sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tanísia Messias Reis (por e-mail)

Olá Antonino,
Como vc sabe eu adoro dança  e nesses dias eu estava assistindo aquele programa "Se ela dança eu Danço" no SBT e vi algo que me surpreendeu... não entendo nada de dança, mas de emoção eu posso dizer. Apareceu um rapaz, chamado Jhon Lenon da Silva (olha que coisa mais brasileira!) e falou que ia dançar Hip Hop Dance, só que a música escolhida é de um ballet famoso "O Cisne" que trata da morte de um cisne...
Jhon Lenon? Da Silva? Hip Hop e Ballet?
Olha o que deu:
Clique no link para ver...
http://www.youtube.com/watch?v=RM2Aio9mvNE

Convivência de início de curso do Caminho Neocatecumenal




O melhor da caminhada está, certamente, no percurso. Guimarães Rosa já tinha ensinado isso, que de resto já o sabiam Salomão e meu tio Geraldo. Não faço parte de nenhuma comunidade do Caminho Neocatecumenal (você já deve ter ouvido falar dessa opção dentro da Igreja Católica Apostólica e Romana...). Comunidade é coisa que parece fora de moda nos tempos em que a palavra nos remete às redes socias da WEB ou ao eufemismo recorrente usado para o verbete FAVELA. Mas estou aqui, em Ribeirão Preto entre quatrocentas pessoas que fizeram essa opção e estão doando parte de seu tempo (tempo ainda é dinheiro?) para ouvir, ler e aprender as lições que se desdrobram de dentro da palavra, entendida nesse contexto como A palavra (de Deus). Estou aqui pelo Estevão que é filho do meu irmão, nossa afinidade é genuína e de resto muitas palavras nos cercam. Assim, enquanto ele aprende a desenhar letra A vou ouvindo a Susi tocar esse piano louvando com primor a Criação e o Caminho do Cristo. Encontrei aqui mais que A palavra, encontrei amigos que há muito não via e articulei verbos há pouco esquecidos. Algumas conjugações a gente quase não usa e deixamos de fazer conexões que possibilitariam transcendência com menos dor.
A  Deus que é grande agradeço ou ao pequeno Estevão? Não sei, depois eu conta.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

uma odisseia: 1999-2008










Mil noventos e noventa e nove, todos esperavam o fim! Apocalípticos e integrados se dividiam naquela visão de mundo que destrói. Aquela que confere certeza e confirma a finitude da criação. Estamos vivos e o mundo... O fim se revelou um novo começo, gira mundo, gira pião... Fica a saudade daqueles que partiram e dos que estão distantes, mas fica e isso eu conto. É uma história escrita em tonalidades fortes e harmoniosas, de riso e muitas perdas, descobertas, parcerias, cumplicidades, esperança,  frescor de uma folha nova e alguma brisa.
Em julho de 1999 fizemos essa viagem até a Serra da Canastra, na bagagem levei a câmera filmadora, filmei em VHS e agora te envio em DVD. Pra mim, Zé, é como se fosse um retorno à Ítaca, você Ulisses ou eu. As veredas da Canastra o labiríntico Egeu...Franca, Piunhí, Pimenta, Vila Costina, São Roque, Vargem Bonita, Barreiro, Peixoto. Apresentei a você não só os lugares onde foram plantadas minhas raízes mas, e também, personagens que povoam minhas lembranças. Lancei sua imaginação no terreno da minha criação e corri todos os riscos de ter a alma desvestida. Não podia ser diferente, precisava expor e dividir se quisesse somar. Seu humor não perdoou os mais velhos nem os mais fracos, de resto Minas virou pó. Serras, genelogias, costumes, crenças, vaidade e orgulho de gente incrustada feito pedra em ruínas de pedra. Você lapida até o brilho e a jóia mais rara não usa.
Entre as baixas, perdas ou mortes esse vídeo documenta o fim da vida de alguns: Tio Tervino, Tia Ciana, Tia Tereza, Zé Prudêncio e Tio Miceno, aquele que um dia teve vigor e mira para acertar tucanos em revoada e agora já não tem nada. É estranho vê-los no filme e saber que já partiram... é bom ter participado e gravado esse vídeo que também é registro do nosso desejo de estar mais pertos da natureza como se buscássemos a única realidade divida que podemos... Madredeus!
Escrevo essa carta que acompanha o DVD como presente, é seu aniversário.
Sou homem de (não) poucas palavras, diferente do narrador d'A terceira margem do rio... estamos lá, no rio, somos o rio, cada um uma margem, comportamo-nos, limitamo-nos e buscamos essa que transcende e permite, a terceira margem. Brindo a efemeridade da beleza, brindo à sua saúde, a vida.

