sábado, 30 de março de 2013

Cecília ressuscitou





Se uma palavra eu planto logo germina e cresce
Volver, pois! que planta nasceu.
Ei-la, uma árvore hirta, ereta, cheia de folhas e galhos.
Se é erva daninha, ou a morte que quer se enraizar,
 passo a mão numa foice e dela faço sangrar raiz e broto,
na esperança que a seiva não volte a circular na terra
nem meu sangue que fizera brotar.
Logo de manhã, e era manhã de sábado,
o vento soprou do oriente duas
palavras de espanto que iluminaram o mundo:
Cecilia ressuscitou!
Da rama cortada não brota água, brota lágrima.
 -rama rama obra abobora! abóbora rama, rama obra!
Depois do labor o pomar está exausto:
a terra mexida e as folhas secas apanhadas,
frutas podres decompostas e no ar um leve aroma que vem da Pérsia.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Fernanda Geodésico


Estou no meio da América do Sul, 
avisto a planície pantaneira 
e um céu intergalático 
mais espetacular que o das luzes de Cuiabá. 

É o Centro Geodésico, 
o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, 
o coração do coração.  

Múltiplos nomes que se sobrepõem, 
milhares de rostos no verde da planície.

A voz do vento, o murmurio das cascatas.
O tempo não é mais que uma ilusão, 
no menino o andarilho, 
no sedentário o tuaregue, 
no mestre o néscio, 
nas pernas cansadas o caminho, 
nos lábios teu nome 
e essa lembrança que irrompe 
as configurações da eternidade 
dentro dessa parte do efêmero.




Amar é...

... segundo O iluminado Sidarta, o Buda!







"Sidarta lembrou-se subitamente de uma frase que Kamala lhe dissera, havia muito tempo,
nos dia da sua mocidade: "Tu não sabes amar".


  (Herman Hesse)






terça-feira, 26 de março de 2013

MALDITO COELHO SOCRÁTICO

    

Estou atrasado, e você me diz que ainda não sentiu o tempo ruir debaixo dos seus pés. Devo dizer que fico feliz em te conhecer assim. Eu que já fui inteiro, como você pensa ser agora. Houve mesmo um tempo antes do tempo em que tudo era sonho e eu dormia, compreende isso? De modo que acordei um dia, e foi como perder uma camada de pele. Acorda-se e percebe, lá dentro onde não há sono, uma luz dizer o que estou pensando: apressa, há pressa.

Alcântara Batista

segunda-feira, 25 de março de 2013

DO JARDIM RETORNO

Volto do jardim menos eu:
onde ficou a pressa? 
onde o destempero e a ingratidão?

A terra que lavo de minhas mãos
escorre do antebraço, escorre para a terra
e um fio de pura energia conecta,
faz sentido, fiat lux

E no tanque da lavanderia,
ali mesmo onde se lava roupas sujas,
deponho o suor que nem a mim pertence.

Retorno do jardim refeito,
agradecido mesmo: não podei nem plantei, não reguei
- fui eu podado, plantado  e regado.

Impressões sobre o livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro

Os poemas do livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro são janelas e portas que dão para o interior da memória de uma casa habitada na infâ...