sábado, 13 de dezembro de 2014

SABE O JARDIM


Eu sou se vens e toca-me. Sem ti, eu ventania!
Longe, tudo restaria. Pétala de dentro... 

Tua pele é, da rosa, a última pétala! A mais perfumada,
a mais encarnada e a mais doce. Esperada!

Abre-se no tempo em que rosa’inda é botão...
Sem ti não saberia o jardim... Pétala de dentro, bastaria.




Antonio B.

FÊNIX EM TRÊS ATOS




Numa noite de muito calor, a Fênix despiu-se de seu casaco de penas douradas para se banhar no lago. O homem que a viu nua viu a mulher mais bela que nunca alguém havia visto. Enquanto refrescava-se, ele escondeu sua plumagem no bosque. Refeita do calor, a fênix  mulher foi levada para a casa de seu benfeitor. Aconchegada em seus braços esqueceu-se do casaco, do bosque, do lago e que tinha voado um dia.

Os anos se passaram. Ficaram para trás as lembranças, o homem envelheceu e viu seus filhos crescerem. Mas, o que acontece com essa mulher? Ainda tão bela e inquieta? De onde saia a força que dela todos sentiam era um mistério a ser esquecido. Suas vizinhas a invejavam e, no secreto da alcova, fantasiavam noites de calor despidas num lago. Os maridos do vilarejo temiam que seus pensamentos fossem ouvidos na sua presença. No entanto, tudo amanhecia no lugar. Até a véspera do ano novo.

Era a noite do último dia do ano. Fazia um calor insuportável e  todos se reuniram para celebrar o novo tempo. Uma das raparigas teve a ideia de irem ao lago, fariam juntos uma oferenda. Levaram frutas e vinho. Mas quando entraram na água uma delas não o fez. Essa, que agora caminha por entre os arbustos e encontra o casaco esquecido. No instante em que veste o casaco dourado seu corpo envelhece de uma vez... Todos aqueles anos, num segundo. A pele  se transforma em ouro, em pó. Ela morre e o único homem que vê a cena não pode socorrê-la . E porque o faria? No instante seguinte ressurge a Fênix! Num voou magnífico parte rumo as estrelas.

Antonio B.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SEM MARGEM, SEM TÍTULO


Desce o rio, contorno cotovelo.
O balseiro, que espera findo alarde, à flor d’água ,
resplandece – vai ao meio, a tarde. Tudo é reflexo
calado do coração adverso... lembranças
passageiras navegantes. Sem ter por quem
chegar, sem ter por que partir. Nas margens
tudo alonga e cresce sombras lentas no
leito irregular por onde descem balseiro

e rio.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CARTA PARA ABEL

CARTA PARA ABEL

"A palavra tem vida". O que significa dizer isso em tempos de apostasia? Todo falante da nossa língua repete essa sentença como se afirmasse o slogan "amo muito tudo isso”. Contemplo e preservo a unidade divina na linguagem, como se guardasse tesouro em relicário. Não me resta muito, não preciso de muito. Beleza, dor, miséria, solidão. Aqui faço uso desprezível do poder vivo que tem a palavra.

A sombra do homem que fostes está sentada do lado direito de um deus pai omisso. Tens tu espectro de Édipo estéril, recusa optar em dar socorro e omite-se. Ficará no silêncio. Nosso pai está cansado mais ainda é aquele homem que dera nomes a todas as coisas e chamou de “minha” a mulher saída de suas entranhas. Abel, tu és ardiloso, soube apenas comparar virilidade e trabalho. Meu irmão, tornar-se homem é, também, sentir medo

Há memórias que nos assombram, outras nos traem.

Vejo tua imponência, na cabeceira da mesa gesticula e descreve supostas aventuras amorosas. A conveniência de todos em ouvir os relatos fora paga com sacas de trigo. Anti-Ulisses... No futuro saberão descrever-te. Para cada anedota um leve soco na mesa. Todos sabem que assim foi, ou foi assim e que assim está certo. Faz uso de um soco leve na mesa para pontuar o desfecho. Um ponto final reticente que empobrece tuas narrativas. Desprezo-te ao ponto de desejar tua morte.

Nosso pai é homem de poucas palavras e grandes feitos. Adão é de parca inteligência dissimulada, se identifica com a força das mãos que aram a terra. Essa força estabelece o fato de ser ele homem de visão: o mundo será daqueles que fazem brotar alimento do chão. Se nosso pai é de poucas palavras, eu sou daqueles que prefere caçar sozinho, longe dos conchavos e tramoias a que que chamei, meio zonzo anacrônico, apostasia.

És cópia destorcida, só eu vejo? Me faz grande mal pensar-te meu irmão. O que são as circunstâncias? Devo respeitar-te e não te amo, devo honrar o fruto do seu trabalho e desejo matar-te.

Abel, já vistes a face do Criador?

Quis Deus que no reflexo do teu rosto eu vislumbrasse a semelhança que temos. Sou filho de Adão, o sangue clama descendência. Dos templos que serão chamados sinagogas, igrejas nascerão... E, em todas elas, estará vingada a deslealdade de entre irmãos. Minhas mãos seguirão sujas do teu sangue. Sei que o sacrifício erguerá mais alto o sonho do mundo antigo. Vivemos em ruína desde desde o início. Tiro de ti a vida e rego a terra com teu sangue.

Somos feitos do pó das estrelas, do barro ergue-se apenas vontade. Somos de constelações distantes, a minha é Solidão e a tua é Vaidade.

Não peço perdão, não aceito maldições. A mão hostil estendida é mais afiada que adaga no cinturão.

Abel, terás vida eterna, assim é a vontade do Pai. Acrescentará noutras vidas a vida que de ti roubo agora. Assim segue o "comboio de cordas" de restauração à merecimento.
Palavra viva, carne morta. Amo os filhos do nosso pai. Cada um, a seu modo, recita que a palavra tem vida. Todas as palavras nunca darão conta de preencher o espaço que a palavra amor esvazia.

Antonio B. 


 pintura de Keith Vaughan, "Cain and Abel" - 1946.

QUASE NÃO ERA MAIS

Eufórico,  tomei emprestado um tom azul marinho
da paleta que dos meus olhos fugia.
Num instante a tinta escorria sem que eu pudesse detê-la...
Jjá era o azul danúbio, logo azul nilo, e quase não era  mais
nada o azul translúcido das águas paradas.

E em busca do mar sigo em dobras de terra molhando os pés.

Caminho cedendo, escancaro boca, recebo a chuva.
Não troco o luto do silêncio, também não dispenso da solidão solilóquio

Pelos reveses do caminho a novidade é ainda ter, no chão, os pés.  
Mudo e molhado, o sonho descora azuis! Tinge minhas mãos ressequidas...
Quando escrevo, minto.

Enquanto dura a alegria, pinto para conter a aurora e assim acreditar num novo dia.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O HOMEM QUE SERIA



Quando me vi desenhado por tuas palavras, 
logo reconheci o homem que eu seria: 
Nos teus braços esquecido do que fui,
a lembrar o desejo de ser o outro que via.

Desenhado em tuas palavras
reconheci o homem que ainda seria:
nos teus braços esquecido de mim,
a lembrar-me outro que via.

Quando me vi, desenhado por tuas palavras,
reconheci logo o homem aquecido nos teus braços
que ainda seria.

Nos teus braços esquecido,
na tua boca reinventado.
Do mundo sem fazer conta,
sem medida, servindo-te calado.

Antonio B.

DE TANTO PROCURAR



Essa é a história de um homem que andava sempre olhando pro chão em busca do que os outros perdiam por aí. Vive sozinho e tem os bolsos cheios de quinquilharia. As noites passa enamorado de seu tesouro disperso iluminado à luz de velas.
Certo dia batem à porte e um jovem perguntar se ele não teria encontrado um chave que perdera.

- Foi a velha da esquina quem disse que o senhor enxerga por dois.

O homem encontrou três chaves e o jovem levou-as prometendo devolver as que não servissem. Não voltou.
Passaram-se os dias.
Batem à porta, nessa que ninguém nunca batia. No lugar do jovem uma mulher que tinha perdido um dos brincos. Trouxe as duas chaves que não serviram ao rapaz e as devolveu.
A fama desse homem que encontrava coisas perdidas se espalhou pela cidade, de imperceptível ele passou a ser notado. Muitos o procuravam, muitos dias se passaram.
Toc, toc, toc uma mulher pedia ajuda.

