sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A QUARTA ONDA

Trinta de setembro, sexta feira de primavera, o inverno finalmente teve vim. Dormi cedo, acordamos cedo. Fui andar pra colher alguma cor já que o dia nascia cinza. Percebi as quatro ondas que desenha a praia, a primeira seca só de areia, tem volume e nela as marcas dos pés não desaparecem tão rápido, a segunda onda é apenas úmida enquanto a terceira é líquida, instável e móvel, é o resultado do cansaço da gravidade. E, finalmente, a quarta onda, que se multiplica em inúmeras outras para dentro do mar engolido pelo Atlântico. Essa última é um convite para o profundo, o inesgotável e insondável começo. Uma gaivota matava a fome no pescado e uma coleção de bentivis fazia coreografia às margens da segunda onda, aquela apenas úmida. 
O que chamou mesmo a atenção foram os quero-queros. Tenho especial carinho por esse pássaro mas, na praia nem os esperava, muito menos pernalongas que os assemelham as garças, resultado da  ação milenar evolução natural, que os permite trafegar tranquilamente na terceira onda, e nem os incomoda o suave e constante movimento daquilo que veio desenhar, bordando com espuma, essa que é a terceira onda. Esse movimento leva areia
e deixa quase a
mostra algo vivo que 
é a refeição matinal 
dessa aves. 


E é assim, com essas pernas 
longas que caminham rápido e param logo, 
tremem as longas pernas e  toda estrutura que termina nos pés ligeiros, uma vez localizada a refeição, se inclina na velocidade da luz quando o bico decide... e não exita, zzzas!!! E as cores começaram a brotar do céu, por que do céu nos vem tudo, a luz é mana diário que reordena a vida que se torna suportável depois de um sonho que nos acordara antes da hora. E lá vem os tons de rosa, sem pressa alguma, sem a pretensão egoísta de substituir o azul que, com  algum esforço, rompeu aquele cinza de que tínhamos 
falado antes. 

 Não demora e essa luz fará reflexo na areia, duplicando tudo a nossa volta, mostrando o redor de cabeça pra baixo, e sinalizando para o cuidado que se deve ter ao perceber a redondeza, a estranheza, o dessemelhante. E é essa cor que passa a me perseguir na volta, já recomposto de espírito e acordado definitivamente, apanho as cores com a mão, literalmente. Uma concha rosa pequena que mais parece uma pétala, uma azaleia também rosa ali atras do muro, flores de uma acácia plantada na calçada de cor fúcsia que nada mais é que a combinação do rosa com o
violeta na paleta do criador. Refeito, voltemos. Agora por outro caminho, pode nos acontecer a sorte de outras cores já que o cinza foi levado pela quarta onda.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

APOSTA - ano novo 2003, Votuporanga

Quanto cabe na palavra saudade?
Em que velocidade envelhecemos?
Quantas pessoas conheci?
Amei alguma vez?
Éramos ou fomos?
Depois do sim ou antes de anoitecer?
Quando me ver no retrato, serei eu?
Seus olhos já tinham essa cor?
Ainda sabe meu nome?
Onde você nasceu?
Em que estado da federação?
Sólido ou gasoso?
Cozido, salada ou caldo?
Qual é sua preferência?
Vestido, café ou banho?
A mesa posta,
A foto postada,
Aposta.





quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NOTA DE FALECIMENTO

NOTA DE FALECIMENTO

o autor desse grafite que você vê no fundo não está mais entre nós, os que acreditam estar vivos...
Fiquei encantado com o trabalho que meus amigos daqui ainda não tinha reparado... ver e olhar é diferente de botar reparo! Então fui "a campo" para chegar até o autor: perguntei, perguntei. E hoje a Sandra que trabalha na pousada Maresia, que tinha se dado ao trabalho de me ajudar, veio com essa: ele está morto a quase dez anos. Mais uma vez cheguei atrasado com aquela sensação de djavù. Pensei em escrever um romance com o título "todos os nomes" mas o caso da mulher desconhecida já foi escrito. Então...

a nos, que acreditamos estar vivos, o sublime e belo!




