sexta-feira, 16 de maio de 2014

OXIDRAGA



ALUCINAÇÃO

Naquela noite Edmundo correu para salvar o bem mais precioso que possuía. Com as folhas manuscritas debaixo do braço cambaleou até o portão. Seus olhos buscavam alguém nas sombras. Ele sabia que não tinha ido longe de sua casa e tentava mais uma vez. A cidade era apenas um quarteirão. Na esquina percebia que tinha dado a volta e estava no mesmo lugar. A chuva mansa encharcou seus sapatos agora pesados. Mais uma vez, mais uma volta sem êxito. Edmundo decidiu voltar e guardar os papéis. No portão enfiou as mãos no bolso, baixou a cabeça. Seus olhos ardiam, as chaves deveriam estar no bolso dianteiro da calça. Apanhou o molho de chaves, mas deixou que caíssem na calçada. Atrapalhado ergueu-se satisfeito. Quando enfiou o metal na fechadura sentiu um toque gélido, dedos que pareciam ossos translúcidos agarraram sua mão. Num grito apavorado soltou os originais que escorreram inevitavelmente para o esgoto. Edmundo desmaiou. O livro se perdeu, reescrever tornou-se obsessão...

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FRAGMENTO UM
No ventre da mais casta virgem, o repulsivo espectro, repelido pela força da luz no ato mesmo da criação dos mundos, fez sua casa. Demarcou território onde teceria com fios negros a mais ardilosa trama. O espectro tem negros pelos como seus olhos, e dentes. E isso se deu quando ainda estava no ventre de sua mãe, mulher que nunca amara um homem sequer. No parto a menina recém nascida revelou-se assassina. A sua primeira vítima: a mãe. Fora adotada por uma instituição e depois por uma família do interior. Pré-adolescente fez de seu pai adotivo um brinquedo. Embriagou e seduziu o homem que, desprezado por todos, matou-se na cadeia. Ainda naquela noite subiu chorando até o quarto para dormir com sua mãe. Obedeceu quando ela pediu que trouxesse água, mas ofereceu suco de laranja com uma dose de veneno. De volta ao orfanato, permaneceu uma semana, simulou a própria morte e ninguém mais teve notícias suas.

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DE BAR EM BAR

Edmundo pede mais uma dose antes de regressar para casa, para o trabalho. Adia o retorno porque não fará outra coisa se não retomar a escrita do romance, escreve ininterruptamente.
Quando caminha escreve, quando entra no bar escreve. Escreve quando pede uma dose. Seus passos, ao atravessar a rua na direção do bar, são do tamanho do seu pensamento. Ondas de pensamento curto. Orações de períodos compostos de elementos trágicos. Edmundo sabe que reescrevendo a história perdida não terá escrito mais que uma farsa. Isso o consome.
A editora insinuou quebrar o contrato, assinado ano passado quando “Oxydraga” fora lançado, mas aguarda insistente. Edmundo tem espalhado pelo escritório, que é seu quarto, um amontoado de rascunhos. Papeis desordenados e, neles, personagens que exigem sua presença, pedem constância do ato de escrever para que possam respirar outra vez.
Edmundo sabe que a história que vai contar tem vida própria. Sabe também que as palavras são traiçoeiras. Portanto Edmundo tem medo. Edmundo tem medo de não traduzir corretamente o que se passa do outro lado, do lado em que não é necessário oxigênio para sobreviver. Quando escritas e  alinhadas as palavras revelam quantas partes do corpo foram mutiladas e transferidas para o texto. Essa imagem, como de resto toda representação visual da realidade imposta aos sentidos, demanda sobreposição imediata. Nunca daremos conta do que se perdeu no caminho de Edmundo até aqui.
- Uma dose.
Edmundo pede sem ter que explicar quantas vai beber. A rua ainda está molhada. E das árvores, na calçada, outra chuva amarra seus passos. Não demora e começa a correr. Um quarteirão, dois, três e decide não fumar mais. Podemos vê-lo agora parado na frente do portão de sua casa porque chegamos aqui antes dele. Fizemos como o Lobo que engabelou Chapeuzinho quando disse “tome aquele caminho” sabendo que esse era mais curto.  Vem decidido, ansioso. Se não der voz aos personagens que criara, chegará à loucura de falar por eles.
- Uma dose, uma palavra.
Seguimo-lo do portão à porta, da porta ao quarto. No quarto a cômoda se abre em duas gavetas.  O ângulo reto, desenhado pela porta em relação às linhas do guarda roupas, está distorcido. O ponto de fuga se perde levemente embriagado.
- Que merda é essa?
Edmundo decide dormir, não escreve nada. Antes de ser tragado pelo sono, vislumbra nos papéis espalhados, olhos famintos que miram, perguntam e imploram com ares de vingança: “escreva-nos”.  É hálito esferográfico, entorpecente. O peso que a consciência incide aumenta e Edmundo cai bêbado na cama desalinhada.
“ESCREVA, EDMUNDO, A ELEGIA DOS DISSABORES E TERÁ O ROMANCE QUE PRETENDE JUSTIFICAR O TEMPO PERDIDO”.
É uma anotação dele pendurada no espelho. A voz do narrador, como a do  barqueiro, conduz Edmundo para Oxidraga.

