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Mostrando postagens de Agosto 2, 2015

RIMA INFELIZ

"menos triste" é apenas rima infeliz, como se "mais feliz" já fosse universo desencanto.

- todos foram dormir, para inventar o mundo foi preciso acordar cedo.

PEDRO MALAZARTES E O MONSTRO DO RIO

Essa é minha homenagem ao nosso pai, homem de poucas palavras que um dia nos contou algumas histórias...
Dizia ele que Pedro Malazartes, o mais novo de três filhos, chegou ao pai e disse: Meus irmãos vão partir em busca de aventura e eu não quero deixar o senhor sozinho em casa. O pai de Pedro, sabendo que os filhos a gente cria para o mundo, sorriu e disse: Vá junto de seus irmãos, estarei aqui quando voltar.
Antes de o sol nascer, os três irmãos arrumaram a matula na trouxa que levariam e despediram-se do velho. Para cada beijo na face que recebia, o pai perguntava: Meu filho, você quer mais dinheiro ou mais benção. Os dois primeiros escolheram mais dinheiro e logo partiram apressados para ganhar no mundo as aventuras prometidas em seus sonhos. Chegou o mais novo bem perto do ouvido cansado do pai quando este lhe fez a mesma pergunta e respondeu: Pai, eu quero mais benção. E também partiu.
Como se os irmãos tivessem tanta pressa que salvariam uma donzela em perigo, desapareceram da v…

FÁBULAS ITALIANAS - de Ítalo Calvino

FÁBULAS ITALIANAS Ítalo Calvino – tradução Nilson Moulin São Paulo: Companhia das Letras, 1995 – quarta reimpressão – 454 páginas.

Agora que o livro acabou posso dizer que não foi uma alucinação, uma espécie de doença profissional. Tratou-se de uma confirmação de algo que já sabia desde o início, aquela única convicção que me arrastava para a viagem entre as fábulas. E penso que seja isso: as fábulas são verdadeiras. Ítalo Calvino (in, Fábulas Italianas – pg.14).

O escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), recebeu como incumbência de seu editor uma antologia dos contos e fábulas italianas a exemplo das coletâneas alemã (Contos dos Irmãos Grimm) e francesa (Contos de Perrault). No tempo em que se dedicou a essa tarefa o autor percebe que além do seu valor simbólico e na riqueza das fantasias nele contida o conto possuía a capacidade de descrever em poucas palavras as situações mais bizarras e impraticáveis, traduzindo dessa forma econômica um grande potencial narrativo. Esse estilo a…

BAIÃO DE 2 –Oliveirantonio

luz penumbrosa dos sentimentos
fonte luminosa dos pensamentos
São elfos, música perfusa

 são elos, poesia difusa
Contornam a luz, rodeiam a fonte


halo, esfera

CONTRATO

Caro leitor, personagem assinante!
Tens em mãos contrato de autenticidade.
Pois leia atentamente e em tudo creia.
... O pressuposto ardil do fingimento
no arranjo da composição de um poema
não pode ser fabrico menos inteligente:
leia
(entre fala, invenção
das linhas intenções,
vista) e assine. Sê poeta se acreditas!
Na escrita apresente-se,
cada quem sobrevive como pode.


Antônio B.

SORTE NO AMOR

sorte mesmo
é ver o mar na chuva
volver a ti sem lágrima
e jurar fidelidade domingo de manhã.


Antônio B.

L'AMORE È UN MISTERO

i misteri devono essere desiderio
reminiscenze diluita... nella luce interrotto!
l'ultima rivelazione d'amore, annunci ...
... trasfigurato parola, la carne e il tempo.
il mistero è e non essendoci
flagellare inesorabile, dolor ... deposti sapere!
transustanzia estasi, di post inglorioso


Antonio B.

