sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eduardo e Henrique - uma história romântica.

Eduardo e Henrique








Eduardo pousou o bisturi entre os dedos que apertavam a tireoide, a incisão revelou o corte preciso. Uma linha fina abriu rasgo até o umbigo, ali a mão cismou de parar.  Ele teve a impressão de ter ouvido uma sirene de polícia. Besteira, a casa fica no meio da chácara, a cidade está depois da vicinal oito quilômetros.  Ninguém o seguiu. Atento, as mãos de cirurgião apertam o entorno do umbigo e a pressão faz a carne ceder.

***

 _ Eduardo, Eduardo!  Acorda, cara você precisa descansar. Era Henrique trazendo de volta à realidade e ao mundo seu parceiro de quarto. Os dois descem da aula de anatomia e vagam pelo campus universitário, é quarta feira e não haverá aulas nos próximos dias por que um santo foi inventado na idade média. 
_ Cansado, mas não morto! E vai logo dizendo a Henrique que não pretende dormir tão logo. Eduardo atende o celular e diz para a amiga da sua amiga que não está afim de ir na sua república, que já tem compromisso. 
_ Sim, sim, tô apaixonado sim, pensei que a Ana tinha dito à você. E riu maroto para o amigo que entrava pelo corredor que dá acesso ao quarto deles.
_ Então, que história é essa? Pega duas taças que eu quero brindar a isso. Eduardo busca as taças e volta sem camisa, senta-se na mesa de centro e pergunta:
_ Você não sabe que eu estou perdidamente apaixonado? Cego nas aulas, surdo no anfiteatro, manco na quadra quando todo mundo espera uma enterrada no aro? Henrique está de pé e o cabernet sauvignon  tinge tudo ao redor. A sala sonolenta se embriaga e o ventilador de teto parece soprar um hálito quente. É preciso dizer alguma coisa.
_ Beba, Eduardo.
_ Um brinde Henrique, saúde!
_ Sorte na empreitada que amar pode ser perigoso, eu brindo a que o Amor toque sua escolhida. Henrique ergue sua taça, mas Eduardo diz que o momento pede melodia a altura. Busca entre os vinis antigos a canção A quoi ça ser l'amour e a voz de Édith Piah inunda o quarto com águas desconhecidas, rio que sai de uma rachadura no coração de Eduardo.
_Sente-se aqui, me dê isso que já bebeu muito. Como evitar o sorriso doce de Eduardo? Seus lábios estão vermelhos, sangram.
Enquanto faz sentar o amigo Eduardo o empurra com suavidade de modo que Henrique se senta a contra gosto na beirada da poltrona, desequilibra e só não cai porque segura firme nos braços esticados em sua direção. Refeito Henrique respira fundo e, ao fechar os olhos, percebe que as mão do Eduardo estão abrindo sua camisa, botão por botão, casa, casa, casa, casa, e por fim a última que está a altura da braguilha.
_Não, não é preciso tirar toda a roupa, estou bem veja! Eduardo de um gole dá fim ao vinho na taça e ainda de braços dados aos braços do amigo confidencia:
_ Tenho um presente guardado pra você, e antes que o fim de semana termine prometo fazer de você o homem mais feliz desse mundo. Eduardo se levanta, dá alguns passos para trás e tira os sapatos dançando ao som de Piah. Henrique acha graça e faz o mesmo. Henrique ri de Eduardo que depois de nu finge se esconder por traz da capa do vinil que toca.
_ Sua vez, mostra pra mim. 
_ E porque deveria se você tem vergonha de ficar pelado? 
_ Estou vestido de musica. Eduardo diz e ri. Vai de uma vez se não eu mesmo vou aí... Nesse instante a agulha sobre o disco faz um barulho brusco e um chiado substitui a canção.
_ Não, eu não gosto de andar nu.
_ Vamos, é só uma brincadeira, quero ver você sem roupas.  Feche os olhos. Isso, feche os olhos.
Eduardo cruza as duas mãos de Henrique nas costas e ao fazer isso encosta sua barriga à dele, umbigo a umbigo, e logo as mãos de Eduardo descem a sunga que Henrique vestia. No ouvido do amigo sussurra: _ Você pretende nadar hoje à noite vestido assim? Sem ela pode mergulhar, abra a boca.
Henrique não teve tempo, ia dizer alguma coisa e por isso abriu a boca. Eduardo tinha um quarto de comprimido na ponta da língua, colou a droga na língua de Henrique que a engoliu, depois se beijaram.