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FRAGMENTO DOIS
Numa noite tranquila, de sono inquieto e nuvens sombrias espalhadas sobre as casas, acontece de uma criança caminhar entre os jardins que se tornam cada vez mais distantes. A criança caminha em direção em direção à uma caverna incrustada na pedreira, é um fosso o seu interior. Dizem que não tem fim o abismo. É um menino que segue uma voz misteriosa que o chama. Oxydraga espreita na entrada da gruta. Sem que déssemos pela falta, a maldade fez casa do nosso quintal. Um grito abafado não pode ser ouvido, e segue a manhã. Mais uma vítima. Não há motivos para duvidar da inocência de uma criança que disse ter visto a cena:
- Oxidraga é uma aranha.

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A MELHOR AMIGA DE QUEM?

O que deixa Edmundo desejando a morte a escrever está posto no que escrevera antes. Perguntas sem respostas. Como a melhor amiga de Maria Inês, sua mulher se infiltrou na história do casal? Como aproveitou sua ausência, quando trabalhava fora da cidade, para declarar como se soubesse de uma verdade oculta, que tudo entre os dois já havia acabado. Com um rasgo no rosto, que nem era riso avisara à Edmundo que desfecho é nome daquilo que teve fim. Como se fosse pouco insinuou que Edmundo se envolvera com ela.
Dupla traição: da amizade e do que do amor. Maria Inês e Edmundo se conheceram numa noite mágica, à beira mar. E se Edmundo não conta essa história que o motiva é porque busca verossimilhança para a narrativa, que leitor algum distorça a verdade como fizera a outra.  Então Edmundo cria mitos próprios que guarda em relicário, engana os sentidos. O tempo da exaustão se pronuncia esgotado. Enfim Edmundo nos revela o impasse, não terá mais alternativa que escrever.
A melhor amiga de Maria Inês mentiu, a mulher de Edmundo acreditou em cada mentira. Certamente por simpatizar-se com elas. Talvez, pela conveniência das circunstâncias e pela distância que a separava do companheiro naquela época.
Já a amizade delas começara antes. Bem antes de Edmundo vir a esse mundo de máscaras.
O que faz Edmundo peregrino sonâmbulo todas as noites é a certeza de que ambas tinham um pacto. Que guardavam segredos íntimos uma da outra, segredos de alcova. Se deles nos dispuséssemos detalhar, teríamos outro novelo, desta vez réplica ardilosa de Sade.
Vamos ao novelo, vamos à replica.

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O FILHO DA PUTA

A melhor amiga de Maria Inês é mãe de rebento único, casara para dar nome ao filho que veio ao mundo numa gravidez indesejada. Teve certeza que a desgraça de ser mãe mudaria sua rotina perversa de infiltrar-se na vida dos homens que desejava. Ser mãe não foi uma escolha, mas maldição. Na cabeça dela a culpa era dos modos rústicos do roceiro com quem transou sem preservativo.
Maria Inês tornou-se amparo nesse momento de angústia.  Comovida pela criança que já estava plantada no terreno mais árido que se pode ter notícia, tranquilizou a situação.
E nasceu quem não fora abortado.
As duas dividiram inúmeras situações no tempo em que crescia o menino. Guardaram segredo do vivido.