- Ando perdida entre as horas e os dias e procuro o juízo que um dia tive.

Desconfiado dela dispôs-se a acompanhá-la. O barulho do sapato dela parecia as batidas na porta tac, tac, tac.
Mas acontece que os caminhos por onde ela procurava o juízo eram diferentes dos caminhos que ele sempre percorrera e, aos poucos, saíram da cidade, ganharam os bosques, as fazendas, as colônias tortas de todo vilarejo. Aos poucos o ritmo dos passos dela tornou-se íntimo de seu coração tuc, tuc, tuc.

Então, com a primeira brisa da primavera ele, abaixado, gritou:

- Achei!

De pé estendia a mão oferecendo o achado. Mas não foi o juízo dela, perdido, o que encontrou. O homem, de pé, estende a mão e lhe oferece a primeira flor da estação.

Desse momento até hoje caminham juntos, sem juízo! perdidos os dois.

Antonio B.

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"DE TANTO PROCURAR" é minha homenagem à Marina Colasanti autora do conto que é RECONTADO aqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FRANCA 190 ANOS – PARABÉNS!

Seu passado secular é estrada em terra
boiadeira. Terra de cana doce, mogiana
café com leite! Passou Império, passaram
coroas e cetros. Hoje, na pele, é deleite!

De fronteiras é feita, cidade do meio!
De minas o seu tanto da península in’tália
artesãos, fachadas e lavouras - arte nata!
Nas calçadas a modernidade dos sapatos, o chão
Fez história, franca trilhou mundo inteiro e
deixou-nos seus rastros, marcas e glória!

Capital, do Imperador fez o nome!
Não acaso nem posto inglório...
Vem de Minas a gente que cresce
nesta terra do notório Estado São Paulo.

Entra milênio, em século nova idade!
A novidade é ser cidade grande e tranquila,
em urbanos calçados palmilha... Franca
das três colinas, cidade minha!



Pi & Bill

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CANÇÃO


durma bem! que eu te desejo sono profundo, zen
depois te quero esperto: cantando pelos cotovelos,
imitando cotovias e distraindo os bentivis na laranjeira. 

se de tudo raiar outro dia, regue as plantas
sê forte e não chore a seiva derramada - nada é em vão!
lembra-te do sândalo, perfuma a todos na agonia do corte.

te quero mais, e mais, e rindo mais alto quase sem razão...
debochando sem compromisso, feliz por nada. adoro ver você
profanando o sagrado desacralizado e triste na televisão.

sonhe o bom do amor!
e deixe as mazelas da vida para o amanhã...
que no mundo serão, por seus mortos ávidos no desaterro,
sepultadas.

e quando, se de ti perguntarem, dirão os amigos saudosos
num afã que nem o poeta saberia explicar...
dele soubemos: anda distraído, o tal vive a sonhar!
encantado deseja a lua, dormindo toma banho de mar
pisa nuvens, anda de mãos entrelaçadas
e com outro maluco atravessa Gilbraltar.


Antonio B.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

AO TEMPO, TEMPO.

 
Era de calma, mais uma vez um dia.
O dia não pede pressa, pede ciência...
Porque passa tão depressa o tempo que
não cessa? Não passa! Tempo é espera.

Em tudo pousa conforme, o tempo.

Desintegra cada coisa e ainda tudo no mundo unifica,
o tempo, tempo... tempo! Permanece e descontinua pleno...  
No olho da criança é encanto amplo finito
mas recolhe-se inteiro mínimo no fim do muito vivido.

O tempo não é triste, o tempo não se alegra.
O tempo nada destrói também nada cria.

Insondável é o mistério de ser o fim início da alegria.




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DEMOLITION



I believe the secret mood / of inanimate beings,
I believe in the artificial / soul of objects in harmony
arranged.

Sunsets in life that I will by a thread,
the night is a serene embrace reworking what was lost.

In the wreckage where have you been / encountered shelter, also a portrait of my life / in the wall
unfinished these verses
demolished.

NARRADOR



Encontrei essas palavras espalhadas, amontoadas, deitadas fora. Antes que arrependido voltasse para vasculhar o vazio recuperei do desperdício algumas e, logo todas. Desordenada e sem nexo pra onde vai a narrativa? Sobre pedras escorre para o mar. Então, coadas pela quinta vez dizem: concordo, sem beijo não há como sentir! Beijo de ascendência ítalo-ibérica, mineira. Não existe história linda ou feia, no papel o curso e o corte, mas antes o narr/


Encontrei suas palavras espalhadas, amontoadas, deitadas fora. Antes que arrependido voltasse para vasculhar o vazio recuperei do desperdício algumas e, logo todas. Desordenada e sem nexo pra onde vai a narrativa? Sobre pedras escorre para o mar. Então, coadas pela quinta vez, dizem: concordo, sem beijo não há como sentir! Beijo de ascendência ítalo-ibérica, mineira. Não existe história linda ou feia, no papel o curso e o corte, mas antes o narrador comporta-se como a um beijo. Li muitos contos como este para muitos. Dentro do quarto na casa da minha mãe, o mesmo de antes, ainda ouço longo suspiro. Lembro-me de tudo desde o adeus e, sentado a seu lado, tua caricia me envolve como palavra rosa que fere as mãos ao perfumar a alma e faz brotar dos olhos puro escarlate. Se o outono incide luz o faz sem saber.



/ador, se comporta como a um beijo. Li muitos contos como este para muitos dentro do quarto na casa que sempre fora a dos meus pais, e ainda o escuto. Desde o adeus, me envolvo em palavras Rosa, palavras Campos, palavras Pessoa... Palavras que ferem as mãos ao singrar a alma. E nessa mesma vida, a de sempre, vem a mim o verbo e o corte que fazem brotar puro escarlate se o outono incide luz.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

TRANSCENDÊNCIA

mistérios hão de ser desejos
reminiscências diluídas... na luz desfeitos! 
a revelação última do amor, anúncio...

palavra transfigurada, carne e tempo.

o mistério é e não há de ser
flagelo incessante, dolor... saber deposto!
transubstancia êxtase, inglório posto...



Antonio B.

SEMELHANÇA

Nalguma parte da superfície desse lago 

me vejo refletido. Alcanço teu rosto, espelho 

vívido do meu espanto. Atino que és... Descubro-te 

artífice! Reconheço-me viés tangível em ti, esboço...


... em tuas mãos suspenso, semelhante.




Antonio B.

L'AMORE È UN MISTERO

i misteri devono essere desiderio
reminiscenze diluita... nella luce interrotto!
l'ultima rivelazione d'amore, annunci ...

trasfigurato parola, la carne e il tempo.

il mistero è e non essendoci
flagellare inesorabile, dolor ... deposti sapere!
transustanzia estasi, di post inglorioso ...


Antonio B.

TRÊS DESEJOS



Um gênio apareceu-me num sonho... ofereceu-me a ilusão de três desejos e, descreditado, partiu.

Então, sozinho, desejei o retorno da fantasia,
da alegria o regresso... Mas nada aconteceu!

Desejo Arábia, Marrocos, desejo Saara... Nada mais valia!

Decidi não querer... Não esperar... Nada ser.... Nada, era tudo que tinha!
No deserto, eu vazio... da espera cansado, do caminho fadigado... Nada mais desejei!

Então, no meio da noite sem fim, um jardim infinito se abriu.
- o mistério era a palma da mão aberta do gênio amigo que partiu.

Agora satisfeito, sem mais demora encontrado...
No deserto colorido, da aurora iluminado.

Antônio B.

ORÁCULO



Bom dia Marte, bom dia Vênus....
Bom dia safiras, esmeraldas, rubis. 
Bom dia rubis mamilos enrijecidos, bom dia! 
Bom dia Eros! Uma vez mais, bom dia! 
Bom dia flor, bom dia! Bom dia fruto do querer bom dia.

Bem alinhado ao peito trago-te sereno
Bruto escravo do meu desejo, senhor do meu esconderijo.


Antonio B.

ALTAR

Essa minha religião, maior

que as igrejas e mais antiga

que o caminho, é o altar 

posto no alto da colina.