Despertos pelo insistente chiado do disco Eduardo e Henrique romperam o silêncio numa risada desconcertante. Os olhos de Henrique procuraram no chão suas roupas e, sem tempo de arrepender-se, sentiu a mão de Eduardo no seu queixo:
_ Erga a cabeça meu irmão, você fica ainda mais belo quando mira seus olhos no alto. E dito isso sorriu com os olhos, a que foi retribuído. Henrique apanhou a taça de Eduardo que ainda estava pelo meio, ergueu e felicitou:
_ À Baco, e ao fim de semana prolongado, vire o disco Eduardo. Riram juntos, e tudo ficou diluído nas mesmas águas difusas da torrente que agora os envolvia.

No pequeno quarto conjugado ao banheiro Eduardo anda de um lado para o outro procurando. Procurava outro disco e optou pela tecnologia digital. Mostrou para Henrique um pôster do filme “crepúsculo” atrás da porta do banheiro, seguiu com o cd na mão até o aparelho de som e, nu como veio ao mundo, fez soar Debussy. Uma onda de calor abateu o corpo de Enrique para em seguida subir por suas pernas num formigamento crescente em direção aos pés, em refluxo até às mãos. O calor se concentra na pelve. Quando  prelude to the aftenoon of a faun já tinha envolvido cada milímetro do espaço Henrique não sabia mais dizer onde terminava seu corpo e onde estava sua alma, parecia levitar rente ao chão e mesmo assim mergulhado num lago. Caminhava em campos árcades e molhava seus pés ao lado de ninfas quando percebeu que na verdade já estava no banheiro.  Eduardo tinha espalhado espuma de barbear no rosto e no pescoço dele, e no peito escorria fria até a cintura. Nesse momento as mãos ágeis de Eduardo introduziam, molhados, todos os dedos entre as grossas cochas que se ofereciam. Henrique pensou mesmo em dissuadi-lo, pensou até em ser brusco com a novidade. Deveras, pensou. O que pode o corpo responder aos pensamentos quando esses se encontram nos braços envolventes do desejo? Uma voz feminina sibilava no oco da cabeça de Henrique. Assim poderia lembra-se não fosse o pavor que o tomou como um soco no estômago ao ver, de pé ao lado da ducha e já molhado, Eduardo segurando uma navalha. Ao mesmo tempo em que apontava para uma cadeira Eduardo gingava a mão fazendo vibrar um reflexo na lâmina e disse:

_Senta aqui, Henrique.

A cortina de franjas em macramê azul balançou, mesmo com a janela fechada, ao som Clair de lune.

 