Uma fresta para o subsolo

Sempre que leio um clássico da literatura fico com a impressão de ter chegado atrasado, e penso que preciso ler o clássico do clássico. De novo chego depois da hora, e de novo até perceber que estou lendo a bíblia, como no início de um circuito. 
Sou o tipo encantado, deslumbrado e desconfiado. Não tenho sossego e nem parada, por isso o fio da narrativa deve ser preservado como o fio de seda que o bicho fez com o suor do seu trabalho. E temo que antes de romper o casulo nascendo venha o criador e ponha fim à vida, e ao labor, pela simples necessidade mercadológica de impedir que se quebre o mesmo fio que por ventura venha cobrir a silhueta sua.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dia de sol no subsolo.

Depois de uma semana  com seus sete dias e suas cento e sessenta e oito horas, e cada uma dela com seus minutos gestando segundos eternos, o sol revela a primavera prometida no dia 23 de setembro. Segui meu curso para uma caminhada possível sob o astro que esteve lá apesar do mau tempo dessa semana passada. E não estive só, algumas pessoas caminhavam de tênis, preparadas que estavam, conhecedoras que são duma rotina saudável que só não causou inveja porque não fumei um só cigarro.. 


Para que se saiba fiz flexões, algumas, alongamentos e uma bateria de trinta minutos de exercícios leves. Não cansei mas retornar à sombra é preciso se a pele não está protegida do mesmo sol que nos trouxe... essa brisa. Na volta deitei naquele galho de goiabeira que nasceu como todos os pés de amora... como que espontaneamente. Então pus os pés na realidade do século dezenove e retomei a leitura de Dostoiévski e sua Memórias do Subsolo. Um capítulo, um capricho, um dia de sol.

A bruxa tá solta...



A bruxa tá solta... e vai comer seus pastéis, Ana Eliza! 
Jesuíana é essa figura aí, a bruxa em questão...


Se ela dança eu danço...

Jesuína é esposa do Ricardo e ambos são amigos da família Dias, aqui em Itanhaém. Frequenta o Salão do Reino e as noites de domingo são rodadas de pastel e game. Ela dança eu danço, entrei na roda e fiz o que pude...


Pastéis para os Dias.


Se Maomé não sai da cama a montanha vai até Maomé...


domingo, 25 de setembro de 2011

Vitrais







Carta para Juliana a respeito de Ata do conselho


Votuporanga, brisas suaves 


Juliana, 

estou enviando cópia de um "conto" que escrevi para expressar um pouco as minhas angústias acerca da escola. Gostaria de poder contar com sua sagacidade, boa vontade e paciência... gostaria que lesse e comentasse o que você percebeu no escrito. Seria o maior prazer receber uma carta sua e, se nela tivesse uma análise da Ata do conselho, o prazer seria ainda maior. Quero escrever mais, preciso escrever... preciso de disciplina. O mestre que me inspira é um autor português onde encontrei no mesmo nível beleza e desafio, José Saramago. Juliana, seja cruel. E tenha paciência... afinal ler uma ata só se for a pedido de um amigo!

Bill, fevereiro de 2005


(incluir link para página de Ata do conselho)

Carta para Juliana ( de 11 de setembro de 2006)

Votuporanga, 11 de setembro de 2006

Juliana, demorei?