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A PRIMA ODETE

A melhor amiga de Maria Inês coleciona segredos da mesma natureza de sua prima Odete. Odete por sua vez, usufruindo de privilégios no Fórum onde trabalha, obteve informações sigilosas e suficientes para se aproximar do juiz, seduzi-lo e com ele manter um caso. O juiz é bem casado, pai de família e vizinho de Maria Inês. Em cidade pequena, como em Naverdade, nada fica encoberto.
Um barril de pólvora vai explodir na marquise desse castelo assim desenhado, prestes a ruir. O que apodrecia no reino da Dinamarca agora fede nesta rua. Porque Maria Inês se prestaria a guardar tantos segredos se não fosse útil? O silêncio agrega valor à informação, inocência é um estado de percepção que também as crianças desconhecem. Como saber do deleite delas barganhando aventuras extraconjugais?
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ESTÁ ESCRITO

Diante das possibilidades o escritor que não escreve mais.  Edmundo traz suas personagens amordaçadas, espalhadas em quaisquer pedaços de papel que encontre. É preciso ajuda de terceiros nesses casos de impasse. Por isso decide buscar a sabedoria do tarô na quinta feira. Se a cigana confirmar a suspeita de que, a cada confidência da melhor amiga, Maria Inês segredava uma traição sua, Edmundo perderá o juízo de vez. E não sabemos o que pode acontecer. Edmundo decide enviar, por e-mail,  o tem escrito para a editora. Nunca se sabe o dia de amanhã. Adiantemos à narrativa ou retomemos à fábula, pois até quinta, faltam três dias. Edmundo se meteu no banheiro, está de joelhos com a cabeça dentro do vazo sanitário. Vomita urrando. Seu grito é Oxidraga que reverbera aqui.

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FRAGMENTO TRÊS

Os gregos inventaram Baco para os festins e as orgias. Os romanos reinventaram o costume e Dionísio atravessou a Ásia, a África e chegou à América. Nosso tempo é um tempo de concorrência globalizada, é necessário, para os homens que detém o poder sobre os domínios, acirrar os métodos de conquista e permanência nos territórios ocupados. E porque nunca tivemos a perfeita combinação da química com a filosofia em toda a história, num pequeno laboratório inventou-se a droga que paralisaria qualquer consciência, em qualquer cultura, de qualquer parte do planeta. Depois de testada na América central, noticiada nos programas de auditório do Congo, desprezada no Kremlin e abominada em retórica eclesiástica no jornal do Vaticano, moradores de uma favela do Rio de Janeiro batizaram a substância de Oxydraga. A nova droga, o vinho antigo, misturada em pastas de tinta para tatuagem, é distribuída em cilindros que imprimem uma gravura, uma figura dessas para ser colecionada em álbuns. A imagem, em três dimensões e cores hipnóticas, é feita de pigmentos e óleos essenciais que, se aplicados na pele, serão absorvidos levando à sensação de prazer. Condicionam, viciam. As pessoas são transformadas em zumbis consumidores. O álbum nunca se completa por faltar sempre uma representação de Oxidraga a ser buscada até à morte. O consumo eclodiu: Oxydraga é branca e magra, os desenhos de seu corpo em “s” lembrariam uma serpente, no entanto se trata de uma aranha. Bicho peçonhento e limpo.  Nesse moinho assolado por ventos fortes, o mecanismo da derrota espera Quixote para o regozijo dos analfabetos em mais uma batalha inútil contra a moral e os bons costumes. Tempo sem direção, batalha de triste figura.

