terça-feira, 4 de outubro de 2011

DONA EULÁLIA, GÊNESIS CAP 1 VRs 3

_ Como posso ter mergulhado para cima tão fundo que de cá a terra ficasse pequenininha e azul? Com a vista cansada, no silêncio germinal da madrugada, Dona Eulália admira o motim das letras:

"O levante se deu no oitavo dia. Toda coisa criada pronta descaçava sem trabalho. No primeiro dia de funcionalidade, a engrenagem mostraria movimento a que veio. Então o breu eterno agoniza em erupção, é o único instante perfeitamente completo. O espetáculo começa. Haja luz, alguém disse. O Um cabalístico da manufatura se quebra e o caos multiplicado por si cospe hélio e hidrogênio para fundir h.a.j.a. l.u.z. É o motim das letras. O sem nexo não criado ganha phormha, ganha khores, ganha luouzes, ganha reflexonçz e brilhons. As palavras ganharam ckllor e sonzss."

_ Que maravilha, nenhuma lei, nenhum controle, nenhum domínio. A essa altura o Criador deve ter se retirado à procura de pontuação. Satisfeita, Dona Eulália sonolenta fecha a Bíblia.




Passamento

P a s s a m e n t o






O que penso não é pensamento, é sugestão. 

Quando penso pra valer, não estou a pensar 



mas escrevendo.




"O que importa ao 


ferro é que pertença 


ao poste

e a este que esteja 



posto de pé

ereto, porquanto seja forte!





QUERIA QUE NÃO SE PERDESSE, É MUTO POESIA PRA SER DELETADO quando você fecha os olhos...  GUARDO, NÃO GUARDA! 



Difícil escolher uma ponta do fio para desnovelar a narrativa de uma história, a vida cuida de fazê-lo por nós e as vezes, somente as vezes, é que tomamos a pena para escrevermos a nossa própria. Quando isso se dá o céu se abre num riso estelar.


O que você pensa de olhos fechados?

Hino de Itanhaém


Hino de Itanhaém
Composição de Roberto Gonçalves Juliano

Num dia assim, como se fosse o maior,
Esta paisagem se pintava de azul,
Nas formas vivas, vistas lá do alto,
A natureza de Calixto em tons de amor.
Num dia assim, todo banhado de sol,
Martim Afonso ancorava as caravelas,
De paixão por estas serras, céu e mar, beleza e cor.
Itanhaém,gente da terra,
O som da pedra e do mar,
Tem novo canto, um Deus de encanto,
Anchieta a ensinar,
O que nasce de glória só tem
por destino iluminar,
Na raiz de teu povo, razão pra sonhar.

Itanhaém, ilha do tempo,
A foz do rio de abraço ao mar
Lição da vida querida,
Não param de chegar
Os teus filhos do leste,
Do norte, nordeste, de todo lugar,
O caminho da história, no berço do mar.

ATA DO CONSELHO



ATA DO CONSELHO



"Da mão que enfim se pronuncia."





