sábado, 13 de dezembro de 2014

SABE O JARDIM


Eu sou se vens e toca-me. Sem ti, eu ventania!
Longe, tudo restaria. Pétala de dentro... 

Tua pele é, da rosa, a última pétala! A mais perfumada,
a mais encarnada e a mais doce. Esperada!

Abre-se no tempo em que rosa’inda é botão...
Sem ti não saberia o jardim... Pétala de dentro, bastaria.




Antonio B.

FÊNIX EM TRÊS ATOS




Numa noite de muito calor, a Fênix despiu-se de seu casaco de penas douradas para se banhar no lago. O homem que a viu nua viu a mulher mais bela que nunca alguém havia visto. Enquanto refrescava-se, ele escondeu sua plumagem no bosque. Refeita do calor, a fênix  mulher foi levada para a casa de seu benfeitor. Aconchegada em seus braços esqueceu-se do casaco, do bosque, do lago e que tinha voado um dia.

Os anos se passaram. Ficaram para trás as lembranças, o homem envelheceu e viu seus filhos crescerem. Mas, o que acontece com essa mulher? Ainda tão bela e inquieta? De onde saia a força que dela todos sentiam era um mistério a ser esquecido. Suas vizinhas a invejavam e, no secreto da alcova, fantasiavam noites de calor despidas num lago. Os maridos do vilarejo temiam que seus pensamentos fossem ouvidos na sua presença. No entanto, tudo amanhecia no lugar. Até a véspera do ano novo.

Era a noite do último dia do ano. Fazia um calor insuportável e  todos se reuniram para celebrar o novo tempo. Uma das raparigas teve a ideia de irem ao lago, fariam juntos uma oferenda. Levaram frutas e vinho. Mas quando entraram na água uma delas não o fez. Essa, que agora caminha por entre os arbustos e encontra o casaco esquecido. No instante em que veste o casaco dourado seu corpo envelhece de uma vez... Todos aqueles anos, num segundo. A pele  se transforma em ouro, em pó. Ela morre e o único homem que vê a cena não pode socorrê-la . E porque o faria? No instante seguinte ressurge a Fênix! Num voou magnífico parte rumo as estrelas.

Antonio B.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SEM MARGEM, SEM TÍTULO


Desce o rio, contorno cotovelo.
O balseiro, que espera findo alarde, à flor d’água ,
resplandece – vai ao meio, a tarde. Tudo é reflexo
calado do coração adverso... lembranças
passageiras navegantes. Sem ter por quem
chegar, sem ter por que partir. Nas margens
tudo alonga e cresce sombras lentas no
leito irregular por onde descem balseiro

e rio.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CARTA PARA ABEL

CARTA PARA ABEL

"A palavra tem vida". O que significa dizer isso em tempos de apostasia? Todo falante da nossa língua repete essa sentença como se afirmasse o slogan "amo muito tudo isso”. Contemplo e preservo a unidade divina na linguagem, como se guardasse tesouro em relicário. Não me resta muito, não preciso de muito. Beleza, dor, miséria, solidão. Aqui faço uso desprezível do poder vivo que tem a palavra.

A sombra do homem que fostes está sentada do lado direito de um deus pai omisso. Tens tu espectro de Édipo estéril, recusa optar em dar socorro e omite-se. Ficará no silêncio. Nosso pai está cansado mais ainda é aquele homem que dera nomes a todas as coisas e chamou de “minha” a mulher saída de suas entranhas. Abel, tu és ardiloso, soube apenas comparar virilidade e trabalho. Meu irmão, tornar-se homem é, também, sentir medo

Há memórias que nos assombram, outras nos traem.

Vejo tua imponência, na cabeceira da mesa gesticula e descreve supostas aventuras amorosas. A conveniência de todos em ouvir os relatos fora paga com sacas de trigo. Anti-Ulisses... No futuro saberão descrever-te. Para cada anedota um leve soco na mesa. Todos sabem que assim foi, ou foi assim e que assim está certo. Faz uso de um soco leve na mesa para pontuar o desfecho. Um ponto final reticente que empobrece tuas narrativas. Desprezo-te ao ponto de desejar tua morte.