SEDIMENTO FOTO GRAFIA


Algumas fotografias não acordaram, permanecem mudas
porque foram caladas. No silêncio recolhidas dormem
cenas interrompidas. Gritam sequencia de artifício arbitrário.
Assim interrompida é filme não concluído, vida por viver...
Recortes sobrepostos de planos naturais, de corredeiras alegres,
e de poços de tristeza profundos. A fotografia paralítica é pose.
Na fotografia há muito sedimento do vivido! Imagem clara
se ainda pensamos a vida correspondendo a imagem de rio.
Muito leva para os olhos dos mais aflitos...
Nutrientes, encantos saltos ornamentais.
A figura retida na fotografia dormente é apenas plano de fundo...
Esmorece, embaça, enfraquece a memória do tempo não vivido.
Na retina a vida empoçada seca riachos de lágrima cristalina.
Antonio B.

RECEITA PARA COMER O CORAÇÃO


Para comer o coração de um homem... Siga corretamente as instruções da receita: cozinhe em fogo brando logo depois de arrancá-lo do peito. Não dispense o sangue - separe e guarde em temperatura ambiente! Sirva em taças de prata quando, na mesa posto, esteja o coração ainda quente.
Para comer o coração do homem... Antes cuide para que seja um coração tranquilo. Dedique tempo e silêncio do seu lado até ouvir dele as batidas do pulso. Seja para ele sombra ao meio dia, também o que lhe parecer sol nas horas mortas da angústia sofrida.
Para comer o coração desse homem... Certifique-se ter em mãos os temperos necessários: coragem e força! Crie a coragem necessária para dizer “não” quando pequenino o coração dele, indo parado, quase desistir. E fortaleça seu próprio caráter para aceitar dele o “sim” quando, do mesmo coração menino, sua vontade prescutando intuir.
Se desejas ter do teu homem o coração servido, proceda
naturalmente. Trate dele, cuide conhecê-lo a fundo.
Procure descobri-lo oculto e siga o procedimento à mesa:
ao servir o coração dele ofereça o seu, e faça um brinde!


Antonio B

terça-feira, 30 de setembro de 2014

CORAÇÃO DE RESEDÁ - escrito à 4 mãos, com Jose Luís Piacenti

Pensei rosas murchando no chão molhado do meu sono, recordo meu bem querer. Colhi notas néctar para oferecer-te e embriaguei-me no doce perfume das flores do seu nome: flores de laranjeiras e limão tahiti. Silabas verdes de jacinto, de limão siciliano, de Bergamota.Coração de resedá, madressilva, crisântemo, jasmin, pêra, rosa e Narciso.
Banho-me no aroma da essência oriental, Chipre quase olíbano. Não distingo quem sou de quem és: mistura insensata de coentro, sândalo, âmbar, patchouli, almíscar, musgo de carvalho e cedro.
Meu bem querer, pensei rosas murchando. Ânsia que provoca a paixão e devaneio. Meu coração explode de felicidade.

VOUS REVENEZ


Um gênio mágico apareceu-me num sonho.  Mago e poeta,
nada garantiu. Ofereceu-me ilusão e  desacreditado partiu.

Desejei o retorno da fantasia, da alegria o regresso.
- nada aconteceu!
Desejei a Arábia, o Marrocos, o Saara inteiro.
- nada mais valia!
Desejei não querer, não esperar, nada ser.
- nada era tudo o que eu tinha.


No deserto Vazio nada mais desejei.
- o sonho chegava à praia como um navio sem vela.

                                         da espera cansado, do caminho fadigado.
                                                    a ilusão perdida, o sonho acabado.

Então, no meio da noite sem fim, um jardim infinito se abriu.
- o mistério era a palma da mão aberta do gênio amigo que partiu.
Sem mais desejar, satisfeito. Sem mais demora, encontrado.
No deserto colorido, da aurora iluminado.  

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O RITO



Levito, antes de abrir os olhos
suspenso agonizo.

 

Antes de abrir os olhos, sobre pálpebras incertas uma navalha cega arranha eterno castigo: quedam os séculos nas horas do dia e o rito à flor do rasgo ferido sangro e grifo: na carne, o processo atualiza.

 

Antônio B.

.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NA PRIMAVERA, INSISTO.

À ninguém pertence a culpa, é do verão / a natureza 
despir a alma mais de uma vez/
tida. 

Na primavera, insisto! Espero vestido, coberto de ti.
- o amor despido perde o pudor.







O amor, grande e verdadeiro, sabe tudo.
Espera, de nada tem medo.
Não teme a sorte, faz o mundo pequeno e alarga fronteiras.
Do amor os amantes não sabem nada.
O amor é o longe, vai, leva e traz.
Porque o amor é completo só quando chega, inteiro só quando acaba, sincero só quando erra.

sábado, 6 de setembro de 2014

ELEMENTOS VISUAIS PARA UMA CRÔNICA URBANA


Eu sou um tipo estranho, explico um dos motivos... É que eu gosto muito de animais e encasquetei que eles poderiam falar se quisessem! Não é loucura, mas beira a birutice. Então, quando percebo uma história no olhar de um cão fico eletrizado, comovido muitas vezes. Fico sabendo que é pesado alçar voo ao meio dia quando ainda não encontrei água fresca. Fico sabendo que outro cão, maior, mais faminto, mais cão, roubou o osso que tinha escondido. Fico sabendo que o pasto verde é o quintal do vizinho. Fico sabendo que o vazio que vai dentro do homem é do tamanho do silêncio. Todas essas coisas não ditas e passam por mim pedindo voz e, embora todas as histórias já tenham sido contadas, me emociono mais uma vez... Talvez que eu fique sabendo demais, talvez eu precise consultar um oftalmologista, talvez não devesse abrir os olhos já que todas as histórias estão dentro de mim.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

TRÊS PALAVRAS ÚMIDAS

(aterro)

Ondas idênticas, de ontem e sempre, do mar avançam silenciosas. No intuito de solapar, de debaixo dos meus pés, a terra que eu pensara firme.
 (arrebentação)

Desenhado na calçada, o mesmo mar de antes e sempre, é plástica metáfora fria da distância entre Copacabana e Lisboa - sobre esse mar caminho.

(desatlântico)


Três palavras de asas úmidas.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PROCESSO ATUALIZA

Antes de abrir os olhos, suspeito / acordo. Antes 
mesmo de perceber, estou. Sem controle, sem 
vontade ou razão. Processo atualiza, e se repete. 
Toda manhã, antes de abrir os olhos.

O pensamento é projeto, nunca resultado. Porque
acordo amanhece? O pensamento é antes impulso,
extremidades tencionadas. É a potencia recolhida,
são as pontas do arco envergadas.

(suspeito que seja um acordo de preservação)

Pesam em minhas pálpebras vultos pintados
numa cavernas da Serra da Capivara. O pensamento
rasga docemente o véu que não separa, o pensamento 
permite o que, já encarnado entre nós, é incontável.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O gato, que eu julgava bem tratado, deixou casa
e trapos na caixa.  Desceu do colo, trepou no muro, ganhou a rua e sumiu.
Ainda no telhado, já longe do meu barraco  - e para espanto meu!

sorriu-me antes de dizer adeus.

A REENCARNAÇÃO É UM FATO, E A PROVA DISSO ESTÁ NA CARA. Eu conto.


Na cara do Juliano, na fisionomia estampada na cara dele, notei uma mudança considerável hoje de manhã. Temos o mesmo sangue, e os laços que são comuns a todas as famílias ora nos aproxima, ora distancia um para cada lado como se falássemos línguas diferentes. Assim é que, na adolescência, éramos irmãos depois de uma infância sendo primos. Assim foi até o fim da puberdade quando a vida se torna ensaio para a maturidade. Nesse intervalo entre atos, porque a maturidade chega de forma muito particular para cada um, os laços que antes nos aproximava se afrouxaram ao ponto de parecer que não se tratava mais de uma questão de sangue ou de família. Talvez porque nos enveredamos por linguagens diferentes, buscando com ânsia desproporcionada, falar uma língua que fosse entendida por todo o mundo. Ou talvez porque o humor e o temperamento de cada um estivessem à deriva no oceano da personalidade. 