SIDARTA - Eu recontA Hermann Hesse

Depois de atravessarem para a outra margem, o balseiro se despediu desejando à Govinda paz no caminho. Govinda atrasou o passo, o rio estava em silencio. A mão suspensa na direção do balseiro estremeceu: era Sidarta!
Ali, sentado à sua frente, o balseiro que o atravessara duas vezes o rio era o homem que procurava há muitos anos. Sidarta, seu senhor e amigo.
... Por medo Govinda não o abraçou, não disse uma palavra. Certamente o príncipe não o reconhecera depois de tantos anos. Então, aproximou-se e pediu que o balseiro beijasse sua testa. Faça isso e sigo meu caminho, teria dito Govinda.
O balseiro assim o fez, colou seus lábios na testa do outro e beijou-o.
Quando abriu os olhos, Govinda teve a impressão de ver sobre a face iluminada deste Balseiro um véu translucido em movimento: era a pele do rio, liquida superfície onde quietas vozes profundas e ancestrais se multiplicavam - a face de Sidarta. Os sentidos de Govinda o enganavam, não via mais um rosto onde antes havia o ros…

BISPAR - para Helena, para Ferreira.

Depois de ler o poema “insônia”
descobri porque avistei longe
a grandez’angular do poeta.

(na verdade lobriguei e entrevi, furtado
o sentido da primeira leitura, surripiei
roubei dos dicionários uma das verdades
quando a forma no tabuleiro apreciavas)

Espiei, observastes bem: o poema iludiu-nos!
Bispo e dama, na diagonal das casas, paralisados
éramos verbo desde o substantivo movimento.
Uma leitura será algo como dar o fora,
escapar-se no jogo.


Antônio B.

CRÔNICA MARCIANA, QUASE POESIA *

A cidade corre devastada sonhando que sonha acordada
e o homem perigoso nas ruas devastadas da cidade devastada
sonha acordado buscando desesperadamente saltar o abismo.
... Ou me engano, a vida replica e a arte subverte
mas o que protege Estocolmo é redoma de vidro.
Rio, Beirute, Gaza, Fortaleza tanto faz como se fez
qualquer lugar é mais seguro que lugar algum.
Nas ruas devastadas da cidade devastada
sonha acordado o homem que sonha não correr perigo.
No sonho destes desacordados a ilha suspensa resplandece,
e draga um por um, sonâmbulos de Fahrenheit 451.
Borges sentiu a alma cortada de terror e medo, habitada de solidão
Hoje, mais uma nova Nova Jerusalém rodopia equatorial de frente para o mar
e dá as costas para o continente enquanto neva paz miniatura
e estilhaços sobre Copacabana.


Antônio B.

* CRÔNICAS MARCIANAS é um livro de contos de ficção científica do escritor estadunidense Ray Bradbury cujo tema recorrente é a colonização de Marte por humanos com problemas e …

SUMMERTIME

No quarto imenso dessa casa pequena
minha cama vazia parece um barco
tudo embaixo é o silencioso
tão escuro quanto improvável
terreno movediço, um charco.
Não sinto medo, os fantasma que espreitam
respeitosamente junto as sombras
fazem a melhor companhia. Acendo a luz para ouvir melhor
espanto as trevas acolhedoras
e penso que não foi boa ideia
apago o cigarro, apago a luz.
É quando ouço no fundo da madrugada
a voz de Aretha Franklin gravada nos idos de 70...
O canto é um lamento, pergunta sem resposta,
soa à essa hora como sentir saudade de um arco íris
num dia de chuva quando andávamos juntos.
Talvez a canção tenha sido tema de um filme
mas eu não me lembro qual.
Eu já não lembrava de nós,
não lembrava da alegria,
os acordes doeram em dobro.
Eu não tenho sido mais que a impressão sem cor
de uma voz gravada nos anos setenta. Vozes aveludadas veladas numa gaveta vazia,
Aretha é presença de amplitude modulada
variável enquanto se propaga sobre o charco.
O som dos metais ri de mim, o trompete, o sax
choro rouco…

USO

Sou abusado,
gosto da palavra
língua lambuzada  
na saliva de outras pessoas.



Antonio B.

