sábado, 8 de agosto de 2015

RIMA INFELIZ

"menos triste" é apenas
rima infeliz, como se
"mais feliz" já fosse
universo desencanto.


- todos foram dormir, para inventar o mundo foi preciso acordar cedo. 

PEDRO MALAZARTES E O MONSTRO DO RIO

Essa é minha homenagem ao nosso pai, homem de poucas palavras que um dia nos contou algumas histórias...

Dizia ele que Pedro Malazartes, o mais novo de três filhos, chegou ao pai e disse: Meus irmãos vão partir em busca de aventura e eu não quero deixar o senhor sozinho em casa. O pai de Pedro, sabendo que os filhos a gente cria para o mundo, sorriu e disse: Vá junto de seus irmãos, estarei aqui quando voltar.
Antes de o sol nascer, os três irmãos arrumaram a matula na trouxa que levariam e despediram-se do velho. Para cada beijo na face que recebia, o pai perguntava: Meu filho, você quer mais dinheiro ou mais benção. Os dois primeiros escolheram mais dinheiro e logo partiram apressados para ganhar no mundo as aventuras prometidas em seus sonhos. Chegou o mais novo bem perto do ouvido cansado do pai quando este lhe fez a mesma pergunta e respondeu: Pai, eu quero mais benção. E também partiu.
Como se os irmãos tivessem tanta pressa que salvariam uma donzela em perigo, desapareceram da vista. Malazartes seguiu outro caminho, sem pressa. Sozinho.
E aconteceram coisas maravilhosas no caminho de Pedro.
Malazartes salvou um formigueiro que seria inundado por um açude que rompia num dia chuvoso. Alimentou um cavalo em agonia de morte que tinha sido abandonado na densa floresta chamada Esquecimento. Tirou da rede esquecida, num córrego magro, um peixe que morria preso. E por fim, vestiu com suas próprias roupas um velho eremita que precisava se apresentar ao Rei na festa do casamento da filha princesa. Sem dinheiro e vestindo farrapos, Pedro Malazartes não quis entrar no vilarejo. Deu a volta e pegou o curso do rio numa velha balsa, sem destino e sem aventura.
Acontece que o Rei decidiu que daria a mão da princesa ao homem valente que conseguisse pescar e matar o monstro que habitava as águas escuras da profundeza daquele rio. O vilarejo estava vazio, todos os moradores estavam espectadores na outra margem para onde Pedro seguia inocente do perigo. À sua frente, numa enorme barca, seus irmãos armados de arpões se preparavam para o trono e por isso disputavam quem conseguiria matar o monstro. Quando Pedro percebeu a presença dos irmãos ali já era tarde, da escuridão lamacenta ergueu-se o leviatã e numa bocada engoliu a proa. Submergiu, na volta arremessou a enorme calda tridente sobre a barca e destroçou o resto dela. Pedro mergulhou para salvar os irmãos mesmo sabendo que morreria.
Na margem do rio, a turba delirava.
O mergulho de Pedro perdeu a força. Sem enxergar mais nada, esperou que o monstro também o devorasse. Quando a morte já o enlaçava com suas tranças de alga, aquele peixe que tinha sido salvo lhe apareceu e disse: Senhor, salvaste minha vida quando eu estava preso na rede e agora vem para me matar? E continuou: Não sou um monstro, mas quando saio d’água apareço daquele jeito para espantar os pescadores e proteger nosso reino. Como se o ar dos pulmões desse para apenas uma palavra, Pedro tentou sorrir. O Rei Peixe, aquele peixinho que parecia um monstro aos olhos dos ribeirinhos, decidiu o fim da história.
Um cardume sustentou Pedro na superfície do rio e, transformado em monstro, o peixinho permitiu que o povo visse uma batalha encenada. Da margem, o Rei via o mais valente dos homens girar o monstro pela calda para em seguida jogá-lo bem distante. Quando o mesmo cardume conduziu Pedro até a margem levitando à flor d'água, milhares de formigas o cobriram com minúsculas folhas e flores de madressilva. E quando Pedro finalmente pisou em terra firme, a princesa se agitava de alegria porque via o homem mais bonito que nunca imaginara. Eufórica, ela dizia: Sim, com ele eu me caso! O velho eremita celebrou o casamento e os noivos partiram no dia seguinte montados num alazão branco que apareceu, misteriosamente, com as primeiras luzes da aurora.
E foi assim que Pedro Malazartes regressou para sua casa, para o abraço do seu velho: casado, rico e cheio de bênçãos para cobrir os últimos dias do pai com alegria.
Antônio B.

