quinta-feira, 7 de maio de 2015

1º DE MAIO


Estou chocado com uma cena que vi na rua, agora há pouco. Um garoto que deve ter uns 14 anos, bonito e saudável, empurrava um carrinho de picolé e, de tempos em tempos, apertava uma buzina anunciando que vendia PICOLÉS!
Que mundo é esse, meu Deus!!
...
Esse garoto deve perambular pelos bairros o dia todo sonhando com as moedas que vai receber... Vivemos tempos de completa inversão de valores: esse menino devia estar numa esquina, com mais um ou dois amigos, vendendo maconha, cocaína e crack mas NÃO... Não... Explorado por outro trabalhador, certamente obcecado por seu próprio negócio incluído no "simples", esboça um sorriso desconcertante para quem chega com sede e calor pedindo um picolé. Um picolé!
O que ganha esse coitado? Na biqueira venderia sem parar e muito, dia e noite. Fugiria da polícia brincando porque é "de menor". Faria amigos de verdade, irmãos, trutas. E ainda teria droga para uso quando e quanto quisesse... Mas não, lá estava ele vendendo PICOLÉ! Parei porque não podia seguir com esse pensamento:
- Quanto custa?
- Um real e vinte centavos, moço.
- Quero cinco picolés, quanto dá?
- Seis reais. Se levar dez ganha mais um...
- Levo dez.
Enquanto pegava o dinheiro da minha mão uma menina, da mesma idade dele, atravessou a rua e fez sinal com a mão direita cumprimentando-o. Seus olhos então brilharam e o sorriso bonito rasgou sua cara adolescente. Iluminado, como se administrasse fortuna incalculável, pegou o dinheiro, me agradeceu docemente e partiu levitando. Deslizavam no asfalto o carrinho de picolés e o menino homenficado.
Pobre coitado, pensei sozinho a caminho de casa sem mais ilusões.
Antônio B.

FELIZ ANIVERSÁRIO, ARIEL!


 Abri as portas, abri as janelas
o mês invadiu minha história.
Não como intruso, um ladrão...
ou avassalador temporal.

Abril, sem alarde chega ao fim.
Acena, de mansinho vai embora.

Mês quatro, anúncio de inverno:
a vida recolhe néctar e viço
projeta luz, fios dourados!

Ariel nasce estrela de brilho
eterno: na antiguidade fora
cidade palestina, em Shakespeare
personagem para “A tempestade”.

Substantivo epiceno, nome próprio!

Ariel grande mercador em Veneza,
Ariel mestre de armas na Bastilha.
Ariel ministro israelense, Ariel encanta
Ariel canta adonai, Ariel canta Shalon
Estrela de cinema, Ariel adolescente
Ariel mãe dedicada, esposa amorosa
Ariel lê Clarice, é a hora da estrela - filha amada!

Hoje abri as portas da minha história,
e recebi o dia trinta de abril com festa e louvor porque é seu aniversário!
O mês despede-se Irradiando vontade, cobrindo de ternura sua jornada!
Meu desejo eu canto: sejas dourada, cora minha
e, abençoada, continue fazendo nossa história.

do seu pai toninho, Antônio B.
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TUPI NO BARRO, OU NADA



 Trovador incansável, humanista renascido do inferno.
Clássico de quinhentos anos: cunha versos, coa café.
Arcade mineiro, romântico: caminha até à fonte e no caminho...
demora para sangrar a sola do pés porque adora.
Parnasiano ao relento cobre-se de flores deitado na grama da Vila Costina, guarda e conta rebanhos.
Moderno entusiasta dependente da fórmula “não quero saber” - tudo rotula bebendo cola, arrota cloaca e faz pose de warhol.
Manipula símbolos, especta dor.
De si diz pré, nunca pós e menos ainda “moderno”.
Contemporâneo, shakespeariano, palestino.
Católico de berço, evangélico por circunstância, exilado de capela.

Antônio B.

EDUARDO E HENRIQUE



 prólogo

Eduardo manejou o bisturi entre os dedos que apertavam a tireoide, o corte foi preciso. Uma linha fina abriu rasgo até o umbigo, ali a mão cismou de parar. Ele teve a impressão de ter ouvido uma sirene de polícia. Besteira, a casa fica no meio da chácara, a cidade está depois da vicinal oito quilômetros. Ninguém o seguiu. Atento, as mãos de cirurgião apertam o entorno ...do umbigo e a pressão faz a carne ceder.