O fato é que hoje de manhã reencontrei essa pessoa que é um homem maduro. Tive a impressão de vê-lo mais magro quando tentou, sorrindo, se desfazer de um pacote pesado para estender a mão em cumprimento. E me perguntei feliz: será que é ele mesmo? 


A resposta foi perceber na cara dessa pessoa, como dizia há pouco, na fisionomia estampada na face do meu parente, inumeráveis rostos que sobrepostos pareciam emergir de outros tempos, de outras encarnações. Sobreposto ao sorriso amável a rigidez do cenho preocupado em ganhar a vida, contornar as mazelas, alcançar objetivos. Um olhar difuso parecia ainda ver o primeiro amor dizendo adeus e, logo, o brilho dos mesmos olhos apaixonados e apertados de alegria, sorriam para mim. Quase ao mesmo tempo, num átimo. 


Transfigurado, na minha frente, uma pessoa conhecida era um completo estranho. Transmutado: ainda era o menino que cresceu na capital, que aprendeu ioga e lia “o ponto de mutação” confeccionando flechas de bambu. Sonhando, talvez, em ser livre como um índio quando crescesse. 


Na película líquida e fina que era a face dele eu vi personagens que não conhecia, tentei adivinhar minha própria estampa. 


A reencarnação é um fato, e a prova disso está na cara. O desfile das máscaras sob o perfil fino de água, às vezes cristalinas, turva-se. 


E o melhor que posso é evitar o espelho enquanto escrevo para fixar o instante no caudaloso rio da existência.


sábado, 30 de agosto de 2014

CARTOGRAFIA


Noite oceano de mistério profundo, vem o meu amado!
Em ti navego seguro.
Para teus pés, cansados da jornada, óleo
de olíbano em cântaro de prata.
Beijarei tua face e tua boca dirá meu nome.
Minhas mãos descansadas far-lhe-ão coroa:
- trama de mini rosas pontuada por sementes de ervas doce.
A cabeça do meu rei exala o perfume das ramas de hortelã,
das folhas do capim cidreira, das raízes do vetiver.
És o orvalho da manhã. Tomilho úmido, fresco.
És o aroma da manjerona plantada aos pés da laranjeira.
Suspiro de amor eterno coroado de perfume.
Ardor dos cuidados efêmeros, doce cálculo do perfeito.
Súdito vassalo, regente das vastidões.
Oh! Noite! Corpo do oceano sem fim.
“Encontrei-o! Não o deixarei jamais.”

terça-feira, 26 de agosto de 2014

TESE SOBRE UM HOMICÍDIO - RESENHA


Uma tese é uma obra inacabada, aberta. É rascunho e exercício de uma escrita que se põe à prova. O corpo de uma tese leva no seu bojo a possibilidade de antíteses num jogo dialético que ultrapassa limites e abre fronteiras.

O filme argentino “TESE SOBRE UM HOMICÍDIO”, dirigido por Hermán Goldfrid, mostra Buenos Aires a partir da imagem panorâmica da faculdade de direito.  O discurso narrativo segue o mesmo plano, aberto e geral, quando o objetivo é ostentar a arquitetura clássica das tramas dos filmes policiais. O discurso descaminha para os detalhes quando começa a investigação.

Acontece que um corpo de mulher jovem, deixado no estacionamento da faculdade, acaba por envolver o professor advogado criminalista. O advogado, cinquentão charmoso aposentado, interpretado por Roberto Bermudez. 

A investigação segue a trilha dos detalhes. Nenhuma lógica parece satisfazer a busca pelo criminoso.  Uma das melhores cenas é a que “justifica a necessidade do crime”. É a sequencia em que somos levados até o museu onde a Pablo Picasso tem retrospectiva. Ali, o suspeito surpreende o investigador e o convida para se deliciar com um quadro específico. Não é “GUERNICA” mas um quadro que representa a crucificação de Jesus. 

O suspeito jovem, ao ensina o investigador homem maduro ler os objetos representados no quadro, em êxtase, conclui: o sacrifício é necessário.

O filme parece contrariar os planos cartesianos que conduzem a história de forma linear quando a narrativa se completa com cenas que acontecem na cabeça do protagonista. A síntese que quase formulávamos se torna, mais uma vez, em tese. E a trama continua...

As melhores sequências parecem sonho, delírio de alcoólatra ou anseio de psicopata – e não sabemos, por fim, se a “motivação” seria mesmo uma possível paternidade negligenciada. 

O filme parece ser a obsessão de revelar o crime perfeito. Sem conclusão o desfecho faz jus ao nome do filme.

sábado, 23 de agosto de 2014

SARAMAGO

Sou um homem de sorte: poucas vezes fui orientado para "O QUE DEVIA LER" - salvo na faculdade, que é quando se descobre que não vai ler tudo numa única vida... No entanto, encontrei pessoas encantadas com alguns autores e autores encantados por lendas da literatura. Esse tipo de encantamento não se compra e "recomendar" não garante, no percurso, a satisfação: tem que acontecer ao espírito! Faço nesse post uma homenagem ao escritor português cuja obra, eixo e norte, sinaliza direção - sal na terra, luz no mundo - saramago!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

SEM TÍTULO - orquídea

Todas as orquídeas são belas, espalhadas pelo mundo
- de todos os tamanhos, de todas as cores.

(tem orquídea do tamanho da lua,
tem orquídea menor que a unha)

Milhares reunidas em estufa, à venda nas galerias
- toda orquídea é bonita, se se se abre!

No alto das montanhas ou na restinga, à beira da praia,
abrem os olhos de quem passa.

Orquídea pensamento existe, mas é rara.
- para encontrar uma, logro fazer poesia.
(Mas veja: nos Pirineus acontece a pudica orquídea-pensamento-meu desabrochar pelo simples capricho de ocultar-se.)

Um pedaço de concreto, um pouco de nuvem: esta é mina casa,
um vasto espaço vazio.
Ali, um pensamento decorado e alheio de mim acumula ausência, florido.

As orquídeas da Tailândia são exóticas porque tudo que é exótico vem do oriente. Minha casa está à beira do ocidente.
Orquídea perfumada não existe, assim com se diz "nela coloquei seu perfume".

A orquídea é flor que sabe guardar a si em dúvidas macias
Os arrecifes, vistos da praia que deixamos, não!
Eles abraçam as ondas com uma certeza bruta, certeza

cega de pedra submersa.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

APELO


Uma nota caída / do sol
implora, no peito / o berro,
conclave. Meu peito / aberto
é um buraco inteiro. Nele / cabe
o sol, o afago e o aperto.
A clave de sol abriu meu canto ao meio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O HOMEM QUE SERIA

Quando me vi desenhado por tuas palavras
logo reconheci o homem que eu seria
nos teus braços esquecido do que fui
a lembrar desejo de ser o outro que via.

Desenhado em tuas palavras
era homem que ainda seria
no abraço esquecido de mim
a lembrar o outro que fugia.

Quando vestiu-me com as tuas palavras
compreendi-me inteiro, homem refeito.

Nos teus braços esquecido
e na tua boca reinventado
do mundo sem fazer conta
sem medida embriagado.

Antônio B.

AUSÊNCIA


sabe o que falta na minha vida? 

sabe o que falta na minha casa? 

sabe o que falta no meu jardim? 

sabe o que falta no meu sorriso? 



nada falta, nada sobra, basta a tua presença!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CADASTRO PROTOCOLO

Segue o título. Torne à esquerda,
segunda porta depois do corredor.

Despreze o aviso e entre sem bater.

A fila encerra a ordem, respeito
conserva, aos que ainda tem, os dentes.

Na pressa teu lábio ferido abre riso
alto e vermelho, me encanta. Não te
incomoda a dor. Para si, não

é sim, é mais.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OXIDRAGA



ALUCINAÇÃO

Naquela noite Edmundo correu para salvar o bem mais precioso que possuía. Com as folhas manuscritas debaixo do braço cambaleou até o portão. Seus olhos buscavam alguém nas sombras. Ele sabia que não tinha ido longe de sua casa e tentava mais uma vez. A cidade era apenas um quarteirão. Na esquina percebia que tinha dado a volta e estava no mesmo lugar. A chuva mansa encharcou seus sapatos agora pesados. Mais uma vez, mais uma volta sem êxito. Edmundo decidiu voltar e guardar os papéis. No portão enfiou as mãos no bolso, baixou a cabeça. Seus olhos ardiam, as chaves deveriam estar no bolso dianteiro da calça. Apanhou o molho de chaves, mas deixou que caíssem na calçada. Atrapalhado ergueu-se satisfeito. Quando enfiou o metal na fechadura sentiu um toque gélido, dedos que pareciam ossos translúcidos agarraram sua mão. Num grito apavorado soltou os originais que escorreram inevitavelmente para o esgoto. Edmundo desmaiou. O livro se perdeu, reescrever tornou-se obsessão...

