sexta-feira, 13 de setembro de 2019

SOBRE BATATAS E ROSAS


Eu estava escrevendo um post usando o celular e a bateria acabou, perdi o texto, sorte dos meus leitores porque o assunto era "o mundo de hoje ultimamente nos dias de hoje de novo" - era sobre os nomes que estão dando para o “tempo presente”, essa conjuntura nefasta reciclada que nos mastiga mundo afora a todos.
Quando sinto a compulsão de falar de política me esforço para lembrar que faço isso em sala de aula - lugar onde formei gerações de mentes abertas - ensinando História.
Aqui, o espaço é para outra coisa.
Retomando, agora com teclado espaçoso, regresso do meu jardim. É dele que eu quero falar. Se o caro leitor tiver paciência e tempo...
Eu sempre tive jardins. Mesmo quando não tinha um palmo de terra, plantava em vasos. Em certa circunstância na minha vida, quando fiquei sem chão e sem vasos, tão vazio como uma lata de coca cola no lixo, dei de inventar jardins onde pudesse esperar.
Enquanto eu compunha o livro TECIDO NA PAPELARIA em meados de abril, mexi na pouca terra da casa em que moro agora e plantei no centro de um triangulo trapézio escaleno o primeiro jasmim não inventado da minha vida e em volta dele dispus um circulo de margaridas. Depois pus para acordar nas linhas paralelas laterais dez Amarílis mudas que dormiam. Na linha reta menor, uma fileira de Espadas de São Jorge viradas para a rua que dizem traz proteção. Calcei levemente o centro com pedregulhos polidos que trouxe do rio Grande e, entre as pedras, um solitário Caminho de Jesus faz companhia À solidão de uma babosa ainda menina. A sombra discreta do Jasmim deve amparar, tanto a esquerda quanto a direita, raízes secas na terra úmida.
Transpus finalmente aquela roseira que estava no vaso, é uma trepadeira que tem muitos braços e em cada um deles cachos firmes de mine rosas de inúmeros tons coral.
Quando mudei para essa casa, alguém tinha limpado o jardim que havia antes, limpado com enxada, deixaram a pouca terra mais pobre sem nada, no torrão enquadrado por essa figura geométrica bonita eu vi nascer o TECIDO NA PAPELARIA.
Soube antes que ali tinha uma roseira exuberante e que a antiga proprietária do jardim distribuía rosas para a vizinhança. Depois da primeira chuva tímida de agosto essa roseira sacrificada brotou com vontade de florir. Quem passa na calçada pára e me conta histórias sobre quem cultivava o jardim antes de mim, antes de ela própria falecer, espalhando encantos pelo bairro. Eu respondo, para finalizar a conversa, que também vou distribuir dessa roseira que voltou as cores para quem passar e parar. Mas a minha rua é movimentada, não sei se terei rosas o suficiente, minha casa está plantada no ponto equidistante entre uma igreja antiga e uma biqueira nova, o movimento de mão dupla me revela que uns e outros procuram remédio errado para certos males.
Por fim, o inusitado do inusitado aconteceu no canto oposto da roseira trepadeira. É que usei uma técnica recomendada de plantio e espetei uma estaca Príncipe Negro, roseira que dá o vermelho mais intenso e escuro que uma rosa pode suportar, numa batata e enterrei minha esperança entre mimosos Beijos Turcos. Para minha surpresa, e motivo de longas conversas com que vê meu jardim do lado de fora, ergueu-se do chão... um pé de batatas!
O Príncipe Negro que tenho no jardim agora é inventado, talvez um dia eu tenha mais perto essa presença dominante, talvez eu coma batatas. O certo é que meu Jasmim está florindo e com ele meu jardim. Na vida nem sempre se ganha, tampouco perde-se o tempo todo. Como disse um velho conhecido nosso, aos vencedores as batatas.
*
Baltazar Gonçalves


terça-feira, 10 de setembro de 2019

QUAL É A TRAMA DE DECIDO NA PAPELARIA?

