quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CARTA PARA ABEL

CARTA PARA ABEL

"A palavra tem vida". O que significa dizer isso em tempos de apostasia? Todo falante da nossa língua repete essa sentença como se afirmasse o slogan "amo muito tudo isso”. Contemplo e preservo a unidade divina na linguagem, como se guardasse tesouro em relicário. Não me resta muito, não preciso de muito. Beleza, dor, miséria, solidão. Aqui faço uso desprezível do poder vivo que tem a palavra.

A sombra do homem que fostes está sentada do lado direito de um deus pai omisso. Tens tu espectro de Édipo estéril, recusa optar em dar socorro e omite-se. Ficará no silêncio. Nosso pai está cansado mais ainda é aquele homem que dera nomes a todas as coisas e chamou de “minha” a mulher saída de suas entranhas. Abel, tu és ardiloso, soube apenas comparar virilidade e trabalho. Meu irmão, tornar-se homem é, também, sentir medo

Há memórias que nos assombram, outras nos traem.

Vejo tua imponência, na cabeceira da mesa gesticula e descreve supostas aventuras amorosas. A conveniência de todos em ouvir os relatos fora paga com sacas de trigo. Anti-Ulisses... No futuro saberão descrever-te. Para cada anedota um leve soco na mesa. Todos sabem que assim foi, ou foi assim e que assim está certo. Faz uso de um soco leve na mesa para pontuar o desfecho. Um ponto final reticente que empobrece tuas narrativas. Desprezo-te ao ponto de desejar tua morte.

Nosso pai é homem de poucas palavras e grandes feitos. Adão é de parca inteligência dissimulada, se identifica com a força das mãos que aram a terra. Essa força estabelece o fato de ser ele homem de visão: o mundo será daqueles que fazem brotar alimento do chão. Se nosso pai é de poucas palavras, eu sou daqueles que prefere caçar sozinho, longe dos conchavos e tramoias a que que chamei, meio zonzo anacrônico, apostasia.

És cópia destorcida, só eu vejo? Me faz grande mal pensar-te meu irmão. O que são as circunstâncias? Devo respeitar-te e não te amo, devo honrar o fruto do seu trabalho e desejo matar-te.

Abel, já vistes a face do Criador?

Quis Deus que no reflexo do teu rosto eu vislumbrasse a semelhança que temos. Sou filho de Adão, o sangue clama descendência. Dos templos que serão chamados sinagogas, igrejas nascerão... E, em todas elas, estará vingada a deslealdade de entre irmãos. Minhas mãos seguirão sujas do teu sangue. Sei que o sacrifício erguerá mais alto o sonho do mundo antigo. Vivemos em ruína desde desde o início. Tiro de ti a vida e rego a terra com teu sangue.

Somos feitos do pó das estrelas, do barro ergue-se apenas vontade. Somos de constelações distantes, a minha é Solidão e a tua é Vaidade.

Não peço perdão, não aceito maldições. A mão hostil estendida é mais afiada que adaga no cinturão.

Abel, terás vida eterna, assim é a vontade do Pai. Acrescentará noutras vidas a vida que de ti roubo agora. Assim segue o "comboio de cordas" de restauração à merecimento.
Palavra viva, carne morta. Amo os filhos do nosso pai. Cada um, a seu modo, recita que a palavra tem vida. Todas as palavras nunca darão conta de preencher o espaço que a palavra amor esvazia.

Antonio B. 


 pintura de Keith Vaughan, "Cain and Abel" - 1946.

QUASE NÃO ERA MAIS

Eufórico,  tomei emprestado um tom azul marinho
da paleta que dos meus olhos fugia.
Num instante a tinta escorria sem que eu pudesse detê-la...
Jjá era o azul danúbio, logo azul nilo, e quase não era  mais
nada o azul translúcido das águas paradas.

E em busca do mar sigo em dobras de terra molhando os pés.

Caminho cedendo, escancaro boca, recebo a chuva.
Não troco o luto do silêncio, também não dispenso da solidão solilóquio

Pelos reveses do caminho a novidade é ainda ter, no chão, os pés.  
Mudo e molhado, o sonho descora azuis! Tinge minhas mãos ressequidas...
Quando escrevo, minto.

Enquanto dura a alegria, pinto para conter a aurora e assim acreditar num novo dia.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O HOMEM QUE SERIA



Quando me vi desenhado por tuas palavras, 
logo reconheci o homem que eu seria: 
Nos teus braços esquecido do que fui,
a lembrar o desejo de ser o outro que via.

Desenhado em tuas palavras
reconheci o homem que ainda seria:
nos teus braços esquecido de mim,
a lembrar-me outro que via.

Quando me vi, desenhado por tuas palavras,
reconheci logo o homem aquecido nos teus braços
que ainda seria.

Nos teus braços esquecido,
na tua boca reinventado.
Do mundo sem fazer conta,
sem medida, servindo-te calado.

Antonio B.

DE TANTO PROCURAR



Essa é a história de um homem que andava sempre olhando pro chão em busca do que os outros perdiam por aí. Vive sozinho e tem os bolsos cheios de quinquilharia. As noites passa enamorado de seu tesouro disperso iluminado à luz de velas.
Certo dia batem à porte e um jovem perguntar se ele não teria encontrado um chave que perdera.

- Foi a velha da esquina quem disse que o senhor enxerga por dois.

O homem encontrou três chaves e o jovem levou-as prometendo devolver as que não servissem. Não voltou.
Passaram-se os dias.
Batem à porta, nessa que ninguém nunca batia. No lugar do jovem uma mulher que tinha perdido um dos brincos. Trouxe as duas chaves que não serviram ao rapaz e as devolveu.
A fama desse homem que encontrava coisas perdidas se espalhou pela cidade, de imperceptível ele passou a ser notado. Muitos o procuravam, muitos dias se passaram.
Toc, toc, toc uma mulher pedia ajuda.

- Ando perdida entre as horas e os dias e procuro o juízo que um dia tive.

Desconfiado dela dispôs-se a acompanhá-la. O barulho do sapato dela parecia as batidas na porta tac, tac, tac.
Mas acontece que os caminhos por onde ela procurava o juízo eram diferentes dos caminhos que ele sempre percorrera e, aos poucos, saíram da cidade, ganharam os bosques, as fazendas, as colônias tortas de todo vilarejo. Aos poucos o ritmo dos passos dela tornou-se íntimo de seu coração tuc, tuc, tuc.

Então, com a primeira brisa da primavera ele, abaixado, gritou:

- Achei!

De pé estendia a mão oferecendo o achado. Mas não foi o juízo dela, perdido, o que encontrou. O homem, de pé, estende a mão e lhe oferece a primeira flor da estação.

Desse momento até hoje caminham juntos, sem juízo! perdidos os dois.

Antonio B.

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"DE TANTO PROCURAR" é minha homenagem à Marina Colasanti autora do conto que é RECONTADO aqui

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...