***

FRAGMENTO UM
No ventre da mais casta virgem, o repulsivo espectro, repelido pela força da luz no ato mesmo da criação dos mundos, fez sua casa. Demarcou território onde teceria com fios negros a mais ardilosa trama. O espectro tem negros pelos como seus olhos, e dentes. E isso se deu quando ainda estava no ventre de sua mãe, mulher que nunca amara um homem sequer. No parto a menina recém nascida revelou-se assassina. A sua primeira vítima: a mãe. Fora adotada por uma instituição e depois por uma família do interior. Pré-adolescente fez de seu pai adotivo um brinquedo. Embriagou e seduziu o homem que, desprezado por todos, matou-se na cadeia. Ainda naquela noite subiu chorando até o quarto para dormir com sua mãe. Obedeceu quando ela pediu que trouxesse água, mas ofereceu suco de laranja com uma dose de veneno. De volta ao orfanato, permaneceu uma semana, simulou a própria morte e ninguém mais teve notícias suas.

***

DE BAR EM BAR

Edmundo pede mais uma dose antes de regressar para casa, para o trabalho. Adia o retorno porque não fará outra coisa se não retomar a escrita do romance, escreve ininterruptamente.
Quando caminha escreve, quando entra no bar escreve. Escreve quando pede uma dose. Seus passos, ao atravessar a rua na direção do bar, são do tamanho do seu pensamento. Ondas de pensamento curto. Orações de períodos compostos de elementos trágicos. Edmundo sabe que reescrevendo a história perdida não terá escrito mais que uma farsa. Isso o consome.
A editora insinuou quebrar o contrato, assinado ano passado quando “Oxydraga” fora lançado, mas aguarda insistente. Edmundo tem espalhado pelo escritório, que é seu quarto, um amontoado de rascunhos. Papeis desordenados e, neles, personagens que exigem sua presença, pedem constância do ato de escrever para que possam respirar outra vez.
Edmundo sabe que a história que vai contar tem vida própria. Sabe também que as palavras são traiçoeiras. Portanto Edmundo tem medo. Edmundo tem medo de não traduzir corretamente o que se passa do outro lado, do lado em que não é necessário oxigênio para sobreviver. Quando escritas e  alinhadas as palavras revelam quantas partes do corpo foram mutiladas e transferidas para o texto. Essa imagem, como de resto toda representação visual da realidade imposta aos sentidos, demanda sobreposição imediata. Nunca daremos conta do que se perdeu no caminho de Edmundo até aqui.
- Uma dose.
Edmundo pede sem ter que explicar quantas vai beber. A rua ainda está molhada. E das árvores, na calçada, outra chuva amarra seus passos. Não demora e começa a correr. Um quarteirão, dois, três e decide não fumar mais. Podemos vê-lo agora parado na frente do portão de sua casa porque chegamos aqui antes dele. Fizemos como o Lobo que engabelou Chapeuzinho quando disse “tome aquele caminho” sabendo que esse era mais curto.  Vem decidido, ansioso. Se não der voz aos personagens que criara, chegará à loucura de falar por eles.
- Uma dose, uma palavra.
Seguimo-lo do portão à porta, da porta ao quarto. No quarto a cômoda se abre em duas gavetas.  O ângulo reto, desenhado pela porta em relação às linhas do guarda roupas, está distorcido. O ponto de fuga se perde levemente embriagado.
- Que merda é essa?
Edmundo decide dormir, não escreve nada. Antes de ser tragado pelo sono, vislumbra nos papéis espalhados, olhos famintos que miram, perguntam e imploram com ares de vingança: “escreva-nos”.  É hálito esferográfico, entorpecente. O peso que a consciência incide aumenta e Edmundo cai bêbado na cama desalinhada.
“ESCREVA, EDMUNDO, A ELEGIA DOS DISSABORES E TERÁ O ROMANCE QUE PRETENDE JUSTIFICAR O TEMPO PERDIDO”.
É uma anotação dele pendurada no espelho. A voz do narrador, como a do  barqueiro, conduz Edmundo para Oxidraga.

***

FRAGMENTO DOIS
Numa noite tranquila, de sono inquieto e nuvens sombrias espalhadas sobre as casas, acontece de uma criança caminhar entre os jardins que se tornam cada vez mais distantes. A criança caminha em direção em direção à uma caverna incrustada na pedreira, é um fosso o seu interior. Dizem que não tem fim o abismo. É um menino que segue uma voz misteriosa que o chama. Oxydraga espreita na entrada da gruta. Sem que déssemos pela falta, a maldade fez casa do nosso quintal. Um grito abafado não pode ser ouvido, e segue a manhã. Mais uma vítima. Não há motivos para duvidar da inocência de uma criança que disse ter visto a cena:
- Oxidraga é uma aranha.

***

A MELHOR AMIGA DE QUEM?

O que deixa Edmundo desejando a morte a escrever está posto no que escrevera antes. Perguntas sem respostas. Como a melhor amiga de Maria Inês, sua mulher se infiltrou na história do casal? Como aproveitou sua ausência, quando trabalhava fora da cidade, para declarar como se soubesse de uma verdade oculta, que tudo entre os dois já havia acabado. Com um rasgo no rosto, que nem era riso avisara à Edmundo que desfecho é nome daquilo que teve fim. Como se fosse pouco insinuou que Edmundo se envolvera com ela.
Dupla traição: da amizade e do que do amor. Maria Inês e Edmundo se conheceram numa noite mágica, à beira mar. E se Edmundo não conta essa história que o motiva é porque busca verossimilhança para a narrativa, que leitor algum distorça a verdade como fizera a outra.  Então Edmundo cria mitos próprios que guarda em relicário, engana os sentidos. O tempo da exaustão se pronuncia esgotado. Enfim Edmundo nos revela o impasse, não terá mais alternativa que escrever.
A melhor amiga de Maria Inês mentiu, a mulher de Edmundo acreditou em cada mentira. Certamente por simpatizar-se com elas. Talvez, pela conveniência das circunstâncias e pela distância que a separava do companheiro naquela época.
Já a amizade delas começara antes. Bem antes de Edmundo vir a esse mundo de máscaras.
O que faz Edmundo peregrino sonâmbulo todas as noites é a certeza de que ambas tinham um pacto. Que guardavam segredos íntimos uma da outra, segredos de alcova. Se deles nos dispuséssemos detalhar, teríamos outro novelo, desta vez réplica ardilosa de Sade.
Vamos ao novelo, vamos à replica.

***

O FILHO DA PUTA

A melhor amiga de Maria Inês é mãe de rebento único, casara para dar nome ao filho que veio ao mundo numa gravidez indesejada. Teve certeza que a desgraça de ser mãe mudaria sua rotina perversa de infiltrar-se na vida dos homens que desejava. Ser mãe não foi uma escolha, mas maldição. Na cabeça dela a culpa era dos modos rústicos do roceiro com quem transou sem preservativo.
Maria Inês tornou-se amparo nesse momento de angústia.  Comovida pela criança que já estava plantada no terreno mais árido que se pode ter notícia, tranquilizou a situação.
E nasceu quem não fora abortado.
As duas dividiram inúmeras situações no tempo em que crescia o menino. Guardaram segredo do vivido.

