quinta-feira, 3 de março de 2011

A carta do pai

Aprendi a saborear as nuances entre os signifacados das palavras com meu pai, homem de pouca escrita. Quando ele sorria esfregando as mão e repetia uma palavra lançada no ar sabíamos, ele e eu, que havia um mundo novo ali. Em 1978 tínhamos retornado a Franca e ele ficara em Uberaba por conta do trabalho: depois de deixar as trincheiras do campo especializou-se em "guarda de patrimônio" - nesse casa Mendes Junior. Vinha a Franca a cada quinze dias e a saudade. Toda falta não é gratuita. Um único escrito, essa carta em forma de poesia enviada naquele tempo é sua obra prima, meu pai é homem de poucas palavras.








RECORDAÇÕES DO PASSADO

José Lara Gonçalves


Vou contar para você o que na minha vida eu passava
quantas vezes eu entrava no meu quarto e de tristeza chorava
No serviço tinha meus colegas que comigo muito brincavam
eu tinha que dar meu sorriso
mas por dentro  meu coração chorava
Quantas noites na minha cama com sono mas não dormia
com tanta tristeza em meu coração por estar longe da minha família
Só meu travesseiro sabia, e se ele soubesse falar diria
quantas vezes eu não resistia só tinha que chorar
pois meu próprio travesseiro eu começava a molhar
Chegava a hora de comer, hora de muita alegria
mas as vezes com lágrimas descendo no rosto ainda eu pedia
para que não falte para ninguém e também para minha família
Isto era em Uberaba mas tinha que ir à Franca passear
abraçava esposa e filhos e o coração começava suspirar
pensando no regresso que no outro dia tinha que voltar
Na hora de despedida meu coração ficava retalhado
de tanta tristeza de deixar a esposa e filhos adorados
Se coração fica preto o meu já escureceu
de pensar na minha família e também em amigos meus
Aqui deixo minha despedida fazendo minhas reclamações
pois é o que tinha no peito guardado no meu coração
Deixo um abraço para minha família
também para minha mãezinha
que mora perto de Pains, na Vila Costina.





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar - luto/ A mulher que escreveu a bíblia

Trecho:
"Bastava-me o ato de escrever. Colocar no pergaminho letra após letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia. Eu descobria que uma letra atrai outra, essa afinidade organizando não apenas o texto como a vida, o universo. O que eu via, no pergaminho, quando terminava o trabalho, era um mapa, como os mapas celestes que indicavam a posição das estrelas e planetas, posição essa que não resulta do acaso, mas da composição de misteriosas forças, as mesmas que, em escala menor, guiavam minha mão quando ela deixava seus sinais sobre o pergaminho."(p.41)

A VIDA NÃO VALE O DRAMA

já não me interessa discutir quem veio antes se o ovo ou a galinha se a arte copia a vida ou se a vida a imita  certo é que o drama é meno...