quinta-feira, 1 de outubro de 2015

DORMIR PARA ACORDAR


onde está a poesia
na intenção de quem escreve
ou no gesto de quem sobrevive?
na agonia, no riso
no muro ou na flor?
no chão, as flores do jasmineiro apodrecem
e no calor da tarde exalam o melhor do seu perfume - e daí?
isso não responde a pergunta "onde está a poesia".
o muro é velho, tem rachaduras e desbota
o que isso diz sobre a vida ou a vida do homem
ou a vida da palavra escrita?
onde está a poesia?
que seja dito, a pergunta não vale a pena
se estarão esquecidos poema, poeta e muro num segundo
como a flor amarela daquela árvore no meio do jardim
apesar do seu perfume
apesar disso,
daquilo
e tudo
a vida anda zonza
de tão informada e quase mais nada conta
ou vale.
a pergunta gira, gira
sobre o muro caiado que resiste rimando vizinhos:
porque escrever poesia? onde está a poesia?
eu não devia, respondo eu
eu, que não me encontro e nunca acerto o tom
eu que não espero admissão e continuo teimando
fiel à mim que nem sabe quem seja
entupido quase enfartando, digerindo mal escrevendo
aceitando que é vida esse gerúndio que não acaba, respondo
pedindo no meu gesto de figueira estéril: ata-me, forte.
pode ser que eu desista e nunca bata em porta alguma
se não tenho mais vontade de entrar.
Antônio B.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

a eternidade de um suspiro

a morte está 
em promoção, morre-se de graça
tememos o que é natural e nos apegamos ao descartável. 

o amor acontece, dura a eternidade de um suspiro.

Antônio B.

COISA SENTIDA


Falaram-me dos mistérios,
notícias de levitação.
Eu soube, e foi de ouvir falar
do gozo oculto para os olhos
na agonia sentida numa falta extrema.

mistério-coisa calada para ouvido atento.

ouvi dizer que o mundo é esse deserto
que existe certo extenso fora  de mim
e tudo que sei é um não saber extremo
sede constante, dissabor abismo.

se pudesse, eu caminharia
e para dentro desse impossível
contornando o gozo e a agonia
palmo a palmo ergueria sobre o mistério dos sentidos
tua presença em cada coisa sentida.


Antônio B.

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...