Nosso pai é homem de poucas palavras e grandes feitos. Adão é de parca inteligência dissimulada, se identifica com a força das mãos que aram a terra. Essa força estabelece o fato de ser ele homem de visão: o mundo será daqueles que fazem brotar alimento do chão. Se nosso pai é de poucas palavras, eu sou daqueles que prefere caçar sozinho, longe dos conchavos e tramoias a que que chamei, meio zonzo anacrônico, apostasia.

És cópia destorcida, só eu vejo? Me faz grande mal pensar-te meu irmão. O que são as circunstâncias? Devo respeitar-te e não te amo, devo honrar o fruto do seu trabalho e desejo matar-te.

Abel, já vistes a face do Criador?

Quis Deus que no reflexo do teu rosto eu vislumbrasse a semelhança que temos. Sou filho de Adão, o sangue clama descendência. Dos templos que serão chamados sinagogas, igrejas nascerão... E, em todas elas, estará vingada a deslealdade de entre irmãos. Minhas mãos seguirão sujas do teu sangue. Sei que o sacrifício erguerá mais alto o sonho do mundo antigo. Vivemos em ruína desde desde o início. Tiro de ti a vida e rego a terra com teu sangue.

Somos feitos do pó das estrelas, do barro ergue-se apenas vontade. Somos de constelações distantes, a minha é Solidão e a tua é Vaidade.

Não peço perdão, não aceito maldições. A mão hostil estendida é mais afiada que adaga no cinturão.

Abel, terás vida eterna, assim é a vontade do Pai. Acrescentará noutras vidas a vida que de ti roubo agora. Assim segue o "comboio de cordas" de restauração à merecimento.
Palavra viva, carne morta. Amo os filhos do nosso pai. Cada um, a seu modo, recita que a palavra tem vida. Todas as palavras nunca darão conta de preencher o espaço que a palavra amor esvazia.

Antonio B. 


 pintura de Keith Vaughan, "Cain and Abel" - 1946.

QUASE NÃO ERA MAIS

Eufórico,  tomei emprestado um tom azul marinho
da paleta que dos meus olhos fugia.
Num instante a tinta escorria sem que eu pudesse detê-la...
Jjá era o azul danúbio, logo azul nilo, e quase não era  mais
nada o azul translúcido das águas paradas.

E em busca do mar sigo em dobras de terra molhando os pés.

Caminho cedendo, escancaro boca, recebo a chuva.
Não troco o luto do silêncio, também não dispenso da solidão solilóquio

Pelos reveses do caminho a novidade é ainda ter, no chão, os pés.  
Mudo e molhado, o sonho descora azuis! Tinge minhas mãos ressequidas...
Quando escrevo, minto.

Enquanto dura a alegria, pinto para conter a aurora e assim acreditar num novo dia.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O HOMEM QUE SERIA



Quando me vi desenhado por tuas palavras, 
logo reconheci o homem que eu seria: 
Nos teus braços esquecido do que fui,
a lembrar o desejo de ser o outro que via.

Desenhado em tuas palavras
reconheci o homem que ainda seria:
nos teus braços esquecido de mim,
a lembrar-me outro que via.

Quando me vi, desenhado por tuas palavras,
reconheci logo o homem aquecido nos teus braços
que ainda seria.

Nos teus braços esquecido,
na tua boca reinventado.
Do mundo sem fazer conta,
sem medida, servindo-te calado.

Antonio B.

DE TANTO PROCURAR



Essa é a história de um homem que andava sempre olhando pro chão em busca do que os outros perdiam por aí. Vive sozinho e tem os bolsos cheios de quinquilharia. As noites passa enamorado de seu tesouro disperso iluminado à luz de velas.
Certo dia batem à porte e um jovem perguntar se ele não teria encontrado um chave que perdera.

- Foi a velha da esquina quem disse que o senhor enxerga por dois.

O homem encontrou três chaves e o jovem levou-as prometendo devolver as que não servissem. Não voltou.
Passaram-se os dias.
Batem à porta, nessa que ninguém nunca batia. No lugar do jovem uma mulher que tinha perdido um dos brincos. Trouxe as duas chaves que não serviram ao rapaz e as devolveu.
A fama desse homem que encontrava coisas perdidas se espalhou pela cidade, de imperceptível ele passou a ser notado. Muitos o procuravam, muitos dias se passaram.
Toc, toc, toc uma mulher pedia ajuda.

