quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

NOTÍCIAS NO VENTO

Um ramo de alecrim atravessou 
a carne do vento e perfumou
notícia ruim de olor abrasivo.

Carcarás pescam no aquário.

Quantas árvores arrancadas
choram sementes não plantadas?
Quantos meninos e meninas
retorcem seus sonhos explorados?

Sobre a flamula carioca um urubu,
no congresso homofobia é crime.

Os esquecidos assobiam na ventania,
há palmas no caminho de Aparecida.
Nenhum Messias virá nos salvar,
já fomos redimidos pela filosofia.

Para comer, morre-se.
O público na privada.

Servido na bandeja,
sem pé nem cabeça,
um pedido de s.o.s.

Seja forte o punho cerrado
seco soco de doce lamento.
Seja a rosa na mão do povo
o poema novo ressuscitado.
*
*
Baltazar Gonçalves

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

TODO O APARELHO TONTURA

Grave acento circunflexo
projeta sua sombra
de capacete aberto
através da porta.

Na mão direita
um cravo de metal enfiado
sangra
noutro de perfume mórbido
na lapela justa.

A cabeça tontura.

*

Baltazar Gonçalves


QUE BARULHO FOI ESSE?

Um disparo conta o tímpano,
dínamo solto na engrenagem.
Ethos da dinâmica 
por um fio preso.

É a vida!

Breve rodopio estático,

uróboro de arame e flores feito.
Uma coroa de afetos desfeitos
sobre o nada.
*
*
Baltazar Gonçalves

domingo, 10 de fevereiro de 2019

JOIO E TRIGO - enquanto o país pensa que segue em frente

No alto da colina
além dos campos cultivados
onde o poeta semeou trigo
não há produção industrial
nem consumo desenfreado
e o joio pode ser visto
tão resplandecente ao sol
como a boa nova semente.

É na mesa posta para o jantar
que a carne satisfeita devora
o que lhe é mais semelhante,
o movimento do garfo à boca
demarca o território
da embriagues cristã.

Caro Bandeira, não estou fardo
do lirismo por mais comedido
que seja; sei que falta lirismo na praça
enquanto o país pensa que segue em frente.
*
Baltazar Gonçalves

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

POESIA SUFOCADA POR TRAVESSEIRO ESTÁ CANSADA, NEM TENTA SUICÍDIO

Tá na moda dizer mais com menos,
admiro quem consiga.
Mas quando leio o nada que se diz
pergunto se o vazio entre as palavras conta.

Esse vazio incomoda.
É raso onde se afoga.

A falta de tempo é a demanda
ou preguiça de quem escreve?

De qualquer modo estamos chapados.
Uns de álcool outros de Rivotril.
Os alucinados bebem notícia ruim
Como se fosse refrigerante gelado.

A manchete dos jornais é clara: poesia sufocada
por travesseiro está cansada, nem tenta suicídio.

A minha poesia pede que a mate,
talvez eu estrangule um poema.

Essa realidade larga e lenta
deixa tudo
tranquilamente incomodado.
*
*
Baltazar Gonçalves

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

LINGUAGEM AUSENTE NAS ASAS DO VENTO

Por toda parte surpreende por ser vasto e mínimo e ocultar-se tanto no ventre escuro de um desejo solitário quanto na ideia fixa e surda da multidão espalhada como sementes secas absurdas o halo, o elo da língua ávida e muda. Está na expressão no canto do olho no sal na palma da mão úmida quando toca a nuca e aproxima lábio de beijo e beijo de tesão. É o espectro de compreensão difusa que rodeia a fonte luminosa do pensamento. É linguagem que faz do pintor exausto gênio ativo e o escritor entre estantes esquecido amante bêbado de palavra alheia. É a refração da luz na bruma suspensa, água ardente tornada vinho tinto. Mas por conta de um duelo em nós, cegamo-nos como Édipo em busca da paz gratuita e entrarmos na prometida floresta do alheamento. No sonho de judeu errante derramo nas tinas vazias para que não falte bebedeira. Sem estar presente fica do meu lado, verdade. Somos alta esfera na poeira sob os pés, vaidade. Não basta cobrir o fundo vazio do vaso com lama fresca se o ornamento for tão somente chegar ao verso egoísta e aprofundar o desmatamento da memória. Azar é a união poética-política no banquete da república. Sorte é ver o mar na chuva, dar a face sem lágrima se do céu desaba mordaça. Arrebata-nos do rebanho um dedo de prosa, vamos dançar no escuro da semente e brilhar na tela do pintor exausto. Sejamos mirante, miragem do destino sóbrio para quem se reinventa no endereço bêbado dessa linguagem ausente nas asas do vento.
*
*
Baltazar Gonçalves

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

BREVE REFLEXÃO SOBRE POLÍTICA, ECONOMIA E MUDANÇAS DE MENTALIDADES.


Já no título o autor avisa, essa leitura pode ser desinteressante.
Se você decide que tudo te interessa quando as pessoas se especializam cada vez mais em mínimas coisas isoladas, acontecem dois movimentos a serem observados; ou você passa a ser visto como quem nada nota porque estaria deixando escapar do conjunto o que é essencial ou os outros se passam por caprichosos detalhistas que nada deixam escapar porque percebem todos os detalhes e reclamam razão em tudo. Evidentemente, uma e outra situação é apenas ilusão de quem observa. 
Para ilustrar o argumento, um exemplo fora de órbita: para quem observasse da Terra a passagem de um cometa, a visão seria de um único objeto celeste luminoso em movimento que mediria a extensão da cauda e do corpo somados. Mas se o mesmo observador posto numa sonda improvável estivesse no cometa, a visão seria do rastro incandescente deixado pela fricção de uma pedra lançada do espaço exterior entrando na órbita da Terra. O ponto de vista e a profundidade do interesse muda o objeto observado; no caso imaginado aqui, um cometa.
Mudando de pato pra canso e cuidando não levar gato por lebre, política e economia são objetos de interesse geral observados de pontos de vista (ou de tempo, ou de mentalidades) diferentes.
Complicado? Calma... Há uma regra que se aplicada pode ajustar o foco dos observadores sobre o assunto, esta: a política gerencia as mentalidades enquanto a economia regula o tempo de absorção (consumo ou digestão) de tudo que se produz. Como toda regra, essa também pode limitar quando deveria ampliar o raciocínio, mas, traduzindo esse conceito forjado pelas ciências humanas e esmerilado por métodos científicos em melhor português seria o mesmo que dizer: as ideias demoram mais tempo para mudar que as necessidades materiais dos homens em serem saciadas. Uma vez que as mentalidades mudaram, a forma de gerenciar a economia também deve mudar – eis o conflito! e a condição em que nos encontramos em todos os tempos que a História alcance - O TEMPO DO PENSAMENTO É DIFERENTE DO TEMPO DA AÇÃO.
Mas esse papo é desinteressante, dá em texto longo demais e imagens mentais só farão sentido se o leitor continuar pesquisando por conta própria depois de ler esse breve ensaio com o cometa em movimento em suas mãos.
*
Baltazar Gonçalves

NOTÍCIAS NO VENTO

Um ramo de alecrim atravessou  a carne do vento e perfumou notícia ruim de olor abrasivo. Carcarás pescam no aquário. Quantas ...