Feliz aniversário, cavalo de fogo inventado.







NO ZOODÍACO CHINÊS,
O Cavalo de Fogo rege a cada 60 anos

Latitude zero





O bicho da seda tece seu fio preparando morte e ressureição


sou agora palavras brandas
nenhum levante, nenhum brado, nenhuma lâmina
sou tuba entre violinos
um u abafado.

A espera é agora ruína e sombra
O sol que aquece meu rosto é gesto divino
que rabisca a única rima que resta na última pauta
sou rascunho animado de desenho antigo

O casulo pronto é abrigo .
agora palavras prata,
palavras uva
vidraça e chuva

Agora o poema está pronto.




Ps.:

Bicho-da-seda é a larva de uma espécie de mariposa (Bombyx mori) usada na produção de fios de seda. Este insecto é nativo do Norte da China mas encontra-se actualmente distribuído por todo o mundo em quintas de produção de seda, denominada sericicultura.
O bicho-da-seda alimenta-se de folhas, preferencialmente de Amoreira ou ração, ao longo de toda a sua fase de vida larvar. Ao fim de um período de pouco mais de um mês, a lagarta torna-se amarelada e começa a segregar um casulo onde se dará a metamorfose para o estado adulto (imago). É esse casulo que serve de fonte para a seda.

Ciclo de vida

  • Ovo: 10-14 meses
  • Larva: 27 dias
    • 1ª estágio larval
    • 2ª estágio larval
    • 3ª estágio larval
    • 4ª estágio larval
    • 5ª estágio larval
  • Crisálida: 14 dias
  • Adulto: 7 dias



quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Luís Cruz de Oliveira

Eu pedi a uma amiga comum, a Édna, que apresentasse o texto Algema ao escritor. Ele retornou escrevendo uma avaliação que agora reproduzo.


Impressões de leitura

É um embrião de romance

Vantagens
1) imaginação fértil
2) conhecimento teórico bom
3) conceitos e análises rasoavelmente sólidos
4) a disposição das idéias é boa

Desvantagens
1) É muito prolixo
2) O tempo todo o leito fica diante de possibilidades

É um ensaio, é uma crônica, é um conto, é o começo de um romance?

ALGEMA







“Ela escolheu a melhor parte e ninguém vai tirar dela.”
Evangelho segundo Lucas 10: 38-42