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AMPARO AOS DESGRAÇADOS

Estão acampados os ciganos na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados. É quinta feira, dezesseis horas, o sol inclina sobre os telhados sombra obliqua. Aquela cigana negara ler a mão do filho da melhor amiga de Maria Inês que, na ocasião, desdenhou dos poderes sobrenaturais.
Na ocasião, quando a cigana aproximou-se oferecendo seus serviços, ela recusou e deu a mão do filho então com seis anos. O gesto ofendeu a moral da cigana que praguejou. O que disse entre os lábios apertados e os dentes de ouro rendeu uma semana de fuxico. A cigana resoluta não quis saber do dinheiro da mãe adúltera, amante de todos os pecadores.  Selar o destino de quem ainda não desabrochara para a vida é crime contra a cultura desse povo. Todos souberam desse episódio tempos depois. Outra razão e outra moral foram atribuídas às escolhas feitas nesse dia. Circulou por força dos boatos que a cigana se recusara a ler a mão do menino porque teria percebido o interesse da puta no cigano companheiro seu.
Certeza e futuro. É quinta feira.
Edmundo contrata o serviço ali mesmo, na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados. O sol declina sobre os telhados sombra triste. Logo mais, à noite, Edmundo vai visitar Maria Inês. Agora ele pergunta:
- Diga-me, de onde vem a traição?
A cigana trazia um peixe embrulhado em jornais. Antes de demorar o olhar na mão de Edmundo desamassa o papel, refaz a página com gestos nobres. Dedos impressionantes desembrulham o peixe morto. Com voz de leitora atenta avisa para outra cigana que está mais afastada:
_ Recorta, guarda que é bonito.

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RITUAL MACABRO

Edmundo caminha lentamente. Os dentes de ouro da cigana faíscam nos seus olhos. Édipo mudo segue para seu destino, a advertência do oráculo foi clara.
Edmundo se aproxima da casa da melhor amiga de Maria Inês. A chuva dos últimos dias não cessa, e no horizonte uma nuvem carregada de energia promete tempestade.
O crepúsculo é apenas um fio laranja distante quando, no portão, Edmundo resolve surpreender quem estiver dentro da casa.
Sem esforço escala o muro, joga a perna direita sobre as cerdas laminadas. Sem fazer barulho ele salta, mas esquece de afastar o braço. Do corte largo no antebraço o sangue logo se espalha e Edmundo pressente seu fim.
A única luz no caminho é a da varanda, nos fundos.
As folhagens se agitam com o vento, ninguém ouve seus passos. Edmundo ouve a voz de Maria Inês, está acompanhada de sua melhor amiga. O sangue chega aos olhos. O torpor desalinha seus passos. Edmundo quase cai tropeçando no arado de ferro esquecido no jardim.
Recorte e guarda, essa história não acaba bem.  Edmundo parece ouvir a cigana, esfrega os olhos. Edmundo se apresenta na varanda, tem o semblante de um vampiro.
Maria Inês está de pé vestida da cintura para baixo, os peitos à mostra. A luz que ilumina a cena vem de duas velas, a melhor amiga de Maria Inês está nua, ergue uma taça, mas corta o riso. Em defesa uma da outra - e porque estão assustadas e expostas – uma delas recua até a mesa onde está a garrafa. A outra não tem tempo para dizer nada. Edmundo se agacha, apanha o arado de pontas alongadas e ameaça assustadoramente. A pancada na cabeça faz Maria Inês cair como manequim, ensanguentada. A outra atira a garrafa, mas acerta no pilar da varanda. Os cacos estão por toda parte. O whisky derramado escorre junto do sangue. Edmundo se ajoelha para tocar o corpo, Maria Inês está morta. Então, tomado por uma força que desconhecia, se levanta. Tropeça em alguma coisa que fora lançada na sua direção, e estrangula aquela que julgava ser a melhor amiga de sua mulher.
Sem força Edmundo cambaleia, e na queda traz consigo uma das velas. O fogo não faria estrago maior se o whisky não tivesse encharcado o tecido que forra da mesa de madeira, uma das cortinas e o vestido de Maria Inês.
O fogo consume tudo que vai lambendo.
No portão a sombra de uma criança desaparece quando Edmundo suspira pela última vez.