***-

A PRIMA ODETE

A melhor amiga de Maria Inês coleciona segredos da mesma natureza de sua prima Odete. Odete por sua vez, usufruindo de privilégios no Fórum onde trabalha, obteve informações sigilosas e suficientes para se aproximar do juiz, seduzi-lo e com ele manter um caso. O juiz é bem casado, pai de família e vizinho de Maria Inês. Em cidade pequena, como em Naverdade, nada fica encoberto.
Um barril de pólvora vai explodir na marquise desse castelo assim desenhado, prestes a ruir. O que apodrecia no reino da Dinamarca agora fede nesta rua. Porque Maria Inês se prestaria a guardar tantos segredos se não fosse útil? O silêncio agrega valor à informação, inocência é um estado de percepção que também as crianças desconhecem. Como saber do deleite delas barganhando aventuras extraconjugais?
***

ESTÁ ESCRITO

Diante das possibilidades o escritor que não escreve mais.  Edmundo traz suas personagens amordaçadas, espalhadas em quaisquer pedaços de papel que encontre. É preciso ajuda de terceiros nesses casos de impasse. Por isso decide buscar a sabedoria do tarô na quinta feira. Se a cigana confirmar a suspeita de que, a cada confidência da melhor amiga, Maria Inês segredava uma traição sua, Edmundo perderá o juízo de vez. E não sabemos o que pode acontecer. Edmundo decide enviar, por e-mail,  o tem escrito para a editora. Nunca se sabe o dia de amanhã. Adiantemos à narrativa ou retomemos à fábula, pois até quinta, faltam três dias. Edmundo se meteu no banheiro, está de joelhos com a cabeça dentro do vazo sanitário. Vomita urrando. Seu grito é Oxidraga que reverbera aqui.

***

FRAGMENTO TRÊS

Os gregos inventaram Baco para os festins e as orgias. Os romanos reinventaram o costume e Dionísio atravessou a Ásia, a África e chegou à América. Nosso tempo é um tempo de concorrência globalizada, é necessário, para os homens que detém o poder sobre os domínios, acirrar os métodos de conquista e permanência nos territórios ocupados. E porque nunca tivemos a perfeita combinação da química com a filosofia em toda a história, num pequeno laboratório inventou-se a droga que paralisaria qualquer consciência, em qualquer cultura, de qualquer parte do planeta. Depois de testada na América central, noticiada nos programas de auditório do Congo, desprezada no Kremlin e abominada em retórica eclesiástica no jornal do Vaticano, moradores de uma favela do Rio de Janeiro batizaram a substância de Oxydraga. A nova droga, o vinho antigo, misturada em pastas de tinta para tatuagem, é distribuída em cilindros que imprimem uma gravura, uma figura dessas para ser colecionada em álbuns. A imagem, em três dimensões e cores hipnóticas, é feita de pigmentos e óleos essenciais que, se aplicados na pele, serão absorvidos levando à sensação de prazer. Condicionam, viciam. As pessoas são transformadas em zumbis consumidores. O álbum nunca se completa por faltar sempre uma representação de Oxidraga a ser buscada até à morte. O consumo eclodiu: Oxydraga é branca e magra, os desenhos de seu corpo em “s” lembrariam uma serpente, no entanto se trata de uma aranha. Bicho peçonhento e limpo.  Nesse moinho assolado por ventos fortes, o mecanismo da derrota espera Quixote para o regozijo dos analfabetos em mais uma batalha inútil contra a moral e os bons costumes. Tempo sem direção, batalha de triste figura.

***

AMPARO AOS DESGRAÇADOS

Estão acampados os ciganos na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados. É quinta feira, dezesseis horas, o sol inclina sobre os telhados sombra obliqua. Aquela cigana negara ler a mão do filho da melhor amiga de Maria Inês que, na ocasião, desdenhou dos poderes sobrenaturais.
Na ocasião, quando a cigana aproximou-se oferecendo seus serviços, ela recusou e deu a mão do filho então com seis anos. O gesto ofendeu a moral da cigana que praguejou. O que disse entre os lábios apertados e os dentes de ouro rendeu uma semana de fuxico. A cigana resoluta não quis saber do dinheiro da mãe adúltera, amante de todos os pecadores.  Selar o destino de quem ainda não desabrochara para a vida é crime contra a cultura desse povo. Todos souberam desse episódio tempos depois. Outra razão e outra moral foram atribuídas às escolhas feitas nesse dia. Circulou por força dos boatos que a cigana se recusara a ler a mão do menino porque teria percebido o interesse da puta no cigano companheiro seu.
Certeza e futuro. É quinta feira.
Edmundo contrata o serviço ali mesmo, na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados. O sol declina sobre os telhados sombra triste. Logo mais, à noite, Edmundo vai visitar Maria Inês. Agora ele pergunta:
- Diga-me, de onde vem a traição?
A cigana trazia um peixe embrulhado em jornais. Antes de demorar o olhar na mão de Edmundo desamassa o papel, refaz a página com gestos nobres. Dedos impressionantes desembrulham o peixe morto. Com voz de leitora atenta avisa para outra cigana que está mais afastada:
_ Recorta, guarda que é bonito.

*****
RITUAL MACABRO

Edmundo caminha lentamente. Os dentes de ouro da cigana faíscam nos seus olhos. Édipo mudo segue para seu destino, a advertência do oráculo foi clara.
Edmundo se aproxima da casa da melhor amiga de Maria Inês. A chuva dos últimos dias não cessa, e no horizonte uma nuvem carregada de energia promete tempestade.
O crepúsculo é apenas um fio laranja distante quando, no portão, Edmundo resolve surpreender quem estiver dentro da casa.
Sem esforço escala o muro, joga a perna direita sobre as cerdas laminadas. Sem fazer barulho ele salta, mas esquece de afastar o braço. Do corte largo no antebraço o sangue logo se espalha e Edmundo pressente seu fim.
A única luz no caminho é a da varanda, nos fundos.
As folhagens se agitam com o vento, ninguém ouve seus passos. Edmundo ouve a voz de Maria Inês, está acompanhada de sua melhor amiga. O sangue chega aos olhos. O torpor desalinha seus passos. Edmundo quase cai tropeçando no arado de ferro esquecido no jardim.
Recorte e guarda, essa história não acaba bem.  Edmundo parece ouvir a cigana, esfrega os olhos. Edmundo se apresenta na varanda, tem o semblante de um vampiro.
Maria Inês está de pé vestida da cintura para baixo, os peitos à mostra. A luz que ilumina a cena vem de duas velas, a melhor amiga de Maria Inês está nua, ergue uma taça, mas corta o riso. Em defesa uma da outra - e porque estão assustadas e expostas – uma delas recua até a mesa onde está a garrafa. A outra não tem tempo para dizer nada. Edmundo se agacha, apanha o arado de pontas alongadas e ameaça assustadoramente. A pancada na cabeça faz Maria Inês cair como manequim, ensanguentada. A outra atira a garrafa, mas acerta no pilar da varanda. Os cacos estão por toda parte. O whisky derramado escorre junto do sangue. Edmundo se ajoelha para tocar o corpo, Maria Inês está morta. Então, tomado por uma força que desconhecia, se levanta. Tropeça em alguma coisa que fora lançada na sua direção, e estrangula aquela que julgava ser a melhor amiga de sua mulher.
Sem força Edmundo cambaleia, e na queda traz consigo uma das velas. O fogo não faria estrago maior se o whisky não tivesse encharcado o tecido que forra da mesa de madeira, uma das cortinas e o vestido de Maria Inês.
O fogo consume tudo que vai lambendo.
No portão a sombra de uma criança desaparece quando Edmundo suspira pela última vez.


