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A HISTÓRIA DO LENHADOR E SUA MULHER POBRE

Vocês já ouviram a história do lenhador e sua mulher pobre?
Viviam felizes na sua miséria, no campo, mas sem filhos.
O silêncio nas horas claras comia suas palavras, sua alegria.
Desejavam o campo fértil mas colhiam apenas pedras mudas.

Um dia encontraram à margem do lago
uma criança bem pequena abandonada.
Chorava de fome, era linda, uma menina
tão pequena, desamparada ali deixada.

A mulher e o lenhador se encantaram,
para longe da margem do lago a levaram.
Cuidaram, alimentaram, vestiram seu corpo
com a mesma pobreza que dividiam
para vê-la crescer em formosura
até que um dia...

A criança tornou-se essa jovem linda
e no meio de um mistério disse que faria
para a miséria do casal um belo vestido.
Como assim?
Costurar nada em nada não daria
ao corpo o que cobrir
além de um véu de nuvem para o rosto.

O lenhador e sua mulher ouviram
da filha crescida a estranha condição:
Vocês não podem ver o acontecer,
devo costurar longe dos seus olhos
e por nenhuma razão vejam como faço
o que faço -…
Postagens recentes

CONSTÂNCIA INTUI O CAMINHO

Intuir o caminho
para quem segue jornada 
é sentir no toque as estrelas 
é encher os pulmões de ar
e reter nos olhos o movimento
serelepe das moléculas.

Intuir o caminho
é um constante ensurdecer
intuir o caminho é se perder
à vista da maioria
é sentar-se no fresco
da companhia de fantasmas
à espera da tardinha
infestada de insetos.

Intuir o caminho
é ter a vida retroprojetada
ver de viés, editar cortes
manusear luz e projetar
a vontade inútil sem força.

Por isso, Constância, escreva o que pode,
o que deve, o que descaso, o que sobra.
Escreva o que cansa, escreva de cansaço. 
*
*
Baltazar Gonçalves

MENINOMEM

curumim que veste jeans 
e short - menino de sorte
branco brilho negro
olhos de homem feito

cresce para o certo
se parece com o que vê
toma tento quando passa
desaparece quando o notam

veja o que ele repara
olha como um soldado
que chega ao fronte acordado
em sobressalto e pronto

se arma o cruzado menino
tem escudo, tem armadura
tem espada, pesadas botas
e na cara figura um Cristo

no escudo leva a certeza
no porte alva serenidade
no peito a cruz sagrada
nos olhos luz d’um farol

sua mão é arma afiada
escreve pronta apontada
se afasta-se é em marcha
passos firmes pelo quintal

o menino é pai do homem
um veste a pele do outro
um será se o outro for
e toma tento, logo passam

sem marcha, sem cruz, sem farol
tudo é incerto, sonolento, cansado
breve é a luta, vê se não estaca
fica e despe logo a alma no varal 
*
*
Baltazar Gonçalves

‘TE AMO’ É UM LUGAR

BELO HORIZONTE

O magma que escorria para o mar deu de ficar em Minas.
Sem mácula, onipresente: Sua Majestade, a pedra nua! Ensimesmada a montanha embainhou-se
em dobras de saias sobrepostas
e cobriu-se de verde.
Ela guarda os mistérios dos minérios derretidos
e aguarda o viajante. A Grande Pedra é topo do mundo,
se estende desfazendo-se na praia inexistente
: espreita quem passa, escuta quem pára. Ela sabe em minhas mãos sonhos de metal,
eu carrego meu barco.
Sabemos do mar distante,
sobre o pico da pronuncia lanço redes. Do alto dessa paisagem avisto Belo Horizonte.
*
Baltazar Gonçalves foto: Serra da Moeda, Belo Horizonte - MG

QUANDO PERMITIR A MARÉ

A passarela de madeira tem proteção de ambos os lados e segue ora sobre rochas arredondadas de formação basáltica ora sobre o que do mar chegou arrebentando em ondas e espuma. A maré vai subir. Mas essa informação tem o guia os demais não sabemos e agora a turma segue, turistas em maior parte e alguns da cor local, caiçaras de Itanhaém para melhor saber-se de quem se trata, segue como dizíamos, sobre o que mais se parece com um pear que nos conduzirá até aquelas rochas mais altas de onde um jovem mira o horizonte e faz um movimento com os braços que nos parece, a essa distância, que vai abraçar alguém. Bonito de ver a paisagem, esse recorte, pontuada por pedras que suportam ondas ameaçadoras que dão ao moço um verniz de coragem  romântica já que parece ter o Atlântico entre os braços e, o guia poderia dizer oportunamente, que é possível refazer um abraço o caminho de volta que um dia fizera Anchieta. Bem, é melhor seguirmos até nosso destino, a saber a rocha conhecida como Cama de Anc…

SEMENTES SOPRADAS NO VENTO

Esse deserto já foi uma floresta, agora é sombra do incerto. Sabe o semeador, por isso insiste no canto dos pássaros. No descampado onde o canto das aves sinaliza a fome, é música o balanço das sementes sopradas no vento. * * Baltazar Gonçalves