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A NOITE DE LUCAS BASHAR

Naquela noite o pequeno Lucas Bashar conheceu a dor, o medo e a coragem. O corpo de sua mãe ainda ardia nas chamas, e o espectro do mal iluminava o caminho para os passos do menino. Na chuva daquela madrugada Lucas Bashar seguiu sua intuição sem chorar, sem esperar que a polícia ou o conselho tutelar viessem atrás dele. As lentes dos óculos embaçadas eram telas de cristal líquido, ali Oxidraga projetou o filme que agora assistimos.
Odete assumiu a guarda de Lucas e a responsabilidade paciente de esperar que ele falasse alguma coisa. Que falasse qualquer coisa, uma palavra talvez. Os médicos disseram que o trauma lesionou uma parte do cérebro e que o menino não teria vida normal, inspirando ainda mais Odete aos cuidados. A dificuldade da relação, que assumia legalmente, faria dela uma heroína e as suspeitas que manchavam sua moral não incomodavam. Seu caso com o juiz bem casado, de carreira promissora, seria esquecido em breve. A vida tem que seguir um curso, Odete fez sua escolha: assumiu a guarda de Lucas Bashar, esse menino franzino que agora não diz uma palavra sequer, o que torna difícil dizer o que aconteceu naquela noite.
Na madrugada Lucas Bashar seguiu pontos de luz que o desviou da cidade. O tênis encharcado logo era barro. Os pés atolavam e, com dificuldade, chegou até o reflorestamento de eucaliptos. A carvoaria fica no meio da vegetação alinhada e produtiva. Todos pensam que está desativada, mas alguns homens trabalham na clandestinidade aqui. De tempos em tempos poderíamos surpreendê-los, mas não hoje. Lucas Bashar precisa de descanso, as paredes guardam calor suficiente, o menino dorme profundamente.
Alongue os braços, caro leitor, abra sua mente. Caso contrário, descrever o que se passou dentro do forno seria trabalho inútil. Lucas está sentado, abraça os joelhos dobrados. Está dormindo, mas de olhos abertos, vidrados na abertura por onde entramos. Do lado de fora ronda uma sombra na noite. Oxidraga vem recrutar mais um bastião exemplar para as trincheiras do mal. A sombra estende e penetra, enfia-se. Veste a alma do menino como se despisse pele antiga. Lucas Bashar foi encontrado três dias depois. Deram-lhe banho, roupas limpas e canja para fortalecer.
Quando saiu do hospital, mudo e mais frágil que uma libélula, Odete levou-o para sua casa determinada à redenção de seus pecados. E tudo se deu como aqui se conta.

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TRANSTORNO OBSESSIVO

Nas duas primeiras semanas Odete tomou muito cuidado. Em casa ela mudou a disposição dos quartos. Isabela veio para o quarto da frente, ao lado do quarto do casal e Lucas foi instalado no quarto que recebeu cores novas, tons de azul. No cardápio foram acrescentadas as recomendações médicas: caldos, peixes e o medicamento prescrito. No fórum Odete diminuiu duas horas de trabalho por dia. Fora orientada, é direito seu. Assim estaria menos exposta e representaria o papel de mãe protetora. O marido, professor de química na universidade local, nunca fora tão bem tratado em sua casa. Estava feliz.
No entanto tudo estava fora de lugar. Lucas cada fez mais silencioso, o fórum cada vez mais barulhento. Odete nunca protocolou tantos papéis, nunca encaminhou tantos processos. Todos os dias chegavam histórias novas, antigas contendas que - nos parece agora ao narrar os fatos - as pessoas resolveram dar cabo. Nos corredores a servente comenta a morte do portuga da pizzaria: homem querido por todos na cidade, cerrou as portas da pizzaria na noite de sexta passada avisando ao último casal que teriam de sair. Além deles um último cliente, que aguardava atendimento,  saca de um revolver e faz refém o portuga. O casal é trancado no banheiro. No cofre pouco dinheiro é a razão para o tiro na nuca. E o portuga é morto. Antes de fugir o bandido atira duas vezes na porta do banheiro, sarcástico desaparece montado numa Hornet vermelha.
E o burburinho “O que está acontecendo nessa cidade?”.
Odete percebe os comentários, mas está ocupada demais. Pratica o sorriso que ensaiara. O sorriso de mulher bem aventurada, mãe dedicada e esposa fiel. Quando chega à sua sala encontra na mesa um bilhete. Uma colega, sentada na terceira mesa de atendimento avisa, cabisbaixa, que deixara na mesa sexta feira, depois que Odete já tinha saído.