***

_ Eduardo, Eduardo! Acorda, cara você precisa descansar. Era Henrique trazendo de volta à realidade e ao mundo seu parceiro de quarto. Os dois descem da aula de anatomia e vagam pelo campus universitário. É quarta feira e não haverá aulas nos próximos dias por que um santo foi inventado na idade média.

_ Cansado, mas não morto! Eduardo vai logo dizendo que não pretende dormir tão logo. Atende o celular e diz para a amiga da sua amiga que não está a fim de ir para sua república, já tem compromisso. _ Sim, sim... Estou apaixonado sim, pensei que a Ana tinha dito à você. E riu maroto para o amigo que abria a porta do quarto.

_ Então, que história é essa, pega duas taças aí que eu quero brindar a isso, disse Henrique.

Eduardo busca as taças e volta sem camisa. Senta-se na mesa de centro e pergunta:

_ Você não sabe que estou perdidamente apaixonado? Cego nas aulas, surdo no anfiteatro, manco na quadra quando todo mundo espera uma enterrada no aro. _ Henrique está de pé e o cabernet sauvignon tinge tudo ao redor. A sala sonolenta se embriaga e o ventilador de teto parece soprar um hálito quente. É preciso dizer alguma coisa.

_ Beba, Eduardo.

_ Um brinde Henrique, saúde!

_ Sorte na empreitada, que amar pode ser perigoso. Eu brindo para que o Amor toque sua escolhida.

Henrique ergue sua taça, mas Eduardo diz que o momento pede melodia à altura. Busca entre os vinis antigos a canção “A quoi ça ser l'amour" e a voz de Édith Piaf inunda o quarto. Águas desconhecidas, rio que sai de uma rachadura no coração de Eduardo.

_Levanta, me dê isso que já bebeu muito.

Os lábio de Henrique estão vermelhos, sangram. _ Como evitar seu sorriso doce? _. Ele o empurra com suavidade brusca de modo que Henrique se desiquilibra na beirada da poltrona, só não cai porque segura firme nos braços esticados de Eduardo. Refeito, Henrique respira fundo e, ao fechar os olhos, percebe que as mão de Eduardo estão abrindo sua camisa, botão por botão, casa, casa, casa e, por fim, a última que está à altura da braguilha.

_Não. Não é preciso tirar toda a roupa, estou bem!

Eduardo, de um gole, dá fim ao vinho na taça e ainda de braços dados aos braços do amigo confidencia: _Tenho um presente guardado pra você. Antes que o fim de semana termine prometo fazer de você o homem mais feliz desse mundo.
Eduardo se levanta, dá alguns passos para trás e tira os sapatos dançando ao som de Piaf. Henrique acha graça e faz o mesmo. Henrique ri de Eduardo que, depois de nu, finge se esconder por traz da capa do vinil que toca.

_ Sua vez, mostra pra mim. _ Pede Eduardo.

_ E porque deveria se você tem vergonha de ficar pelado?

_ Estou vestido de música. _Eduardo diz e ri. _Vai de uma vez se não eu mesmo vou aí.
Nesse instante a agulha sobre o disco faz um chiado substituindo a canção.

_ Não, eu não gosto de andar nu.

_ Vamos, é só uma brincadeira, quero ver você sem roupas. Feche os olhos. Isso, feche os olhos...
Eduardo cruza as mãos de Henrique nas costas e, ao fazer isso, encosta sua barriga à dele, umbigo a umbigo; logo as mãos de Eduardo descem à sunga que Henrique vestia. No ouvido do amigo sussurra: _ Você pretende nadar hoje à noite vestido assim? Abra a boca... Henrique não teve tempo, ia dizer alguma coisa e por isso abriu a boca. Eduardo tinha um quarto de comprimido na ponta da língua, colou a droga na língua de Henrique que a engoliu, depois se beijaram.
***
Despertos pelo insistente chiado do disco, Eduardo e Henrique rompem o silêncio numa risada desconcertante. Os olhos de Henrique procuraram no chão suas roupas e, sem tempo de pensar, sentiu a mão de Eduardo no seu queixo:

_ Erga a cabeça meu amigo, você fica ainda mais belo quando mira o alto. E dito isso sorriu com os olhos. Henrique apanhou a taça de Eduardo que ainda estava pelo meio, ergueu-a e felicitou:

_ À Baco e ao fim de semana prolongado, vire o disco Eduardo. Riram juntos, e tudo ficou diluído nas mesmas águas difusas da torrente que agora os envolvia.