FÁBULAS ITALIANAS - de Ítalo Calvino


FÁBULAS ITALIANAS
Ítalo Calvino – tradução Nilson Moulin
São Paulo: Companhia das Letras, 1995 – quarta reimpressão – 454 páginas.


Agora que o livro acabou posso dizer que não foi uma alucinação, uma espécie de doença profissional. Tratou-se de uma confirmação de algo que já sabia desde o início, aquela única convicção que me arrastava para a viagem entre as fábulas. E penso que seja isso: as fábulas são verdadeiras. Ítalo Calvino (in, Fábulas Italianas – pg.14).


O escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), recebeu como incumbência de seu editor uma antologia dos contos e fábulas italianas a exemplo das coletâneas alemã (Contos dos Irmãos Grimm) e francesa (Contos de Perrault). No tempo em que se dedicou a essa tarefa o autor percebe que além do seu valor simbólico e na riqueza das fantasias nele contida o conto possuía a capacidade de descrever em poucas palavras as situações mais bizarras e impraticáveis, traduzindo dessa forma econômica um grande potencial narrativo. Esse estilo acabou sendo incorporado em seu próprio estilo literário e em seus livros subsequentes (As cidades invisíveis, O visconde partido ao meio, O castelo dos destinos cruzados).
São oitenta e dois contos que exploram as lendas locais, as lembranças históricas, as narrativas ligadas à tradição oral, pacientemente resgatadas através do método de transcrição popular da própria boca do povo, Calvino sustenta que “a novela vale por aquilo que nela tece e volta a tecer quem a reproduz, por aquele tanto de novo que a ela se agrega ao passar de boca em boca”, decidindo interferir na confecção dos contos suavizando a carga de sensualidade que aparecia em muitos deles, pensando no público infantil que poderia ser beneficiado pela leitura dessas fábulas, afinal como era costume da tradição oral os contos não eram necessariamente destinados às crianças, a chamada narrativa de maravilhas era a expressão plena das necessidades poéticas e sentimentos de truculência, torpeza e toda sorte de perversidades fazem parte dessas estórias.
Os próprios títulos evocam essa singularidade (A menina vendida com as peras, O menino no saco, O braço de morto, Corcunda, manca e de pescoço curto,...), a picardia, a leveza e o humor são facilmente percebidos o que tornam esses contos tão particulares e apaixonantes, aproximando a nossa alma latina daquele pedaço de mundo onde temos tantas raízes culturais comuns, evocando em nós uma atmosfera conhecida e caseira (Jesus e São Pedro na Sicília, O filho do mercador de Milão, Chico Pedroso, O ofício de Francisquinho,...).
O próprio autor registra a sua experiência após esse trabalho: “Durante dois anos vivi entre bosques e palácios encantados, com o problema de como observar melhor o rosto da bela desconhecida que se deita todas as noites ao lado do belo cavaleiro, ou na dúvida entre usar manto que torna invisível ou a patinha de formiga, a pena de águia e a unha de leão que servem para transformar pessoas em animais. E nesses dois anos, pouco a pouco, o mundo ao meu redor ia se adaptando àquele clima, àquela lógica, todo fato se prestava a ser interpretado e resolvido em termos de metamorfoses e encantamentos”. Justificando o fato que perpetua a procura desse gênero desde sempre os contos, as fábulas, as aventuras maravilhosas nos tornam mais humanos e possibilitam a liberdade e ao triunfo através de conquistas de valores ético morais estruturantes e, absolutamente necessários.

