sexta-feira, 31 de maio de 2013

A voz do Zezé, eu conta

Relato do Zé Lara meu pai
 
filho de maria e josé, irmão de muitos josés e muitas marias
 
cuja voz miúda insiste, viva, a criar raízes



Minha voz não tá boa, tem hora que tora a conversa no meio... ai! Não, João Tico era o pai dele. Tico só era o apelido do aleijado dono do caminhão, faltava uma perna, aliás não sei se ele não tinha as duas, uma eu sei que não tinha. Ele se arrastava para entrar no caminhão e depois ganhava o mundão. No corcavalo, nos tempos das água, muito barro na subida ele não subia fácil,  na gente dava medo, e ia.
Nunca virou o caminhão que nem o Xisto fez, um dia na rodovia indo lá ia pro lado do Piumhi, do Piumhi pra Pimenta, o caminhão cheio de latão de leite, que era leiteiro o caminhão do Xisto naquele tempo. Sempre tinha umas mulher e uns homem com ele, mulher pobre que não tinha com pagar, que ia de carona. Tombo o caminhão com esse povo tudo, chiou. Uns falava da pressa do ir e outros que tinha que ir pra delegacia, e deu trabalho pra ele coitado. Eu tava não, sei não como ele fez aquilo, se fez a curva depressa, tombo.
Uma vez foi comigo lá na saída da Pimenta, naquele tempo era de chão a saída da cidade. O lado de asfalto ia pra Pimenta e o lado sem ia pra Grama. Nós ia pro Piumhi carregar o caminhão de tijolo que era vendido na Grama. Nesse ato foi direto, subiu da estrada pro asfalto, e a estrada era assim bolada, se vai assim tem um lugarzinho alto, o Xisto foi atravessar e não tirou a velocidade do caminhão, quando subiu deu um tranco, a porta abriu. O Bonito no meio e eu na beirada do lado da porta, o Xisto no piloto. E eu cai no chão meio tonto meio zambezambe , correndo sangue praqui afora no rosto, um corte na cabeça. Nós lá ia buscar tijolo, uns olhava, uns deu pra dizer:
_ Ocêis tem que ir pra Pimenta, que tem mais recurso.  Compadre Xisto, meio tonto de sem saber o que, disse:
_ Nós vai pra Piumhi. Na camisa pingou sangue, o Xisto tocou pra Piumhi . Chegando falou “nós vai chegar no hospital e ocê não conta nada, fala que machucou”.  Mas aí tá sem jeito, uai?! Não acasalava bem picar o ocorrido e guardar pedaço, falei a verdade: que ele perdeu o controle.
Foi assim que me levaram pra dentro e veio os ponto, vai doer pra lá! Com uma mão o doutor segurava o couro e com a outra fisgava puxando pra cima, esticava e metia a agulha de novo e furava mais uma vez que nunca terminava. O Xisto, depois de tranquilo, pensou na Luzia, coitada. Que ela cuida de nós pra não saber dessas coisas acontecer, então combinado ficou que eu chego de chapéu de lado, na cabeça dando de encobrir o taio e os ponto, que vai que ela até passa mal de ver a lanho? Pois que tarde, no escuro da noite, chegamo devagar. Em tudo silêncio, a Luzia desconfiada olhou como se mãe fosse, sentenciou:

_ Que foi boa coisa isso não é. Cê tinha que ficá cheirando beira de caminhão?

 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DO LADO DE FORA 1

pai nosso que estás do lado de fora:


 
reveste-me do sonho e toca minha
pele enquanto durmo,
soprai na madrugada gélida minha
alma e nela engrendrai a gratidão.

DO LADO DE FORA

do lado de fora está o sol
 
fica no céu meio dia
 
depois a lua vigia, meio distraída,
 
de óculos escuros toda saída.

 
do lado de cá fico, esperando a chuva
que é outro sol pra vida.
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

CALO

Surdo, tampouco

mudo.

LÁZARO PARABRISA



direção tomada acaso indica caminho? - perdi-te, e encontrei a mim indo. chuva que não vale a pena o para brisa é como chuva que faz do passo vagar à esmo ao pé da encosta, ou chuva no muro rente a calçada de condomínios cercados de heras podadas. e tudo? tudo o que é? a vida é uma casa cheia,  um velório festivo pois mortos velam o morto e todos estamos em casa com o tempo perdido, os dias e os ganhos. no escuro de entre as plantas que contornam a rampa desço de encontro à neblina turva de onde emerge um lazaro que fala de boca serrada: “que queres que faça eu por ti? tu não careces, limpo, sujar-te. Já eu decomposto fica bem: eu fico, tu vais. noto medo no teu ver a paixão, ainda comovo-te. toca-me a carne, sê pronto e arranca te, e a mim, daqui.”
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

ODE AO MUSGO

O musgo é bom companheiro, calados concordamos que lado a lado vão o mal tempo e a bonança. O musgo é paciente, seco espera a chuva e verd...