- Ando perdida entre as horas e os dias e procuro o juízo que um dia tive.

Desconfiado dela dispôs-se a acompanhá-la. O barulho do sapato dela parecia as batidas na porta tac, tac, tac.
Mas acontece que os caminhos por onde ela procurava o juízo eram diferentes dos caminhos que ele sempre percorrera e, aos poucos, saíram da cidade, ganharam os bosques, as fazendas, as colônias tortas de todo vilarejo. Aos poucos o ritmo dos passos dela tornou-se íntimo de seu coração tuc, tuc, tuc.

Então, com a primeira brisa da primavera ele, abaixado, gritou:

- Achei!

De pé estendia a mão oferecendo o achado. Mas não foi o juízo dela, perdido, o que encontrou. O homem, de pé, estende a mão e lhe oferece a primeira flor da estação.

Desse momento até hoje caminham juntos, sem juízo! perdidos os dois.

Antonio B.

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"DE TANTO PROCURAR" é minha homenagem à Marina Colasanti autora do conto que é RECONTADO aqui

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FRANCA 190 ANOS – PARABÉNS!

Seu passado secular é estrada em terra
boiadeira. Terra de cana doce, mogiana
café com leite! Passou Império, passaram
coroas e cetros. Hoje, na pele, é deleite!

De fronteiras é feita, cidade do meio!
De minas o seu tanto da península in’tália
artesãos, fachadas e lavouras - arte nata!
Nas calçadas a modernidade dos sapatos, o chão
Fez história, franca trilhou mundo inteiro e
deixou-nos seus rastros, marcas e glória!

Capital, do Imperador fez o nome!
Não acaso nem posto inglório...
Vem de Minas a gente que cresce
nesta terra do notório Estado São Paulo.

Entra milênio, em século nova idade!
A novidade é ser cidade grande e tranquila,
em urbanos calçados palmilha... Franca
das três colinas, cidade minha!



Pi & Bill

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CANÇÃO


durma bem! que eu te desejo sono profundo, zen
depois te quero esperto: cantando pelos cotovelos,
imitando cotovias e distraindo os bentivis na laranjeira. 

se de tudo raiar outro dia, regue as plantas
sê forte e não chore a seiva derramada - nada é em vão!
lembra-te do sândalo, perfuma a todos na agonia do corte.

te quero mais, e mais, e rindo mais alto quase sem razão...
debochando sem compromisso, feliz por nada. adoro ver você
profanando o sagrado desacralizado e triste na televisão.

sonhe o bom do amor!
e deixe as mazelas da vida para o amanhã...
que no mundo serão, por seus mortos ávidos no desaterro,
sepultadas.

e quando, se de ti perguntarem, dirão os amigos saudosos
num afã que nem o poeta saberia explicar...
dele soubemos: anda distraído, o tal vive a sonhar!
encantado deseja a lua, dormindo toma banho de mar
pisa nuvens, anda de mãos entrelaçadas
e com outro maluco atravessa Gilbraltar.


Antonio B.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

AO TEMPO, TEMPO.

 
Era de calma, mais uma vez um dia.
O dia não pede pressa, pede ciência...
Porque passa tão depressa o tempo que
não cessa? Não passa! Tempo é espera.

Em tudo pousa conforme, o tempo.

Desintegra cada coisa e ainda tudo no mundo unifica,
o tempo, tempo... tempo! Permanece e descontinua pleno...  
No olho da criança é encanto amplo finito
mas recolhe-se inteiro mínimo no fim do muito vivido.

O tempo não é triste, o tempo não se alegra.
O tempo nada destrói também nada cria.

Insondável é o mistério de ser o fim início da alegria.




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DEMOLITION



I believe the secret mood / of inanimate beings,
I believe in the artificial / soul of objects in harmony
arranged.

Sunsets in life that I will by a thread,
the night is a serene embrace reworking what was lost.

