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SEGREDO DE ELEVAÇÃO

Há um prazer oculto
no mistério da passagem do tempo
mas é segredo oculto
escondido no tempo da solidão.

Prazer oculto no gozo, na dor,
na glória e na luz.
São os  mistérios gozosos
os dolorosos, os gloriosos
e os iluminados de êxtase,
epifania e elevação.
São segredos revelados
no caminho da solidão

Mas é segredo que não se conta
nem agora, nem depois.
É segredo apenas revelado
no secreto íntimo da solidão.

Creia, de fato há mistérios
e vale a pena prescrutar
na passagem das horas,
dentro da solidão bem-vinda
que acalenta o coração.
*
*
Baltazar Gonçalves


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ACÚMULO

Existe uma fina camada de ausência inominável em cada coisa que existe. Tão sublime quanto imperceptível, essa ausência reveste, permeia e dá continuidade aos entes mesmo distantes nunca isolados.

Tal ausência inominável motiva a vida, breve tal qual a candura da açucena que fenece radiante e solitária sem que vejamos dela na terra os bulbos da próxima Amarílis.

Breve ausência permanente, em cada objeto a falta tudo anima... Anima o seixo no leito do rio que fez seu caminho até aqui desde o pico extremo da montanha como se a sombra do mundo só desejasse sedimentar-se estendida na praia distante e agora refaz no seu longo percurso de retornar na forma da soma de ínfimas partículas encontrando seu lugar nas sobras do que foi aquela montanha.

Assim, o seixo acumula ausências e mata a fome do peixe enquanto a água mata no homem a fome. Porque na pele esticada do rosto da criança que chora a face da fome é o mesmo desejo de não ser... A face da fome é ausência intransponível, fina camada …

DESENHO À LÁPIS

O lápis de ponta aguda
grafite-carbono, de diamante
desenha teu rosto
quando vejo na fina estampa
pingar um ponto colorido
em cada na íris

no rabisco,
sobre teus lábios grossos,
fulguram ressaltados
finos fios de prata

se teu riso torto
desalinha o traço cheio
enquanto o lápis preto
risca, pinga e afina
no bordado meu desejo
eu naufrago serenamente
em tua virginiana calmaria

a malícia delicada dessa arte
suavemente poderosa
revela meu lugar favorito
entre o pouso de tuas asas
e o gemido nos teus ais

na borda desse abismo
entre a ponta aguda
e o enlace dos teus braços
meu sonho encontra abrigo
e é de lá e a qualquer momento
daquela praia ordenada
que não sai de mim jamais
que a sós 'eu nos contemplo'.
*
*
Baltazar Gonçalves

PAPO DE PELICANO

Porque pesa o que não tem forma
a mão recolhe o gesto.
Porque não compreende guarda, e esconde.
Dentro do calabouço o pavor encolhe sem tamanho
tanto mais se agiganta o negrume.
Na pétala mais branca pousa o inseto noturno.
Se cobre o rosto, descobre os pés.
O tecido da vontade não tem potência,
a voz não alcança sabedoria.
O medo das pequenas coisas
vasculha o repertório da coragem.
O que excede não é lucro,
a sobra alimenta monstros.
A razão alavanca os sonhos na contramão.
É a sombra da dúvida que move
o rascunho do que somos.
Ao vento, moinhos e dragões se perdem no tempo.
O quarto iluminado, a sala ampla.
Para mais um dia o Sol parado vê a Terra girar.
O mundo é tão pequeno.
A memória algoz adormecida regurgita,
maltrata seus filhos enquanto os alimenta
como se fosse mãe-pelicano.
O mundo é tão pequeno,
é do tamanho da maior mentira já contada.
*
*
Baltazar Gonçalves

NÃO ESCREVO, MEÇO E MINTO COM PARCO ESTILO

Não escrevo
embriagado.
Não escrevo
apaixonado.
Não escrevo
desesperado.
Não escrevo
se coagido.
Não escrevo
o que sinto.
Quando 
escrevo 
represento,
meço e minto 
com parco estilo.
*
*
Baltazar Gonçalves

ANTES DE MAIS NADA

ante os olhos
antes de mais nada
volto, volta, retorno
de tudo pouco fica
ou
tinha que ser
ou
ainda será
aceito
e digo
terei sido antes de mais nada
fortalecido
*
*
Baltazar Gonçalves

minha quase obsessão

minha quase obsessão 
pelos imensos espaços urbanos vazios 
só não é maior que 
a minha obsessão pelo singular contido 
nas minúsculas partículas ocas 
que vibram entre as palavras.
*
Baltazar Gonçalves