quinta-feira, 5 de março de 2015

Alcântara Batista é um jornalista de meia idade morador de Santelmo cansado da hipocrisia que ronda os meios de comunicação. Alcântara publica em sua coluna diária no jornal "O DIÁRIO DE SANTELMO" textos provocantes, investigativos encharcados de lirismo. Nesse conto, em formato de carta, apresenta a cidade a partir das características dos personagens envolvidos na investigação de assassinato seguida da revelação, para o grande público, da identidade do assassino em série que aterrorizou Santemo por 20 anos. Ninguém mais publicaria essa carta, mas Alcântara...
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CARTA PARA SALTEMO

Esperei vinte anos para confessar meus crimes, esse é o meu momento. Dirijo-me aos cidadãos honestos e trabalhadores que repousam tranquilos porque não podem ser outra coisa. Eu sou. Matei cada uma das mulheres do caso que os jornais noticiaram, há algum tempo, encerado.
Sei que essa carta não será publicada, uma pena. Escrevo para Santelmo, tenho muito que ensinar.
A primeira lição é simples, não se pode confiar no que parece perfeito. A investigação, levada com esmero por duas décadas, tornou-se sofisticada demais. Acompanhei bem de perto a desorientação dos especialistas mergulhados em exames e diagnósticos taxativos, as operações frustradas de equipes confiantes, a tentativa de salvar cada vadia desaparecida, preparada à espera.
Verifiquei cuidadosamente o erro cometido por todos na investigação. A simplicidade do resultado do meu trabalho escondia o requinte dos métodos que usei. O corpo das vítimas era encontrado em melhor estado, mais bonitas, e por que não, mais vivas que quando circulavam por Santelmo. Transformação sem precedentes, a beleza perfeita eternizada na morte. Estampada nas primeiras páginas, a promessa de um sorriso inacabado em cada uma delas idealizava a vontade de todos. Pais de família se contorciam silenciosos na frente das esposas, contidas invejosas. Cada mulher dessa cidade preferia morrer linda que seguir mutilada pelo tempo. Usei a meu favor a satisfação alheia reprimida. Nos sermões e ladainhas o que todos realmente queriam era fazer um pedido. Desejavam morrer em minhas mãos.
Sei bem o que digo, acompanhei de perto. Bem de perto.
A segunda lição, para que se saiba que não sou um monstro. Tenho coração e posso até amar. O delegado Martin é um homem extraordinário, me atrai, mas essa história não poderia ter um final feliz. Ele encantado e perplexo perdeu-se de amores pelo personagem das minhas fotos que deixava junto aos corpos. Seu raciocínio, baseado numa Gestalt romântica e apoiado em alta tecnologia, caiu no erro. Não encontrou em nenhum dos rostos fotografados ao lado das vítimas o verdadeiro assassino. Percebeu o tratamento que a imagem tinha recebido, mas não reconheceu o modelo fotografado. Teria me reconhecido se sobrepusesse as falhas que eu deixava propositalmente. As marcas do meu rosto, um mapa desgastado, velho e feio. Uma ruga aqui, a cicatriz no queijo, outras rugas no canto dos olhos. O lóbulo da orelha rasgado na adolescência, a falha na sobrancelha resultado de uma surra que levei do meu pai há muito, muito tempo. O delegado Martin é um homem extraordinário levado pelo desejo de amar a juventude que também ele perdeu. Desse erro novo se aprende velha lição, o amor é cego.
Cego, mas não burro. Quando percebi que estava me deixando levar pela genialidade do caçador retirei-me da cena. Por isso escrevo essa carta.
Escrevo também para esclarecer, as mulheres que a polícia chamou de vítimas não sofreram dor. Receberam dieta balanceada para que a carne dos seus corpos chegasse consistente na mesa de cirurgia. Foram mantidas em cela confortável durante o tempo em que esperavam a morte. Claro que ministrei substâncias amortecedoras dos sentidos. Claro que os cortes nas cirurgias foram precisos.
Devo confessar que não foram apenas oito mulheres que matei, foram oito as que pude expor. Tentativa e erro, ciência e arte demandam apuração e tempo. Houve as que tentaram escapar, eu as matei de outra forma. Não se precipitem, nunca encontrarão seus corpos. Mutilados, serviram de adubo para o verde da grama na casa do Juiz Teodósio. Não se precipitem, repito. O desespero que abateu os investigadores, em especial o delegado Martin, deu em executarem um inocente. Tive pena, confesso, tomando um drink enquanto escrevo, embriagado pelo azul do mar. Por fim, o homem aceitou honrado, o papel de assassino. Muitos aceitariam, suas vidas vazias deixariam alguma realização para a posteridade.
Gostaria que todos em Santelmo soubessem, subscrevo.


Luca Xavier Visconti
Medico Legista

FOTOGRAFEI


Num instante o que era ordinário, comum e desprezível porque sem utilidade resplandece dourado, arde como sarça/voz divina!
Num instante as sementes do capim, revestidas de seda-pluma leve, se tornam mais belas que os lírios e os campos!
Num instante a vida se revela: é preciso manter viva a chama!...
Como se agradecesse ao Criador, fotografei!

Antônio B.

TODO DIA É DIA - homenagem ao dia internacional da mulher



 Porque esperar 8 de março para dizer que a força e a coragem que têm as mulheres é, além de inexplicável e comovente, inspiradora aos homens de toda parte, toda cor, todo credo, qualquer idade, de todas as situações de gênero. Sejam elas castas virgens, mães que se ausentaram, mulheres da vida - que é eufemismo barato para designar prostituta, adolescentes sonhadoras ou amantes e esposas que cuidam do querer da pessoa amada e da família. Porque esperar se posso homenagear-lhes agora que vem-me ao espírito a gratidão por todas elas?

Antônio B.

HQ


  Saio de manhã sabendo que o mundo acaba hoje.
Bato a porta que não reclama, acelero o carro.
A rua chama, bocarra vazia com fome....
Caco fônica, banguela: a rua mama faminta
e toma de gole quem passa. O medo no gargalo
da rua engole meus passos. Desabo, o mundo
cai do céu e molha na rua meu rastro.

Antônio B

CORPO


A morte é notícia de ontem, no jornal é palavra sem fome.
A vida chama faminta, consome e reivindica até o nome.
O corpo frio é prato saboroso sob a terra, no barro...
para os vermes e a grama. O morto não sente medo e não reclama
a sorte enquanto o vendaval promete más notícias na TV.

Antônio B.

COMO ALFINETE EM PALHEIRO

Dizem que um cara falou demais desafiando a ordem que funcionava muito bem assegurada pelo medo e pela força da violência. Foi num tempo r...