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Mostrando postagens de Março 31, 2013

O noviço e a açucena

Naquele mosteiro encravado no alto da montanha chegara o noviço. Jovem e sedento de silêncio caminhara dias em oração hesicasta, ouvindo as batidas do coração piedoso de seu Amado. Chegara faminto e cansado, chegara ainda quando o sol se punha e sentara na escada de pedra esperando que o portão se abrisse. Recebido como deveria por ser esperado alegrou-se com os irmão da ordem e passou pelo átrio, pela capela e silencio os passos diante da fonte no meio do jardim.  Exitou seguir ao quarto mas, reconheceu, ali seria sua casa: quatro paredes frias carregadas de séculos. 
Nem bem se passara uma semana e o refeitório, o jardim, a capela, a horta e o mangueirão, onde os porcos eram tratados, já eram também sua casa. Aquele quarto pequeno agora ganhava dimensões elásticas e, à noite, povoava seus pensamentos as imagens do dia: os irmãos no refeitório agradecendo o pão, as roseiras carregadas de botões, as batatas nos cestos e os cestos no chão da horta e por fim, que era quando pegava no son…

Ressurreição

Hoje o dia amanhece como todos os outros, nenhum sinal no céu, nada de extraordinário à vista. No entanto há paz na terra para os homens de boa vontade. Mesmo que estes homens estejam no fronte, alertas, para um sinal de avançar sobre o inimigo, há paz no coração dos homens que dormiram a noite passada clamando por justiça, guardando lágrimas em silêncio pelo irmão que dormia na rua. Uma serenidade desconhecida pelo mundo recompõe a aura perdida dos santos. 
Aurora singular de um dia como todos os outros. Bombas espreitam a Coreia do Sul, a fome avassaladora avança para o norte, a flora e fauna dão lugar na terra abatida para hectares de soja e milho. Espécies entram em extinção, cometas riscam o céu da Patagônia.   Desespero e medo varrem o espírito de milhões. O milagre da ressurreição está para os homens como a açucena que se abre na madrugada, na esperança de um dia novo que traga alívio, na beleza que desapercebida corre o risco de ser pisada. O milagre não está na palavra, antes n…