José Carlos Neves Machado

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

BAIÃO DE 2 –Oliveirantonio


luz penumbrosa dos sentimentos
fonte luminosa dos pensamentos
São elfos, música perfusa


 são elos, poesia difusa
Contornam a luz, rodeiam a fonte



halo, esfera

CONTRATO


Caro leitor, personagem assinante!
Tens em mãos contrato de autenticidade.
Pois leia atentamente e em tudo creia.
...
O pressuposto ardil do fingimento
no arranjo da composição de um poema
não pode ser fabrico menos inteligente:
leia
(entre fala, invenção
das linhas intenções,
vista) e assine. Sê poeta se acreditas!
Na escrita apresente-se,
cada quem sobrevive como pode.


Antônio B.

SORTE NO AMOR

sorte mesmo
é ver o mar na chuva
volver a ti sem lágrima
e jurar fidelidade domingo de manhã.


Antônio B.

L'AMORE È UN MISTERO


i misteri devono essere desiderio
reminiscenze diluita... nella luce interrotto!
l'ultima rivelazione d'amore, annunci ...
...
trasfigurato parola, la carne e il tempo.
il mistero è e non essendoci
flagellare inesorabile, dolor ... deposti sapere!
transustanzia estasi, di post inglorioso


Antonio B.

SIDARTA - Eu recontA Hermann Hesse


Depois de atravessarem para a outra margem, o balseiro se despediu desejando à Govinda paz no caminho. Govinda atrasou o passo, o rio estava em silencio. A mão suspensa na direção do balseiro estremeceu: era Sidarta!
Ali, sentado à sua frente, o balseiro que o atravessara duas vezes o rio era o homem que procurava há muitos anos. Sidarta, seu senhor e amigo.
...
Por medo Govinda não o abraçou, não disse uma palavra. Certamente o príncipe não o reconhecera depois de tantos anos. Então, aproximou-se e pediu que o balseiro beijasse sua testa. Faça isso e sigo meu caminho, teria dito Govinda.
O balseiro assim o fez, colou seus lábios na testa do outro e beijou-o.
Quando abriu os olhos, Govinda teve a impressão de ver sobre a face iluminada deste Balseiro um véu translucido em movimento: era a pele do rio, liquida superfície onde quietas vozes profundas e ancestrais se multiplicavam - a face de Sidarta. Os sentidos de Govinda o enganavam, não via mais um rosto onde antes havia o rosto de um velho balseiro. Via um menino triste que pedia ajuda com olhos de esperança. Via uma prostituta sorriando maliciosa e escondendo o medo da solidão. Um pai chorava a morte da filha, uma mãe tremia de felicidade com a filha recém-nascida nos braços. Um mendigo agradecia o prato de comida, um rei perdoava sentença de morte. Via o transexual humilhado, via a mulher traída. O marido ciumento, a noiva abandonada, via sangue nos olhos do assassino e doçura no desejo dos amantes. Via clemencia, terror e medo.
Govinda percebeu que não respirava e emergiu, pensou que as lágrimas turvavam sua visão. Secou os olhos e de novo mirou a face do balseiro. O véu se movia e debaixo da face líquida uma infinidade de outros rostos compunha uma face disforme e harmônica que era ao mesmo tempo um e todos.
Govinda percebeu que Sidarta havia finalmente encontrado a iluminação e desejou ficar com ele deste lado do rio. Quando abriu a boca para dizê-lo, as palavras turvaram a superfície cristalina do rosto do balseiro antes mesmo de serem proferidas. Então, Govinda afastou um passou, baixou a mão e curvou a cabeça. Seu coração era do tamanho do mundo. Sentiu um aperto na alma como se fosse abraço de pai. Sentiu que precisava caminhar. Percebeu que o mundo, como ele, também não tinha abrigo, braços que o abraçasse ou casa para descansar.
Com os olhos perdidos na doçura que emanava do amigo, Govinda baixou-se até o chão. Curvou-se numa dobra que o fez menor e beijou os pés de Sidarta.
Decidido, Govinda partiu. Entrou na mata onde o rio faz uma curva.


Antônio B.

BISPAR - para Helena, para Ferreira.


Depois de ler o poema “insônia”
descobri porque avistei longe
a grandez’angular do poeta.

