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Mostrando postagens de Abril 21, 2013

Eduardo e Henrique - uma história romântica.

Eduardo e Henrique








Eduardo pousou o bisturi entre os dedos que apertavam a tireoide, a incisão revelou o corte preciso. Uma linha fina abriu rasgo até o umbigo, ali a mão cismou de parar.  Ele teve a impressão de ter ouvido uma sirene de polícia. Besteira, a casa fica no meio da chácara, a cidade está depois da vicinal oito quilômetros.  Ninguém o seguiu. Atento, as mãos de cirurgião apertam o entorno do umbigo e a pressão faz a carne ceder.
***
 _ Eduardo, Eduardo!  Acorda, cara você precisa descansar. Era Henrique trazendo de volta à realidade e ao mundo seu parceiro de quarto. Os dois descem da aula de anatomia e vagam pelo campus universitário, é quarta feira e não haverá aulas nos próximos dias por que um santo foi inventado na idade média.  _ Cansado, mas não morto! E vai logo dizendo a Henrique que não pretende dormir tão logo. Eduardo atende o celular e diz para a amiga da sua amiga que não está afim de ir na sua república, que já tem compromisso.  _ Sim, sim, tô apaixonado sim, pe…

IMAGEM E SEMELHANÇA

Quando olho no espelho o que vejo é o reflexo, a imagem de outra pessoa. Vejo assim porque também busco no outro a minha imagem refletida como se a pessoa que olho fosse espelho, uma extensão repetida de mim mesmo. Encontro meus defeitos ali e sustentar o olhar é uma dura pena, um exercício que não posso sustentar por muito tempo justamente porque tal imagem não agrada. Encontro alguma virtude e, junto dela como que por acréscimo, o orgulho e a arrogância nublam qualquer mérito. 
Fecho os olhos e abro os ouvido: no escuro da razão, aos poucos, afasto o fantasma da correspondência, a auto piedade e o egocentrismo... uma luz avulta-se no que pode ser o próximo passo. 
A semelhança brota singular e viva da face do Criador, o eco do Nome Santo chega até uma imagem, também reflexo parecido comigo, mas ímpar. Vejo, pela graça, a face de Jesus nascido homem entre nós, vejo-o semelhante a Deus e nele ressuscitado. Renasce a imagem que antes pareceu-me defeituosa, renasce semelhança. E com a paz…

O RIO CURA A FERIDA OUVINDO

trecho de "SIDARTA"  de  Herma Hesse
Expor sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse com a água. Enquanto prosseguia falando, revelando mais e mais segredos  abrindo-se sem nenhuma restrição, Sidarta reconhecia com crescente clareza que aquele ente que o escutava, imóvel, já não era Vasudeva, já não era nenhum ser humano, pois que se impregnava da sua confissão como uma árvore a chuva. Sim, esse vulto imutável era o próprio rio, era Deus mesmo, era a Eternidade. E enquanto Sidarta cassava de pensar em si e na sua ferida, apossava-se dele a certeza da transformação que se passara com Vasudeva.

num gole, Minas

falta-me o mar:
num gole, Minas!

Falta-me o verbo
alvéolo élfico,
periódico, dizimático.

O vale por onde vago mudo
é foz de toda mágoa
e delta de toda falta.

EU, BORDADO

começo sempre no fim,
agonizo no parto.
assim acontece de amanhecer
dormindo no bastidor o traço

não mais animado nem menos rascunho
apenas eu, bordado
*
*
Baltazar Gonçalvesmeosempre no fim, agonizo no parto
assim acontece
de amanhecer dormindo no bastidor o traço
não mais animado nem menos rascunho
apenas eu, bordadocomeço sempre no fim, agonizo no parto assim

RIO SEM T´TULO

Ergo da terra, fincada no chão

título, cruz para suplício nele deito, busco corpo e sangue crucifixo olhar, alta direção.
Título, leito seco onde havia peixes, margens e mel, verde maná e leite, vida abundante.
Rio que descendo cava destinos, e acresce, nas estrias em que abre epidermes mortas, toda sorte de coisas vivas.
Desce levado mas tem força de ser,  arrasta silêncio, milênios numa gota espera, sabe instância no tempo do chão perene configuração, correspondência
título ia, título ão eito de Rosa, rio de João
nasce poema duma dor que não sente, incapaz de sentir o que deveras dói mente que sentia a de toda gente.
E segue em frente domador de faltas do ausente, insuflando mentiras onde pensa coração.
rio em prosa que por fim chega na mão esteiro, istmo de poema rio que ficará assim, sem título.