No pequeno quarto conjugado ao banheiro Eduardo anda de um lado para o outro procurando. Procurava outro disco e optou pela tecnologia digital. Apontou para Henrique o pôster do filme “Crepúsculo” atrás da porta do banheiro, seguiu com o cd na mão até o aparelho de som e, nu como veio ao mundo, fez soar Debussy. Uma onda de calor abateu o corpo de Henrique para, em seguida, subir pulsando por suas pernas num formigamento crescente dos pés às mãos. O calor se concentra na pelve. Quando “Prelude to the aftenoon of a faun” já tinha envolvido cada milímetro do espaço, Henrique não sabia mais dizer onde terminava seu corpo e onde estava sua alma, parecia levitar rente ao chão e, mesmo assim, mergulhado num lago. Caminhava em campos árcades e molhava seus pés ao lado de ninfas quando percebeu que. na verdade, já estava na banheira. A espuma de barbear que Eduardo lhe- havia espalhado pelo rosto e pescoço agora escorria fria pelo peito até a cintura. Nesse momento as mãos ágeis de Eduardo passam entre as cochas grossas que se-lhe ofereciam. Henrique chegou a pensar em dissuadi-lo, pensou até reagir contra a novidade. Pensou deveras. Mas o que pode o corpo responder aos pensamentos quando esses se encontram nos braços envolventes do desejo? Uma voz feminina sibilava no oco da cabeça de Henrique. Assim poderia lembrar-se não fosse o pavor que o tomou, ao ver Eduardo de pé segurando uma navalha. Apontava para uma cadeira, gingava a mão fazendo vibrar um reflexo na lâmina: _Senta aqui, Henrique. _ Disse.
A cortina de franjas em macramê azul balançou mesmo com a janela fechada, ao som clair de lune.

***
Os movimentos de Henrique estavam condicionados à vontade de Eduardo, seu corpo obedecia. A pele alva ruborizada do rosto emoldurado pela cabeleira ruiva queimava como girassol em dezembro. Eduardo fazia a navalha dançar girando ao punho firme. Debaixo da espuma branca, a pele de Henrique se oferecia aos carinhos da boca de Eduardo. Aos olhos de Eduardo uma obra de arte era restaurada e merecia devida reverência: pescoço, tórax, abdome. Da boca mais que vermelha de Eduardo escorria uma mistura sagrada para outro graal, Henrique sorvia sem distinguir saliva, vinho ou sangue. Estão perdidos nessa eternidade quando alguém bate forte na porta do quarto, chamando do corredor.

***
Ana e Bárbara não são mais esperadas. _ Então se esqueceram? _Disse Ana assim que viu Eduardo envolvido numa toalha, abrindo a porta.

_ Não... quero dizer, sim. Eduardo podia ver que Bárbara acompanhava a amiga. Ainda sem pé da situação, confuso, argumentou: _ Eu tinha dito a você que não ia ao show, queria descansar hoje.

Bárbara se intrometeu meio rindo, meio cenho fechado: _ Quando teremos outra chance de ouvir Eduardo Duzek no cassino da Urca, hein Eduardo? As duas já estavam embriagadas o suficiente para rirem sozinhas, empurrar a porta e entrar no quarto. Como maestro que dava fim às melodias simbolistas de Debussy, Henrique sai do banheiro nu, cheirando a lavanda.
_ Meus Deus! Apolo ruivo... Assim, de presente para meus olhos? _ Ana sentou-se fingindo constrangimento enquanto Bárbara continuava seus elogios embalados pela embriaguez.

_ Não, não... Não bota roupa nenhuma, vamos pelados paro o show.

A essa altura Eduardo já estava de camisa e Henrique pareceu à Ana ter acordado de um transe hipnótico.

_ Parece que você bebeu lavanda, Henrique. _E de olhos na mesa de centro apontou para o cabernet e se redimiu por não ter chegado antes.
Sem música, sem vinho e vestidos, os quatro desceram as escadas do alojamento da UFRJ e se meteram para a Urca. O show estava ao meio e Duzek ao piano cantava “Ventura”. As palavras chegavam antes da melodia aos ouvidos dos homens, enquanto Ana e Bárbara já se espremiam para chegar ao bar. "vi seu olhar, seu olhar de festa, de farol de moto azul celeste, me ganhou no ato, uma carona pra lua".

Todo o tempo foi um segundo: amigos para sempre, somos todos jovens, faremos amor e não guerra. Mas foi Ana quem disse para Eduardo:

_ Vamos.

