quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sidarta - trecho





“Quem me dera olhar, sorrir, caminhar, manter-me sentado à sua maneira, com esse quê de liberdade, de dignidade, de discrição, de ingenuidade, de franqueza e de mistério! Realmente assim só se pode olhar e caminhar quem estiver penetrado no âmago de sua personalidade. Pois então, também eu me empenhava em penetrar no âmago da minha alma.”

“...nada nesse mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais...”

“Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria.”

METADE SILÊNCIO

um homem é metade seu léxico,
a outra é silêncio.

metade dele é escuro,
o resto é o que sobra.

homem sedento é inteiro,
a linguagem é o que falta.

apruma dorso
ereto aponta
lança cerne
atira pronto 

ouço vento, direção,
morro e paço.

POUSA HORIZONTE

pousa espírito eterno na brisa leve
e desce à terra da coisas breves

passa do chão às águas paralelo
e pousa no horizonte como num copo d'água


plaina etéreo na palma direita da rosa aberta

DE VERDADE

To dizendo, é verdade
Mentira, eu vi tudo
Viu nada, é verdade
Eu tava lá, é mentira
Não é mentira
É mentira sim, não é?
Mentira não, é verdade.
verdade, é mentira
mentira não é 
verdade

BAILA O MUNDO NA MADRUGADA

Luvas penduradas,
chapeleiro, espartilho
sapatos e caixas abertas.
Sentada à cama, 
a mulher se troca
veste outra alma 
descobre no dorso o colo,

Luva
pendurada
chapeleiro
espartilho
sapatos 
caixas abertas.
Sentada na cama
a mulher se troca
enrosca noutra pele
veste outra alma
e descobre no dorso
o colo que é o meu.
Calça,
aperta,
amarra
e dá laço.
Para a rua, baila o mundo na madrugada.
Ela abraça qualquer um no breu
na roda gira, na ciranda dança
dança
dança como se o vagabundo
arruinado que à tudo assiste
não fosse o homem que lhe ama
e resiste de mãos dadas à dama
que investe seu amor em outro
como se o outro fosse mesmo eu.

Baltazar

PAI E MÃE


PAI E MÃE

Reconheço a minha figura na pessoa dos meus pais. Depois, em cada irmã e irmão, uma afinidade espiritual ou permanência de caráter compartilhado.

Minha mãe leva até as últimas consequências seus planos e projetos, guarda secretamente a desconfiança de que alguma coisa ainda deve ser feita, sabe-se lá... nunca se sabe...! Pensa o futuro em longa pernada e, nisso, eu não sou como ela. Ou ainda: quando eu penso o futuro, o por vir, os próximos quinze anos vejo simplesmente ficção, nessas horas eu sinto um impulso para escrever tão extraordinárias se mostram as possibilidades. E penso que é isso mesmo: as configurações são inúmeras e o controle/escolha determinada pela razão é apenas capricho, nada mais que ilusão. Minha mãe não padece dessas sutilezas. Ela é política, sabe de sua responsabilidade e age no lugar onde está com determinação. Preocupa-se com "educação" e vê nessa "porta" a saída para tantos outros males. Eu me tornei educador...

Já meu pai é um poço de serenidade. Tão sereno que se pode confundi-lo com o pescador que lançara a isca e agora aguarda; Meu pai sabe esperar. Vem dele o encantamento que as palavras geram em mim, em seus ouvidos o som das palavras devem ser como asas em movimento porque é assim para mim. Esse voo de palavras/asas faz voar sílabas que trocam de lugar e evocam sentidos, os sentidos que estão nas palavras são como galinhas chocando em seus ninhos prontas para anunciar a cria. E lá vão palavras-cria, palavras-galinha, palavra-amarelo, palavra-ovo, casca e ninho. Acaba de trovejar, meu pai diria: "Óh! São Pedro tá bravo!". E sorrindo esfregaria as mãos uma na outra, como se lavasse as duas em pura energia.