In the wreckage where have you been / encountered shelter, also a portrait of my life / in the wall
unfinished these verses
demolished.

NARRADOR



Encontrei essas palavras espalhadas, amontoadas, deitadas fora. Antes que arrependido voltasse para vasculhar o vazio recuperei do desperdício algumas e, logo todas. Desordenada e sem nexo pra onde vai a narrativa? Sobre pedras escorre para o mar. Então, coadas pela quinta vez dizem: concordo, sem beijo não há como sentir! Beijo de ascendência ítalo-ibérica, mineira. Não existe história linda ou feia, no papel o curso e o corte, mas antes o narr/


Encontrei suas palavras espalhadas, amontoadas, deitadas fora. Antes que arrependido voltasse para vasculhar o vazio recuperei do desperdício algumas e, logo todas. Desordenada e sem nexo pra onde vai a narrativa? Sobre pedras escorre para o mar. Então, coadas pela quinta vez, dizem: concordo, sem beijo não há como sentir! Beijo de ascendência ítalo-ibérica, mineira. Não existe história linda ou feia, no papel o curso e o corte, mas antes o narrador comporta-se como a um beijo. Li muitos contos como este para muitos. Dentro do quarto na casa da minha mãe, o mesmo de antes, ainda ouço longo suspiro. Lembro-me de tudo desde o adeus e, sentado a seu lado, tua caricia me envolve como palavra rosa que fere as mãos ao perfumar a alma e faz brotar dos olhos puro escarlate. Se o outono incide luz o faz sem saber.



/ador, se comporta como a um beijo. Li muitos contos como este para muitos dentro do quarto na casa que sempre fora a dos meus pais, e ainda o escuto. Desde o adeus, me envolvo em palavras Rosa, palavras Campos, palavras Pessoa... Palavras que ferem as mãos ao singrar a alma. E nessa mesma vida, a de sempre, vem a mim o verbo e o corte que fazem brotar puro escarlate se o outono incide luz.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

TRANSCENDÊNCIA

mistérios hão de ser desejos
reminiscências diluídas... na luz desfeitos! 
a revelação última do amor, anúncio...

palavra transfigurada, carne e tempo.

o mistério é e não há de ser
flagelo incessante, dolor... saber deposto!
transubstancia êxtase, inglório posto...



Antonio B.

SEMELHANÇA

Nalguma parte da superfície desse lago 

me vejo refletido. Alcanço teu rosto, espelho 

vívido do meu espanto. Atino que és... Descubro-te 

artífice! Reconheço-me viés tangível em ti, esboço...


... em tuas mãos suspenso, semelhante.




Antonio B.

L'AMORE È UN MISTERO

i misteri devono essere desiderio
reminiscenze diluita... nella luce interrotto!
l'ultima rivelazione d'amore, annunci ...

trasfigurato parola, la carne e il tempo.

il mistero è e non essendoci
flagellare inesorabile, dolor ... deposti sapere!
transustanzia estasi, di post inglorioso ...


Antonio B.

TRÊS DESEJOS



Um gênio apareceu-me num sonho... ofereceu-me a ilusão de três desejos e, descreditado, partiu.

Então, sozinho, desejei o retorno da fantasia,
da alegria o regresso... Mas nada aconteceu!

Desejo Arábia, Marrocos, desejo Saara... Nada mais valia!

Decidi não querer... Não esperar... Nada ser.... Nada, era tudo que tinha!
No deserto, eu vazio... da espera cansado, do caminho fadigado... Nada mais desejei!

Então, no meio da noite sem fim, um jardim infinito se abriu.
- o mistério era a palma da mão aberta do gênio amigo que partiu.

Agora satisfeito, sem mais demora encontrado...
No deserto colorido, da aurora iluminado.

Antônio B.

ORÁCULO



Bom dia Marte, bom dia Vênus....
Bom dia safiras, esmeraldas, rubis. 
Bom dia rubis mamilos enrijecidos, bom dia! 
Bom dia Eros! Uma vez mais, bom dia! 
Bom dia flor, bom dia! Bom dia fruto do querer bom dia.

Bem alinhado ao peito trago-te sereno
Bruto escravo do meu desejo, senhor do meu esconderijo.