A vida tem sido generosa comigo. Sempre considerei um milagre que houvesse vida sobre a face da Terra mas, a cada dia, desconfio de que ela seja obra de um deus. Isso impõe uma distância entre eu e os meus "irmãos", igualmente aterrorizados diante do espetáculo, e da  possibilidade do fim. A lembrança que temos daquilo que foi feito, daquilo que desejamos ter, dos momentos de alegria, as responsabilidades compartilhadas, a cumplicidade natural que existe entre amigos... nada disso pode ter fim. 
Uma frase do filósofo Sarte fisgou meus pensamentos, Tudo que existe merece deixar de ser, porque merece e não precisa? Porque merece e não deve? A ideia contida na sentença é cristã, mas a fonte é de origem pagã, portanto anterior do advento do Cristo. Assim um desejo se transforma em outro sem nos darmos conta do que realmente queremos enquanto a vida passa por nós. Como vai a Ana Elisa?
O nome dela é lindo: Eliza! Eu a imagino mais alta do que deve estar, vestida de azul em vários tons, algum brilho rosa, sorrindo os dentes em desarranjo, solta de alma, leve! A sua menina está crescendo linda e perspicaz. Sorte sua... sei que você é forte e tira de letra.
Ah! As letras... você devia voltar a estudar, fazer letras e se tornar professora em alguma cidade do estado. Falo sério, pensa nisso: fazer pão, fazer letras, fazer pão e letras... Em dezembro vou ver você dizer que sou especial, um amigo. Seu problemas não me chatearam, tire isso da cabeça, gostaria de poder dividir mais e ajudar. Eu torço por você que é campeã. São poucas as certezas que temos, também são poucas as oportunidades para acrescentar algum sentido para continuar, a nossa amizade é uma. Então, até

agostoenlouquecidoperdeuoiníciodaprimavera

Você me surpreende lendo Saramago. Por que? O que é uma leitura "bem feita"? É como uma refeição: foi preparada para matar a fome  , degustada, ingerida e os nutrientes absorvidos e enviados para os órgãos que dele necessitavam, através do sangue. Perfeito! Você ao escrever aquela pequena segunda carta demonstrou que os nutrientes saramaguianos foram ingeridos, absorvidos e utilizados na linguagem com domínio e propriedade. Poucos sentem a terra tremer sob os pés, poucos tecem novelos de luz, poucos falam com os animais. Você está preparada para ler mais.

Sugestões:
1- O evangelho segundo Jesus Cristo (obrigatório)
2- Uma trilogia que começa com:
* Ensaio sobre a cegueira (deprimente e fundamental)
* Todos os nomes (você vai se apaixonar pelo senhor José)
* A caverna (tem final surpreendente e confere sentido à trilogia, e te faz  sentir gente)

Claro que você conheceu Baltasar Sete Sóis e Blimunda, o padre Bartolomeu de Gusmão e carregou toda carga necessária para construir o Convento de Mafra. Também subiu até o "céu" e viu o quanto a Terra é pequena à bordo da passarola movida pelas vontades humanas aprisionadas. Blimunda vê e liberta, Baltasar trabalha e constrói, Bartolomeu de Gusmão sonha...

Tire xeros do livro CARNAVAL NO CONVENTO: intertextualidade e paródia em José Saramago, o autor é Odil José de Oliveira filho (tem na biblioteca da UNESP, é só chegar lá e pedir ajuda...) Porque você deve fazer isso? PRAZER EM DESVENDAR!

Se  você não se tornar especialista em literatura portuguesa talvez a Ana Eliza se torne, quem sabe o Dudu não venha a ser um grande escritor? Talvez deteste o skate, a net... a vida traz tantas surpresas... mas saiba que somos responsáveis por boa parte dos resultados da seara. Semente, parábolas, dons adormecidos...

rapidinhas:
- não estou assim, doente;
- não estou trabalhando 24h por dia;
- aumentei aulas na FEF (Fundação Educacional de Fernandópolis) no curso de  Letras (sociologia);
- no Estado sou amigo de todos, mas vou à escola quando estou bem;
- comprei um computador, na FEF não existe diário de classe, tudo é feito pela internet;
- você precisa ter um endereço eletrônico (e-mail);
-a Júlia (minha filha) vai para Olímpia nas Termas dos Laranjais em setembro e em outubro, é perto daqui, vou me encontrar com ela, vocês podiam vir juntas (a vizinha dela vende passagens);
- Somos amigos, pare de bobagem!

- "tudo que existe merece ter fim"


Um abraço do (sim) amigo Bill.

)






Mestre, que eu procure mais... 




encontrar que 


ser achado, 


perder que 


ser encontrado, 


surpreender que 


ser surpreendido.


A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...