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O BILHETE DA MORTE

“Odete, vamos esperar vocês na pizzaria do portuga ás 20h, não se atrase. Renata e Marcelo.”
O bilhete era um convite. Percebendo o que poderia ter acontecido, Odete, a face sem cor, se deixa cair na cadeira. Depois de recobrar algum sentido liga para casa e fica sabendo que está tudo bem: Lucas dorme dopado, Isabela não chegou da escola, o marido ligara pedindo esfirras para o jantar. Na verdade, Odete ligou para se certificar de que não morrera. Talvez tivesse saído com o marido na sexta, encontrado Marcelo e Renata na pizzaria, bebido o vinho de sempre. Talvez estivesse morta como o portuga, imaginando estar no trabalho agora. Odete riu de si, girou na cadeira, e seguiu adiante a rotina do fórum.
Fez dois atendimentos, pequenas causas. Vizinhos em contenda reivindicando a metragem correta dos terrenos onde construíram suas casas. Lembrou-se, ao carimbar as últimas folhas do processo, de estampar o sorriso que praticava e, aliviada como se o mundo voltasse à sua órbita, decidiu tomar café.
A lanchonete que atende aos funcionários também recebe as pessoas que procuram assistência jurídica. As esquadrias de alumínio, em conjunto, formam imenso espelho para quem está na rua. Para Odete, e para nós que vemos o acidente acontecer diante dos nossos olhos, a grande vidraça é apenas continuidade da nossa retina.
Um carro é abastecido no posto em frente, do outro lado da rua. O frentista deixara a bomba de gasolina encaixada, abastecendo. Vai receber de outro motorista a conta. A bomba cai no chão e a gasolina se espalha debaixo do carro. Dentro dele Renata e Marcelo parecem discutir. Ouvimos o barulho. Um caminhão que faz entregas de eletrodomésticos, desgovernado, ultrapassa o sinal e vem nessa direção.
Odete, e todos que estamos na lanchonete, é espectadora do vai acontecer. Ao som estridente da buzina do caminhão, os gritos dirigidos para o casal dentro do carro. Marcelo parece enfurecido, mas o ar condicionado é um alívio momentâneo. Odete dá dois passos e toca no vidro, cola a boca na imagem de sua boca refletida ali. A explosão não atinge o motorista do caminhão, mas o carro está invisível no fogo. A onda de calor chega até o fórum. Por sorte a contenda dos vizinhos chegara a bom termo, eles já não estavam nas escadas da frente.
Nos próximos dias o sorriso de Odete seria menos humano. A cada ocorrência desconectada da sua realidade sentiria aquela sensação de estar envolvida.  Se uma criança atravessasse a rua antes dela Odete temia que fosse atropelada. Operários numa escada poderiam cair depois que ela passasse pelos andaimes. O noticiário do horário nobre associava a atuação da máfia italiana à escolha da pasta de dente que usara de manhã. Lucas não disse uma só palavra até agora, por que diria então que Odete está paranóica?

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FOTOGRAFIAS NA PAREDE

O cheiro da tinta fresca no quarto de Lucas, que aos poucos impregnara a casa, estava acrescido agora um odor suave de mofo. Fechada desde a garagem, a casa cheira mal. No entanto, apenas Isabela se incomoda. A menina tem cinco anos e parece boneca entre bonecas e vestidinhos coloridos, vez ou outra reclama: “Esse peixe está com gosto ruim, não vou comer nada.”
A representação de boa mãe e esposa fiel teve curta temporada. Odete não percebe a manipulação do espectro, Oxydraga é presença absoluta, o silêncio de Lucas pavimenta seu transtorno obsessivo. Todos definham nessa casa. Odete agora insiste com o marido “vamos organizar as fotos”. Ele preocupado com a defesa de seu doutorado “claro, querida!”.
Sete dias se passaram. Em cada um deles uma ocorrência bizarra envolveu Odete perplexa, o marido alheio, Isabela distante e Lucas emudecido. Nos cantos, e debaixo dos móveis pesados, aranhas sem pressa teceram suas teias. No oitavo dia Odete dispensou a empregada, desligou o telefone fixo e, sem que o marido soubesse, esvaziou o tanque de gasolina dos dois carros da família.
Foi na noite do oitavo dia, quando a casa descansava, que a sombra pesou sobre as fotografias. Oxydraga envelheceu, com seu ódio, as imagens colecionadas. Nenhum afeto resistiu. Na manhã seguinte o marido de Odete, químico doutorando na universidade local, notou alguma diferença no próprio semblante, no espelho, quando saía do banheiro. Foi nos três quartos. Sua mulher respirava profundamente porque dormira um minuto, a filha parecia um anjo, só os cabelos um tom mais escuro.
No quarto de Lucas as fotografias que estavam nos álbuns, organizadas por data de viagem, estavam coladas nas paredes. Alinhadas, uma após outra, numa sequência de movimento notável. O marido de Odete gira nos calcanhares e repete duas, três, quatro, cinco vezes, o movimento completando as voltas. Na cama Lucas está, como se estivesse, ausente. A sequência fecha um ciclo de imagens, sugerindo o discurso: o início se encontra com o final. E, entre uma coisa e outra, fora deixado espaço onde cabe ainda uma foto. Muitas perguntas ficaram sem respostas: como Lucas, o pequeno Bashar, franzino, de olhos arregalados, teria conseguido colar as fotos naquela altura da parede? O que é aquela gosma, massa cinzenta, que fixa as fotos? Porque ele teria selecionado apenas fotografias que, de uma forma ou de outra, remetiam ao oriente? Eram registros da ultima viagem para a Síria. Eram postais enviados de lá. Eram, nos olhos, uma saudade só sentida por quem vive longe da terra que amou um dia. Envolvido nesses pensamentos, o marido de Odete abandona-se num suspiro prolongado. E decide, para o bem de todos na casa, que farão a viagem planejada. O mais rápido possível.

