segunda-feira, 1 de abril de 2013

O noviço e a açucena


Naquele mosteiro encravado no alto da montanha chegara o noviço. Jovem e sedento de silêncio caminhara dias em oração hesicasta, ouvindo as batidas do coração piedoso de seu Amado. Chegara faminto e cansado, chegara ainda quando o sol se punha e sentara na escada de pedra esperando que o portão se abrisse. Recebido como deveria por ser esperado alegrou-se com os irmão da ordem e passou pelo átrio, pela capela e silencio os passos diante da fonte no meio do jardim.  Exitou seguir ao quarto mas, reconheceu, ali seria sua casa: quatro paredes frias carregadas de séculos. 
Nem bem se passara uma semana e o refeitório, o jardim, a capela, a horta e o mangueirão, onde os porcos eram tratados, já eram também sua casa. Aquele quarto pequeno agora ganhava dimensões elásticas e, à noite, povoava seus pensamentos as imagens do dia: os irmãos no refeitório agradecendo o pão, as roseiras carregadas de botões, as batatas nos cestos e os cestos no chão da horta e por fim, que era quando pegava no sono, via os porcos e suas crias comendo agradecidas a seu modo o bocado que lhes cabia. 
O noviço seguiu a lida e os votos se aproximavam. Era bem quisto em toda parte exceto na biblioteca já que em tudo praticava silêncio menos ali. Curiosamente não conseguia ler em silêncio, nem mesmo em voz baixa, parecia lhe que a voz na sua cabeça não era sua. As vezes ria e chegou mesmo a gargalhar, ocasião em que fora repreendido e penalizado e, por ser reincidente a desobediência de não ficar em silêncio entre os livros, foi metido numa solitária para que refletisse na importância de não perturbar o silêncio dos irmãos. Pena simbólica, todos queriam sua presença, as regras eram para todos. Ao sair do castigo já estava disposto a pedir perdão, e deu com uma nova situação que iria fazê-lo em mudo. Em breve concílio a congregação decidira, na sua ausência, que o noviço deveria ficar incomunicável enquanto durasse a próxima fase da lua. Incomunicável mas presente todos negariam voz a ele. Resignado persistiu com fé e aceitou humilde a condição.
Caminhando para o labor diário dava de frente com todos e baixava a cabeça, recebia em troca a mesma postura e seguia para o refeitório onde limpava as mesas e o mosaico de azulejos da parede, depois a seguia para a capela e  rezava o terço em silêncio junto dos irmãos, encaminhava-se para a horta e recriava o mundo pensando em matar a fome nos continentes com ramas de espinafre. Enquanto ouvia o coro beneditino louvando as horas vespertinas adiantava-se para o mangueirão, que ainda era tempo de tratar os porcos, e carregava nos ombros as sobras do almoço que se acumularam na semana, as batatas que não serviam para o consumo e, em tudo, acrescentava uma oração pensando que os animais esperavam o melhor dele.  
Mas foi no jardim, no último dia da lua nova, que sua voz emergiu de onde acreditava haver só coração. O noviço estava de pé contemplando o entardecer, esperava que o sol se cansasse de tanto iluminar a terra, o semblante era esfingíneo mas um sorriso amaciava a solidez da face. No instante que lhe pareceu que o astro tinha piscado uma sombra percebeu a um metro e meio dos seus pés, uma açucena em flor. Como pode, ali? Cruzamento de caminhos onde todos pisavam? Dali para capela, para horta, para o refeitório e para as bainhas do mangueirão. Como pode se a grama era podada toda semana e na grama estava plantada? O sol volta a iluminar os picos mais altos da montanha e era como se deus recriasse o vale a sua volta.
Nesse momento ,pelos quatro cantos da terra, ouviu-se a voz de um noviço encantado, a voz de um homem iluminado, a voz da terra desabrochada. Para a liturgia das horas naquela noite, as vésperas,  o noviço foi recebido como uma criança e o domingo amanheceu para todos.


domingo, 31 de março de 2013

Ressurreição

Hoje o dia amanhece como todos os outros, nenhum sinal no céu, nada de extraordinário à vista. No entanto há paz na terra para os homens de boa vontade. Mesmo que estes homens estejam no fronte, alertas, para um sinal de avançar sobre o inimigo, há paz no coração dos homens que dormiram a noite passada clamando por justiça, guardando lágrimas em silêncio pelo irmão que dormia na rua. Uma serenidade desconhecida pelo mundo recompõe a aura perdida dos santos. 
Aurora singular de um dia como todos os outros. Bombas espreitam a Coreia do Sul, a fome avassaladora avança para o norte, a flora e fauna dão lugar na terra abatida para hectares de soja e milho. Espécies entram em extinção, cometas riscam o céu da Patagônia.   Desespero e medo varrem o espírito de milhões.
O milagre da ressurreição está para os homens como a açucena que se abre na madrugada, na esperança de um dia novo que traga alívio, na beleza que desapercebida corre o risco de ser pisada. O milagre não está na palavra, antes no silêncio que a precede. 
A paz escorrega de mãos laboriosas que tecem fios de paz, das mãos de oleiros, jardineiros, escultores de um mundo melhor que vêm seus sonhos tomarem forma no prato de comida oferecido para quem tem fome, que vêm seu mundo brotar no abraço do mendigo, raiando novo como o sol do sorriso do arrependido.
Não está na fé professada, no ritual encenado ou num lugar santo. O milagre da ressurreição acontece toda manhã antes eu de abrir os olhos, antes de eu perceber que tenho tempo, antes de eu esquecer!
E é assim que hoje para todos nós, irmãos, saudamos o novo! Novo por revela-se na perseverança, na constância, na espera. Na arte, ensinada pelo Mestre, de oferecer ao semelhante o que me falta.


Que a páscoa seja, todos os dias de nossa breve existência, a eterna passagem que nos venha restituir e religar ao absoluto, na eterna aliança da criação. amém!

SUMMERTIME - para Aretha Franklin

no quarto imenso dessa casa pequena minha cama vazia parece um barco tudo embaixo é o silencioso tão escuro quanto improvável terreno m...