HALO DE POESIA, ESFERA

Vejo por toda parte um halo de poesia
surpreende vasta e mínima, também oculta
está no escuro ventre seco surdo da semente...
também na língua ávida e muda
está nas linhas de expressão, no canto dos olhos
na palma nua da tua mão quando
úmida tocavas minha nuca
aproximando dos lábios nosso beijo.
São elos, poesia difusa
rodeiam a fonte luminosa dos pensamentos
aura que faz da criança travessa anjo de luz
do pintor exausto gênio ativo
e do escritor, entre prateleiras esquecido, amante
bêbado da linguagem alheia
refração da luz na bruma suspensa, a poesia faz da água
viva água ardente.
Mas há em mim um duelo
sorte mesmo é ver o mar na chuva
volver a ti sem lágrima
jurar fidelidade domingo de manhã
ouvir-te acenando a dizer “não esquecerei a ti jamais”
Anelo, derramo
para que seja sempre e para tantos
que não falte distração e vaidade
não basta cobrir o fundo vazio do vaso com boa lama
perfeito, sem ornamento seja
pois não direi “é o amor” para tão somente chegar ao verso egoí…

ACÚMULO

Existe uma fina camada de ausência
inominável em cada coisa que existe.
Tão sublime quanto imperceptível,
reveste, permeia e dá continuidade
aos entes nunca, mesmo distantes,
isolados.

Tal ausência motiva a vida,
breve candura da açucena.
Fenece radiante e solitária
sem que vejamos na terra
os bulbos da próxima amarílis.

Breve ausência permanente
em cada objeto, a falta anima
o seixo no leito do rio desde
o pico extremo da montanha
como se a sombra do mundo
só desejasse sedimentar-se
estendida na praia distante.

E, no longo percurso de retornar,
a soma das ínfimas partículas
encontra seu lugar na sombra
do que foi aquela montanha.
Assim, o seixo cumula ausências
e mata a fome do peixe
enquanto a água mata
no homem a fome.

Porque na pele esticada
do rosto da criança que chora
a face da fome é o mesmo desejo
de não ser. Ausência intransponível
de fina camada inominável leito rio
peixe seixo, montanha homem
e silêncio.


Antônio B.

CONTO CURTO

Saltei do ônibus, dei de cara com o velho. Na fila para o bilhete, indiferente logo atrás de mim.
Depois no metro.
A multidão, saltamos para a Estação da Sé. ...
Dos últimos degraus da escada rolante via-se, como luzia, o primeiro sol na abóbada da catedral metropolitana de São Paulo.
Quando entrei na igreja, quase junto dele, vi os olhos tristes.
Eram tristes olhos de um jovem envelhecido, carregava mala pequena e vestia pano de chão surrado no lugar da pele do velho que antes eu não tinha visto.
Sobretudo, vestia jeans.
Depois que rezou perguntei, porque chorava? E soube, a mãe morrera enquanto fugia da seca.
Não a verei morta, nunca mais o vi.


Antônio B.

 (colagem sobre "enterro na rede", de Portinari)

ONDE FICA?

A MORTE E AS MORTES INVENTADAS DE JOSÉ

PARTE UM – AFÉLIO (*)
Antes de existir a Terra, o Sol já existia. E antes do Sol não havia nenhuma história para se contar. As estrelas pontuavam os cantos do universo e faziam ciranda em silêncio. Tudo era eterno no mais calado e profundo ermo jamais pensado. Foi justamente a solidão, sentida como dor de parto, a força que engendrou o Sol na ciranda das estrelas vazias de tempo. Quem me contou essa primeira história inventada foi uma estrela anciã que morria. Enquanto apagava, engasgada na pouca luz que emitia, aconselhou-me que observasse a vida breve dos corpos celestes, disse que ali encontraria consolo para minha também curta permanência. Venho, pois, de rondar a Terra e passear por ela desde então. Ilumino para ver nela a vida alimentar-se de outras vidas. Os homens viviam na escuridão e por isso tinham medo. O medo os fizera investir destemidos sobre o fogo, sobre as águas e as montanhas. Dominaram os elementos, dominaram os viventes que rastejam, dominaram os que voam e os…

SOLIDÃO

A solidão é um carcinoma
benigno. Até que espalhe,
sua carne infeto pestilenta
nos habita silencioso, 
preenche e deixa vazio.



Antônio B.