sexta-feira, 24 de maio de 2019

Sem enredo nem trama


Sem enredo nem trama ou nada que tenha peso
cresce à sombra da rama verde do nosso degredo
larga vala, uma fenda aberta sobre enormes falhas.

No mundo que destruímos invento,
amo o vazio onde a palavra basta.

A palavra tem esse poder incompreensível:
primeiro nos desaloja, depois nos hospeda.
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Baltazar Gonçalves

terça-feira, 21 de maio de 2019

Impressões sobre o livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro


Os poemas do livro O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro são janelas e portas que dão para o interior da memória de uma casa habitada na infância e que agora, demolida, é resgatada com honestidade expondo nervos e feridas.

Um protagonista sincero, soterrado mas vivo, emerge das ruínas restaurando os vínculos afetivos de sua própria história. Em meio aos escombros, o poeta alinha os imensos espaços vazios para a criança com os muito delimitados para o adulto e assim compõe lacunas construídas com o proposito de não revelar o inteiro vivido. O abandono ganha corpo na densidade da leitura.

O íntimo do título tanto pode ser o lugar da casa onde a intimidade se revela quanto a qualidade do sujeito que narra essa mistura de memória e invenção poética para restaurar os destroços. Íntimo plurissignificativo que oscila entre substantivo e adjetivo, o lugar da ação, do fazer poético, e o lugar do sujeito que agiu ou é resgatado.   

O livro parece diário,  autobiografia do eu lírico sem a intenção de partilhar a história completa. Dá-se a impressão que o autor tinha em mente um romance e condensou as passagens de forma que as imagens vistas pelas frestas registrassem os sentimentos que oscilam entre a terna amargura e o ressentimento encoberto num conjunto coeso de peças que convidam o leitor para espiar interiores.

Embora a perspectiva seja a de revelar, pode se dizer que o conjunto de poemas contempla o que deve ficar fora do alcance, e por isso o leitor ganha espaço. Ler O ÍNTIMO DA CASA, de J. A. Castro também é um exercício de restauração que demanda dias depois da leitura, o leitor é chamado para compor o que fica de fora. Talvez seja justamente "o que falta", os intervalos, elemento fundamental em toda arte, o que agrega valor literário à obra. 

E também o diálogo possível com outras reconstruções , “voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para ‘J.A.Castro’; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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Baltazar Gonçalves



sábado, 27 de abril de 2019

SONG OF ÉDIPO

Oh Mom, do not laugh at me.
just now?
for what
that?
I caught
very
but I know how to play

Oh Mom
it's in your face
laughter is disappointment rehearsed
point your finger
to another nose

Oh Mom self pity?
You lied again.
this does not stick
feeling sorry is not fair
You fucked me first.

Oh Mom, remember when
you wanted me too
To nobody?
when nobody
served
I served you crying
made adult animal
who is still breast

Oh Mom, your name is Jocasta
who laughs last does not cry
Now, whoever I laugh is me.

I healed my wounded eyes
 You blinded me.
to kiss my old father
Now I know my father
now I love my father
forgive my father
forgive you
I forgive myself

Oh Mom, I did what you wanted
I fixed my work, I create music
my band is successful
at strip bars
No one loves me anymore
I love everybody

Oh Mom, your loneliness is yours
Who has time for regret
does not follow the life that goes on
my house is the street, the road calls me
singing, every now and then the world loves me
I entered the forest of alienation
and leaves alive,
Go out, live, and get out alive.

CANTO DE ÉDIPO


CANTO DE ÉDIPO


Oh mãe não ri de mim
justo agora?
pra que isso?
apanhei muito
mas sei como se joga


Oh mãe tá na sua cara
o riso é decepção ensaiada
aponta seu dedo
para outro nariz


Oh mãe auto piedade?
você mentiu de novo
isso não cola mais
sentir pena não é justo
você me fodeu primeiro


Oh mãe lembra quando
você me quis igual
a ninguém
quando ninguém servia
te servi chorando
feito animal adulto
que ainda mama


Oh mãe, seu nome é Jocasta?
quem ri por último não chora
agora quem ri sou eu
curei os olhos feridos  
lembra? você tinha cegado
para beijar teu novo homem


Oh mãe fiz o que você queria
arrumei trabalho, crio música
minha banda faz sucesso
em bares de strip-tease
ninguém me ama mas
eu amo todo mundo


Oh mãe sua solidão é sua
quem tem tempo pra lamento
não segue a vida que vai em frente
minha casa é a rua, a estrada me chama
cantando, de vez em quando o mundo me encanta

Oh mãe vê se esquece, te perdoo
entrei na floresta do alheamento
e sai vivo, sai, vivo, e sai vivo.

terça-feira, 23 de abril de 2019

O FINGIDOR PATÉTICO



Quem sabe mente o poeta que se desdobra
na dor de quem pensávamos pessoa ausente. 
Quem sabe demonstra no silencioso olhar distante 
o centro do centro vazio que é o ser de toda gente.
Quem sabe o poeta omite no saber perene
o comum e nonsense 'erguer-se novamente'.
e fingidor patético levantará prontamente
na mesma extravagância autêntica de sempre.
Quem sabe seja fiel descrente o poeta que esmiúça 
dos séculos distantes a moenda do tédio 
e costura as camadas do tempo fértil 
o rosário improvável onde reza essa gente.
Quem sabe o poeta cobra nas duras dobras 
do fazer inglório a perfeita obra 
e em dobro sofre o padecer ingrato 
que nos aterra neste desterro porque sobra.
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Baltazar Gonçalves

sábado, 13 de abril de 2019

80 TIROS

"80 tiros" parece nome de filme, daria bom título pra 1 poema.
Mas a extensão do ato macabro não pede lirismo,
mede a insanidade e a indignação.

Drummond precisou de apenas 1 tiro para acordar
a madrugada com "a morte do leiteiro".

Ando ensurdecido,
o barulho da aurora em meus ouvidos
parece grave estampido de canhão.

Ultimamente quando escrevo sinto que vai sair uma de História.
Mas eu não quero ensinar História para mais ninguém,
desisti de ensinar mas não desisti da História.
Eu submeti a História à Poesia que transcende os limites da ciência
que se vende de acordo com a circunstância e a conjuntura.

A Poesia tem canal direto para alma que necessita
de um terceiro tom, a minha alma principalmente.
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Baltazar Gonçalves

Sem enredo nem trama

Sem enredo nem trama ou nada que tenha peso cresce à sombra da rama verde do nosso degredo larga vala, uma fenda aberta sobre e...