O canavial estende-se sobre o vermelho da terra, visto do alto, como só podem aves e aviadores, parecerá um tapete fabricado por mãos hábeis e agulhas finas, esqueçamos as enxadas, o duro do chão, a terra roxa, o sol que envelhece a pele, tudo é trabalho para mãos experientes, as linhas verdes serão fios de algodão doce que ondulam para cá, para o outro lado, se faz vento na terra como aqui, no céu. Do ponto de vista das aves, que guardam algum parentesco com os dinossauros, a falta de mais colorido sinaliza, também para elas, a extinção e perguntam usando de linguagem refinada que só uma não-literatura poderia traduzir, Onde estão os Jacarandás, os Ipês, os Cedros, as Jangadeiras, as Aroeiras, sim, são perguntas esse alarido que cobre a beleza monocromática, supostamente natural. A eira, também branca, sinaliza para a história um passado sem memória, sem função, quase, além desta de ser mencionada como guarda-volumes no tempo em que a cana descansava antes de seguir seu destino moenda, tacho, mercado, banco de créditos, linha reta que parte do lucro para o lucro, porém, já assim está, sem eira nem beira, como diz quem aprendeu quando perdeu, hoje guarda lenha seca e ratos, já no galinheiro e nos galhos da mamoneira a algazarra dá lugar ao silêncio que precede a fome matinal. A extinção está sempre próxima, nunca se sabe.
O pequeno quintal vai até a mata, cerrado alto segundo a classificação geral que consta dos compêndios da geografia dividida, também ela, em física e humana, dito assim como humana e não-humana o que revela esquizofrenia preliminar entre natureza e objeto, entre a natureza e esse, que de interessado passou, também ele, a objeto, o homem, é dele que falamos, incluído para ser visto pertencente à, se dela não fora feito, e vai que, enquanto quer saber mais desfruta, ou descasca, ou desflora por onde passa, tudo ao redor. A comparação não é leviana, basta recordar que da Mata Atlântica, oceano verde, resta hoje bolsões, campos cultiváveis como esse cerrado que fora poupado para mais tarde. Já o quintal não consta das enciclopédias que também servem ao propósito de classificar os reinos animais e minerais, criados todos num instante de sete dias bem sabemos. Esses volumes, as enciclopédias, esclarecem sem muita necessidade mas, para que não haja quem diga o contrário, que o homem é mamífero como os roedores, porém bípede, para averiguação basta espelho, ou fé, já que nem todos precisam ver para crer e alguns se satisfazem em sobrepor sua imagem à do Criador, há ainda aqueles para quem ver e olhar já não basta e voltam a ler, como aí está. O quintal é pequeno e a mata, preservada como nada mais ao redor, Atlântica enfim, margeia o terreiro vazio que também serve à segunda casa, plantada como fora na direção oposta desta onde moram Marta e sua irmã. Vivem aqui sem os pais que morreram e sem o irmão mais novo que se ausentou, casara-se e foi com moça da cidade que o levou embora tão jovem, como dizem ainda.
Marta vai cozinhar hoje e dizer isso é dizer nada porque muito já faz desde pequena, todos os dias tem servido sem que haja tempo para pensar na vida, ou na morte, ou nas mulheres que vivem do que herdaram de seus homens e servem ao tempo esperando quem lhes reconstitua o caminho que ficou por ser escolhido. Ainda de jejum por que hoje é dia santo Marta prepara almoço especial, carneiro recheado com lentilhas, da cabra o que vem de mais caro. Separa grãos da palha enquanto a lenha ferve água, não para o café, hoje não bebo, mas para limpar do couro do animal o pêlo, até que volte a parecer recém nascido.
Sua irmã dorme um sono leve e sonha. A mata no seu longe e o canavial sempre em ondas agora respiram silêncio monolítico de dar medo a quem, acordando de repente, encontrasse a terra abandonada, vazia e muda, que assim estão os mundos, se não em guerra em silêncio. Por sorte a luz que insiste acordá-la insinua, é preciso dizê-lo com palavras que se opõem, um estado de graça, e o paraíso se revela sob a forma de uma agonia aliviada. Sonha com o pai que chega à porta, estende a mão, bate com vigor ao mesmo tempo em que desaparece porta e telado, a lua faz da sala um deserto cercado de verde, caminha na sua direção, estica braço, a mão, o dedo indicador, nem senta nem fala.
Não se faz necessário recorrer a manuais de interpretação dos sonhos quando a psicanálise ainda não fora traduzida para o português dessa gente, tristes trópicos terras de monocultura, que não venha quem possa cobrar-nos a dívida arrancando-nos a porta, que esse direito consuetudinário determinado por Afonso Henrique, primeiro rei do primeiro reino que unificando seria Portugal, não tem valor entre nós. Cá fora, do sonho, na soleira da porta um homem chama.
O que pode, na vida de quem está ausente, acontecer para mudar-lhe a fisionomia a ponto de não o reconhecermos nos gestos, na fala ou mesmo na estatura de seus ombros aquele que foi? É o terno, a maleta e algo de rapina no olhar o horizonte, esse não é o irmão de Marta, é.
Bate e não importa dele informar aqui o que lhe trouxera a vida longe desse terreiro, está e chama. Toda a bibliografia sobre o gesto, tradutor da idéia e primeira linguagem humana, demonstra a universalidade de alguns acenos sobre os próprios vocábulos mais essenciais e vivos, como disse Câmara Cascudo.
Bate, está e chama.
Há doze anos que daqui partiu sem deixar mais que saudade, vem acordar aquela que sonha e essa que ainda não descansou, Marta é seu irmão, olhe por você mesma. Para o casamento muita gente veio da cidade mais próxima e de longe, de perto do rio e do meio da mata, Quem sai daqui nunca volta. A moça é filha de usineiro, palavra que atualiza o significado de senhor de engenho, deixou a fartura acumulada durante séculos de exploração para aventurar-se no amor.
Haverá mecanismo em alguma parte da razão que inibe o impulso de parar o trabalho? Não devia é aparecer ninguém, não diz, pensa e corrige num só tempo de quem peca e pede perdão, Carneiro é comida para mais de três. Vai ao quarto, sozinha não tem coragem de atender voz de homem, dá com os lençóis vazios e, antes que desembarace das mãos os pelos do animal que deve matar nossa fome escuta o grito da irmã, Fábio.
O que o traz de volta à casa dos pais, mortos é preciso repetir, está na maleta que carrega, uma ordem de compra e venda, Será melhor assim, vai dizendo, o progresso está chegando para todos com a cidade que será construída, assim, inteira de uma vez, planejada em cartório com papéis, carimbo e recibos, que tudo foi vendido para os estrangeiros, do Cruzeiro até a Cabeceira, trabalho de engenheiros da capital, já tem quem vai construir fábrica e fortuna, tem gente que ouviu notícia e tem o pé na estrada, vai ser bonito de dar gosto, ruas paralelas cortadas por avenidas largas, árvores só nas praças que serão muitas, a igreja será matriz de Nossa Senhora e não haverá terreiro ou poeira só asfalto e calçadas bonitas que vão lembrar as orlas marítimas, um consórcio como nunca se viu, homens do mundo todo acudiram o apelo da publicidade, japoneses, italianos, franceses, ingleses, holandeses, alemães, esse projeto vai vingar, já vem aí os trilhos e a fumaça, os batentes os homens estão cortando por ali, perto do boqueirão, não tem mais que ficar, aprendi a esquecer e nosso pai morreu, entrega a casa para ela cair no chão, tudo vai ser diferente.
Marta escuta e não tem parada, rasga a barriga do animal, tempera a carne substituindo o vazio do interior por farofa de carnes picadas e lentilhas e cebolas e manjerona e sal. Marta não para. Da janela avista a mata e o quintal que chega até a varanda, da mamoneira sua avó extraía óleo para curar do mal as feridas que ninguém via, benzia e rezava. Tem os olhos fixos na terra seca, sente o ventre seco, no meio da mata distingue uma árvore bem mais alta que as outras, uma Jangadeira, tem cipó nela que não acaba mais, olha tudo e não pode ver, para isso é preciso ter asas, que é o resto de um tamanduá morto semana passada o que atrai os carcarás que sobrevoam o canavial.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O sibipiruna velho