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À CAMINHO DE DAMASCO

O voo de São Paulo para Damasco não tem escala. É viagem de quatorze horas e trinta e nove minutos para cruzar dez mil, duzentos e sessenta quilômetros. Da janela para o corredor, intercalados adultos e crianças, estão: Isabela, Odete, Lucas e Euclides Altagnã. Nesse momento o avião, estabilizado, alcança o Atlântico. O quase doutor Altagnhã não é homem de ressentimentos. Tem olhos para o futuro, mas a sequência das fotografias na parede do quarto de Lucas Bashar ainda projeta um filme na memória. Ele recupera, sem resistência e a contragosto, os acontecimentos dos últimos dias: o caso de Maria Inês com sua cunhada terminando tragicamente pelas mãos de Edmundo, o incêndio que deixara órfão, e sem lar, o menino, a tentativa de assassinato de seus amigos Marcelo e Renata, a morte insólita do casal no posto de gasolina e os desvarios de Odete. A única saída pareceu-lhe ser a fuga em busca das origens. Euclides sorri para a esposa. Odete, na poltrona de número vinte e dois, se entrega sob o efeito de tranquilizantes. As linhas de expressão do rosto de Euclides são hieróglifos antigos, aura densa. Um texto  bonito.
Euclides resolve ler o almanaque entregue pela aeromoça.
Sua maior preocupação ainda é a dificuldade com a língua árabe. Os últimos parentes de Odete, na síria, nada falam de português. Sentem prazer com o desconcerto dos hóspedes. Pela terceira vez chegarão em Tell Mardikh e, de lá, para as ruínas de Ebla.
Ebla, Rocha Branca.
Os anfitriões preferem vê-los gaguejar meia dúzia de palavras que colocar em suas bocas o som imundo de uma língua estrangeira. O que dizem nas aldeias é que os mais arredios moradores ainda falam eblaíto em rituais secretos.
Euclides sente um arrepio. “Estamos indo para o inferno.
Em outras palavras o almanaque diz que a Síria é o mundo esquecido por Deus. “As ruínas de Ebla é o cu desse mundo.”  - pensa.
O silêncio, dentro do avião, é opressivo. “Se cairmos o Atlântico será nosso túmulo.”
A voz do comissário de bordo anuncia o jantar em inglês e árabe... Uma pausa. Euclides, olhando para fora a imensidão negra azulada que a luz fria da lua revela, espera que a mensagem seja repetida em português. E mais uma vez ouvimos a voz do comissário.
- Senhoras e senhores, o jantar será servido em poucos minutos. Espero que o senhor esteja confortável com suas dúvidas, senhor Altagnã. É nosso dever prepará-lo para estadia breve.
Euclides, apavorado de ouvir seu nome, pensa que é um delírio. Recosta na poltrona.
O senhor não tem poder para interferir, senhor Altagnã. O deus que habita o fogo destruíra essa geração.
Euclides suspende a respiração, as refeições são entregues. Os passageiros do seu lado comem. Uma das aeromoças se aproxima empurrando o carrinho com as embalagens plastificadas do jantar. Pergunta:
- O senhor aceita um cálice?
- Não, obrigado. Euclides sorri disposto a não pensar. A aeromoça insiste ríspida:
- Beba e coma, faça sua parte.
Com semblante esfíngico desaparece no corredor. Euclides treme de medo. A voz do comissário de bordo retorna mais grave, gutural.
- Moloque criou esse mundo. Na terra de Can seu nome é Muleke. Os cultos à ele são orgias, nos seus altares são inúmeras as gestações indesejáveis. O destino das crianças nascidas dessa circunstância é o sacrifício. A maior parte dessas crianças nasce com defeitos patológicos, é raro encontrar uma que seja pura de alma e corpo perfeito. Uma criança que purifique os infiéis.
Onde foi que Euclides leu que Moloque tem corpo humano e cabeça de boi? A voz do comissário na sua cabeça continua informando.
A enorme estátua de bronze que o representa sentado, levemente inclinado para trás, projeta o dorso e salienta a cavidade no ventre. Dois homens colocam betume ali.  As chamas aguardam o momento da purificação. O fogo deve consumir viva a criança escolhida.
_ Querido, querido! Não vai comer? - É Odete.
Euclides acorda em sobressalto do devaneio. Sem fome, esforça-se para dissimular o medo. Seca com a mão o suor da testa. A viagem está ainda começando.

