que o entendemos.
Se bebe, vede o vinho entorpecer a língua.
Fala muda que enuncia.
A nota mais que aguda é dissabor, pois que tudo perece.

A nobre arte /
fazer do chão a melhor terra
na terra a melhor videira, parreira das melhores uvas
dali o melhor vinho, o melhor dos homens
homem no silêncio do homem, lagar pisado
/ de beber o que se plantou.

Antônio B.
O INVENTÁRIO 
Tudo que era teu é meu, eu que nunca tive nada, eu que não tinha ninguém. Guardo tudo inventariado. O que tinhas colecionado, comprado, guardado, herdado, guardo tudo que não há. Cada coisa parecia viva e tinha um bordado, um entalhe, pedraria, marca cristal bisotado. Madeira polida, madeira de lei. Madeira zelada por anos levada pelos quartos dos palácios onde reinastes. A madeira torneada da mesa mineira, as elegantes portas magras imperiais. No alto, sobre o mais alto dos guarda roupas, florais gavinhas confirmavam a realeza do sonho de um dia receber-me para fazer-te rei. Eras meu, eu de quem nem sei. Reinavas em tudo que possuías e eras meu.
Antes de ti, meu reino era pradaria estendida a perder a vista. Era aventura plana onde seguros cantavam colibris, rolinhas, pardais e bem-te-vis. Não haviam os quero-quero, não haviam as montanhas íngremes do oriente nem o degelo dos polos. Não haviam os picos por escalar nem as corredeiras geladas e selvagens que guardam os saltos mais belos e ousados do salmão. Meu reino era um serrado, ao meio dividido por córregos meninos que desciam das serras todos os dias de manhã. Eu brincava de viver sonhando ser da realeza de um condado desconhecido onde o rei assobiaria canções para todo o povo da terra e saberia guardar os talheres de prata herdados da sua mãe.
De todo o inventário, a lembrança que me acorda é um grito, um grito que sai de sobre mesa. A mesa de jantar, a mesa da varanda dentro da varanda na memória recontada que era de outra rainha e noutra história também minha. A mesa mineira da varanda construída para mim com seus dois pilares de sustentação erguendo asas punhos de Atlas e calcanhares de Aquiles, nosso sonho. Tudo que era teu era meu, tudo um sonho. A mesa posta, a mesa forrada, adornada, imponente cercada pela presença das cadeiras vazias. Tudo era e nada tenho. Ficou o nada, nada temos e tudo ainda nos pertence porque fica aqui mais do que posso inventariado. Resta a majestade do semblante e o orgulho simples de ter plantado com as próprias mãos o frescor de muitas rosas. Resta o grito que me alcança, o serrado vazio, o reino desfeito.
Hoje caminho entre rios secos, fontes esquecidas. Caminho entre árvores queimadas sobreviventes que brotam sem saber do reino, da realeza e do semblante nobre que um dia foi coberto de manto violeta. Caminho entre as serras que foram descobertas, exploradas e devastadas. Caminho à espera da chuva bendita que restitua a magia ao sonho dos enxovais gastos.
Baltazar

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...