O que se passou foi mais que essas palavras podem expressar:
_ Ah!
_ Ã?
_ Não...
_ ei!
_ Ah!
_ Assim...
_Não...
_Ãnrã!
_Sim, sim.
Os movimentos de Henrique estavam condicionados à vontade de Eduardo, seu corpo obedeceu. A pele alva ruborizada do rosto emoldurado pela cabeleira ruiva queimava como girassol em dezembro. Eduardo fazia a navalha dançar girando sobre o punho firme. Debaixo da espuma branca a pele de Henrique se oferecia aos carinhos da boca de Eduardo. Aos olhos de Eduardo uma obra de arte era restaurada e merecia devida reverência, pescoço, tórax, abdome. A boca mais que vermelha de Eduardo deixava escorrer, por capricho, uma mistura sagrada que escorria para outro graal. Enrique sorveu sem distinguir saliva, vinho ou sangue. Quando os dois estavam perdidos nisso alguém bateu forte na porta do quarto e chamou do corredor. Eram Ana e Bárbara.
_ Então se esqueceram? Disse Ana assim que viu Eduardo envolvido numa toalha abrindo a porta.
_ Não, quero dizer sim. Agora podia ver que Bárbara acompanhava a amiga, e ainda sem pé da situação, confuso argumentou:
_ Eu tinha dito a você que não ia ao show, queria descansar hoje. Bárbara se intrometeu meio rindo meio cenho fechado:
_ Quando teremos outra chance de ouvir Eduardo Duzek no cassino da Urca? Hein, Eduardo. As duas já estavam embriagadas o suficiente para rirem sozinhas, empurrar a porta e entrar no quarto.  Como maestro que dava fim as melodias simbolistas de Debussy Henrique sai do banheiro nu e ainda cheirando a lavanda.
_ Meus Deus! Apolo ruivo... assim, de presente para meus olhos? Ana sentou-se fingindo constrangimento enquanto Bárbara continuava seus elogios embalados pela suave embriaguez.
_ Não, não, não bota roupa nenhuma, vamos pelados pro ao show. A essa altura Eduardo já estava de camisa e Henrique pareceu à Ana ter acordado de um transe hipnótico.
_ Parece que você bebeu lavanda Henrique. E de olhos na mesa de centro apontou para o cabernet e se redimiu arrependida por não ter chegado antes. Sem música, sem vinho e vestidos os quatro desceram as escadas do alojamento da UFRJ e se meteram para a Urca. O show estava ao meio e Duzek ao piano cantava Aventura e as palavras chegavam antes da melodia aos ouvidos dos homens, enquanto Ana e Bárbara já se espremiam para chegar ao bar.
                                                                     Vi seu olhar, seu olhar de festa,
de farol de moto azul celeste, me ganhou no ato, uma carona pra lua...
Todo o tempo foi um segundo, amigos para sempre, somos todos jovens, faremos amor e não guerra. Mas foi Ana quem disse para Eduardo:
_ Vamos?
Em algum momento Eduardo teria de dizer a Ana que não haveria mais encontros, beijos e dança. Teria que afastar-se despedindo disso e talvez, mas não nessa madrugada, teria de dizer o quanto estava apaixonado por Henrique. No entanto respondeu:
_Vamos.
E seguiram do portão decô entrelaçado por trepadeiras até a base do morro, recusaram taxi porque o sol haveria de iluminar a orla daqui a pouco. Já estavam na passarela que contorna a reserva de mata atlântica quando dois homens estacaram no meio do passeio. Um deles gritou “porra” e o que estava armado completou “se chora mãe não vem, dá logo tudo aí”.
Atordoados ninguém se mexeu.
_Já falei, aí, quê morre?
Antes mesmo que alguma coisa fizesse sentido as mãos de Henrique, num movimento protetor genuíno, se ergueram lentamente. Eduardo temeu o pior, Ana chorava e Bárbara ameaçou abrir a bolsa. O homem armado entendeu que a garota estava também armada e disparou outra ameaça.
_ Pra lá, que te mato!
No exato instante em que o desgraçado passou a mirar Bárbara Henrique se viu fora do alcance e lançou-se sobre o assaltante. E tudo teve fim.
O tiro saiu da arma em movimento, sem mira o alvo atingido foi Henrique.
Caído, sem mais vontade, inerme.
Enquanto os ladrões fogem da cena Ana chama a polícia. Eduardo recobre os sentidos e pega nos braços Henrique que ainda respira. Corre até a pista, rouba um carro estacionado e leva Eduardo para a chácara do pai.
***
Epilogo
Eduardo afunda o bisturi num corte preciso, uma linha até o umbigo. Ele tem a impressão de ouvir a polícia. Henrique ferido está deitado de costas sobre a mesa que seu pai usara. O projetil perfurou o estômago e saiu pelo esôfago. A respiração que resta é convulsiva e só faz jorrar mais sangue. É preciso estancar a hemorragia e Eduardo, sem luvas e com as mãos ensopadas do sangue de Henrique, faz o que precisa ser feito: corta, abre, separa, isola, corta e por fim sutura.
Ninguém o seguiu até aqui, mas ainda sente a sensação de ser observado. Ainda a pouco beijava o homem que seria feito rei na sua vida, ainda a pouco jurava fidelidade e brindava eterna juventude, ainda a pouco poderia escolher. Agora pálido como o mármore às suas costas Henrique não terá o que escolher. Segue pra onde? Para quando? Porquê? Porquê? Eduardo vai até o portal que dá acesso ao jardim. A lua incide brilho na mais distante escuridão.  No alto e entre os galhos de um cipreste um corvo espia. Agora uma sirene pode ser ouvida, é uma ambulância. Eduardo seca as lágrimas, volta-se sobre Henrique e aperta o entorno do umbigo. A pressão faz a carne ceder entre os pontos. Pela janela Eduardo vê movimento no pátio: do carro de polícia que acompanha a ambulância saem dois guardas armados, Bárbara está junto de Ana no banco de trás. Outros dois homens descem uma maca da ambulância e se aproximam. Eduardo tenta outra vez e mais forte, já não sabe se esmurra o corpo de Henrique ou se o acaricia. De joelhos e com a cara entre as mãos chora sem resposta. Porquê? No galho do cipreste o corvo ameaça uma resposta, mas se cala.


