quarta-feira, 25 de março de 2015

PORQUE ESCREVO?


São inúmeras as razões que levam um indivíduo a escrever. Eu escrevo motivado pelo medo. Tenho medo de não poder escrever, tenho medo de escrever o que será. Sou o tipo de pessoa que não distingue poeta de profeta, sou um tipo. Um tipo de escritor que não espera para escrever mas que escreve para ver acontecer. Benção e maldição, escrever não é apenas dom ou exercício intelectual. Escrever talvez seja exercício de aceitação muito embora eu só escreva motivado pelo medo de não aceitar mais nada.


Antônio B.

O QUANTO BASTA


Um vampiro nunca se retira, no fim da festa
o dia prenuncia a sangria da noite seguinte.
Esvaziado, pálido busca o quanto lhe basta.
...
Depois de farto retira a máscara e sangra.
Na boca silenciada aperta suavemente a sua
e mata a sede da pobre alma com uma lágrima.
No rosto da vitima acontece de se notar um espasmo
Talvez seja por isso que vivem os vampiros:
para dar alguma alegria ao fim dos inevitáveis dias.
Antônio B.

EVERLASTING


Tudo bem, tudo certo!
Você disse “bom dia” e partiu.
Estou e devo arbitrariamente ser feliz!...
Condição diária é esforço de aceitar o impróprio, o desalojado.
Eu habito o sorriso que você roubou de mim.

Para ser oportuno, mesmo agora meu corpo reclama.
A casa reclama, os brinquedos e os talheres no armário reclamam.
Tudo guarda aquele tom de alegria descontente... “Bom dia, partiu”.
(Quando estamos juntos,
sentamos à mesa para jantar, nos sonhos que tenho sonhado,
tudo fica azul e ainda no sonho desconfiado penso:
“até quando acordar cinza”.)
Para toda gente “desaparecer” é definitivo na morte. Para os amantes, everlasting!
Tudo de seu estampa minha cara e esconde meu rosto: o sorriso lascivo, o olhar penetrante...
Você é meu e eu nada tenho.
Meus olhos não se cansam de mentir, vejo suas digitais em cada coisa.
E, no meu coração, o aperto que sinto são suas mãos tatuando as fibras com meu sangue.
Suspeito que seja para sempre, para depois da morte, para a eternidade, everlasting...
Eu disse que não tinha nada, menti. Tenho, em qualquer lugar, caneta,
papel e o peso da fuga impossível. Anoto o que penso, penso para não sentir
e sinto muito por nós dois.
Para nenhum problema tenho solução, apesar de tanto estou bem.
Mas está tudo bem, mas tudo está certo.
Tudo bem e certo!
Antônio B.

segunda-feira, 23 de março de 2015

SURTO DE MIDAS



 Tudo que toco se quebra,
desconfigura-se. Sopro
e reparo: o que não era...
torna a ser. / O contrário
também é verdadeiro:
seja pessoa, paisagem,
sentimento ou mesmo
o tempo. / O leve contato
dos meus dedos transtorna
a superfície das coisas. Tudo
perde sentido. / Emudeço,
grita voz aflito. Reúno seco
à saliva e de novo, ao barro,
retorna minha mão decidida.

Antônio B.

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...