***

A NOITE DE LUCAS BASHAR

Naquela noite o pequeno Lucas Bashar conheceu a dor, o medo e a coragem. O corpo de sua mãe ainda ardia nas chamas, e o espectro do mal iluminava o caminho para os passos do menino. Na chuva daquela madrugada Lucas Bashar seguiu sua intuição sem chorar, sem esperar que a polícia ou o conselho tutelar viessem atrás dele. As lentes dos óculos embaçadas eram telas de cristal líquido, ali Oxidraga projetou o filme que agora assistimos.
Odete assumiu a guarda de Lucas e a responsabilidade paciente de esperar que ele falasse alguma coisa. Que falasse qualquer coisa, uma palavra talvez. Os médicos disseram que o trauma lesionou uma parte do cérebro e que o menino não teria vida normal, inspirando ainda mais Odete aos cuidados. A dificuldade da relação, que assumia legalmente, faria dela uma heroína e as suspeitas que manchavam sua moral não incomodavam. Seu caso com o juiz bem casado, de carreira promissora, seria esquecido em breve. A vida tem que seguir um curso, Odete fez sua escolha: assumiu a guarda de Lucas Bashar, esse menino franzino que agora não diz uma palavra sequer, o que torna difícil dizer o que aconteceu naquela noite.
Na madrugada Lucas Bashar seguiu pontos de luz que o desviou da cidade. O tênis encharcado logo era barro. Os pés atolavam e, com dificuldade, chegou até o reflorestamento de eucaliptos. A carvoaria fica no meio da vegetação alinhada e produtiva. Todos pensam que está desativada, mas alguns homens trabalham na clandestinidade aqui. De tempos em tempos poderíamos surpreendê-los, mas não hoje. Lucas Bashar precisa de descanso, as paredes guardam calor suficiente, o menino dorme profundamente.
Alongue os braços, caro leitor, abra sua mente. Caso contrário, descrever o que se passou dentro do forno seria trabalho inútil. Lucas está sentado, abraça os joelhos dobrados. Está dormindo, mas de olhos abertos, vidrados na abertura por onde entramos. Do lado de fora ronda uma sombra na noite. Oxidraga vem recrutar mais um bastião exemplar para as trincheiras do mal. A sombra estende e penetra, enfia-se. Veste a alma do menino como se despisse pele antiga. Lucas Bashar foi encontrado três dias depois. Deram-lhe banho, roupas limpas e canja para fortalecer.
Quando saiu do hospital, mudo e mais frágil que uma libélula, Odete levou-o para sua casa determinada à redenção de seus pecados. E tudo se deu como aqui se conta.

***

TRANSTORNO OBSESSIVO

Nas duas primeiras semanas Odete tomou muito cuidado. Em casa ela mudou a disposição dos quartos. Isabela veio para o quarto da frente, ao lado do quarto do casal e Lucas foi instalado no quarto que recebeu cores novas, tons de azul. No cardápio foram acrescentadas as recomendações médicas: caldos, peixes e o medicamento prescrito. No fórum Odete diminuiu duas horas de trabalho por dia. Fora orientada, é direito seu. Assim estaria menos exposta e representaria o papel de mãe protetora. O marido, professor de química na universidade local, nunca fora tão bem tratado em sua casa. Estava feliz.
No entanto tudo estava fora de lugar. Lucas cada fez mais silencioso, o fórum cada vez mais barulhento. Odete nunca protocolou tantos papéis, nunca encaminhou tantos processos. Todos os dias chegavam histórias novas, antigas contendas que - nos parece agora ao narrar os fatos - as pessoas resolveram dar cabo. Nos corredores a servente comenta a morte do portuga da pizzaria: homem querido por todos na cidade, cerrou as portas da pizzaria na noite de sexta passada avisando ao último casal que teriam de sair. Além deles um último cliente, que aguardava atendimento,  saca de um revolver e faz refém o portuga. O casal é trancado no banheiro. No cofre pouco dinheiro é a razão para o tiro na nuca. E o portuga é morto. Antes de fugir o bandido atira duas vezes na porta do banheiro, sarcástico desaparece montado numa Hornet vermelha.
E o burburinho “O que está acontecendo nessa cidade?”.
Odete percebe os comentários, mas está ocupada demais. Pratica o sorriso que ensaiara. O sorriso de mulher bem aventurada, mãe dedicada e esposa fiel. Quando chega à sua sala encontra na mesa um bilhete. Uma colega, sentada na terceira mesa de atendimento avisa, cabisbaixa, que deixara na mesa sexta feira, depois que Odete já tinha saído.

******

O BILHETE DA MORTE

“Odete, vamos esperar vocês na pizzaria do portuga ás 20h, não se atrase. Renata e Marcelo.”
O bilhete era um convite. Percebendo o que poderia ter acontecido, Odete, a face sem cor, se deixa cair na cadeira. Depois de recobrar algum sentido liga para casa e fica sabendo que está tudo bem: Lucas dorme dopado, Isabela não chegou da escola, o marido ligara pedindo esfirras para o jantar. Na verdade, Odete ligou para se certificar de que não morrera. Talvez tivesse saído com o marido na sexta, encontrado Marcelo e Renata na pizzaria, bebido o vinho de sempre. Talvez estivesse morta como o portuga, imaginando estar no trabalho agora. Odete riu de si, girou na cadeira, e seguiu adiante a rotina do fórum.
Fez dois atendimentos, pequenas causas. Vizinhos em contenda reivindicando a metragem correta dos terrenos onde construíram suas casas. Lembrou-se, ao carimbar as últimas folhas do processo, de estampar o sorriso que praticava e, aliviada como se o mundo voltasse à sua órbita, decidiu tomar café.
A lanchonete que atende aos funcionários também recebe as pessoas que procuram assistência jurídica. As esquadrias de alumínio, em conjunto, formam imenso espelho para quem está na rua. Para Odete, e para nós que vemos o acidente acontecer diante dos nossos olhos, a grande vidraça é apenas continuidade da nossa retina.
Um carro é abastecido no posto em frente, do outro lado da rua. O frentista deixara a bomba de gasolina encaixada, abastecendo. Vai receber de outro motorista a conta. A bomba cai no chão e a gasolina se espalha debaixo do carro. Dentro dele Renata e Marcelo parecem discutir. Ouvimos o barulho. Um caminhão que faz entregas de eletrodomésticos, desgovernado, ultrapassa o sinal e vem nessa direção.
Odete, e todos que estamos na lanchonete, é espectadora do vai acontecer. Ao som estridente da buzina do caminhão, os gritos dirigidos para o casal dentro do carro. Marcelo parece enfurecido, mas o ar condicionado é um alívio momentâneo. Odete dá dois passos e toca no vidro, cola a boca na imagem de sua boca refletida ali. A explosão não atinge o motorista do caminhão, mas o carro está invisível no fogo. A onda de calor chega até o fórum. Por sorte a contenda dos vizinhos chegara a bom termo, eles já não estavam nas escadas da frente.
Nos próximos dias o sorriso de Odete seria menos humano. A cada ocorrência desconectada da sua realidade sentiria aquela sensação de estar envolvida.  Se uma criança atravessasse a rua antes dela Odete temia que fosse atropelada. Operários numa escada poderiam cair depois que ela passasse pelos andaimes. O noticiário do horário nobre associava a atuação da máfia italiana à escolha da pasta de dente que usara de manhã. Lucas não disse uma só palavra até agora, por que diria então que Odete está paranóica?

****

FOTOGRAFIAS NA PAREDE

O cheiro da tinta fresca no quarto de Lucas, que aos poucos impregnara a casa, estava acrescido agora um odor suave de mofo. Fechada desde a garagem, a casa cheira mal. No entanto, apenas Isabela se incomoda. A menina tem cinco anos e parece boneca entre bonecas e vestidinhos coloridos, vez ou outra reclama: “Esse peixe está com gosto ruim, não vou comer nada.”
A representação de boa mãe e esposa fiel teve curta temporada. Odete não percebe a manipulação do espectro, Oxydraga é presença absoluta, o silêncio de Lucas pavimenta seu transtorno obsessivo. Todos definham nessa casa. Odete agora insiste com o marido “vamos organizar as fotos”. Ele preocupado com a defesa de seu doutorado “claro, querida!”.
Sete dias se passaram. Em cada um deles uma ocorrência bizarra envolveu Odete perplexa, o marido alheio, Isabela distante e Lucas emudecido. Nos cantos, e debaixo dos móveis pesados, aranhas sem pressa teceram suas teias. No oitavo dia Odete dispensou a empregada, desligou o telefone fixo e, sem que o marido soubesse, esvaziou o tanque de gasolina dos dois carros da família.
Foi na noite do oitavo dia, quando a casa descansava, que a sombra pesou sobre as fotografias. Oxydraga envelheceu, com seu ódio, as imagens colecionadas. Nenhum afeto resistiu. Na manhã seguinte o marido de Odete, químico doutorando na universidade local, notou alguma diferença no próprio semblante, no espelho, quando saía do banheiro. Foi nos três quartos. Sua mulher respirava profundamente porque dormira um minuto, a filha parecia um anjo, só os cabelos um tom mais escuro.
No quarto de Lucas as fotografias que estavam nos álbuns, organizadas por data de viagem, estavam coladas nas paredes. Alinhadas, uma após outra, numa sequência de movimento notável. O marido de Odete gira nos calcanhares e repete duas, três, quatro, cinco vezes, o movimento completando as voltas. Na cama Lucas está, como se estivesse, ausente. A sequência fecha um ciclo de imagens, sugerindo o discurso: o início se encontra com o final. E, entre uma coisa e outra, fora deixado espaço onde cabe ainda uma foto. Muitas perguntas ficaram sem respostas: como Lucas, o pequeno Bashar, franzino, de olhos arregalados, teria conseguido colar as fotos naquela altura da parede? O que é aquela gosma, massa cinzenta, que fixa as fotos? Porque ele teria selecionado apenas fotografias que, de uma forma ou de outra, remetiam ao oriente? Eram registros da ultima viagem para a Síria. Eram postais enviados de lá. Eram, nos olhos, uma saudade só sentida por quem vive longe da terra que amou um dia. Envolvido nesses pensamentos, o marido de Odete abandona-se num suspiro prolongado. E decide, para o bem de todos na casa, que farão a viagem planejada. O mais rápido possível.