Essa é uma história de amor,
triste.
Que é contada com algum ritmo.
Veio morar na minha calçada
uma sibipiruna ainda menina
e já de copa larga, longos galhos alegres
e tingidos daquele verde
que só me lembro de vestir igual 
quando também galhos menino eu tinha.

Linda,
e foi amor à primavera.

Quando moça não florira e,
adolescente paixão,
eu chovia flores amarelas
pensando no que por ela faria
o jasmineiro em sentinela
plantado vermelho no outro lado
desse mesmo quarteirão.

Sua copa, então por mim revestida,
dava-lhe ar cosmopolita,
de quem já se habituara a ser,
e ser admirada e requerida.
Sim, requerida porque era diário
ouvir muita proza regada
à sombra nossa de cada dia
unidas na calçada
daquelas tardes quentes estendidas.

Foram uma, duas, três primaveras
sem que dela o amarelo exuberante
quebrasse a monocromia dos verdes tons
dos anos inteiros.

Enfim,
e nem por isso mais bela, floresceu.
E foram outras uma, duas, três primaveras
de copas quase já entrelaçadas. Como crescera!

Divertíamo-nos
colando recortes de histórias
que ouvíamos de quem,
ora passando dizia, ora suspirando parava
e a pressa suprimia.
E era um pedaço de amargura aqui,
um outro de confidência ali,
risadas, sussurros, alívio e
promessas e juras e beijos,
gente velha desanimada, gente jovem presunçosa,
silêncio pouco ou nunca se ouvia
porque é isso que melhor plantas discernimos
– no silêncio o som, dito da criação,
em nós reproduzido.