SOBRE O QUE ESCREVI? é uma pergunta que algumas pessoas me fazem quando falo do meu livro em público. Eu até consigo dar respostas razoáveis, mas quando sento para escrever resposta para a mesma pergunta sai um texto enorme e sem graça. Isso porque...
... essa papelaria é antiga, herdei dos meus avós e descobri nela outro ponto Aleph tão minúsculo quando o de Borges, quase invisível como esta pinta de tinta vermelha tatuada na palma da minha mão. É lugar estratégico, daqui se vê tanto o passado remoto quanto a ausência do tempo. Essa papelaria é um passeio pelo bosque da Literatura a partir do portal da Poesia...
... e deve nos levar ao pomar "ostensivo e reservado" que fica lá nos fundos...
... por essa porta, a porta da papelaria, entraram negros, brancos, índios, transexuais, padres, advogados, bandidos, dependentes químicos que também são chamados de nóia, traficantes, crianças, adolescentes, velhos com mais de 70 anos, donas de casa, pais solteiros, putas, até um santo que não lembro o nome...
... Jorge Francisco Isidoro Luis Borges passou por aqui...
... também o operário da fábrica, do banco, do hospício e da escola, o policial homofóbico, o bombeiro gay que foi expulso da corporação e um candidato a governador que não chegou ao segundo turno mas...
... eu atendo todos da mesma forma, não diferencio nem enquadro pessoas em seus esteriótipos...
...vendo-lhes artigos de papelaria, lápis, borracha, papel e tinta nanquim, essas coisas miúdas que não fazem rico o nascido pobre que os atende...
... vendo coisas miúdas e importantes como caderno e caneta que podem fazer o abismo entre as classes sociais transponível...
... todos somos, antes do estereótipo, pessoas. Nossas almas ardem igualmente, é o desejo a fonte de todo desequilíbrio desde o berço para cada um de nós. Por dizer que desejo é desordem, os libertinos devem me julgar mal, e os puritanos também...
... os puritanos estariam certos em me julgar libertino e os libertinos teriam a mesma razão dos puritanos se me tomarem pelo seu oposto. Tanto faz, ninguém conhece o outro de fato e ninguém tem tempo de cursar História, Filosofia, cinema, Psicologia, Teatro e Direito e ser razoável numa só encarnação e...
... o certo é que desejo é desordem, para o bem e para o mal, o perfeito equilíbrio é nova desordem...
... meu esforço é usar a linguagem para comunicar à alma sobrecarregada de desejos um pouco de sobriedade e àquela paralisada de medo um pouco de insanidade porque...
... independente do que seja ou aparenta ser, quando alguém me perguntam sobre o que escrevi no TECIDO NA PAPELARIA, eu devolvo a pergunta: do que se trata sua vida? E a reação desconcertante...
... gera um bate papo no mínimo interessante. Então confesso ter encontrado esse outro ponto Aleph de onde quem lê o livro pode tanto se perceber no passado remoto quanto ter a ilusão da ausência temporária do tempo e termino para não concluir dizendo...
... que essa papelaria é onde trabalho dia e noite tecendo com os fios dourados do amanhecer trajes para Alma bailar nua sem margens, sem cor, e sem fim.
*
*
Baltazar Gonçalves
arte da capa: Guilherme Peres / Editora Penalux

terça-feira, 3 de setembro de 2019

AKEDAH



AKEDAH 


Cada gesto do Inominável envolve o universo,
em silêncio de faquir os sentidos fluem suspensos.

Se fecho os olhos para a ilusão
a realidade da carne desprega-se dos ossos
e na desolação rego desertos.

Oxalá soubesse os Desígnios,
se os soubesse, o que faria?

Ah! se os soubessem...
eu cobriria com arco florido nossa testa,
proclamaria ontem feriado hoje e amanhã
e pintaria o instante com as cores da aurora
pois nossos olhos estariam abertos novamente.

Então seria como se um dique se rompesse
Inundando
esvaziando qualquer reserva que houvesse.
Que é do alto das pernas edificadas no barro
que o mais rui - minha vida sitiada, cidadelas.

Importa saber perder, importa o não saber.
Descalça os pés e se ponha logo no caminho,
em poça de lágrimas a gratidão descansaria.
*
*
Baltazar Gonçalves

ALMA GÊMEA

Meu bem maior altar,
corpo da palavra é nossa casa
também morada do mistério altíssimo.

Essa minha alma diminuta
tão pequena, gêmea da Tua,
em teus braços acolhido regozija
no conforto de poucas certezas.

