sábado, 21 de julho de 2012

ENTRE VISTAS, COM MANUEL BANDEIRA




_ Farto do lirismo comedido?
_ Não. Mesmo da hipocrisia se pode tirar algum verso.
_ Então, diga lá, o que o distrai dessa vez?
_ Estou farto do cristianismo apóstata que usa bengala.
_ Deu agora para ser ateu?
_ Se leva esse nome quem não crê no corpo que vai ao pó e é restituído, sim.
_ Te cuida que isso é blasfêmia.
_ Também blasfemaram outros e ainda ocupam os mesmos lugares na sinagoga.
_ O que precisas é caminhar, deixar que seu corpo experimente endorfina.
_ Sei. Pois bem, fui até o centro da cidade e a cidade estava parada no mesmo lugar. Fui até o centro e a cidade estava caminhando. Fui até o centro.
_ Caminhaste pouco.
_ O suficiente para refletir  sobre a proximidade do joio e do trigo espalhados pelas calçadas e marquises, dentro e fora das lojas, dos dois lados da praça da igreja matriz e mesmo dentro do templo.
_ Não há descanso em caminhar pensando.
_ E que culpa levo eu se para sobreviver preciso por a cabeça sobre as cabeças e despi-la de chapéu e máscaras?
_ Isso é o que quer pensar de ti.
_ De mim e de ti, somos idênticos na dor, todos. Aqueles que se dizem trigo inclusive.
_ Que história é essa que o aflige tanto, vai me dizer que também despreza a parábola?
_ Acolho a parábola, amo as parábolas, as fábulas e os mitos todos. Não me sinto incomodado com a tal parábola mas sim com um certo significado que atribuem à ela.
_ Pois vá lá, explique-se para que o dito não fique sem ser escrito.
_ O que diz o verbo recorrente do nosso tempo? Que o Criador ama o pecador mas abomina o pecado, certo? Como então o Senhor faria para separar, ainda na carne, o que seria próprio para a carne e o que seria perfeito ou a caminho da perfeição? Não vê ser da carne a tendência natural para a decomposição, a destituição da Glória está para todos igualmente. 
_ O que pretendes é confundir e não explicar.
_ Não. Posso confundir sim já que estar vivo é como caminhar na beira de um abismo mas, assim como está no inferno, também aqui minha intenção é boa.
_ Vá logo com isso que não tenho a tarde toda.
_ É o caso dizermos, nós os supostos crentes, que amamos ao Senhor sobre todas as coisas e ao nosso próximo a nós mesmos. Tratamos esse próximo, no caso um pecador, com absoluta e irredutível teoria esquizofrênica cristã, e saímos por aí dizendo: amo esse, amo aquele, mas ao outro não porque não se separa do pecado. Eu não consigo separar, com esses olhos que a terra há de comer, o que nele é joio e o que nele é trigo. Vá pro inferno.
_ Mas...
_ E como poderia? Acaso os que se consideram mais trigo que joio foram julgados como tal? Isso não faria mais sentido se acontecesse depois de mortos, enterrados e decompostos? Acaso a ressurreição não é prova de última instância da brancura das vestes dos salvos no dia do Juízo?
_Trigo, vestes alvas...
_ Não continue para que minha vergonha não se multiplique.
_ É que eu gostaria de dizer que...
_ Bem sei o que diria, que seu amor é gratuito porém exigente.
_ ... e também...
_ O que a subida ao Gólgota ensinara parece-me justamente o contrário dessa bobagem. O Cristo não pediu nada em troca, não barganhou e nem foi subornado.
_ Mas deves concordar que joio não é trigo.
_ Certamente. Mas na campina, além dos campos cultivados onde o Senhor semeou o trigo, não há produção. O joio pode ser visto tão resplandecente ao sol como o trigo. A fome dos homens exige o sacrifício de alguns e é na mesa, ao jantar, que a carne se satisfaz devorando o seu semelhante, descrevendo e demarcando o território da embriagues cristã apóstata. Não estou fardo do lirismo por mais comedido que seja. Falta mesmo lirismo na praça e a cidade pensa que segue em frente.

Baltazar


domingo, 15 de julho de 2012

DELEUZE


Escrevemos o Anti-Édipo a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante. Distribuímos hábeis pseudônimos para dissimular. Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. Para passarmos despercebidos. Para tornar imperceptível, não a nós mesmos, mas o que nos faz agir, experimentar ou pensar. E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar. Não chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não dizer EU. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados. (Deleuze e Guattari, 1995: 11)





Ratos roem caixas e livros na escura e mal iluminada sala que se alonga feito corredor, por ela se avista a fila de prateleiras que se equilibram no vazio sobre a cidade. Nu Adão alonga o corpo criado e vai além do orgasmo único e solitário tendo os olhos pregados num vulto que não se distingue daqui. Melhor que se feche essa porta, os navios estão partindo do estaleiro numa ordem que se faz urgente compreender dada a complexidade das linhas estabelecidas desde Marco Polo. E é um misto de água e ar as vias percorridas, os barcos seguem em T e os balões em C o que, no mapa das rotas, nos garante um organograma que faz inclinar o plano para que seja permitido aos organizadores do comércio controle da chegada. Ao receber a âncora desse transporte megatrônico uma funcionária magra e tailandesa nos ensina com paciência a destreza da seleção do momento certo em que deve prender as alças que pendem e fixar a embarcação à terra firme. Tudo está garantido no mundo, fez isso a vida toda. Repete a manobra e ficamos sabendo que não se pode fazer mais que garantir o próprio sustento o sucesso. A volta se faz sobre o mesmo vazio, entre as prateleiras, sobre os livros num elevador que desliza em cordas de metal. É possível comprar ácido prússico ou Nitroglicerina em tonéis porque assim ficam armazenados, também em prateleiras, nos andares gigantescos de navios que parecem deslizar na flor da água. A vossa excelência, ausente em toda célula, em cada sala, em todo silêncio enfim ordena que a fila seja organizada segundo a importância da função a cada vinte e oito dias e sou promovido, não chego a tempo de ver o show da Madona e penso na infelicidade verdadeira da fã que chora a ausência de um autógrafo. 

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...