Antonio B.

ALTAR

Essa minha religião, maior

que as igrejas e mais antiga

que o caminho, é o altar 

posto no alto da colina.

SEDIMENTO FOTO GRAFIA


Algumas fotografias não acordaram, permanecem mudas
porque foram caladas. No silêncio recolhidas dormem
cenas interrompidas. Gritam sequencia de artifício arbitrário.
Assim interrompida é filme não concluído, vida por viver...
Recortes sobrepostos de planos naturais, de corredeiras alegres,
e de poços de tristeza profundos. A fotografia paralítica é pose.
Na fotografia há muito sedimento do vivido! Imagem clara
se ainda pensamos a vida correspondendo a imagem de rio.
Muito leva para os olhos dos mais aflitos...
Nutrientes, encantos saltos ornamentais.
A figura retida na fotografia dormente é apenas plano de fundo...
Esmorece, embaça, enfraquece a memória do tempo não vivido.
Na retina a vida empoçada seca riachos de lágrima cristalina.
Antonio B.

RECEITA PARA COMER O CORAÇÃO



RECEITA PARA COMER O CORAÇÃO


Para comer o coração de um homem,
siga corretamente as instruções da receita:
cozinhe em fogo brando logo depois de arrancá-lo do peito.
Não dispense o sangue, separe e guarde em temperatura ambiente
e sirva em taças de prata quando, na mesa posto,
esteja o coração ainda quente.

Para comer o coração do homem,
antes cuide para que seja um coração tranquilo.
Dedique tempo e silêncio do seu lado até ouvir dele as batidas do pulso.
Seje para ele sombra ao meio dia, também o que lhe parecer sol
nas horas mortas da angústia sofrida.

Para comer o coração desse homem,
certifique-se ter em mãos os temperos necessários: coragem e força!.
Crie a coragem necessária para dizer “não” quando pequenino o coração dele,
indo parado, quase desistir.
E fortaleça seu próprio caráter para aceitar dele o “sim” quando,
do mesmo coração menino, sua vontade perscrutando intuir.

Se desejas ter do teu homem o coração servido, proceda
naturalmente. Trate dele, cuide conhecê-lo a fundo.
Procure descobri-lo oculto e siga o procedimento à mesa:
ao servir o coração dele ofereça o seu, e faça um brinde!
*
*

Baltazar Gonçalves 

Antonio B

terça-feira, 30 de setembro de 2014

CORAÇÃO DE RESEDÁ - escrito à 4 mãos, com Jose Luís Piacenti

Pensei rosas murchando no chão molhado do meu sono, recordo meu bem querer. Colhi notas néctar para oferecer-te e embriaguei-me no doce perfume das flores do seu nome: flores de laranjeiras e limão tahiti. Silabas verdes de jacinto, de limão siciliano, de Bergamota.Coração de resedá, madressilva, crisântemo, jasmin, pêra, rosa e Narciso.
Banho-me no aroma da essência oriental, Chipre quase olíbano. Não distingo quem sou de quem és: mistura insensata de coentro, sândalo, âmbar, patchouli, almíscar, musgo de carvalho e cedro.
Meu bem querer, pensei rosas murchando. Ânsia que provoca a paixão e devaneio. Meu coração explode de felicidade.

VOUS REVENEZ


Um gênio mágico apareceu-me num sonho.  Mago e poeta,
nada garantiu. Ofereceu-me ilusão e  desacreditado partiu.

Desejei o retorno da fantasia, da alegria o regresso.
- nada aconteceu!
Desejei a Arábia, o Marrocos, o Saara inteiro.
- nada mais valia!
Desejei não querer, não esperar, nada ser.
- nada era tudo o que eu tinha.


No deserto Vazio nada mais desejei.
- o sonho chegava à praia como um navio sem vela.

                                         da espera cansado, do caminho fadigado.
                                                    a ilusão perdida, o sonho acabado.

Então, no meio da noite sem fim, um jardim infinito se abriu.
- o mistério era a palma da mão aberta do gênio amigo que partiu.
Sem mais desejar, satisfeito. Sem mais demora, encontrado.
No deserto colorido, da aurora iluminado.  