***

ÚLTIMA FRONTEIRA

Euclides Altagnhã revê as fronteira da Síria: com o Líbano e o Mediterrâneo a oeste, com Israel a sudoeste, Jordânia ao sul, Iraque à leste e Turquia ao norte. “A terra do levante” – conclui para formular, logo em seguida, novas perguntas. Segue lendo o almanaque.
Damasco é a cidade mais antiga continuamente habitada do mundo. Os primeiros povos a sobreviver, sob o clima árido do mediterrâneo, nessa região, falavam acádio. Língua semita assírio-babilônio cuja expressão escrita, cuneiforme, deriva do antigo sumério. Tão isolada quanto a língua, fora a escrita desse povo e sua memória é quase uma lenda. Há pouco tempo uma descoberta fascinante colocou a Síria em evidência: colonos israelenses descobriram vinte mil tabuinhas de barro com representações gráficas da língua eblaíta em sumério antigo. No entanto, a guerra da ocupação se estende nos assentamentos de Golã. O povo que um dia fez uso dessa língua está desaparecendo. Neste momento Euclides percebe, ainda vagamente, uma conexão entre tudo o que está à beira da extinção. O gosto amargo da bílis vem à garganta. Com a morte de sua cunhada, os únicos sírios do clã Bashar, nascidos na província de Ebla - a terra do sol magnífico - estão sentados ao seu lado. Lucas e Odete Bashar guardam, na expressão cansada, o benefício do alívio no sono.
Euclides desiste do almanaque, precisa distrair. Ler um romance talvez.
O relógio marca 00:20.
Euclides Pega o livro que está a ponto de cair do colo de sua esposa. E principia na leitura, a partir da nota do autor, da nova edição de OXIDRAGA.



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OXIDRAGA

mãe adúltera, amante de todos os pecadores


CONTO / terror

Edmundo Boavenura

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“Os sentidos nasceram só agora. E já estão
mortos.”

- do LIVRO DOS TORMENTOS


Edição revisada.


Essa nota deve acompanhar a publicação de OXIDRAGA. A verdade redescoberta é um mundo novo, os antigos sabiam disso. Eu temo ter descoberto tardiamente que o espírito tem a propriedade de transpor no tempo as limitações da matéria. O espírito do medo é uma sombra, nenhuma luz é capaz de iluminar meus pensamentos. Não devia ter insistido. Precisava escrever uma história, vender livros e tornar-me o grande escritor apavorado que agora treme as mãos suspensas sobre o teclado do computador. Meus leitores perdoarão o desfecho, a curiosidade levou minhas pesquisas ao abismo da insanidade. Resta a eternidade para o arrependimento. O consolo não vem, essa é uma guerra perdida. Aos editores agradeço a maldição e aos leitores advirto: sua alma corre perigo.


nota do autor

DIA DOS NAMORADOS, PRA FALAR DE AMOR

Pode parecer estranho evocar a imagem de uma casa em ruína para falar de amor no dia dos namorados. Para falar de amor toda metáfora alça v...