Pai e mãe são os traços que representam e reforçam a nossa permanência, a nossa duração na vida. Enquanto dura o amor que nos une continuamos na esperança da eternidade. E, como nossos pais, aguardamos que nossos filhos saibam reconhecer neles próprios o que tememos estar perdido em nós.


Antônio B.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

CARTA PARA MUCA




Mucamo amigo de fé, meu irmão e camarada. Quando saí de manhã para o terreiro com o intuito de abrir a porteira ainda não tinha decidido escrever pra você. Agora o dia vai ao meio e já fizemos “toque” na Malhada e na Pretinha para averiguar as possibilidades de inseminação artificial: a Ceguinha está prenha de cinco meses, e ninguém sabia. A visão do vale, com a porteira fechada incluída na visão panorâmica que se tem da casa, trouxe até minha boca uma palavra de exaltação. Não pude conter o entusiasmo diante de tanta beleza: operação cavalo de tróia rasgando, perfurando, abrindo território com a única ferramenta que usara o Criador para colocar em cada “i” seu pingo – luz! O tom de rosa nascido do púrpura só pode ter escorrido do azul que já se transfigurara em cinzas. Mas veja, mire: aquela gota de azul não é turquesa nem monet, é um tipo de azul que só pode ser ensaio da resposta que eu estou esperando de Deus. Sim, tenho voltado minha face à procura da face Dele, Muca. Perdi, amigo, muito, mas causou maior estrago ter perdido o que tinha na minha vida de azul... no azul eu tinha a paixão do vermelho, a insensatez do amarelo, a promessa do verde e a inquietude do Rosa. Você saberá ler minha paleta, ainda que essa tela seja pouco ou nada impressionista. Minha espiritualidade está à flor da pele (oi, da alma em flor? de qualquer forma não dá pra escapar ao clichê!). Só vejo adaptação se houver conversão e, para mim “volver”, necessariamente é regressar ao ponto em que eu tinha pela frente a vida. Esse resgate está custando hein! O custo de ter a consciência e o compromisso de refletir esperança para outros. Ser “modelo” é tudo o que não queríamos e olha só “o que a vida fez da nossa vida” (quase rimei amor e dor, merda! De novo o clichê se intromete). E foi louvando aquele céu em chamas que abri a porteira. Nessa ordem seguem as horas e o que pôde acontecer. Toda semana temos um curso diferente promovido em parceria com o SENAR, dirigido à produção agropecuária. Lembra um professor nosso que teve a pachorra de se empregar numa fábrica de calçados para “sentir na pele” a produção? Então nós estávamos anos luz, sem falsa modéstia, você na junta militar e eu na fábrica... vivíamos e víamos o mundo por múltiplas janelas e a partir da produção, buscávamos respirar fora dela (caminho inverso ao dele) por isso lemos Kafka com alguma propriedade. O “processo” aqui tem se revelado anti- alienante: a “produção” é o mal e a cura! Parece que a “saída” é a reinserção, paradoxo! na engrenagem geral. Uma vez que se reaprende, vivencia e articula o conhecimento prático das etapas o adicto progressivamente deixa de ser alienado e ganha uma visão mais holística do lugar na sua própria história. O trabalho pavimenta a conversão diária e a oração, no invólucro da disciplina sinalizam esperança. Existência de um lugar de onde se pode tirar força, Muca.  A imagem que tenho é ainda back to black, numa versão em cores... já é um começo, convenhamos! Outra seria comparar o conjunto das forças que atuam nessa configuração com uma roda gigante em movimento ininterrupto que, e no entanto, sente força menor e contrária que a faz diminuir progressivamente a “vertigem”  da velocidade. Intuo, intui-se, é possível intuir que haverá um momento que a roda vai girar ao contrário e, antes, um “tranco” há de chaqualhar toda estrutura. Deus! onde é mesmo aquele “lugar” onde posso encontrar força!?

COMO ALFINETE EM PALHEIRO

Dizem que um cara falou demais desafiando a ordem que funcionava muito bem assegurada pelo medo e pela força da violência. Foi num tempo r...