Ata de conselho pode ser leitura obrigatória para os que nele tiveram voz, para os demais, se entretenimento é o que cada um busca lendo, alheios no silêncio que precede as palavras, desaconselhável. não seria o caso então,  senhores, contar o ocorrido nesse conselho, idêntico tanto na forma como no conteúdo aos demais já registrados à exaustão, bem documentado no registro a que o título faz referência , se não viesse À público o teor dramático das conversações ali penhoradas, obra do acaso que fez comparecer na sala de reuniões da escola a mãe de um aluno interessada na situação de aprendizagem do filho. chegou cedo e foi tomada por outra, uma professora recém contratada que assumira o cargo hoje ou amanhã, hoje temos a mãe amanhã a mestra, a mãe é filha de maria na congregação dos filhos de maria, a outra é especialista, do filho importa sabermos, já que não está presente, o diagnóstico, atestado por oftalmologistas renomados, de uma disfunção óptica que o impossibilita distinguir cores, Vejo branco, preto e cinzas. quando a nova professora assumir seu cargo, cadeira ou cátedra para sermos menos vulgar, deixada nesse desaterro para que o cálculo do prejuízo fizesse diferença, a outra, literalmente transfigurada terá feito notícia do conjunto de adjetivos com os quais seu filho foi descrito e, logo, tabela e gráficos terão publicado o escândalo em primeiras páginas, nos telejornais, na internet principalmente já que o áudio está disponível em algum lugar que não existe na web. contudo, após intervalo de uma semana aos depoimentos, depoimentos porque todos foram ouvidos, a demissão coletiva seria veredicto inédito mesmo para a pasta do governo, o ministério se pronunciou, Justa causa, vai ainda declarar à seu tempo, o porta voz do governo. quanto aos professores implicados no caso a lembrança da falsa professora viria suscitar diálogos inócuos pelo atraso. objetividade e clareza, objetividade e clareza, vai repetindo, enquanto transcreve o dito e feito em escrito, esse funcionário eficiente que teve a presença de espírito de na da relatar além da veracidade dos fatos e, assim, repetimos, segue a ata desse conselho atropelando regras e gênero a ponto de quase serem omitidos dia, mês e ano do ocorrido, treze, dezembro, dois mil e quatro, sempre há tempo de emendar só não é possível ordenar a chegada de todos os professores, o momento em que um por um disse, Estou para o conselho, pois que repetir a sentença consoante o número de profissionais que aqui estiveram presentes acabaria por encobrir uma falta onde supúnhamos excesso, lengalenga ensinado naquela fábula antiga em que as ciências se reuniram em concílio para resolver grande dilema, trama simples que reforça no final, que é onde se reproduz a moral dos costumes, que a razão só ilumina as trevas mais inesperadas quando as ciência, que têm por hábito ignorar a existência da irmã mais velha, a consideram. e aí está a ciência popular que vem junto da mãe para ouvir. estão em seus postos o diretor e a coordenadora pedagógica, sentados à mesa maior, este responsável pela direção de quem não a tem e essa de fazer, como queria paulo freire, o trânsito fluir.é preciso descrever o ambiente uma vez que o cabeçalho fora compilado e os protagonistas da cena apresentados. à primeira vista, que é a da mãe do aluno que não enxerga colorido, o que desperta nossa atenção é a disposição das carteiras que acompanham as paredes, viradas para o centro da sala, seguem formando uma figura que, segundo os manuais distribuídos pelo governo de como organizar um conselho, deveria seria um círculo, a ciência popular se manifesta apenas uma vez e quase podemos ouvi-la quando pergunta, Aquilo são instrumentos cirúrgicos, o que se vê na verdade são os instrumentos de trabalho dos professores dispostos igualmente sobre todas as mesas nessa ordem borracha, lápis preto, caneta vermelha, azul, preta, régua de quinze centímetros e caixa de giz. da porta de entrada podemos ver as vidraças, estão abertas e a brisa da manhã faz balançar o algodão alvejado das cortinas brancas, a ciência popular já não está para ouvir a voz do secretário que soa firme e rápida como a do comentarista de futebol, anuncia nomes e números, segue pausa menor que essa vírgula, e depois, aprovado, aprovado, aprovado, vez ou outra intercala um reprovado ao que se segue comentários, justificativas, lamúria, ladainha em descompasso no discurso aqui registrado. os professores seguem nesse ritmo 
na mesma cadência até o nome de nosso rebento ser a bola da vez, por assim dizer. então o chão se abre sob os pés da filha de maria e uma dor lancinante aperta suas entranhas, à boca vem o vômito que não lhe escapa como também não escapa aos sentidos a sentença final do réu, Reprovado. muda a mãe ouve a voz do conselho, Homologado, o conselho homologa, o conselho homologa, o conselho homologa, o conselho. O que ainda anima o coro é a insólita certeza, e com ela a paz ao espírito, de term chegado ao consenso  a que deram o infeliz codinome mesmalinguagem, triste figura, moinho e vento. é o conselho da escola reunido como pode segundo as normas vigentes do ministério. a essa altura chega o texto dessa ata a bom termo e, não depois de subscrevermos nosso nome no devido lugar para que se saiba que todos estamos envolvidos ouvimos, 


da mãe que enfim se pronuncia em defesa da prole, para cada um de nós presentes à incômoda leitura, A puta sou eu.







domingo, 2 de outubro de 2011

GRAAL

Se de Minas trouxe pra mim oferendas que trazia, agora deposito à seus pés  o que de graça a ressaca deixou como fantasia... recebi um graal, de barro! É coerente seu protesto:  mas nem o deus de Isaías o faria de plástico... considere a maré. 
E prossigamos por ali que é de onde o sol nasce e nos obriga a contemplar aquela mistura de sangue e leite só possível no poema de Drummond. São conchas que o turista se cansou de resgatar, águas vivas mortas dadas aos urubus. Que os há na praia não se engane, é um favor que nos faz, um serviço, diríamos, de camarão e não se pode reclamar da Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo pelo cheiro que se fará sentir depois do meio dia. São restos, migalhas, desproporções cheias de cores, rosas branca e vermelhas, sim, candomblé, mandinga, oferenda... Alguém acreditou e depositou, por fé, algo belo e sublime num túmulo líquido e aí as temos, passemos ao largo dela porque não é de bom tom que se interfira nos desígnios do alto. O mar se agiganta em ondas nervosas e por isso o pescador nem se dá, lança o anzol como mensagem de náufrago esfomeado, é que ele tem prazer em fisgar sua vítima e depois comê-la. Contudo não foi por isso que viemos até aqui, apesar da fome a contemplação foi o mote de nossa saída dos cobertores as cinco da manhã. Mas que merda é essa? Parece um vaso, é um vaso. Está quebrado, mas já tive vasos que se quebraram e por isso mesmo ficaram mais interessantes, lembra? Aquele que se ocupou de não deixar que a água regada escapasse pelas bordas e deixasse as bromélias à ver navios. A diferença está na ação da areia, do vento, da água que poliram, limaram, escovaram sei lá que diabo aconteceu, é um vaso. 
E porque são quase seis horas da manhã posso delirar e concluir que a ressaca deixou na praia esse graal! Veja bem que escrevi com minúsculas para não ser tomada por anátema a consideração: santo graal. É meu, se depois de oferecido o temos de volta.














A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...