***

À CAMINHO DE DAMASCO

O voo de São Paulo para Damasco não tem escala. É viagem de quatorze horas e trinta e nove minutos para cruzar dez mil, duzentos e sessenta quilômetros. Da janela para o corredor, intercalados adultos e crianças, estão: Isabela, Odete, Lucas e Euclides Altagnã. Nesse momento o avião, estabilizado, alcança o Atlântico. O quase doutor Altagnhã não é homem de ressentimentos. Tem olhos para o futuro, mas a sequência das fotografias na parede do quarto de Lucas Bashar ainda projeta um filme na memória. Ele recupera, sem resistência e a contragosto, os acontecimentos dos últimos dias: o caso de Maria Inês com sua cunhada terminando tragicamente pelas mãos de Edmundo, o incêndio que deixara órfão, e sem lar, o menino, a tentativa de assassinato de seus amigos Marcelo e Renata, a morte insólita do casal no posto de gasolina e os desvarios de Odete. A única saída pareceu-lhe ser a fuga em busca das origens. Euclides sorri para a esposa. Odete, na poltrona de número vinte e dois, se entrega sob o efeito de tranquilizantes. As linhas de expressão do rosto de Euclides são hieróglifos antigos, aura densa. Um texto  bonito.
Euclides resolve ler o almanaque entregue pela aeromoça.
Sua maior preocupação ainda é a dificuldade com a língua árabe. Os últimos parentes de Odete, na síria, nada falam de português. Sentem prazer com o desconcerto dos hóspedes. Pela terceira vez chegarão em Tell Mardikh e, de lá, para as ruínas de Ebla.
Ebla, Rocha Branca.
Os anfitriões preferem vê-los gaguejar meia dúzia de palavras que colocar em suas bocas o som imundo de uma língua estrangeira. O que dizem nas aldeias é que os mais arredios moradores ainda falam eblaíto em rituais secretos.
Euclides sente um arrepio. “Estamos indo para o inferno.
Em outras palavras o almanaque diz que a Síria é o mundo esquecido por Deus. “As ruínas de Ebla é o cu desse mundo.”  - pensa.
O silêncio, dentro do avião, é opressivo. “Se cairmos o Atlântico será nosso túmulo.”
A voz do comissário de bordo anuncia o jantar em inglês e árabe... Uma pausa. Euclides, olhando para fora a imensidão negra azulada que a luz fria da lua revela, espera que a mensagem seja repetida em português. E mais uma vez ouvimos a voz do comissário.
- Senhoras e senhores, o jantar será servido em poucos minutos. Espero que o senhor esteja confortável com suas dúvidas, senhor Altagnã. É nosso dever prepará-lo para estadia breve.
Euclides, apavorado de ouvir seu nome, pensa que é um delírio. Recosta na poltrona.
O senhor não tem poder para interferir, senhor Altagnã. O deus que habita o fogo destruíra essa geração.
Euclides suspende a respiração, as refeições são entregues. Os passageiros do seu lado comem. Uma das aeromoças se aproxima empurrando o carrinho com as embalagens plastificadas do jantar. Pergunta:
- O senhor aceita um cálice?
- Não, obrigado. Euclides sorri disposto a não pensar. A aeromoça insiste ríspida:
- Beba e coma, faça sua parte.
Com semblante esfíngico desaparece no corredor. Euclides treme de medo. A voz do comissário de bordo retorna mais grave, gutural.
- Moloque criou esse mundo. Na terra de Can seu nome é Muleke. Os cultos à ele são orgias, nos seus altares são inúmeras as gestações indesejáveis. O destino das crianças nascidas dessa circunstância é o sacrifício. A maior parte dessas crianças nasce com defeitos patológicos, é raro encontrar uma que seja pura de alma e corpo perfeito. Uma criança que purifique os infiéis.
Onde foi que Euclides leu que Moloque tem corpo humano e cabeça de boi? A voz do comissário na sua cabeça continua informando.
A enorme estátua de bronze que o representa sentado, levemente inclinado para trás, projeta o dorso e salienta a cavidade no ventre. Dois homens colocam betume ali.  As chamas aguardam o momento da purificação. O fogo deve consumir viva a criança escolhida.
_ Querido, querido! Não vai comer? - É Odete.
Euclides acorda em sobressalto do devaneio. Sem fome, esforça-se para dissimular o medo. Seca com a mão o suor da testa. A viagem está ainda começando.

***

ÚLTIMA FRONTEIRA

Euclides Altagnhã revê as fronteira da Síria: com o Líbano e o Mediterrâneo a oeste, com Israel a sudoeste, Jordânia ao sul, Iraque à leste e Turquia ao norte. “A terra do levante” – conclui para formular, logo em seguida, novas perguntas. Segue lendo o almanaque.
Damasco é a cidade mais antiga continuamente habitada do mundo. Os primeiros povos a sobreviver, sob o clima árido do mediterrâneo, nessa região, falavam acádio. Língua semita assírio-babilônio cuja expressão escrita, cuneiforme, deriva do antigo sumério. Tão isolada quanto a língua, fora a escrita desse povo e sua memória é quase uma lenda. Há pouco tempo uma descoberta fascinante colocou a Síria em evidência: colonos israelenses descobriram vinte mil tabuinhas de barro com representações gráficas da língua eblaíta em sumério antigo. No entanto, a guerra da ocupação se estende nos assentamentos de Golã. O povo que um dia fez uso dessa língua está desaparecendo. Neste momento Euclides percebe, ainda vagamente, uma conexão entre tudo o que está à beira da extinção. O gosto amargo da bílis vem à garganta. Com a morte de sua cunhada, os únicos sírios do clã Bashar, nascidos na província de Ebla - a terra do sol magnífico - estão sentados ao seu lado. Lucas e Odete Bashar guardam, na expressão cansada, o benefício do alívio no sono.
Euclides desiste do almanaque, precisa distrair. Ler um romance talvez.
O relógio marca 00:20.
Euclides Pega o livro que está a ponto de cair do colo de sua esposa. E principia na leitura, a partir da nota do autor, da nova edição de OXIDRAGA.



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OXIDRAGA

mãe adúltera, amante de todos os pecadores


CONTO / terror

Edmundo Boavenura

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“Os sentidos nasceram só agora. E já estão
mortos.”

- do LIVRO DOS TORMENTOS


Edição revisada.


Essa nota deve acompanhar a publicação de OXIDRAGA. A verdade redescoberta é um mundo novo, os antigos sabiam disso. Eu temo ter descoberto tardiamente que o espírito tem a propriedade de transpor no tempo as limitações da matéria. O espírito do medo é uma sombra, nenhuma luz é capaz de iluminar meus pensamentos. Não devia ter insistido. Precisava escrever uma história, vender livros e tornar-me o grande escritor apavorado que agora treme as mãos suspensas sobre o teclado do computador. Meus leitores perdoarão o desfecho, a curiosidade levou minhas pesquisas ao abismo da insanidade. Resta a eternidade para o arrependimento. O consolo não vem, essa é uma guerra perdida. Aos editores agradeço a maldição e aos leitores advirto: sua alma corre perigo.


nota do autor

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Pode parecer estranho evocar a imagem de uma casa em ruína para falar de amor no dia dos namorados. Para falar de amor toda metáfora alça v...