(na verdade lobriguei e entrevi, furtado
o sentido da primeira leitura, surripiei
roubei dos dicionários uma das verdades
quando a forma no tabuleiro apreciavas)

Espiei, observastes bem: o poema iludiu-nos!
Bispo e dama, na diagonal das casas, paralisados
éramos verbo desde o substantivo movimento.
Uma leitura será algo como dar o fora,
escapar-se no jogo.


Antônio B.

CRÔNICA MARCIANA, QUASE POESIA *


A cidade corre devastada sonhando que sonha acordada
e o homem perigoso nas ruas devastadas da cidade devastada
sonha acordado buscando desesperadamente saltar o abismo.
...
Ou me engano, a vida replica e a arte subverte
mas o que protege Estocolmo é redoma de vidro.
Rio, Beirute, Gaza, Fortaleza tanto faz como se fez
qualquer lugar é mais seguro que lugar algum.
Nas ruas devastadas da cidade devastada
sonha acordado o homem que sonha não correr perigo.
No sonho destes desacordados a ilha suspensa resplandece,
e draga um por um, sonâmbulos de Fahrenheit 451.
Borges sentiu a alma cortada de terror e medo, habitada de solidão
Hoje, mais uma nova Nova Jerusalém rodopia equatorial de frente para o mar
e dá as costas para o continente enquanto neva paz miniatura
e estilhaços sobre Copacabana.


Antônio B.

* CRÔNICAS MARCIANAS é um livro de contos de ficção científica do escritor estadunidense Ray Bradbury cujo tema recorrente é a colonização de Marte por humanos com problemas e eventualmente vindos de uma Terra sob a iminência de ser devastada. Borges fez o prefácio da edição espanhola de 1950.

USO


Sou abusado,
gosto da palavra
língua lambuzada  
na saliva de outras pessoas.



Antonio B.

HALO DE POESIA, ESFERA


Vejo por toda parte um halo de poesia
surpreende vasta e mínima, também oculta
está no escuro ventre seco surdo da semente...
também na língua ávida e muda
está nas linhas de expressão, no canto dos olhos
na palma nua da tua mão quando
úmida tocavas minha nuca
aproximando dos lábios nosso beijo.

São elos, poesia difusa
rodeiam a fonte luminosa dos pensamentos
aura que faz da criança travessa anjo de luz
do pintor exausto gênio ativo
e do escritor, entre prateleiras esquecido, amante
bêbado da linguagem alheia
refração da luz na bruma suspensa, a poesia faz da água
viva água ardente.
Mas há em mim um duelo
sorte mesmo é ver o mar na chuva
volver a ti sem lágrima
jurar fidelidade domingo de manhã
ouvir-te acenando a dizer “não esquecerei a ti jamais”
Anelo, derramo
para que seja sempre e para tantos
que não falte distração e vaidade
não basta cobrir o fundo vazio do vaso com boa lama
perfeito, sem ornamento seja
pois não direi “é o amor” para tão somente chegar ao verso egoísta
que sem estar presente fico, tudo é verdade.
Miro olhar alta esfera, na poeira meus pés
no escuro da semente meus pés
aos pés da criança travessa vestida de luz a tela do pintor exausto
nas prateleiras e nos livros, miragens.
Ao destinatário bêbado
o endereço esquecido da linguagem ausente
no lugar que foi teu, gira uma esfera:
impiedosa comprime, rigorosa liberta

Antônio B.

ACÚMULO


Existe uma fina camada de ausência
inominável em cada coisa que existe.
Tão sublime quanto imperceptível,
reveste, permeia e dá continuidade
aos entes nunca, mesmo distantes,
isolados.


Tal ausência motiva a vida,
breve candura da açucena.
Fenece radiante e solitária
sem que vejamos na terra
os bulbos da próxima amarílis.

Breve ausência permanente
em cada objeto, a falta anima
o seixo no leito do rio desde
o pico extremo da montanha
como se a sombra do mundo
só desejasse sedimentar-se
estendida na praia distante.

E, no longo percurso de retornar,
a soma das ínfimas partículas
encontra seu lugar na sombra
do que foi aquela montanha.
Assim, o seixo cumula ausências
e mata a fome do peixe
enquanto a água mata
no homem a fome.

