sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MEMORIAL DA SÚPLICA - fragmento



Ouço o som que emana das árvores, das cascas podres das árvores, das sementes das árvores debaixo da terra. Penso que meus pensamentos são como sementes enterradas. 
Então sinto o peso da terra, o peso do pó e da terra.

Antônio B.

UMA PASSAGEM PARA O POMAR

I
Por um instante
maior que toda falta
à entrada do pomar
o pé ainda suspenso
no ato mesmo do primeiro passo,
a bocarra da eternidade revela-me os dentes de suas engrenagens.

Cuido de ser milagre e graça alcançada
mas desfaleço.

No fim do eterno passo
o que me resta é o chamado
da terra em minhas veias.
Então,
inclinado e de mãos igualmente pensas,
adentro o pomar
mudo como antes
quem sabia da terra por apenas cultivar.



II
Sou um jardineiro
meus pensamentos fogem  do alcance das palavras
penteio raízes, rastelo folhas secas
as folhas secas vigiadas pelo sabiá atento.

As sementes soterradas longe das copas
também escapam de qualquer alcance.

O sabiá espreita o verme cego que por desgraça emergiu do silêncio
enquanto alçam voo de gravidade penosa
o que pensei ter sido.

Nesse pomar
desenterro meus pensamentos
deitados, sobrepostos hieráticos na umidade
da cova pensada que por descaso fingido resvalo.

E de novo detém-me o passo
o pútrido cheiro de morte, escavo.

Um anjo monta guarda à entrada
de cimitarra em punho. Descalço os pés,
humanidade é pensamento em decomposição.
Invejo aquela ave que só faz cantar para comer
ensaiando longevidade, sucumbe  no brevíssimo canto do seu tempo.



III
Na superfície da descrença, na hora da angústia
assisto o verbo romper a semente.
Tingem minhas mãos o ocre da ferrugem
os íons das cores variadas do manganês
o dióxido hóspede na palavra bocarra
eternidade desdentada, engrenagem.


IV
O primeiro pensamento a custo desterrado
é forte e ingênuo como o primeiro amor
no invólucro ensimesmado não percebe o mundo
num instante encantado
noutro instante sucumbe ressequido.

O segundo é prepotente, vazio de nada ver
tudo pode e cego, aberto ao sol, fenece logo.

O terceiro pensamento desterrado nasce ferido mas não sangra
é matéria de outro reino, é gozo reprimido de seiva violada
pensamento fluído íntimo,ignoto
à luz despido sem pudor aceita a morte.


V

Retorno da escavação sem um motivo, um segundo se passara
todo o pomar está ao pé da minha sombra, é meio dia
o burburinho do vento nas copas ecoa o escárnio
de não pensar o pomar cemitério da paixão.


VI
O cheiro das frutas em decomposição alcança-me sitiado.

Vê ali, são as margens do campo gramado
depois dele, a perder de vista, o cerrado devastado
as casas também estão plantadas mas na cidade
entre as casas, o cerrado e o campo gramado há outros campos.

Tudo é uma só calçada
braço estendido que margeia pensamentos orvalhados
meu corpo que aguarda os vermes
o pomar caminhando para a morte.
sobretudo, o liame que nos sustente
o aroma da lima no vento
o das flores da laranjeira
do pessegueiro absoluto, ondas de outro mar.

A macadâmia ainda não floriu este ano.



VII
Ouço os vermes
emergem, descobrem pensamentos
os vermes são a constância no pomar
tudo o mais é falta
sobras no chão, frutos não colhidos

Piso na fome do mundo
no canto das araras, enfurecidas reclamam dieta
planto a sola dos pés, planto a palma da mão
piso sem vontade, sem peso nem pressa.


VIII

A solidão sempre acolhedora das jabuticabeiras enfileiradas
secas por dentro de seus troncos rachados
velam a última safra e segredam que valem a cova,
esperam o fogo que as purifique.


IX

As carambolas forram o chão de "vitamina” de “escorbuto”
a língua presa ao céu empobrecido das bocas
não soletra “laranja”, “banana”, “tomate”
recusam “abacate” por não reconhecerem o sabor de sua carne
no pomar a palavra nasce mordida
as árvores têm alturas diferentes  porque saídas de sons distintos


X

O pomar soma faltas, das frutas
das aves famintas, dos insetos
dos vermes cegos atentos.

A brisa recolhe o evangélico devaneio
como se acordasse, saio do pomar menor ainda
menor e ainda.

Quando olho para trás
com  medo de rever o Eterno à entrada do pomar
ainda penso "quero ser nada, algo sem presença ou lembrança"
e, então, de viés desconfio
entre os dentes, em agonia
na engrenagem dada à vista,
desabrochar o {[(pensamento)]}
novo dia.

Antônio B.

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