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Mostrando postagens de Maio 26, 2013

A voz do Zezé, eu conta

Relato do Zé Lara meu pai filho de maria e josé, irmão de muitos josés e muitas marias cuja voz miúda insiste, viva, a criar raízes


Minha voz não tá boa, tem hora que tora a conversa no meio... ai! Não, João Tico era o pai dele. Tico só era o apelido do aleijado dono do caminhão, faltava uma perna, aliás não sei se ele não tinha as duas, uma eu sei que não tinha. Ele se arrastava para entrar no caminhão e depois ganhava o mundão. No corcavalo, nos tempos das água, muito barro na subida ele não subia fácil, na gente dava medo, e ia. Nunca virou o caminhão que nem o Xisto fez, um dia na rodovia indo lá ia pro lado do Piumhi, do Piumhi pra Pimenta, o caminhão cheio de latão de leite, que era leiteiro o caminhão do Xisto naquele tempo. Sempre tinha umas mulher e uns homem com ele, mulher pobre que não tinha com pagar, que ia de carona. Tombo o caminhão com esse povo tudo, chiou. Uns falava da pressa do ir e outros que tinha que ir pra delegacia, e deu trabalho pra ele coitado. Eu tava não, s…

DO LADO DE FORA 1

pai nosso que estás do lado de fora:

reveste-me do sonho e toca minha pele enquanto durmo,
soprai na madrugada gélida minha
alma e nela engrendrai a gratidão.

DO LADO DE FORA

do lado de fora está o sol fica no céu meio dia depois a lua vigia, meio distraída, de óculos escuros toda saída.
do lado de cá fico, esperando a chuva que é outro sol pra vida.

CALO

Surdo, tampouco
mudo.

LÁZARO PARABRISA

direção tomada acaso indica caminho? - perdi-te, e encontrei a mim indo. chuva que não vale a pena o para brisa é como chuva que faz do passo vagar à esmo ao pé da encosta, ou chuva no muro rente a calçada de condomínios cercados de heras podadas. e tudo? tudo o que é? a vida é uma casa cheia, um velório festivo pois mortos velam o morto e todos estamos em casa com o tempo perdido, os dias e os ganhos. no escuro de entre as plantas que contornam a rampa desço de encontro à neblina turva de onde emerge um lazaro que fala de boca serrada: “que queres que faça eu por ti? tu não careces, limpo, sujar-te. Já eu decomposto fica bem: eu fico, tu vais. noto medo no teu ver a paixão, ainda comovo-te. toca-me a carne, sê pronto e arranca te, e a mim, daqui.”

CORPO

Meu corpo onde mora, fico discurso, lido metade coberto, corpo de vidro quebrado inteiro, tocado