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O RITO



Levito, antes de abrir os olhos
suspenso agonizo.

 

Antes de abrir os olhos, sobre pálpebras incertas uma navalha cega arranha eterno castigo: quedam os séculos nas horas do dia e o rito à flor do rasgo ferido sangro e grifo: na carne, o processo atualiza.

 

Antônio B.

.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NA PRIMAVERA, INSISTO.

À ninguém pertence a culpa, é do verão / a natureza 
despir a alma mais de uma vez/
tida. 

Na primavera, insisto! Espero vestido, coberto de ti.
- o amor despido perde o pudor.







O amor, grande e verdadeiro, sabe tudo.
Espera, de nada tem medo.
Não teme a sorte, faz o mundo pequeno e alarga fronteiras.
Do amor os amantes não sabem nada.
O amor é o longe, vai, leva e traz.
Porque o amor é completo só quando chega, inteiro só quando acaba, sincero só quando erra.

sábado, 6 de setembro de 2014

ELEMENTOS VISUAIS PARA UMA CRÔNICA URBANA


Eu sou um tipo estranho, explico um dos motivos... É que eu gosto muito de animais e encasquetei que eles poderiam falar se quisessem! Não é loucura, mas beira a birutice. Então, quando percebo uma história no olhar de um cão fico eletrizado, comovido muitas vezes. Fico sabendo que é pesado alçar voo ao meio dia quando ainda não encontrei água fresca. Fico sabendo que outro cão, maior, mais faminto, mais cão, roubou o osso que tinha escondido. Fico sabendo que o pasto verde é o quintal do vizinho. Fico sabendo que o vazio que vai dentro do homem é do tamanho do silêncio. Todas essas coisas não ditas e passam por mim pedindo voz e, embora todas as histórias já tenham sido contadas, me emociono mais uma vez... Talvez que eu fique sabendo demais, talvez eu precise consultar um oftalmologista, talvez não devesse abrir os olhos já que todas as histórias estão dentro de mim.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

TRÊS PALAVRAS ÚMIDAS

(aterro)

Ondas idênticas, de ontem e sempre, do mar avançam silenciosas. No intuito de solapar, de debaixo dos meus pés, a terra que eu pensara firme.
 (arrebentação)

Desenhado na calçada, o mesmo mar de antes e sempre, é plástica metáfora fria da distância entre Copacabana e Lisboa - sobre esse mar caminho.

(desatlântico)


Três palavras de asas úmidas.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PROCESSO ATUALIZA

Antes de abrir os olhos, suspeito / acordo. Antes 
mesmo de perceber, estou. Sem controle, sem 
vontade ou razão. Processo atualiza, e se repete. 
Toda manhã, antes de abrir os olhos.

O pensamento é projeto, nunca resultado. Porque
acordo amanhece? O pensamento é antes impulso,
extremidades tencionadas. É a potencia recolhida,
são as pontas do arco envergadas.

(suspeito que seja um acordo de preservação)

Pesam em minhas pálpebras vultos pintados
numa cavernas da Serra da Capivara. O pensamento
rasga docemente o véu que não separa, o pensamento 
permite o que, já encarnado entre nós, é incontável.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O gato, que eu julgava bem tratado, deixou casa
e trapos na caixa.  Desceu do colo, trepou no muro, ganhou a rua e sumiu.
Ainda no telhado, já longe do meu barraco  - e para espanto meu!

sorriu-me antes de dizer adeus.

A REENCARNAÇÃO É UM FATO, E A PROVA DISSO ESTÁ NA CARA. Eu conto.


Na cara do Juliano, na fisionomia estampada na cara dele, notei uma mudança considerável hoje de manhã. Temos o mesmo sangue, e os laços que são comuns a todas as famílias ora nos aproxima, ora distancia um para cada lado como se falássemos línguas diferentes. Assim é que, na adolescência, éramos irmãos depois de uma infância sendo primos. Assim foi até o fim da puberdade quando a vida se torna ensaio para a maturidade. Nesse intervalo entre atos, porque a maturidade chega de forma muito particular para cada um, os laços que antes nos aproximava se afrouxaram ao ponto de parecer que não se tratava mais de uma questão de sangue ou de família. Talvez porque nos enveredamos por linguagens diferentes, buscando com ânsia desproporcionada, falar uma língua que fosse entendida por todo o mundo. Ou talvez porque o humor e o temperamento de cada um estivessem à deriva no oceano da personalidade. 