E agora se conta porque é triste
uma história que tanto prometia.
Chegam notícias da razão de
tanto juntar-se em particular concílio
a família. Reunida votavam, uns tristes,
de uma das árvores o fim da vida.

Diante da inequívoca necessidade de
mais espaço na cidade que cresce
nossas raízes já não mais podiam.
E era quase asfixia
a falta que dela, que ela, sem.

Vejam,
breve é o tempo e o canto também,
e não há mais prá nada.
Pois que uma decisão foi tomada.

Vêm?
aí os temos, armados de elétricas serras dentadas,
os homens.

Vejo-os chegarem ao pé e a mim
para a execução, o devir.
Não escolheram a mais bela, não!
Esta que, transfigurada,
seiva imaculada chora.



Ah!
O alvo é o velho,
as raízes aparentes,
os grandes galhos,
a sombra sobre suas sombras,
as da casa.

Ai! Quem venham!
Não há de doer, isso é certo,
mais que saber não vê-la,
sempre ali corada,

jamais.

ele conto, eu conta: só perdemos o que não temos

Só perdemos o que não temos





Na última semana, terminei de ler um livro que um amigo muito querido me presenteou. Falava de auto-descoberta, auto-conhecimento – tratava de temas complexos sobre o expandir da consciência, ampliar o olhar sobre si mesmo – tudo banhado de espiritualidade e conceitos da psicologia. Enfim, dentre os inúmeros temas que pude revisitar ao ler esse livro, um em especial me chamou a atenção: a morte. Nesse capítulo o autor deixava claro um ponto que quero compartilhar com você: a questão da perda.
É verdade que toda perda é um processo dolorido, sofrido. Um processo que nos faz pensar e repensar, refletir sobre nossas vidas, nosso tempo, a forma como aproveitamos ou não esse milagre que é viver e se relacionar, estabelecer relações. Tudo isso faz sentido se ampliarmos o conceito da morte e compreendermos que morremos todos os dias e, renascemos todo amanhecer. A morte nada mais é que o fim de um ciclo e início de outro.
Desapego
E, se morremos, ou melhor, perdemos algo de um lado, de outro ganhamos com certeza. Morrer, romper, terminar, deixar – tudo isso demanda desapego, amor próprio, demanda o aceitar, confiar e agradecer o que recebemos. Um alento é saber reconhecer que só perdemos o que não temos. Explico: só perdemos o que não é nosso, não nos pertence, não agrega, não soma, não nos faz melhor.
Vou tentar clarear… Se só perdemos o que não temos – tudo o que temos levamos conosco. Sensações, emoções, sentimentos – tudo o mais é transitório. Isto é, se alguém próximo se foi, podemos sempre ficar com o que construímos. Com o que vivemos e experimentamos juntos. É de fato só isso o que temos – bons ou maus momentos.
Talvez por isso muitos afirmem que a felicidade é uma soma de bons momentos… Ser feliz é estar mais feliz do que triste no tempo que temos para administrar nessa passagem. O quanto antes conseguirmos entender que a vida é uma passagem, viver se tornará muito mais possível além de mais prazeroso, mais delicado.
Então, exercitar o desapego, o soltar as amarras e travas que nos distanciam do que temos de melhor – nós mesmos – ficará muito mais fácil. Saber o que temos é, por isso, parte do nosso crescimento. Do nosso auto-conhecimento, nossa auto-descoberta. E, para tanto, precisamos passar a olhar com os olhos da verdade, da beleza, da ética, do amor… No mais, tudo vai dar certo.
Máscaras
A questão é que, por vezes, temos tanto medo de olhar a nossa verdade que utilizamos diferentes artimanhas para nos afastar desse nosso centro. Vivemos assim com base no medo de sermos descobertos; na ilusão de que vamos conseguir enganar a todos, inclusive a nós mesmos e, nesse sentido, inflamos nosso ego, praticamos a vaidade, nos apegamos a uma imagem ou imagens que não podem ou jamais serão nossas.
Por isso sofremos. Sofremos nas nossas relações, na nossa existência. Afinal, bem no nosso íntimo sabemos que a máscara que tanto lustramos um dica cairá. E então vamos de uma única vez nos deparar com tudo o que fizemos para tentar tapar o sol com a peneira – a nossa alma, nossa essência – com os véus… Desiludimo-nos, perdemos o outro, perdemos a relação…
Em função de tudo isso fica aqui um convite: faça uma auditoria pessoal. Tente compreender o que é de fato seu e o que não é. Depois de tudo visto, liberte-se. A relação com certeza agradecerá… O outro e o seu ser também.