fim

quarta-feira, 24 de abril de 2013

IMAGEM E SEMELHANÇA

Quando olho no espelho o que vejo é o reflexo, a imagem de outra pessoa. Vejo assim porque também busco no outro a minha imagem refletida como se a pessoa que olho fosse espelho, uma extensão repetida de mim mesmo. Encontro meus defeitos ali e sustentar o olhar é uma dura pena, um exercício que não posso sustentar por muito tempo justamente porque tal imagem não agrada. Encontro alguma virtude e, junto dela como que por acréscimo, o orgulho e a arrogância nublam qualquer mérito. 
Fecho os olhos e abro os ouvido: no escuro da razão, aos poucos, afasto o fantasma da correspondência, a auto piedade e o egocentrismo... uma luz avulta-se no que pode ser o próximo passo. 
A semelhança brota singular e viva da face do Criador, o eco do Nome Santo chega até uma imagem, também reflexo parecido comigo, mas ímpar. Vejo, pela graça, a face de Jesus nascido homem entre nós, vejo-o semelhante a Deus e nele ressuscitado. Renasce a imagem que antes pareceu-me defeituosa, renasce semelhança. E com a paz ao espírito volta, aos olhos, a luz para meu caminho.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O RIO CURA A FERIDA OUVINDO

trecho de "SIDARTA" 
de  Herma Hesse

Expor sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse com a água. Enquanto prosseguia falando, revelando mais e mais segredos  abrindo-se sem nenhuma restrição, Sidarta reconhecia com crescente clareza que aquele ente que o escutava, imóvel, já não era Vasudeva, já não era nenhum ser humano, pois que se impregnava da sua confissão como uma árvore a chuva. Sim, esse vulto imutável era o próprio rio, era Deus mesmo, era a Eternidade. E enquanto Sidarta cassava de pensar em si e na sua ferida, apossava-se dele a certeza da transformação que se passara com Vasudeva.

domingo, 21 de abril de 2013

num gole, Minas

falta-me o mar:
num gole, Minas!

Falta-me o verbo
alvéolo élfico,
periódico, dizimático.

O vale por onde vago mudo
é foz de toda mágoa
e delta de toda falta.

EU, BORDADO

começo sempre no fim,
agonizo no parto.
assim acontece de amanhecer
dormindo no bastidor o traço

não mais animado nem menos rascunho
apenas eu, bordado
*
*
Baltazar Gonçalvesmeosempre no fim, agonizo no parto
assim acontece
de amanhecer dormindo no bastidor o traço
não mais animado nem menos rascunho
apenas eu, bordadocomeço sempre no fim, agonizo no parto
assim acontece
de amanhecer dormindo no bastidor o traço
não mais animado nem menos rascunho
apenas eu, bordado

RIO SEM T´TULO


Ergo da terra, fincada no chão

título, cruz para suplício
nele deito, busco corpo e sangue
crucifixo olhar, alta direção.

Título, leito seco
onde havia peixes, margens
e mel, verde maná e
leite, vida abundante.

Rio que descendo cava destinos, e
acresce,
nas estrias em que abre epidermes mortas,
toda sorte de coisas vivas.

Desce levado mas tem força de ser, 
arrasta silêncio, milênios numa gota
espera, sabe instância no tempo do chão
perene configuração, correspondência

título ia, título ão
eito de Rosa, rio de João

nasce poema duma dor que não
sente, incapaz de sentir o que deveras dói
mente que sentia a de toda gente.

E segue em frente domador de faltas
do ausente, insuflando mentiras onde
pensa coração.

rio em prosa que por fim
chega na mão esteiro, istmo
de poema rio que ficará assim,
sem título.

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...