O fato é que hoje de manhã reencontrei essa pessoa que é um homem maduro. Tive a impressão de vê-lo mais magro quando tentou, sorrindo, se desfazer de um pacote pesado para estender a mão em cumprimento. E me perguntei feliz: será que é ele mesmo? 


A resposta foi perceber na cara dessa pessoa, como dizia há pouco, na fisionomia estampada na face do meu parente, inumeráveis rostos que sobrepostos pareciam emergir de outros tempos, de outras encarnações. Sobreposto ao sorriso amável a rigidez do cenho preocupado em ganhar a vida, contornar as mazelas, alcançar objetivos. Um olhar difuso parecia ainda ver o primeiro amor dizendo adeus e, logo, o brilho dos mesmos olhos apaixonados e apertados de alegria, sorriam para mim. Quase ao mesmo tempo, num átimo. 


Transfigurado, na minha frente, uma pessoa conhecida era um completo estranho. Transmutado: ainda era o menino que cresceu na capital, que aprendeu ioga e lia “o ponto de mutação” confeccionando flechas de bambu. Sonhando, talvez, em ser livre como um índio quando crescesse. 


Na película líquida e fina que era a face dele eu vi personagens que não conhecia, tentei adivinhar minha própria estampa. 


A reencarnação é um fato, e a prova disso está na cara. O desfile das máscaras sob o perfil fino de água, às vezes cristalinas, turva-se. 


E o melhor que posso é evitar o espelho enquanto escrevo para fixar o instante no caudaloso rio da existência.


sábado, 30 de agosto de 2014

CARTOGRAFIA


Noite oceano de mistério profundo, vem o meu amado!
Em ti navego seguro.
Para teus pés, cansados da jornada, óleo
de olíbano em cântaro de prata.
Beijarei tua face e tua boca dirá meu nome.
Minhas mãos descansadas far-lhe-ão coroa:
- trama de mini rosas pontuada por sementes de ervas doce.
A cabeça do meu rei exala o perfume das ramas de hortelã,
das folhas do capim cidreira, das raízes do vetiver.
És o orvalho da manhã. Tomilho úmido, fresco.
És o aroma da manjerona plantada aos pés da laranjeira.
Suspiro de amor eterno coroado de perfume.
Ardor dos cuidados efêmeros, doce cálculo do perfeito.
Súdito vassalo, regente das vastidões.
Oh! Noite! Corpo do oceano sem fim.
“Encontrei-o! Não o deixarei jamais.”

terça-feira, 26 de agosto de 2014

TESE SOBRE UM HOMICÍDIO - RESENHA


Uma tese é uma obra inacabada, aberta. É rascunho e exercício de uma escrita que se põe à prova. O corpo de uma tese leva no seu bojo a possibilidade de antíteses num jogo dialético que ultrapassa limites e abre fronteiras.

O filme argentino “TESE SOBRE UM HOMICÍDIO”, dirigido por Hermán Goldfrid, mostra Buenos Aires a partir da imagem panorâmica da faculdade de direito.  O discurso narrativo segue o mesmo plano, aberto e geral, quando o objetivo é ostentar a arquitetura clássica das tramas dos filmes policiais. O discurso descaminha para os detalhes quando começa a investigação.

Acontece que um corpo de mulher jovem, deixado no estacionamento da faculdade, acaba por envolver o professor advogado criminalista. O advogado, cinquentão charmoso aposentado, interpretado por Roberto Bermudez. 

A investigação segue a trilha dos detalhes. Nenhuma lógica parece satisfazer a busca pelo criminoso.  Uma das melhores cenas é a que “justifica a necessidade do crime”. É a sequencia em que somos levados até o museu onde a Pablo Picasso tem retrospectiva. Ali, o suspeito surpreende o investigador e o convida para se deliciar com um quadro específico. Não é “GUERNICA” mas um quadro que representa a crucificação de Jesus. 