Mersearia (com s de serpente, de eternidade)


O copo está vazio sobre a mesa, Ana deve morrer. A urgência de apresentar o clímax desse breve relato sobre suicídio não poderia ser menos imperiosa já que o efeito esperado da droga ingerida é de vinte minutos. Se havemos de colher aquilo que plantamos então Ana terá um fim silencioso, passara despercebida por quem estava ocupado nos bares e nos labores, não semeou nem colheu, arrasta-se inútil e escreve, Meu corpo ao menos servirá a vermes... Ana vai morrer como também morrerão as prostitutas e os bispos de todas as igrejas, universais por moda e ocasião, para ficarmos em dois exemplos extremos do que se considera, no vulgar das consciências, o santo e o profano, que entre uma coisa e outra nos encontramos. Mas o que deve nos incomodar é o fato de Ana ter escolhido o momento e o modo como chegará ao fim da sua história, às seis horas de uma manhã cuja rotina tende a ser a mesma de tantas outras. Ontem, à tarde, saiu para a farmácia enfrentando as dificuldades de locomoção que lhe são peculiares, disse à mãe que sofria de dores na cabeça e voltou com o remédio, quase poderíamos dizer veneno, usado para curar males incuráveis, desses que prometem prolongar o estado de espera dos doentes terminais, diluiu o conteúdo das ampolas  no copo cheio até o meio de água que agora é absorvido pelas mucosas do estômago. Chegamos tarde para impedi-la e lamentar só nos causaria o constrangimento de não ter estado a seu lado antes, pois que, ao que chamamos alma, também se faz necessário justificativas para continuar animando algas, liquens, anfíbios, répteis, criaturas dos mais inusitados meios, conhecidos e ainda por serem, que a mais avançada tecnologia ainda é diminuta se comparada ao poder atribuído ao criador desse e de todos os mundos. Ligou a televisão e espera, assim como quem sonha, o retorno da mãe que deve encontrá-la como o pai encontrou Ofélia.
Ana não tem o hábito de inventar e escreve histórias, mas guarda em secreto o desejo antigo de registrar, como fizeram muitos viajantes, um relato onde descreveria a exuberância secreta da paisagem, revelada a seus olhos de menina, quando fora, por estradas de terra vermelha mineiras, num caminhão leiteiro que sempre partia nas madrugadas para retornar na calada da noite, ao interior. Tempo em que ainda subia nas pedreiras e descobria o mundo andando. Não faz do bilhete essa oportunidade e conclui ... aos vermes da terra que, aos homens dela, não fiz conta. Hoje Ana não tomará café mesmo que na Mercearia o consiga comprar dona Verediana que acabara de sair.
Mersearia é o nome do estabelecimento que abastece os moradores do bairro. Mersearia com s de supermercado, de simples e de duradouro que, mesmo não estando grafado no verbete duradouro o simulacro permite seu reflexo e os contornos da letra na superfície da tinta podem ser percebidos. É assim que as mitologias antigas associavam à imagem da serpente à idéia de infinito e eternidade ainda que, provavelmente já soubessem, matéria alguma no universo tenha a mesma durabilidade, veja o caso de s em distinto, destino e em destituído. O nome Mersearia, é preciso justificá-lo, parece ter sido fruto de uma disputa entre o português proprietário e seu filho, fruto claro está, do capricho do velho irritado pela convicção impertinente do menino alfabetizado, Mercearia se escreve é com C. Esse é o destino de Dona Verediana que desce a ladeira para comprar, a Mersearia. Desce todos os dias cantando, como a podem ouvir os vizinhos que madrugam para o trabalho, sem pressa e logo de volta garrafa de leite numa das mãos e pães. Se o dia está claro o sol então ilumina o contorno do morro e tudo parece queimar em fogo, tingido de ouro. Nesses dias vê as tumbérgias da encosta, os hibiscos nos quintais e a possibilidade de terminar a reforma do barraco, como ela mesma chama o lugar onde vive com a filha. Aos domingos leva cigarros para o marido, moeda local na penitenciária onde cumpre pena por tráfico. Vê o morro como turista, o dia ainda dorme na escuridão. Desce muda mas parece rezar ladainha. Vai até a autovia que leva à cidade o fluxo de automóveis, é ali a Mersearia. Hoje vai chover, o dia traz nuvens negras que dão continuidade ao que a noite escondeu de soturno. Pouco ficou redimido.
Pesando as contas, agora mesmo, arrependeu-se de ter pago a conta de luz  que ainda esta dentro do prazo dado pela companhia no boleto de cobrança, Já compro do português faz tempo, ela desce e vai sem dinheiro.
Agora podemos ouvi-la, Meio quilo, meio quilo, fala consigo mesma e, antes de entrar, estaca de pé e fixa os olhos no fluxo de carros que alimenta a cidade. Nesse mercado de tudo se vende, é um entreposto entre os últimos bairros e acidade que pode ser ouvida mesmo distante. Dependendo do horário que o freguês chegue, é possível comprar quase tudo, produtos nos quais impostos incidem lucros para o governo e produtos que dispensam notas fiscais por serem considerados ilegais ainda que movimentem receitas astronômicas, talvez chegue o dia em que governo crie estratégias para, da ilegalidade, fazer contas. Rapé, carne enlatada, papel de carta e de ceda colomi, arame farpado, brinquedos de plástico de toda cor, doces, anil, sabão em pedra e em pó, cartão telefônico, água de lavadeira, tijolos de demolição, pregos, refrigerantes e açúcar são, dos itens mais procurados, os que ficam nas prateleiras da frente. Café é um item caro se por meio quilo paga-se o dobro ao português. Antes de entrar dona Verediana da passagem a um homem que pergunta onde fica o edifício Firenze, reclama das novas tecnologias de comunicação, do tempo e diz que seu telefone celular ficou pai-de-santo, Só recebe ligações. Pode chover a qualquer momento, o português não sabe nada sobre Firenze, este prédio é o da Receita Federal que tem o teto rachando por causa das telhas que estão quebradas. Um garoto atravessa a rua ouvindo música num desses aparelhos em miniatura, vem nessa direção e traz na camiseta que usa como uniforme duas palavras unidas que se opõem no sentido e se diferem na cor, em azul a palavra vida em vermelho droga, novas perguntas: onde fica? por onde se chega? quanto tempo leva? Não sei, chegar é esquecer um pouco, Não sei. Dona Verediana parece irritada, o céu desaba enquanto o português diz um sim tingido de sarcasmo, Temos café. O funcionário da Drogavida estende para dona Verediana uma nota e diz, Ana esteve na farmácia ontem e esqueceu de assinar, A vida anda cara, Pior ainda é não estar vivo dona, Naquela cadeira sei não se é vida, Dona Verediana assina já arrependida do que dissera.