Em algum momento, Eduardo teria de dizer a Ana que não haveria mais encontros, beijos e danças. Teria que se afastar, despedindo-se disso tudo. Talvez, mas não nessa madrugada. Teria que dizer o quanto estava apaixonado por Henrique. No entanto respondeu:
_Vamos.

Seguiram do portão decô entrelaçado por trepadeiras até a base do morro, recusaram taxi porque o sol haveria de iluminar a orla daqui a pouco. Já estavam na passarela que contorna a reserva de mata atlântica quando dois homens estacaram no meio do passeio. Um deles gritou “porra!” e o que estava armado completou “se chorar a mãe não vem, dá logo tudo aí”.
Atordoados, ninguém se mexeu.

_Já falei aí... Quer morre? _Antes mesmo que alguma coisa fizesse sentido, as mãos de Henrique, num movimento protetor genuíno, ergueram-se lentamente. Eduardo temeu o pior, Ana chorava e Bárbara ameaçou abrir a bolsa. O homem armado entendeu que a garota estava também armada e disparou outra ameaça. _ Prá lá que te mato!

No exato instante em que o desgraçado mirou Bárbara, Henrique viu-se fora de alcance e lançou-se sobre o assaltante. E tudo teve fim.
O tiro saiu da arma em movimento. Sem mira, o alvo atingido foi Henrique.
Caiu, sem mais vontade. Inerme.
Enquanto os ladrões fogem da cena, Ana chama a polícia. Eduardo pega Henrique, que ainda respira, nos braços. Corre até a avenida, rouba um carro estacionado e leva Eduardo para a chácara de seu pai.

***

Epilogo

Eduardo afunda o bisturi, o corte é preciso. Uma linha até o umbigo. Ele tem a impressão de ouvir a polícia. Henrique está deitado de costas sobre a mesa que o pai de Eduardo, também médico, tanto usara. O projetil havia perfurado o estômago e saíra pelo esôfago. A respiração que resta é convulsiva e só faz jorrar sangue. É preciso estancar a hemorragia e Eduardo, sem luvas e com as mãos ensopadas de sangue, faz o que precisa ser feito: corta, abre, separa, isola e por fim sutura.
Ninguém o seguira até aqui, mas continua a sensação de ser observado. Ainda há pouco beijava o homem que seria feito rei na sua vida. Ainda há pouco jurava fidelidade. Ainda há pouco brindava eterna juventude. Ainda há pouco podia escolher. Nunca mais.
Agora, pálido como o mármore em que repousava Henrique, não tem o que escolher. Para onde segue o curso de tudo? Para quando? Por quê? Por quê... Eduardo vai até o portal que dá acesso ao jardim. A lua incide brilho na mais distante escuridão. No alto, entre galhos de cipreste, um corvo espia. Agora tem certeza da sirene que ouvira, é uma ambulância. Eduardo seca as lágrimas, volta ao corpo de Henrique e aperta o entorno do umbigo. A pressão faz a carne ceder entre os pontos. Eduardo assiste a movimentação no pátio: do carro de polícia que acompanha a ambulância saem dois policiais armados. Bárbara está junto de Ana no banco de trás. Outros dois homens descem a maca da ambulância e se aproximam.
Eduardo tenta reanimar o amigo outra vez e mais forte. Já não sabe se esmurra o corpo de Henrique ou se o acaricia. De joelhos e com a cara entre as mãos chora sem resposta.
Por quê?
No galho do cipreste, o corvo ameaça uma resposta mas se cala.

fim

CORAÇÃO DE RESEDÁ


Penso rosa murchando no chão molhado do meu sono,
recordo meu bem.

Colhi néctar para oferecer-te e embriaguei-me
no doce perfume das flores do seu nome.

 Flor de laranjeira, flor da lima, perfume de lótus.
Flor sílaba verde de jacinto, flores...
Flor de limão siciliano, de bergamota, flores...
Coração de resedá! Tu és madressilva, és crisântemo
meu jasmim, és rosa minha! Narciso à beira do riacho.
Banho-me no aroma da tua essência, oriental Chipre quase olíbano.

Não distingo quem sou de quem és.
É o que somos, mistura insensata de coentro,
sândalo, âmbar, patchuli, almíscar, musgo de carvalho e cedro.
Pensei rosa murchando, ânsia que provoca paixão e devaneio...

 Meu coração explode felicidade em flores de resedá.


Antonio B

UMA VERDADE

"Deus não escreve em linha reta" - citação extraída de uma cena do filme PROMETHEUS de Ridley Scot

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...