O suspeito jovem, ao ensina o investigador homem maduro ler os objetos representados no quadro, em êxtase, conclui: o sacrifício é necessário.

O filme parece contrariar os planos cartesianos que conduzem a história de forma linear quando a narrativa se completa com cenas que acontecem na cabeça do protagonista. A síntese que quase formulávamos se torna, mais uma vez, em tese. E a trama continua...

As melhores sequências parecem sonho, delírio de alcoólatra ou anseio de psicopata – e não sabemos, por fim, se a “motivação” seria mesmo uma possível paternidade negligenciada. 

O filme parece ser a obsessão de revelar o crime perfeito. Sem conclusão o desfecho faz jus ao nome do filme.

sábado, 23 de agosto de 2014

SARAMAGO

Sou um homem de sorte: poucas vezes fui orientado para "O QUE DEVIA LER" - salvo na faculdade, que é quando se descobre que não vai ler tudo numa única vida... No entanto, encontrei pessoas encantadas com alguns autores e autores encantados por lendas da literatura. Esse tipo de encantamento não se compra e "recomendar" não garante, no percurso, a satisfação: tem que acontecer ao espírito! Faço nesse post uma homenagem ao escritor português cuja obra, eixo e norte, sinaliza direção - sal na terra, luz no mundo - saramago!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

SEM TÍTULO - orquídea

Todas as orquídeas são belas, espalhadas pelo mundo
- de todos os tamanhos, de todas as cores.

(tem orquídea do tamanho da lua,
tem orquídea menor que a unha)

Milhares reunidas em estufa, à venda nas galerias
- toda orquídea é bonita, se se se abre!

No alto das montanhas ou na restinga, à beira da praia,
abrem os olhos de quem passa.

Orquídea pensamento existe, mas é rara.
- para encontrar uma, logro fazer poesia.
(Mas veja: nos Pirineus acontece a pudica orquídea-pensamento-meu desabrochar pelo simples capricho de ocultar-se.)

Um pedaço de concreto, um pouco de nuvem: esta é mina casa,
um vasto espaço vazio.
Ali, um pensamento decorado e alheio de mim acumula ausência, florido.

As orquídeas da Tailândia são exóticas porque tudo que é exótico vem do oriente. Minha casa está à beira do ocidente.
Orquídea perfumada não existe, assim com se diz "nela coloquei seu perfume".

A orquídea é flor que sabe guardar a si em dúvidas macias
Os arrecifes, vistos da praia que deixamos, não!
Eles abraçam as ondas com uma certeza bruta, certeza

cega de pedra submersa.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

APELO


Uma nota caída / do sol
implora, no peito / o berro,
conclave. Meu peito / aberto
é um buraco inteiro. Nele / cabe
o sol, o afago e o aperto.
A clave de sol abriu meu canto ao meio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O HOMEM QUE SERIA

Quando me vi desenhado por tuas palavras
logo reconheci o homem que eu seria
nos teus braços esquecido do que fui
a lembrar desejo de ser o outro que via.

Desenhado em tuas palavras
era homem que ainda seria
no abraço esquecido de mim
a lembrar o outro que fugia.

Quando vestiu-me com as tuas palavras
compreendi-me inteiro, homem refeito.

Nos teus braços esquecido
e na tua boca reinventado
do mundo sem fazer conta
sem medida embriagado.

Antônio B.

AUSÊNCIA


sabe o que falta na minha vida? 

sabe o que falta na minha casa? 

sabe o que falta no meu jardim? 

sabe o que falta no meu sorriso? 



nada falta, nada sobra, basta a tua presença!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CADASTRO PROTOCOLO

Segue o título. Torne à esquerda,
segunda porta depois do corredor.

Despreze o aviso e entre sem bater.

A fila encerra a ordem, respeito
conserva, aos que ainda tem, os dentes.

Na pressa teu lábio ferido abre riso
alto e vermelho, me encanta. Não te
incomoda a dor. Para si, não

é sim, é mais.

SAUDADE NOSTALGIA NEBLINA

  É difícil extrair quem somos do que nos disseram ser. O nome que damos as coisas também tem nome, é o tal substantivo. Substantiv...