Num instante a chuva que prometia cair o dia todo para. A ventania aguarda o momento de varrer o morro. E é quando o garoto uniformizado sai do nosso campo de visão que ouvimos melhor seu timbre de voz. Preocupado com o procedimento adequado no uso do medicamento avisa, Mais que vinte gotas o remédio vira veneno, a gente sempre fala o que vem nas letras miúdas das bulas, quase ninguém lê.

VERÃO - AMOR NU

a primavera insistia
morava sonho bom
eu esperava vestido
dia após dia
cerzia clichês
diverso e breve
feliz nos azuis
o eterno amor

mas chega o verão
na pele do lobo
o lobo do homem
e despe pudores
revela estrias
feridas novas
de quedas antigas

a inocência violada
é uma lágrima tinta

o tempo ecoa sarcasmo
a ninguém pertence culpa
é do verão a natureza despir
a alma mais de uma vez tida

prossegue ao destino a ironia
e perambula maltrapilho
o amor revestido de ais
de palavras novas
velhas e malditas
só ao espelho confessa
sem poder revestir-se
da pele do cordeiro despido
é novilho no abate
é pio metrificado
rascunho

no oco frio do inverno
assenta no poema um til
ao lembrar da sina
de coser remendo novo
em trapo de velho tecido

Antônio B.

ODE AO MUSGO

O musgo é bom companheiro, calados concordamos que lado a lado vão o mal tempo e a bonança. O musgo é paciente, seco espera a chuva e verd...