Tal qual o signo lar
é nesse altar que nos buscamos
amálgama de credos e carnavais.
*
*
Baltazar Gonçalves
(poema inédito)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

OLHOS EM CONTRAPARTIDA

Tem olhos que não passam da moldura
que não passeiam pelas tintas
não cortam t nem pingam i

são olhos fechados sobre boca aberta
em face sem orifício para escuta surda

mas tem olhos sem margens
os que atravessam a moldura
molham-se nas tintas
cortam letras e pingam

são olhos que penetram o vazio
e se estancam diante do medo
é para piscar 2 vezes
em dissimulado sinal
de contrapartida
pontual

*

poema inédito
Baltazar Gonçalves

CISNE NADANDO NO MEU PEITO

(...) ia dizendo, nada importante que significasse urgência me distraia, estanquei na vida esperando sua correspondência tardia, sem propósito meu raciocínio fora estancado no tempo dessa espera, a paixão e a cisão dela estancara meu raciocínio, eu não lia, eu não escrevia, a ultima foto sua envelhecia na memória, nada de novo aconteceu desde que tive de deixar você, sabe como é isso? alguém mete o metal na fechadura do lado de fora do desejo e porque talvez caiba entra no coração da gente, tal pessoa vai abrir a porta mas não abre, se entra não fica, a previsão do perfeito estanca o raciocínio das pessoa e deixa a voz de qualquer um sem o Z, agora batem à porta, quem é será capaz de abrir o Mediterrâneo? tocam o interfone, batem palma, peno que demorou pensando ser você, espero e vigio o acontecimento lento, a espera acentua meu degredo, mas é só o carteiro, a presença dele quase esvazia minha angústia, tudo é insuficiente mesmo, bastava uma palavra sua numa carta, será carta sua? de novo o carteiro chama, de novo toca o interfone, bate palma de novo, o silêncio tem a extensão do fôlego durante um mantra, agora esse ruído, mas vejam só o carteiro é conhecido meu, mal o reconheci, de patinho feio virou cisne, tem asas para entregar cartas, um Hermes, em suas mãos é minha carta devolvida ou um livro comprado semana passada? flertei, não fui correspondido, homens de uniforme tem mais charme enquanto trabalham, toda gente fantasia mas há limites, o que nos diferencia é o endereço, o carteiro é tão bonito quanto educado, usa uniforme colado, a palavra que sai da minha boca tem a ânsia da língua seca no mamilo úmido, faz um dia quente, suor na pele, sol na cabeça coberta pelo boné, a beleza é sempre a melhor distração, o nome do perfume dele é conexão, assino o recibo, o carteiro entrega meu volume de o carteiro e o poeta de Neruda e amplifica na minha ficção meu exílio, agradeço, a voz do carteiro é mar vermelho que deságua mediterrâneo, e tudo é nada disso porque não dura enquanto naufrago sobrepondo ao meu sonho desfeito o navio em que o carteiro navega, depois volto a vigiar o nada importante, sim o nada é importantíssimo, esvazio o raciocínio, volto ao mantra, o coração pulsando na palma da mão não corresponde ao tato da mão que acena, tenha uma bom dia, adeus, adeus, enquanto vasculho o vazio sem pressa de ler o carteiro e o poeta imagino um cisne nadando no meu peito, ia dizendo (...)
*
Baltazar Gonçalves

PONTUAÇÃO


Eu também não imaginava que veria o pêndulo da dinâmica da História fazer o movimento contrário. Eu pensava, a História se move lentamente e uma geração é pouco para ver muita mudança. Mas, na velocidade em que as estruturas estão se movendo aproximando cada vez mais os eventos de curta duração na engenhoca do tempo, a percepção que tenho das permanências dos efeitos de longa duração no tempo é a de que as pontas do arco, ou fluxo do movimento pendular, se vergam ao peso do dínamo que a tudo as impulsiona.  
Depois do golpes sucessivos contra a democracia e constante descredibilidade do receptor-leitor-cidadão, encontrei esse lugar de espia, de observação, e um contentamento qualquer de estar vivo para testemunhar novas mudanças.
Tenho visto todo tipo de produção artística e acompanhado especialmente escritores, de poetas a romancistas, e percebo o mal estar que nos circunda elevado a categoria de instrumento de asfixia na arte talvez para matar para ressuscitar o cidadão-leitor. Eu não sou adepto desse movimento embora consciente de que o artista seja “homem do seu tempo” e tem certa obrigação de atuar politicamente. Mesmo respeitando essa postura de trazer para a arte o caos que vivenciamos como realidade penso que o leitor careça de lirismo e não de “poesia jornalística”. Eu aprendi com Dona Eulália, personagem do TECIDO NA PAPELARIA, esse realismo tem furos, Eu sou da tribo de J.J. Veiga que bebeu do realismo fantástico um modo de suspender a realidade em gravidade onírica - precisamos de lirismo, por mais comedido que seja, salve Bandeira!
*
Baltazar Gonçalves

SOBRE BATATAS E ROSAS

Eu estava escrevendo um post usando o celular e a bateria acabou, perdi o texto, sorte dos meus leitores porque o assunto era "o m...