Porque na pele esticada
do rosto da criança que chora
a face da fome é o mesmo desejo
de não ser. Ausência intransponível
de fina camada inominável leito rio
peixe seixo, montanha homem
e silêncio.


Antônio B.

CONTO CURTO


Saltei do ônibus, dei de cara com o velho. Na fila para o bilhete, indiferente logo atrás de mim.
Depois no metro.
A multidão, saltamos para a Estação da Sé. ...
Dos últimos degraus da escada rolante via-se, como luzia, o primeiro sol na abóbada da catedral metropolitana de São Paulo.
Quando entrei na igreja, quase junto dele, vi os olhos tristes.
Eram tristes olhos de um jovem envelhecido, carregava mala pequena e vestia pano de chão surrado no lugar da pele do velho que antes eu não tinha visto.
Sobretudo, vestia jeans.
Depois que rezou perguntei, porque chorava? E soube, a mãe morrera enquanto fugia da seca.
Não a verei morta, nunca mais o vi.



Antônio B.

 (colagem sobre "enterro na rede", de Portinari)

ONDE FICA?


A MORTE E AS MORTES INVENTADAS DE JOSÉ


 PARTE UM – AFÉLIO (*)
 
 
Antes de existir a Terra, o Sol já existia. E antes do Sol não havia nenhuma história para se contar. As estrelas pontuavam os cantos do universo e faziam ciranda em silêncio. Tudo era eterno no mais calado e profundo ermo jamais pensado. Foi justamente a solidão, sentida como dor de parto, a força que engendrou o Sol na ciranda das estrelas vazias de tempo. Quem me contou essa primeira história inventada foi uma estrela anciã que morria. Enquanto apagava, engasgada na pouca luz que emitia, aconselhou-me que observasse a vida breve dos corpos celestes, disse que ali encontraria consolo para minha também curta permanência. Venho, pois, de rondar a Terra e passear por ela desde então. Ilumino para ver nela a vida alimentar-se de outras vidas. Os homens viviam na escuridão e por isso tinham medo. O medo os fizera investir destemidos sobre o fogo, sobre as águas e as montanhas. Dominaram os elementos, dominaram os viventes que rastejam, dominaram os que voam e os que caminham, mas sucumbem à morte vagando. Há os que se perderam nas florestas longe daqui, criaram altares para fixar sua fé nalguma eternidade. Outros foram tão longe para encontrar abrigo que, sobre o gelo que cobre o oceano, também levantaram estátuas com a cara da morte para enganar a Morte.
Aqueles homens, não estes.
Para os do deserto a Morte ergue sua mão todo o tempo, desde as primeiras luzes da aurora até o crepúsculo. Ali estão os homens, pisam na areia cristais braseiro que cobrem a vastidão. Descrentes porque sabem seu destino, na terra peregrinam insepultos. Caminham em busca das nascentes, dos metais e de amores que lhes acrescentem alguma compaixão na brevíssima passagem. As histórias nascem desses mesmos desejos que os levam à guerra e a sujar as mãos no sangue dos fracos. Todas as histórias, essa é uma. Vou lhes contar o que vi no brilho verde de duas estrelas irmãs. As Mais belas esmeraldas jamais criadas, os olhos de Raquel. Neles, um poço tão profundo quanto cristalino, é o desejo dos homens ávidos de luz. Essa é a história de José, filho de Raquel. Ou a história das mortes inventadas de José.
 
 
Antônio B.
 
 
(*) A palavra “Afélio” vem do latim “aphelium” que é derivado de ”apos” que quer dizer longínquo. É o ponto da órbita em que um planeta ou um corpo menor do sistema está mais afastado do Sol. As órbitas de todos os planetas são sempre elípticas e têm um ponto mais afastado (afélio) e um ponto mais próximo (periélio) do "astro rei".

SOLIDÃO


A solidão é um carcinoma
benigno. Até que espalhe,
sua carne infeto pestilenta

nos habita silencioso, 
preenche e deixa vazio.




Antônio B.

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...