domingo, 8 de julho de 2018

Saio cedo, navego longe.

A liberdade que já não cabe no mundo 
tem morada no meu barco. 
Saio cedo, navego longe. 
Também pesco palavras fora do lugar. 
Se santifico ou 
se dessacralizo o mar em revolta,
não sei.
Sei que não significo mais por isso.
Sei que não fico porquê passo.
Dentro de mim
só a mão segura e oculta de Deus
vela o inusitado encoberto.
*
Baltazar Gonçalves

DOABRE BATUQUE

O rio de João Cabral é um corpo mutilado,
discurso de canal engordado sob gondola;
cabeça-nascentes do pensamento truncado,
é mão amputada dos dedos longos distante.

Salta em caldo engorda corpo represado.
Ou emagrece, se afina no curso seu tom;
uma silhueta na passarela disforme torta
consumida na pena serelepe dos homens.

Mas o mesmo rio grita sua fome de mello
de baltazares, roseanas, helenas barones
e de tantos outros que se encontram no rio
em meio o curso fino fio discurso potável.

Na corredeira alarga as margens verdes
poesia ripária ou ripícola de mata ciliar
quando rompe os diques da leitura fácil
se abre caminho fluência do estagnado.

Oxumaré desfaz-se arco-íris na chuva
pra Logunedé pescar palavra e homens.
João Cabral, Exu de faca e pedra lâmina
de canavial, no estio abriu o rio pro mar.

Ora vejam no desenho da arquitetura,
ouçam no batuque dessa franca língua
árida: Oxum se ri de ser musa do amor
doura ser da riqueza prima meia-irmã.

Volta o rio à nascente auto falante,
Iemanjá limpa o mar, a foz fertiliza.
A mãe de muitos orixás é lugar de fala,
e dona da fertilidade 'doabre' caminhos.
*
*
Baltazar Gonçalves



sexta-feira, 22 de junho de 2018

SEGREDO DE ELEVAÇÃO

Há um prazer oculto
no mistério da passagem do tempo
mas é segredo oculto
escondido no tempo da solidão.

Prazer oculto no gozo, na dor,
na glória e na luz.
São os  mistérios gozosos
os dolorosos, os gloriosos
e os iluminados de êxtase,
epifania e elevação.
São segredos revelados
no caminho da solidão

Mas é segredo que não se conta
nem agora, nem depois.
É segredo apenas revelado
no secreto íntimo da solidão.

Creia, de fato há mistérios
e vale a pena prescrutar
na passagem das horas,
dentro da solidão bem-vinda
que acalenta o coração.
*
*
Baltazar Gonçalves


ACÚMULO

Existe uma fina camada de ausência inominável em cada coisa que existe. Tão sublime quanto imperceptível, essa ausência reveste, permeia e dá continuidade aos entes mesmo distantes nunca isolados.

Tal ausência inominável motiva a vida, breve tal qual a candura da açucena que fenece radiante e solitária sem que vejamos dela na terra os bulbos da próxima Amarílis.

Breve ausência permanente, em cada objeto a falta tudo anima... Anima o seixo no leito do rio que fez seu caminho até aqui desde o pico extremo da montanha como se a sombra do mundo só desejasse sedimentar-se estendida na praia distante e agora refaz no seu longo percurso de retornar na forma da soma de ínfimas partículas encontrando seu lugar nas sobras do que foi aquela montanha.

Assim, o seixo acumula ausências e mata a fome do peixe enquanto a água mata no homem a fome. Porque na pele esticada do rosto da criança que chora a face da fome é o mesmo desejo de não ser... A face da fome é ausência intransponível, fina camada de  inominável. É leito e rio, é peixe-seixo, é montanha e homem. E silêncio.
*
*
Baltazar Gonçalves​

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DESENHO À LÁPIS

O lápis de ponta aguda
grafite-carbono, de diamante
desenha teu rosto
quando vejo na fina estampa
pingar um ponto colorido
em cada na íris

no rabisco,
sobre teus lábios grossos,
fulguram ressaltados
finos fios de prata

se teu riso torto
desalinha o traço cheio
enquanto o lápis preto
risca, pinga e afina
no bordado meu desejo
eu naufrago serenamente
em tua virginiana calmaria

a malícia delicada dessa arte
suavemente poderosa
revela meu lugar favorito
entre o pouso de tuas asas
e o gemido nos teus ais

na borda desse abismo
entre a ponta aguda
e o enlace dos teus braços
meu sonho encontra abrigo
e é de lá e a qualquer momento
daquela praia ordenada
que não sai de mim jamais
que a sós 'eu nos contemplo'.
*
*
Baltazar Gonçalves

segunda-feira, 28 de maio de 2018

PAPO DE PELICANO

Porque pesa o que não tem forma
a mão recolhe o gesto.
Porque não compreende guarda, e esconde.
Dentro do calabouço o pavor encolhe sem tamanho
tanto mais se agiganta o negrume.
Na pétala mais branca pousa o inseto noturno.
Se cobre o rosto, descobre os pés.
O tecido da vontade não tem potência,
a voz não alcança sabedoria.
O medo das pequenas coisas
vasculha o repertório da coragem.
O que excede não é lucro,
a sobra alimenta monstros.
A razão alavanca os sonhos na contramão.
É a sombra da dúvida que move
o rascunho do que somos.
Ao vento, moinhos e dragões se perdem no tempo.
O quarto iluminado, a sala ampla.
Para mais um dia o Sol parado vê a Terra girar.
O mundo é tão pequeno.
A memória algoz adormecida regurgita,
maltrata seus filhos enquanto os alimenta
como se fosse mãe-pelicano.
O mundo é tão pequeno,
é do tamanho da maior mentira já contada.
*
*
Baltazar Gonçalves

NÃO ESCREVO, MEÇO E MINTO COM PARCO ESTILO

Não escrevo
embriagado.
Não escrevo
apaixonado.
Não escrevo
desesperado.
Não escrevo
se coagido.
Não escrevo
o que sinto.
Quando 
escrevo 
represento,
meço e minto 
com parco estilo.
*
*
Baltazar Gonçalves

Saio cedo, navego longe.

A liberdade que já não cabe no mundo  tem morada no meu barco.  Saio cedo, navego longe.  Também pesco palavras fora do lugar.  Se sant...